Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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Entre luzes e sombras

Por Marcelo Salles em 23/03/2010 na edição 582

Ele chega em mangas de camisa, preta, e calça bege. Usa óculos e tem sempre uma expressão serena, que parece eterna. A primeira coisa que transmite é paz. Encontro o repórter fotográfico João Roberto Ripper em Brasília, na casa do diplomata Celso França, que preparou uma calorosa recepção. Na terça-feira (23/3), Ripper inaugura a exposição ‘Mulheres entre luzes e sombras’, no Espaço Cultural Zumbi dos Palmares, na Câmara dos Deputados.

De acordo com o rilisi, a exposição mostra ‘o paralelismo entre as realidades de mulheres exploradas, violadas, ameaçadas e livres com a evolução histórica do seu papel na sociedade brasileira. Ao lançar o seu olhar sobre o assunto, Ripper contamina a todas e todos sobre essa questão tão antiga e tão importante na atualidade – a quem pertence os corpos das mulheres?’

Mulheres, camponeses, índios, favelados, carvoeiros, canavieiros, a gente mais explorada pelo sistema capitalista. São esses os que movem Ripper, que nos últimos seis anos alugou uma casa na favela da Maré, no Rio de Janeiro, onde coordena um curso de fotografia na Escola Popular de Comunicação Crítica.

Exercício do poder

O mergulho de Ripper na favela gerou frutos. Os alunos formados por ele – e outros professores extremamente competentes, como Dante Gastaldoni e Évlen Bispo – já são centenas. Mais que isso, estão sendo formados professores capazes de interpretar a realidade sem o filtro das corporações de mídia.

Nesse ponto Ripper comenta: essa mídia acusa o governo Lula de querer censurar a imprensa, mas na verdade ela é a grande censora. O exemplo que ele dá é o da favela. Na medida em que a favela só vira notícia quando há algum tipo de violência (geralmente tiroteios entre traficantes varejistas ou entre estes e policiais), a mensagem que fica é: na favela só há violência, bandidos. A favela passa a ser, consequentemente, o mal na terra.

Se considerarmos os níveis alarmantes da concentração midiática no Brasil (ex.: seis redes de emissoras privadas de TV e uma pública recém-nascida para 190 milhões de habitantes); e se considerarmos que essas emissoras privadas, que detêm mais de 90% da audiência, defendem o mesmo projeto político-econômico, ou seja, as ditaduras civil-militares, estrutura neoliberal que prega o Estado fraco, a exploração dos povos e o enriquecimento dos monopólios privados; então a consideração de Ripper fica muito nítida.

Hoje a censura não está no Estado, mas nas Redações, em grande parte financiadas pelo poder econômico. É o que confirma pesquisa divulgada pelas Nações Unidas, em 2002, com chefes e ex-chefes latino-americanos. A pergunta foi: ‘Quem exerce o poder na América Latina?’. A resposta: 1) Os grupos econômicos, empresários, o setor financeiro; 2) Os meios de comunicação; 3) Os poderes constitucionais – Executivo, Legislativo e Judiciário; 4) As Forças Armadas, a polícia; 5) Partidos políticos, os políticos, operadores políticos, líderes políticos; 6) EUA, a embaixada norte-americana, organismos multilaterais de crédito, o fator internacional, o fator externo, empresas transnacionais.

Trabalhar com dignidade

Essa é a grande batalha política do nosso tempo. ‘O jornalismo está implicado numa dinâmica, a disciplinariedade, que é, desde o século 18, a principal estratégia de poder’, anota a professora da USP Mayra Rodrigues Gomes, no livro Poder no jornalismo. A mídia, hoje, é a instituição com maior capacidade de produção e reprodução de subjetividades. Ou seja: é a mídia quem, em grande parte, determina formas de pensar, sentir e agir dos indivíduos e da sociedade como um todo. Claro que há outras instituições fortíssimas (Família, Igreja, Governos, Escola…), mas a mídia ganha papel de destaque nos dias de hoje basicamente por três razões:

1. O desenvolvimento das tecnologias, que permitem um maior alcance das mídias (outdoor, televisão, rádio, revista, publicidade em ônibus, em prédio, internet, sites, vídeos, cinema, jornal, orkut, twitter etc.), de modo que para o cidadão é praticamente impossível evitar as mensagens da mídia;

2. A extrema concentração, conforme mencionado acima;

3. O analfabetismo e analfabetismo funcional da população.

Segundo o Instituto Paulo Montenegro, em pesquisa divulgada em 2005, apenas 26% da população entende o que lê. Para além da limitação causada pelo analfabetismo ao indivíduo, esse dado joga peso para rádios e tevês, que são concessões públicas, mas que se encontram sob o controle de corporações privadas, cujos interesses divergem dos interesses da nação e de seu povo.

Quem continua ignorando o papel das corporações de mídia, que não é meramente informativo, como dizem, e sim o de grande sustentáculo do sistema opressivo, ou é desqualificado ou está mal intencionado.

Por tudo isso, o trabalho de Ripper é um convite à resistência. Ao mesmo tempo em que dá visibilidade aos que historicamente são marginalizados pelo sistema, e assim fortalece indivíduos e movimentos sociais que lutam, o repórter fotográfico é, ele mesmo, um exemplo de que é possível trabalhar com dignidade sem se submeter aos tiranos. E assim a gente segue, fazendo mídia, enquanto os medíocres vão fazendo média por aí.

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