Sábado, 24 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1051
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‘Era incapaz de qualquer atitude hipócrita’

Por Roldão Arruda em 14/07/2009 na edição 546

Quando Ruy Mesquita, diretor de opinião do Estado, nasceu, em 1925, seu pai, Julio de Mesquita Filho, o Doutor Julinho, já andava mergulhado na política e no jornalismo. Sua infância foi marcada por histórias de exílios, prisões, pressões políticas. Em meados da década de 40, ele começou a trabalhar na Redação do Estado, na terceira geração de jornalistas da família. Trabalhou ao lado do pai, até a morte dele, 40 anos atrás. Na semana passada, em entrevista ao repórter Roldão Arruda, ele falou sobre o pensamento político de Julio de Mesquita Filho, sua visão do jornalismo, a criação da USP. A seguir, os principais trechos da conversa.


JORNALISMO


O jornalismo para o meu pai só fazia sentido na direção da militância política, no melhor sentido da palavra. O jornal deveria funcionar como instrumento de aperfeiçoamento das instituições democráticas brasileiras, pelas quais ele não dava um tostão, após ter sido vítima da sua fragilidade e de ter enfrentado o exílio em duas ocasiões, a mando de Getúlio Vargas. Acreditava que, bem orientada, a imprensa serviria para o aperfeiçoamento das instituições democráticas. E é isso, aliás, o que ela faz hoje, embora com um estilo muito diferente do que ele usava na época.


PROFÉTICO


Quando criou a USP, ele pensava exclusivamente na formação de uma elite, no melhor sentido da palavra, capaz de administrar uma democracia digna desse nome. Constituída dentro dos padrões europeus, a USP seria o principal instrumento de institucionalização de uma sociedade que considerava culturalmente primária e em constante retrocesso político… Hoje, olhando para trás, vejo que foi profético. A história do Brasil contemporâneo se divide em dois períodos, antes e depois da USP. O País mudou radicalmente a partir da fundação da universidade e das consequências que ela teve.


ESTABILIDADE


Hoje parece óbvio e todo mundo fala sobre a importância fundamental da educação na formação de um país democrático. O meu pai já dizia isso nos anos 20, quando começou a pensar o Brasil. Sem uma boa universidade jamais poderíamos ter aspirações de uma estabilidade democrática. Essa estabilidade demorou muito, tivemos que passar por duas ditaduras, mas acabou chegando.


ESTRANHO


Foi benéfica e decisiva para meu pai a sua formação europeia. Como era um garoto muito rebelde, meu avô o exilou logo cedo em um colégio interno de Portugal, onde fez o curso primário. De lá seguiu para a Suíça. Frequentou o Colégio Lá Chateleine. A Suíça era, na época, o lugar mais civilizado do mundo, em termos de educação secundária, e com uma democracia das mais estáveis. Quando voltou, era um estranho num país que considerava politicamente selvagem.


TRANSPARENTE


Faltava a ele uma mínima dose daquilo que considero absolutamente necessário para se viver em sociedade, que é a hipocrisia. Era incapaz de qualquer atitude hipócrita. Falava o que pensava, não se arrependia depois.


MCNAMARA


Lendo as notícias sobre a morte do [Robert] McNamara, lembrei da vez em que ele visitou o jornal, como secretário da Defesa dos Estados Unidos. Meu pai, que falava a língua francesa melhor que os franceses, mas não falava nada de inglês, me chamou para ser o intérprete da conversa. Me fez traduzir críticas pesadas à política americana no Vietnã e à política externa daquele país.


REACIONÁRIO?


Nos anos 60, quando o Sartre e a Simone de Beauvoir foram passar um fim de semana na fazenda em Louveira, levados pelo Jorge Amado, meu pai expôs a eles suas ideias sobre o futuro da Guerra Fria, que estava no auge. Disse que o mundo comunista seria fragorosamente derrotado pelo mundo democrático, sob a liderança dos Estados Unidos. O Sartre comentou depois que nunca tinha visto um homem tão reacionário. A história, no entanto, acabou confirmando tudo que meu pai disse. Sartre, que não conseguia enxergar além da superfície dos fatos, é que era conservador.


INVENTÁRIO


Hoje se confunde grande jornalista com grande empresário. Meu pai, no entanto, não tinha nenhuma noção do que era ser empresário. Nunca pensou em ganhar dinheiro, nunca fez negócios fora da área do jornal (onde quem cuidava de fato dos negócios era o irmão dele, Francisco). Guardo até hoje, como um troféu, o inventário do meu pai, do qual constam as ações do Estado, o apartamento em que morava com minha mãe, a nona parte da fazenda de Louveira (que meu avô havia deixado para os filhos) e ponto final.


