Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

E-NOTíCIAS > REDES SOCIAIS

Facebook, processos colaborativos e consumo

Por Valério Cruz Brittos e Rosana Vieira de Souza em 29/03/2011 na edição 635

O número de usuários das redes sociais cresceu consideravelmente no Brasil nos últimos anos, passando a constituir, depois dos mecanismos de busca, a maior categoria de uso na internet. Embora o Orkut mantenha a liderança no país, por meio de usuários leais (com média de 31,7 visitas/mês do país, segundo dados recentes da ComScore), o Facebook triplicou seu crescimento e hoje, com uma média mundial de 29,6 visitas/mês, é o grande responsável pelo avanço da categoria, chegando a mais de dois milhões de utilizadores no Brasil – e cerca de 500 milhões em todo o mundo.

Mas o que realmente se mostra tão atraente, a ponto das pessoas empregarem tanto tempo e energia em redes como o Facebook? O que leva os internautas a contribuírem para estes provedores de plataformas comerciais? Mesmo que não deixe de fazer parte de uma imensa teia em que é apenas parte da engrenagem, o indivíduo comum e amador, transformado agora em usuário de redes de computadores e mídias sociais, sente-se reconhecido por sua contribuição na disseminação de informação e, mais do que isso, na construção de conhecimento, para além das fontes tradicionais e profissionais de produção de conteúdo e notícias.

Justamente por isso, em 2006, a revista Time escolheu ‘Você’ – sim, você, todos nós – como a personalidade de maior influência do planeta. É evidente que, ao ser capaz de tornar significativa e poderosa a pequena contribuição anônima, criativa e engajada de milhares de pessoas, a internet desempenhou papel central nesta escolha da Time. Não por acaso, quatro anos depois quem alcançou o cobiçado posto foi Mark Zuckerberg, o controverso fundador do Facebook, por sua relevância na construção de novas dinâmicas sociais marcadas pela interatividade e compartilhamento de informações e relações sociais. Na mesma direção deve ser considerado o filme A Rede, que narra a criação do Facebook, grande sucesso de bilheteria, ganhador de quatro prêmios Globo de Ouro e vencedor do Oscar em três categorias.

O controle dos conteúdos compartilhados

Mark Zuckerberg e a impressionante rede que construiu oferecem uma promessa quase irresistível: a de propiciar ao usuário a sensação de liberdade e de poder para produzir e gerenciar tanto conteúdos informacionais quanto novos vínculos interpessoais. No lugar de fontes centralizadas de geração de conteúdos, tem-se a participação fragmentada, voluntária e, aparentemente, não controlável, de indivíduos comuns, bem como o estabelecimento de novos arranjos sociais somente possíveis graças às possibilidades de interação entre usuários.

Este é o reflexo prático do estreitamento das distâncias entre as instâncias da produção e do consumo, o qual caracteriza um fenômeno particularmente marcante do capitalismo contemporâneo. Tal cenário, de infinitas possibilidades e expectativas no que se refere à participação ativa dos indivíduos na produção e na circulação de conteúdos, simboliza a rearticulação da ênfase histórica na produção/oferta como esfera geradora de valor da economia capitalista. Desta forma, a produção do consumo/demanda passa a desempenhar um papel mais determinante na construção permanente dos produtos e serviços, numa lógica que não chega a alterar a base do sistema, mas que é essencial num quadro de inovação acelerada.

Apesar das informações postadas serem de propriedade do usuário, ao compartilhá-las no Facebook ele concede licença de uso do conteúdo à rede sem a completa compreensão sobre as formas como este conteúdo poderá ser utilizado. A adesão aos inúmeros aplicativos propiciados pela rede, um dos seus grandes atrativos, constitui um claro exemplo de como os termos de uso do Facebook abrem espaço para dúvidas quanto a quem – e o quanto – controla os conteúdos compartilhados. Ainda assim, a rede não para de crescer.

Os usos estratégicos

As atividades baseadas na dinâmica colaborativa têm em comum o fato de se apresentarem, aparentemente, auto-organizadas e emergentes, não sendo, a princípio, motivadas economicamente por parte dos usuários comuns. A despeito da receita de mais de US$ 1 bilhão alcançada pelos acionistas do Facebook em 2010, não são claras as formas de obter lucros com o uso da rede pelo internauta que a utiliza. O sistema de valor que alimenta o crescente engajamento deste usuário residiria, então, na auto-realização socialmente reconhecida, uma espécie de combinação paradoxal onde, de um lado, há o espírito colaborativo orientado para comunidade e, de outro, a busca racional e reflexiva por auto-interesse, na verdade o grande motor da sociedade capitalista, individualista por excelência.

Talvez a história da produção online colaborativa, do compartilhamento e da interação sem precedentes tenha, de fato, começado a ser contada há quatro anos nos grandes meios de comunicação. Entender a lógica que motiva e sustenta o espírito colaborativo e reestrutura as relações entre os planos da produção e do consumo, ainda que sejam desconhecidos os riscos ligados ao novos hábitos e dinâmicas sociais, torna-se condição fundamental para qualquer discussão acerca dos usos estratégicos, por parte das grandes corporações, destas novas condições, assim como para se desenharem outras construções cooperativas, desligadas da base estrutural da atual formação histórica.

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Respectivamente, professor titular no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Unisinos; e doutoranda em Ciências da Comunicação na Unisinos

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