Sábado, 25 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1038
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Facebook lança servidor e compartilha tecnologia

Por Sergio da Motta e Albuquerque em 19/04/2011 na edição 638

Na quinta-feira (7/4), o Facebook anunciou o lançamento de um novo servidor, em Prineville (Oregon, EUA), ‘que utiliza 38% menos energia para executar as mesmas tarefas que suas atuais instalações, com custo 24% inferior’, noticiou o Digital Markketing, no dia seguinte. No dia 9/4, a revista ReadWriteWeb, em sua seção ‘Cloud’ (dedicada à virtualização e à computação em nuvem (cloud computing), iniciou uma enquete semanal sobre o assunto, perguntando aos leitores se achavam a iniciativa da rede social ‘um grande negócio’.


O servidor é produto do projeto Open Compute, liderado por engenheiros da gigante das redes sociais. ‘Nós desejamos honrar nossas raízes hacker e desafiar convenções, desenhando e construindo nosso software, servidores e centros de dados a partir do zero’, informou o engenheiro Jonathan Heiliger (vice-presidente de operações técnicas), junto com seus colegas Amir Michael (gerente de desenho de hardware) e Frank Frankovsky (diretor de desenho de hardware e cadeia de suprimentos). O projeto começou há quase dois anos atrás, com apenas esses três técnicos na tarefa, no início. Mas há mais ainda, para surpreender o leitor e a comunidade que cobre a mídia digital.


A primeira surpresa foi o discurso do Heiliger, que fala em ‘honrar suas origens hacker‘. Isso é muito surpreendente e inesperado para a companhia cujo dono acredita (ou acreditava) que anonimato na web era ‘coisa de covardes’ e que todos devem exibir seus IPs quando navegam pela web… Um raciocínio que desafia completamente a ‘lógica dos hackers‘ (o WikiLeaks parece ter dado novo sentido à palavra hacker. Antes dele, era termo pejorativo. Pior ainda: maldito e associado a atos criminosos. Agora, muita gente do mundo da informática parece que quer ser um, ou estar relacionado a eles, de alguma forma…). Depois, a inesperada e recém-adquirida tendência ‘verde’ por parte da engenharia do Facebook: os servidores foram projetados para uma maior eficiência energética do que seus antecessores. Mas a rede social possui outras iniciativas na área, também… Está tudo lá, bem explicado, em uma página do próprio Facebook.


Uma aparente variação radical


Mas a maior surpresa de todas foi o abandono aparente da tradição de tecnologias proprietárias por parte da engenharia da megaempresa. O novo projeto, e seu produto final, têm arquitetura de hardware aberta: especificações e desenhos mecânicos foram liberados e encaminhados para a comunidade de desenvolvedores para melhorias, dentro de uma concepção colaborativa, bem ao gosto das tecnologias de software open source (fonte aberta). Pode parecer surpreendente, mas o Facebook espera melhorar seu produto de forma colaborativa, convocando seus principais fornecedores e parceiros para a empreitada. Estão a trabalhar com ‘a AMD, a Intel, a Alpha Tech, a Power-One e a Quanta nesta geração. E esperam contar com a Dell, a HP, Rackspace, a Skype e a Zinga para a próxima geração de servidores’, informou o site do projeto.


O impacto na mídia que cobre o desenvolvimento das tecnologias de informação digitais foi imenso. O que estaria levando (aparentemente) o Facebook para tão longe da comunidade murada, de arquitetura fechada e tecnologia proprietária, descrita por Tim Berners-Lee em seu artigo publicado (22/11/2010) na revista Scientific American?


Mais uma manobra para derrotar seus concorrentes, acoplada a uma estratégia de marketing que visa a mudar a visão que parte do público tem da gigante rede social (principalmente depois do lançamento do filme sobre ela e do ‘pito’ de Berners-Lee)? Quais seriam as verdadeiras intenções do Facebook com uma mudança tão radical em seu perfil de atuação no mercado?


As melhores aclarações vieram da excelente revista inglesa The Week. O magazine, fundado por Jolion Connell em 1995 (na Inglaterra), foi o que melhor interpretou o ousado movimento da firma de Zuckerberg, apresentando uma cobertura muito bem feita da mídia sobre o acontecimento. O título da matéria (‘O Projeto Open Compute do Facebook: o que ele significa?’) aponta para um conteúdo que procura desvendar o que está por trás dessa aparente variação radical no comportamento da empresa.


‘Repartir o pão’


Segundo a revista, o Facebook:


1. Está a exibir ‘seus músculos’. Que estão a crescer rapidamente, diz Sharon Gaudin ao Computer World. Assumindo sua posição de gigante da computação, a companhia mostra de vez que distancia-se da imagem de firma iniciante. O anúncio do novo servidor, segundo Richard Fichera, ‘é uma indicação de sua mudança de status’;


2. Está orientando-se para desafiar o Google. Na seção Fortune, da CNNMoney.com, Dan Mitchell diz que ‘o centro de dados da Facebook, mais barato, rápido e ambientalmente sustentável (‘ verde’) é uma planta-modelo para companhias que desejam distanciar-se do Google e suas vantagens competitivas fortemente protegidas. Mark Zuckerberg espera que outras grandes da informática utilizem sua tecnologia em seus próprios centros de dados;


3. Eles estão começando uma corrida para as tecnologias verdes, diz Charles Babcock para o Information Week. ‘O resultado pode se ruma corrida armamentista entre os gigantes da web –Facebook, Google, Amazon.com – para construir não apenas o maior, mas também o mais eficiente centro de dados no planeta’;


4. O Facebook está a buscar aliados: ‘compartilhar tecnologia e desenho de hardware desse jeito é o equivalente tecnológico de `repartir o pão´’, comentou Mark Milian à CNN. Segundo o diretor de hardware Frank Frankovsky, ‘a companhia já trabalha com dez a quinze parceiros nessa iniciativa, e tem companhias como a Dell usando seu hardware’.


Competência técnica e astúcia


Como podemos constatar, por trás da mudança radical no comportamento da empresa estão seus interesses hegemônicos no setor. Que acabam por conduzir a uma ‘nova imagem’ da mídia e do público sobre o Facebook. Uma nova imagem pública viria bem a calhar, para a companhia de Palo Alto. A denúncia de Tim Berners-Lee teve enorme repercussão na mídia e atingiu o Facebook em cheio. E o filme A Rede Social (David Fincher, 2010) também ajudou projetar na mídia e no público uma imagem negativa da rede social (que seria relativizada, mais tarde, pelo uso do Facebook – e do Twitter, no apoio às revoltas no mundo árabe).


O servidor novo e a nova central de dados foram concebidos para aumentar as vantagens competitivas do Facebook. Sua concepção de fonte aberta, iniciada por três engenheiros, é a de uma poderosa ferramenta de trabalho que pretende tornar-se padrão para as demais empresas nesse mercado. Todos os elementos do servidor já estão disponíveis em filmes e fotos pela web. O material impressiona. Quase tudo é concebido de acordo com as especificações da engenharia do Open Compute, associada ao Facebook: as fontes, as placas-mãe, dissipadores de calor e gabinetes de baterias. Tudo projetado ou adaptado por eles, e os parceiros acima mencionados.


A cobertura magistral da revista The Week foi modelar para todos que trabalham com crítica de mídia. Sua leitura comprova que, além das hipóteses levantadas pelas diferentes publicações, uma realidade ficou evidente: a maestria, a competência técnica e a astúcia da equipe que Zuckerberg comanda.

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Mestre em Planejamento urbano e regional, consultor e tradutor

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