MORTE


Ele morreu de traumatismo moral. Quando viu, em 1968, o que aconteceu com a revolução que ajudou a fazer, escreveu aquele editorial, Instituições em Frangalhos, que levou à apreensão do jornal, e depois nunca mais voltou a escrever… Era um homem extremamente emotivo e nunca se conformou com os rumos do golpe de março de 1964


CONSPIRAÇÃO


Participei, ao lado do meu pai, da conspiração dos militares, em 1964, e conheço bem a história. Foi uma conspiração contra um processo de subversão da hierarquia militar, promovido deliberadamente pelo João Goulart… O presidente criou uma situação que a oficialidade média, que comanda a tropa, se sentiu inteiramente insegura e passou a conspirar para se defender… Se não fosse o erro do Jango no plano militar, não teria acontecido o que aconteceu.


BRASIL


Para ele, acima de tudo estava o Brasil. Depois vinha o jornal, a família.


***


 


Jornalismo e lutas


1892


Nasce, no bairro da Liberdade, em São Paulo, no dia 14 de fevereiro. Cursa o primário na escola pública Caetano de Campos. Mais tarde prossegue os estudos em Portugal e na Suíça. Ingressa em 1911 na Faculdade de Direito do Largo São Francisco


1915


Ainda estudante de direito, começa a trabalhar no Estadinho – nome dado à edição vespertina do Estado. Entusiasma-se com a campanha da Liga Nacionalista, liderada por Olavo Bilac, que defendia o fortalecimento cívico e o serviço militar obrigatório


1919


Na Bahia, acompanha Ruy Barbosa em campanha pela Presidência da República. Pela primeira vez seus textos são publicados no Estado. Admirador do estadista liberal, deu o nome dele a um de seus filhos, o atual diretor de Opinião do jornal, Ruy Mesquita


1921


Assume a secretaria de Redação do Estado. Apoia os movimentos tenentistas da década, a favor de reformas políticas. O nome do terceiro filho, Luiz Carlos, foi uma homenagem ao tenente Luiz Carlos Prestes, que admirou até ele se aliar a Getúlio Vargas


1927


Após a morte do pai, assume a direção do Estado, ao lado do irmão, Francisco Mesquita. Abre espaço para pesquisas e debates sobre educação e defende a criação de uma universidade em São Paulo. Em 1930 apoia a revolução que põe fim à República Velha


1932


Ajuda a articular a Revolução Constitucionalista – contra Vargas e a favor da convocação da Assembleia Constituinte. Participa do conflito armado. Derrotada a insurreição, é preso e deportado para Portugal, ao lado de outros líderes. Retorna em 1933


1934


O interventor em São Paulo, Armando Salles de Oliveira, assina o decreto de criação da USP. O decreto segue as propostas apresentadas pelo diretor do Estado, que vai buscar na Europa professores experientes para iniciar a empreitada


1937


O jornal se opõe ao Estado Novo, a ditadura de Vargas. Em represália, seus diretores são presos e exilados. Em 1940 a família Mesquita perde o controle do jornal para a ditadura, retomando-o em 1945. Esses cinco anos não são contados na história do Estado


1945


Lança, pela Livraria Martins Editora, o livro Ensaios Sul-Americanos, uma coletânea de ensaios históricos. Também são de sua autoria os livros A Crise Nacional (1925), A Europa Que Eu Vi (1945), Nordeste (1954) e Política e Cultura (1969)


1951


O jornal passa por notável período de crescimento e muda a sede para a Rua Major Quedinho, no centro da cidade. Cinco anos depois, em 1956, é criado o histórico Suplemento Literário, com projeto de Antonio Candido e direção de Décio de Almeida Prado.


1958


Para ampliar a área de ação da empresa, Julio e o irmão Francisco põem no ar a Rádio Eldorado. Oito anos depois, em 1966, surge o Jornal da Tarde. Sob direção de Ruy Mesquita, o jornal torna-se uma referência nacional, do ponto de vista editorial e gráfico


1960


Nas eleições presidenciais, apoia a candidatura de Jânio Quadros, contra o marechal Henrique Teixeira Lott. Seu objetivo era combater os herdeiros do varguismo. Logo após a vitória de Jânio, porém, rompeu com o presidente, que acabou renunciando


1964


O diretor do Estado apoia o movimento militar que depõe João Goulart. Para ele, trata-se de um contragolpe, pois estaria em curso um golpe contra a ordem constitucional. Mas no mesmo ano rompe com os militares, criticando os primeiros atos institucionais


1966


É eleito presidente da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP). Critica o presidente, marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, e prevê o endurecimento do regime militar. ‘É o império da força que por toda parte se vem impondo’, escreve


1968


O ‘império da força’, como previra, reduz ainda mais as liberdades democráticas e impõe ao País o AI- 5. No dia 13 de dezembro, o Estado é proibido de circular, por causa do editorial Instituições em Frangalhos, com críticas ao presidente Costa e Silva


1969


Morre, em São Paulo, no dia 12 de julho, desgostoso com os rumos políticos do País. O irmão Francisco morre quatro meses depois. Julio de Mesquita Neto assume a direção do Estado, já transformado no jornal mais importante da América Latina

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Repórter do Estado de S.Paulo

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