Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

E-NOTíCIAS > DIÁRIO DE NOTÍCIAS

Estrela Serrano

17/02/2004 na edição 264

‘Acompanhar o percurso de uma notícia a partir da sua publicação, procurando, em edições seguintes, resposta a questões deixadas em aberto, ajuda a identificar algumas fragilidades do jornalismo contemporâneo. De facto, a velocidade da informação e o investimento cada vez menor na investigação por parte das redacções levam, muitas vezes, os jornalistas a não aprofundarem os assuntos, sujeitando-se a ser desmentidos e deixando os leitores sem conhecerem as razões de erros cometidos ou os argumentos que sustentam a informação publicada.

Vem isto a propósito de, num espaço de 15 dias, três notícias de primeira página do DN, duas delas manchete, terem suscitado contestação ou desmentidos.

Vejamos: no dia 17 de Janeiro, a manchete do DN dizia: Portas sem dinheiro para pagar a ex-combatentes. No texto, afirmava-se que ‘o pagamento de bonificações às pensões dos ex-combatentes está comprometido’. São citados o ministro Bagão Félix, o gabinete do secretário de Estado da Defesa e uma ‘fonte oficial do Ministério da Defesa’. No dia seguinte, porém, o ministro da Defesa desmente, no Público, a notícia do DN, afirmando que ela ‘não tem nexo’.

Mantendo silêncio sobre o desmentido, o DN voltou ao assunto no dia 31, no caderno Negócios. A notícia, com o título Portas vende património a Santana para pagar pensões, afirma que o ministro ‘está a tentar convencer a Câmara Municipal de Lisboa a constituir uma sociedade imobiliária para comprar terrenos a instituições militares’ com o objectivo ‘de pagar as bonificações’. Segundo o DN, há ‘descontentamento e resistência nos meios militares’. Questionados pelo jornal, os ‘gabinetes’ dos dois políticos não responderam.

A segunda notícia é do dia 23 e diz, na primeira página, que o Lar da Misericórdia de Vila Real foi fechado por abuso sexual de crianças. A notícia baseia-se num ‘relatório elaborado pela Inspecção-Geral da Segurança Social’, entidade que ‘determinou o encerramento do lar’. Segundo o DN, ‘as violações foram sempre do conhecimento dos funcionários do lar, (…) e do próprio provedor’ que, contudo, afirma desconhecer o relatório e ‘nunca’ ter tido ‘conhecimento de abusos sexuais’. A notícia teve, nesse dia, destacada cobertura televisiva, tendo o repórter da RTP presente no local, desmentido que o lar se encontrasse encerrado.

No dia seguinte, já sem destaque de primeira página, o DN volta ao assunto para afirmar que o lar ‘permanecia (…) de portas abertas’ (sem assumir, claramente, o erro, do dia anterior). Por outro lado, na rubrica Notícias da TV, o jornal refere que os noticiários das 13 horas da RTP e da SIC trataram o ‘caso do lar de Vila Real’, salientando que enquanto a RTP citou o DN como fonte, a SIC teve ‘amnésia’ e tratou o assunto ‘sem falar do DN’ (não se diz, contudo, que o repórter da RTP ‘mostrou’ que o DN errara ao afirmar que o lar se encontrava encerrado).

Passada uma semana (dia 30), o DN volta ao assunto, a propósito de uma conferência de imprensa do provedor do lar, referindo que o lar ‘continua aberto’.

A terceira notícia é manchete no dia 26 e anuncia que Espanha está a 'secar' rios Tejo e Guadiana, conclusão extraída pelo jornalista a partir de dados do boletim hidrológico do Ministério do Ambiente espanhol. As fontes ouvidas são todas portuguesas: o presidente do Instituto da Água, que não concorda com a interpretação dos dados feita pelo jornalista, o secretário-geral do Conselho Nacional da Água e o presidente da Quercus, que apoiam essa interpretação. No dia seguinte, outra notícia anuncia, em título, que Lisboa não está a controlar os caudais. Os dados são de outro documento oficial, mas os ministérios envolvidos, consultados pelo DN, não responderam. Dias depois (30 de Janeiro), o presidente do Instituto da Água utiliza o ‘direito de resposta’ para refutar as duas notícias e a interpretação dos dados oficiais feita pelo DN, apontando a sua ‘gravidade’ e afirmando que elas contêm ‘referências inverídicas e erróneas’.

