Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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A estética dos 140 caracteres

Por Ailton Mesquita em 28/08/2012 na edição 709

A comunicação na rede parece caminhar diariamente para a praticidade, mobilidade, baixo custo e coautoria. Um fenômeno observado na linguagem do cotidiano é a nossa tendência de reduzir as palavras para agilizar o diálogo, tal qual o “vossa mercê”, usado nas novelas de época, e o “vc”, que brota a cada segundo pelos cantos da internet. Com base na simbiose constante da forma de se comunicar, o Twitter chama atenção por ser uma rede social de postagens curtas que angariou milhões de usuários em curto espaço de tempo, levando em conta o crescimento dos outros sites de relacionamento.

Segundo uma pesquisa da empresa Semiocast, especializada em monitoramento de redes sociais, o Brasil já possui 33,3 milhões de usuários no Twitter. É o segundo país com o maior número de tuiteiros, atrás apenas dos Estados Unidos, que possui 107,7 milhões de usuários do serviço. O microblog, como é apelidado, já mostrou ir além como um poderoso meio de comunicação. Com a popularização da internet e seus diversos serviços gratuitos e plataformas que permitem criação e disseminação de ideias, o usuário não ostenta mais aquele perfil do fulaninho receptor, característico de poucos anos atrás. O internauta é um produtor de conteúdo e, ao mesmo tempo, um curador que escolhe quando e qual informação quer receber e compartilhar, se for o caso.

Assim como o conteúdo dos grandes veículos, a produção própria se encontra espalhada na rede. O Twitter cumpre um papel fundamental para este novo tipo de receptor que, ao interagir com os outros usuários, agrega valores à mensagem recebida e torna-se produtor de uma nova mensagem, com linguagem característica e tudo. É o sedutoruniverso ilimitado da linguagem, onde o internauta escreve da sua própria maneira, reinventando a escrita na esfera virtual, como uma nova licença poética.

Mensagem pode ser modificada

Em meio ao fluxo de todo tipo de informações que passam pela timeline do usuário, a base de sustentação continua sendo a simples relação de proximidade entre o internauta e o produto, ou seja, a mensagem recebida, modificada ou produzida por ele.

A experiência estética no Twitter acontece juntamente com a modificação da própria comunicação, levando em conta a posição de protagonismo do usuário, o limite de 140 caracteres por postagem e o imediatismo das mensagens. Se uma das características do texto na internet é a sua simplicidade e brevidade, no Twitter estes aspectos são potencializados e favorecem a interatividade e constante modificação por parte dos seus principais autores: os usuários.

Esta experiência estética reflete a possibilidade da inversão dos papéis e da coautoria, o que também modifica o modo como o internauta pensa e age fora da rede. Como o público não é massificado como antes, a mensagem que passa pela rede pode ser modificada com as percepções de determinados grupos. O conteúdo pode partir do indivíduo, em sua casa, e chegar ao ponto de pautar grandes veículos.

Artede comunicar

Todos os grandes portais atualmente fazem análises diárias sobre o que se passa no Twitter para extrair conteúdo de relevância e medir o sentimento do público. O fluxo de informação da era pós-massiva traz o cidadão como um de seus principais alicerces.

A comunicação não tem base apenas nos 140 caracteres de cada postagem, mas também se relaciona diretamente com a aesthesis – termo grego que significa “sensível” e deu origem à palavra “estética” – na medida em que os signos são interpretados. A motivação vem do benefício de ser ouvido, de colaborar com a formação de ideias ou pelo simples ato de se comunicar e compartilhar sensações na rede. O processo comunicativo neste âmbito não se esgota, devido à relação de troca constante em que a mensagem pode sempre ser criada e recriada pela presença virtual.

O usuário da rede pode transmitir mais do que a sua imagem e personalidade reais, mas o perfil que quer atribuir como seu para os outros, além da clássica opção de anonimato.

Com sua interface minimalista e de fácil compreensão, o Twitter oferece a estética de uma comunicação de massa momentânea, abrindo mão da beleza da norma culta da linguagem e de sua profundidade. Seria a beleza do feio e do vulgar, contida na poética de Aristóteles, em formato contemporâneo? Se o que define a arte é o que ela desperta no ser humano, os tweets, com seus limitados 140 caracteres, já fazem parte da famosa arte de comunicar.

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[Ailton Mesquita é jornalista, Brasília, DF]

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