Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

E-NOTíCIAS > FIM DE SEMANA, 28 E 29/01

Folha de S. Paulo

31/01/2006 na edição 366

CRISE POLÍTICA
Mario Cesar Carvalho

Novo marqueteiro já cogita desistir de Lula

‘Nem deu tempo de João Santana sentir o gostinho de ser o novo marqueteiro de Lula, função que desempenha na surdina, para que o Ministério Público Federal apontasse que o publicitário também tem um pé no submundo das campanhas políticas.

A revelação de que ele supostamente remeteu US$ 528 mil para bancos em paraísos fiscais entre 1999 e 2001 é o mais duro golpe que o publicitário sofreu na imagem que tenta projetar de si mesmo: a de que não é um marqueteiro qualquer. Para evitar o tiroteio das acusações, ele já cogita desistir do trabalho com Lula.

História é o que não falta a Santana para tentar fugir da feição criminalizada que o marketing político adquiriu depois do advento do ‘valerioduto’ e de Duda Mendonça. Baiano, nascido em Tucano, no mesmo sertão que viu a guerra de Canudos (1896-1897) e as pregações de Antonio Conselheiro (1830-1897), João Cerqueira de Santana Filho, 53, filho do dono do cartório na cidadezinha que hoje tem 50 mil habitantes, já foi jornalista, compositor e publicou um romance, batizado ‘Aquele Sol Negro Azulado’.

Forró, rock e cachaça

A primeira imagem pública de Santana não tem nada a ver com o marqueteiro que sugeriu a Lula trocar o vocativo esquerdista ‘companheiros e companheiros’ pelo prosaico ‘amigos e amigas’ com o objetivo de afastar o presidente da lama do PT. No início dos anos 70 em Salvador, quando era conhecido por Patinhas e cultivava uma cabeleira ‘black power’, ele criou a banda Bendengó junto com Gereba e Kapenga -ele ganhou o apelido no Colégio Antônio Vieira, de jesuítas, pela forma como administrava o dinheiro do grêmio.

O grupo talvez tivesse sumido na poeira da história, com sua mistura de música do sertão e Beatles, não fosse a sua participação em ‘Jóia’, disco de Caetano Veloso de 1975. É o Bendengó que acompanha Caetano na canção ‘Canto de um Povo de um Lugar’ (‘Todo dia o sol levanta/ E a gente canta/ O sol de todo dia/ Fim da tarde a terra cora/ E a gente chora/ Porque finda a tarde’).

‘Éramos uns puritanos da porra. O Bendengó não conhecia droga’, relata Gereba, 60, parceiro mais freqüente de Santana -a dupla tem algumas dezenas de músicas inéditas. Gereba diz que, enquanto tomava cerveja, o parceiro entornava uma garrafa de cachaça. Santana foi o mentor do grupo, escreveu as letras mais importantes, mas nunca subiu no palco. ‘Ele é muito tímido. É um grande cantor, poderia ser profissional, mas ele não gosta de aparecer em público. Foi uma guerra tirá-lo de casa para o lançamento do livro’, diz o antropólogo e poeta Antonio Risério, 54. O maior sucesso de Patinhas, porém, não foi nenhuma música do Bendengó. Foi o ‘Forró do ABC’, que criou com Moraes Moreira.

Foi um músico nada comercial, no entanto, Walter Smetak (1913-1984), que exerceu a maior influência sobre Santana, segundo ele próprio. O violoncelista trocou a Suíça pelo Brasil e em Salvador, onde dava aulas na universidade federal, passou a inventar instrumentos, tão plásticos que pareciam esculturas -e eram.

Foi Smetak quem introduziu Santana na eubiose, religião criada no Brasil em 1924 cujo objetivo é reconstruir o homem a partir da arte, da ciência e da moral. Até hoje o publicitário cultua algo do misticismo da eubiose. No romance ‘Aquele Sol Negro Azulado’ (2002), um thriller que mescla sexo, biopirataria na Amazônia e agentes americanos, há personagens míticos que sintetizam alguns pontos de vista da eubiose, segundo Risério.

Amigo de Santana desde o final dos anos 60, Risério diz que a primeira impressão que teve dele persiste até hoje: é um leitor voraz. ‘João é muito surpreendente. Ultimamente ele estava lendo sobre a presença negra em Buenos Aires no século 19.’ Deu de presente ao amigo o livro ‘Buenos Ayres – Negros y Tangos’ , de Oscar Natale.

