Quarta-feira, 23 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1060
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Educação por terra

Por Jonathan Bispo em 31/03/2009 na edição 531

A coluna da direita é destinada a anúncios comerciais. A coluna da esquerda é composta por links de outros temas. Espremido entre elas está o conteúdo que o site Terra oferece sobre educação. A qualidade do conteúdo é tão decepcionante quanto sua quantidade. Prioridade gritante é dada a notícias relacionadas ao ensino superior. Há uma página destinada a notícias sobre vestibular e uma abordagem extensa ao tema, fator que não é característica exclusiva do site. Diversos sites priorizam o tema em suas páginas destinadas a educação. O motivo é claro: o tema atrai milhares de estudantes apreensivos em busca de uma vaga no ensino superior. No entanto, em termos educacionais, o vestibular é um meio, e não um fim em si mesmo.

Uma curiosa coluna do Terra Educação é a ‘Você sabia?’, que traz curiosidades sobre assuntos variados. Entre tais curiosidades está a localização da ‘casa da mãe Joana’ e a época em que foram inventados os talheres, ‘item fundamental em qualquer refeição’, de acordo com o texto. Note que para os 14 milhões de brasileiros que não têm comida em suas mesas, os talheres nem de longe são o item fundamental da refeição. E se nem sempre são itens de fundamental importância na mesa, o que dizer do papel dos talheres na educação?

Outra defasagem do site é a ausência de tópicos destinados aos professores. Mais uma vez, isso parece ser uma generalidade nas colunas on-line sobre educação. A formação do aluno depende necessariamente da formação do professor. Bons professores tendem a formar bons alunos. No entanto, um entrave para a formação de bons professores é a falta de respaldo, informação e orientação. Informação sobre educação deve abranger todos aqueles que estão envolvidos no processo educacional.

Ciências exatas são decisivas

O que se encontra na internet são notícias destinadas quase exclusivamente a alunos. Estes representam apenas um elo na corrente do conhecimento. Não se pode esquecer as demais categorias, como professores, diretores, pedagogos, orientadores e pais. A informação que atenda às necessidades de apenas uma dessas categorias, quando o assunto é educação em sua generalidade, é, sem dúvida, uma informação incompleta.

É inegável o fato de que o Terra, na maioria das vezes, apresenta ao internauta informações utópicas sobre a educação brasileira, como se esta fosse feita apenas de pré-vestibulandos, universitários e curiosos de plantão. E o ensino básico? E a pré-escola? E o ensino fora dos grandes centros, fora dos colégios e universidades de elite? E o pequeno índio sendo alfabetizado pelo professor de canoa? A informação que ali se encontra, sem dúvida, não foi feita para eles.

Mais que informar, quando o assunto é educação, é imprescindível que hajam orientações e sugestões para que se alcance um método mais eficiente de ensino. Notícias superficiais e curiosidades nem de longe explicam a vergonhosa 53° colocação dos alunos brasileiros no desempenho em matemática, ao lado do longínquo Quirguistão. A revista Veja (edição 2077) enfatiza que ‘o ensino de geografia, ciências sociais e outras áreas humanas conta pouco. O fator decisivo para o progresso material está no ensino da matemática, das engenharias e da física aplicada. Apenas 8% dos jovens brasileiros se formam em algum curso superior dessas áreas – contra 18% nos países avançados’.

Fator de qualidade do país

Será que essa característica brasileira se deve à falta de vocação de nossos alunos pelas ciências exatas, à não afinidade com números ou à falta de raciocínio lógico? A resposta real está na defasagem do ensino básico, onde se adquire a capacidade de síntese e raciocínio e onde se formam as habilidades cognitivas básicas. Esse fator, por si só, deveria ser suficiente para editores de colunas sobre educação darem a merecida ênfase que o ensino básico merece.

Um papel característico do jornalismo é a fiscalização. É raridade encontrar, não só no Terra mas em qualquer coluna online sobre educação, o destino das verbas públicas destinadas ao ensino em todos os seus níveis. Só se ouve falar sobre o dinheiro destinado à educação quando este é escandalosamente desviado e tal desvio relatado em algum furo de notícia. Segundo a Secretaria de Educação do Distrito Federal, o Brasil gasta R$ 1.600,00 ao ano com cada aluno da rede pública. Já a média da OCDE (organização que reúne países da Europa e os EUA) é de R$ 8.900,00 ao ano por aluno. E o problema não é falta de verba pública, uma vez que o brasileiro é um dos povos que mais paga impostos no mundo. Cobrar mudanças em medidas estatais que estão visivelmente fadadas ao fracasso na área da educação deve ser um primórdio de colunas ou matérias sobre educação. Seria válido ainda, destinar um link para cada tipo de público envolvido na educação; um link para pais, um para alunos, um para professores, um para diretores e por aí afora. Promover a interatividade entre os internautas e o site e entre os próprios internautas.

Que a educação no Brasil vai de mal a pior não é novidade para internauta algum. A pergunta cabível é: o que fazem aqueles que se propõem a falar e informar sobre educação? Os sites que possuem colunas sobre o tema poderiam ser grandes aliados na melhoria do ensino no Brasil. E é a qualidade da educação que dita a qualidade de um país. Se estendermos esse paralelo para sites, o Terra está muito longe de ser um site de ‘primeiro mundo’.

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Acadêmico de Jornalismo na Unasp, São Paulo, SP

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