Terça-feira, 23 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Conquistar o mundo e tropeçar na ambição

Por Sergio da Motta e Albuquerque em 16/10/2012 na edição 716

Espaço de comentários da redação do Financial Times, o Lex publicou (09/10) um editorial de advertência e aconselhamento ao Google que foi bem apropriado para o atual momento da companhia de Sergey Brin e Larry Page. O Google vem sendo investigado por reguladores europeus que suspeitam de manipulação nas pesquisas em todos os motores de buscas. Mas o alvo principal é o Google. Os outros concorrentes não são multiplataformas da web a competir com outros gigantes pela supremacia no mundo das comunicações digitais.

Uma das metas proclamadas pelo site é “organizar a informação do mundo”. Mas “não o mundo em si mesmo”, corrigiu o Lex do Financial Times. E como o mundo hoje é informação, os dois se confundem e quem fica mal é o Google. Já é imensa presunção propor-se a ser o organizador das informações na web. Aonde ele quer chegar com isso? Estaria a o gigante de buscas na web a sugerir que ao ordenar (controlar) a informação no planeta, teria o mundo todo em suas mãos? Os europeus não gostaram da insinuação, assim como indianos e norte-americanos.

A ideia do Google de “organizar a informação do mundo” é uma proposição de uma arrogância desmedida. A empáfia da companhia em enfrentar leis antitrustes de Estados nacionais trouxe dúvidas sobre seus métodos e investigadores europeus e locais para as portas da companhia de Mountain View, Califórnia.

Google é fundamental para a web

A principal suspeita a pairar sobre o Google é a manipulação das buscas para oferecer seus próprios serviços, em vez de outros de seus concorrentes. A companhia estaria a esconder os resultados que não interessam a ela e a promover e aconselhando uso de seus próprios serviços. Um esboço de acordo antitruste foi assinado com autoridades europeias. Depois dele, o site pensa em “etiquetar” tudo o que pertence a ele, e aparecer nas buscas dos internautas: tudo terá a marca da companhia, desde mapas até cotações de ações. Resta uma pequena dúvida: rótulos também não funcionam como propaganda? O usuário, ao buscar algum serviço de fora do motor de buscas, não ficaria tentado a usar o produto de um grupo tão poderoso?

“O Google já é razoavelmente transparente”, explicou o Lex. É verdade: os sites que pagam a ele aparecem em destaque nas buscas. Os outros, não. Mas apenas transparência não basta: o Google tornou-se mais invasivo e curioso sobre os hábitos de seus usuários, pouco explicativo sobre a configuração de seus serviços e muito altaneiro com suas metas. Ele quer conquistar o mundo tanto quanto a Apple, o Facebook e a Amazon.

O Google, caro leitor, é uma companhia fundamental para a web. É uma empresa de engenheiros, gente focada e detalhista. E, como seus concorrentes poderosos acima nomeados, também quer ser a maior companhia da web. O Google, não há dúvidas, prestou uma grande contribuição à web com seu motor de buscas (o seu maior patrimônio). A caixa de textos do site não só faz a busca para o navegante, mas quase todas as operações matemáticas, conversões de moedas e medidas e apresentação de mapas.

“Tropeçar nas próprias ambições”

De todas as multiplataformas da web, o Google é o que chegou mais perto de atender às exigências da imaginação dos escritores e leitores de ficção científica dos anos de 1950 a 1970 sobre o que um computador deveria fazer. Sobre o que era um computador. Na imaginação da geração do pós-guerra, computador era uma máquina tecnológica inexplicável, capaz de acumular nosso conhecimento e, acima de tudo, aparecer com as respostas às nossas indagações. Computador era um aparelho eletrônico a quem os humanos faziam perguntas. Essa era a imagem do computador que fazíamos nos tempos em que a vida online ainda era um sonho.

O Google foi a companhia que chegou mais perto de realizar este ideal: ser o grande fornecedor de respostas da sociedade. Já virou verbo em inglês e é uma figura da vida cultural mundial. O Google já conquistou o mundo, mas está tão absorvido em derrotar seus concorrentes que não percebe o quanto já realizou: o internauta pode não usar o Facebook, detestar a Apple, não comprar nada na (ou da) Amazon. Mas sem dúvida já usou o Google. Ele realizou o sonho da minha geração, e é um grande companheiro das gerações que já nasceram debaixo do poder da web.

“Eles têm realmente um grande produto”, comentou o Lex, que acrescentou que “a companhia deve ter cuidado para não tropeçar em suas próprias ambições”. Muito apropriado comentário: a cobiça costuma cegar e arruinar os que perseguem com obsessão o sucesso que há muito já conseguiram.

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[Sergio da Motta e Albuquerque é mestre em Planejamento urbano, consultor e tradutor]

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