Terça-feira, 19 de Março de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1029
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A fábula de um ser digital

Por Arnaldo Bloch em 16/04/2013 na edição 742

Quando ele entrou na lista de perfis do Globo, um jornalista argumentou: “O Rodrigo Baggio tem tantos méritos que já ficou manjado…”

Verdade. O homem é manjadíssimo. Principalmente por quem é ligado em ativismo social, inclusão digital e conceitos de ponta, como negócio social e sistema B. É o criador do Comitê para a Democratização da Informática (CDI), que atua em 780 comunidades (escolas, favelas, hospitais, presídios) em 12 países, tendo beneficiado, nos últimos 18 anos, mais de 1,5 milhão de pessoas.

Menos manjados são os descaminhos que levaram o menino carioca de classe média, portador de hiperatividade e dislexia, ao atual status. “Os professores ensinavam a ler e escrever com palavras, sílabas e letras. Mas tudo que eu via eram imagens.” A dificuldade se traduzia em exclusão. Por que o Rodrigo não aprendia? Auxiliado por uma fonoaudióloga, refugiou-se nos quadrinhos. Naquele universo (fosse ele Marvel ou de outras grifes), as palavras, em balões, associadas à ação imagética, iam criando sentido. Uma coisa puxa a outra: centenas de revistinhas precisavam dar lugar a outras, e o dinheiro não sobrava. A solução foi vendê-las na rua: “Foi meu primeiro trabalho de reciclagem. Puro empreendedorismo.”

Aos 12 anos, ganhou do pai um TK 82, pré-dinossauro sem sistema operacional, à base de fita cassete e monitor de TV preto e branco, que exigia conhecimento de linguagem Basic. Neste idioma, viu sinais de que o modelo mental de um disléxico era bem adequado à era da informação que se anunciava. A essa altura já ensinava tecnologia para colegas e professores.

Dores de crescimento acelerado

Aluno do Bennett, da Igreja Metodista, ligada na época à Teologia da Libertação, apaixonou-se pelo trabalho voluntário. Do futebol com meninos de rua foi parar na Arquidiocese do Rio. Virou coordenador de esportes: “Quando tinha desentendimento, puxavam canivete. Gangues rivais invadiam a pastoral. Voavam pedra e vidro. Dois meninos certa vez me esperaram e rasgaram minha camisa com uma faca: ‘Vamos te matar.’ Olhei firme e disse: podem matar, mas não vão diminuir minha vontade de ajudar. Eles correram como se eu fosse assombração.”

Visto como agitador, foi convocado pela polícia. Nada que o impedisse de integrar o movimento estudantil e um grêmio pós-ditadura; ele que é da geração pós-69. O que não influenciava o aprendizado formal: assimilava as informações, fazia as provas e passava.

Aos 15 anos, conseguiu o primeiro emprego: transformar recortes de jornal em clippings digitais. Passou a conviver com terríveis dores de crescimento acelerado (logo mediria 1,97m). Novos refúgios: o basquete e o vôlei aliviavam os efeitos do desenvolvimento precoce. “Joguei no Flu, no Botafogo e, finalmente, no Fla, meu clube de coração. Era muito alto para o padrão da época.”

Betinho apoiou a causa

A possibilidade de virar atleta amador num tempo em que o esporte não era apoiado e frequentar cursos noturnos não o atraía. Terminou o segundo grau e foi um dos primeiros classificados para Ciências Sociais no IFCS: “Achei que ali eu ia aprender algo sobre as dinâmicas sociais, mas os professores nada sabiam do que me interessava: o conhecimento prático.”

E lá foi o hiperativo: trancou matrícula e pegou um ônibus para a Amazônia. Mata virgem na veia, floresta na cabeça, chá de índio para ampliar a percepção. De volta, convidado por uma multinacional para um trabalho educativo, não teve dúvida. Antes dos 20 anos, já tinha empresa própria de software: “Meus amigos viviam com os pais e eu já tinha apê, carro e um barquinho. Mas não estava feliz. Projetava meu futuro como o de um homem rico, mas não realizado. Um dia, tive um sonho.” No sonho de Baggio apareciam jovens de baixa renda em favelas usando dispositivos móveis muito menores do que os gigantescos celulares que começavam, nesses meados dos anos 90, a povoar a vida dos mais afortunados. Os jovens usavam a tecnologia como instrumento de libertação: “Acordei de um pulo e disse: minha vida será dedicada a isso.”

Os caminhos que levaram à criação do CDI partiram daí. Redes sociais para jovens ricos que tinham equipamento. E os pobres? Vieram os programas de reciclagem. Caminhões cheios de computadores, estocados no Ibase. Um dia Betinho passou e ficou espantado. Apoiou a causa e a causa cresceu.

A culpa não é do rato

Os computadores não funcionam? Sobe o Dona Marta com tiroteio e vai formar jovens carentes em manutenção. Vai mobilizar gente. Na cabeça, além de Betinho, outros modelos ético-comportamentais: Zilda Arns, John Lennon, Gandhi. Surgiram as primeiras escolas de informática e cidadania, que hoje proliferam, sustentadas por empresas e fundações. A proposta pedagógica é inspirada em Paulo Freire. Exemplo: numa comunidade, jovens com dispositivos móveis fotografam, filmam e conhecem a realidade. Compartilham a informação, elegem um problema: ratos gigantes que provocam doenças e ferem crianças. Que rato é esse? Na internet, descobrem que a culpa não é do rato: é dos moradores, que não organizam coleta de lixo. E dá-lhe editor de texto: panfletos, folhetos, cartazes. E dá-lhe ferramenta de apresentação: palestras.

O povo começa a coletar ordenadamente. Um vídeo chega pelo YouTube à prefeitura. Resultado final: a prefeitura manda caminhão para coletar lixo: “As pessoas ficam esperando que o governo ou Deus resolvam tudo, mas é da autogestão que vem o chamado que sensibiliza o poder público”, ensina o professor, hoje eloquente (embora continue vendo palavras como imagens e tendo dificuldades para escrever): “A dislexia é minha amiga.”

É membro do board de uma associação de disléxicos. Palestrante em Davos. E tem título de doutor honoris causa por uma universidade americana que é centro de excelência em comunicação digital. Um sujeito muito, muito manjado, sem sombra de dúvida.

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Arnaldo Bloch, do Globo

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