Estes três casos, embora diferentes e susceptíveis de serem apreciados sob vários ângulos, possuem aspectos comuns. Desde logo, a não assunção, por parte do DN, de que foi pouco rigoroso, o que parece ter acontecido no caso da notícia sobre ‘caudais’; ou de que errou, como no caso do encerramento do lar de Vila Real.

Igualmente comum a duas das notícias é a ausência de resposta de ‘gabinetes’ oficiais quando solicitados a pronunciarem-se. Ora, na notícia sobre os ex-combatentes sobre a qual obtém, posteriormente, novos dados, desta vez não desmentidos, seria de esperar que o jornal salvaguardasse a sua posição perante os leitores face ao anterior desmentido do ministro publicado noutro jornal.

Uma maior atenção ao que é publicado parece, pois, aconselhável. Porque, para que os leitores confiem nas notícias é necessário que os jornalistas não só não escondam os seus próprios erros, como expliquem o sentido das decisões que tomam e dos silêncios com que se deparam. O rigor da informação não pode ser uma utopia.

Bloco-Notas

ACESSO À INFORMAÇÃO – A falta de rigor de algumas notícias deve-se, muitas vezes, aos obstáculos criados aos jornalistas na recolha e confirmação da informação, nomeadamente, por parte dos serviços públicos. Ora, o Estatuto do Jornalista (Lei 1/99 de 13 de Janeiro), contempla ‘o direito de acesso às fontes de informação’, que deve ser assegurado ‘pelos órgãos do Estado e das Regiões Autónomas que exerçam funções administrativas; pelos órgãos dos institutos públicos e das associações públicas e pelos órgãos das autarquias locais e suas associações e federações’ (art.º 8.º).

GARANTIA DEMOCRÁTICA – Num livro publicado, em 1995, na colecção Que sais-je?, revisto em 1999, intitulado La communication publique, Pierre Zémor analisa a natureza da comunicação pública e os deveres e direitos dos agentes da Administração Pública para com os cidadãos e para com os media. Embora não isentando de crítica certos desvios cometidos pelos jornalistas, o autor reconhece que cabe a estes ‘denunciar, perante os cidadãos, os falhanços e os erros cometidos pelos poderes e serviços públicos’, alimentando o debate público e funcionando como ‘garantia democrática’.

PERSONALIZAÇÃO E ESPECTÁCULO – Na opinião do autor, os media intervêm decisivamente na relação entre as instituições e o público. Em nome do critério de ‘actualidade’, a informação institucional é negligenciada e o ‘registo cívico’ rejeitado por ser ‘pouco atractivo e pouco espectacular’. Para o autor, é, contudo, através da antecipação, no decorrer de um processo de decisão que o jornalista influencia mais fortemente aqueles a quem cabe decidir. Zémor afirma que a responsabilidade de muitas derrapagens ligadas à comunicação dos actos da Administração Pública cabe, em última análise, aos dirigentes, principalmente aos políticos que se tornam cúmplices de muitos dos erros de que acusam os jornalistas, por exemplo, ‘cedendo à velocidade dos media’ e aos ‘apelos narcisistas da personalização e do espectáculo’.

EXERCÍCIO DELICADO – O autor deixa alguns conselhos aos decisores para que não fiquem ‘nas mãos’ dos jornalistas. Assim, ‘para um juiz de instrução que tenha entre mãos um dossier que ponha em causa um serviço público, ou para um político a braços com uma negociação difícil’ e, de uma maneira geral, para os dirigentes, ‘a única via é blindar as tomadas de decisão’, informando, em primeiro lugar, as pessoas directamente envolvidas e a seguir os media, ‘sobre factos, soluções possíveis e procedimentos’, reduzindo o ‘segredo’ (a seu ver, o terreno preferido dos jornalistas). Só assim, segundo o autor, conseguirão ‘orientar’ a opinião pública e imprimir serenidade ao debate público. Zémor afirma, ainda, que a demarcação das responsabilidades de cada um dos campos – os media e os decisores públicos – é um dos exercícios mais delicados da democracia.’

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