Iniciado por Duda

Foi pelas mãos de Duda Mendonça, o marqueteiro que forjou o ‘Lulinha Paz & Amor’ e agora atola-se em acusações de remessas ilegais de dólares, que Santana começou a trabalhar com marketing político, em 1993. Ele deixara o jornalismo depois de conquistar a principal recompensa de um repórter, o Prêmio Esso de Reportagem de 1992. Santana foi um dos autores do texto ‘Eriberto: Testemunha Chave’, publicado na ‘IstoÉ’, sobre o motorista que desmontou uma das farsas do presidente Fernando Collor de Mello.

Foi só após o rompimento com Duda, ocorrido no final de 2001, que Santana fez campanhas que lhe renderam fama. A mais comentada delas foi na Argentina, em 2001. O marqueteiro conseguiu que Eduardo Duhalde, um candidato com carisma zero, fosse eleito senador com 37% dos votos. A ruptura com Duda deu-se num conflito de egos. Santana viu o seu papel nas campanhas reduzido ao de um anão no livro ‘Casos & Coisas’, de Duda.

No Brasil, Santana conseguiu uma fama robusta como marqueteiro, apesar de ter um currículo pouco mais do que esquálido. Fez as campanhas de Antonio Palocci (à Prefeitura de Ribeirão Preto em 2000) e de Delcídio Amaral (para o Senado em 2002). Campanhas maiores ele só fez em Estados menores, como Sergipe (para Albano Franco) e Rio Grande do Norte (para a família Alves).

A tentativa de convertê-lo em marqueteiro de Lula partiu de Palocci. Se sair do Ministério da Fazenda nos próximos meses para coordenar a campanha de Lula, Palocci faria dupla com quem já tem afinidade.

Não é certo, porém, de que Santana aceite ser o marqueteiro de Lula, compromisso que havia assumido com o presidente no final do ano passado. A revelação de que ele teria enviado recursos para fora do país por meio de doleiros colocou-o numa posição que nunca experimentara -a de investigado, não a de investigador. ‘Não dou para protagonismo’, reclamava para amigos.

Sua família o pressiona para abandonar o ‘projeto Lula’. Na última sexta-feira, veio para São Paulo discutir com um advogado qual seria sua estratégia de defesa.

Até agora, Santana já apresentou duas versões para a remessa ilegal de dólares. Na primeira vez que tratou do assunto, deixou vazar para jornalistas que a remessa poderia ser obra de Duda Mendonça. ‘Foi o Duda que fez’ era o seu mote.

Na última quinta-feira, em entrevista à Folha, informou que os dados do Ministério Público Federal eram ‘inconsistentes e contraditórios’, sem explicar como nem por quê. A Folha tentou entrevistá-lo na última sexta-feira, mas ele não respondeu aos recados deixados no seu celular.

Se estivesse numa campanha política, qualquer assessor do assessor saberia que Santana está precisando dos conselhos de um marqueteiro.

Colaborou a Sucursal de Brasília’

COMUNICAÇÃO ESTATAL
Sheila D’Amorim

BC adota autocensura e dificulta comunicação

‘O mal-estar dentro do governo com o Banco Central não se restringe ao conservadorismo na fixação da taxa de juros. A comunicação da instituição com o mercado financeiro é considerada ruim e tem sido apontada dentro da equipe econômica como uma das causas do descompasso entre a melhora nos indicadores da economia e os riscos embutidos nos juros projetados para o futuro, considerados demasiadamente elevados. Isso, por sua vez, tem reflexo no custo das negociações dos títulos federais.

Essa insatisfação com o BC ficou clara nas críticas recentes do secretário do Tesouro Nacional, Joaquim Levy, à instituição e que renderam o puxão de orelha público do ministro da Fazenda, Antonio Palocci Filho.

Apesar disso, nos bastidores do governo muitos técnicos da Fazenda e do próprio BC fazem coro ao secretário. Uma das formas de medir a falta de espaço para debate com o BC, que é constantemente apontada nas críticas feitas à cúpula da instituição, é analisar a publicação de trabalhos acadêmicos de funcionários do banco.

Eles são considerados instrumentos importantes para aprofundar o debate de temas relevantes para a área econômica e também estimular o surgimento de novas idéias que podem ser adotadas pelo governo. A quantidade desses trabalhos divulgados em 2005 foi reduzida a, pelo menos, um terço do que era em 2001.

A utilização desse canal como forma de balizar o mercado e ajudar a dissipar dúvidas em relação ao comportamento do BC foi instituída no segundo semestre de 2000, um ano após o BC adotar o regime de metas de inflação, sistema que exige maior transparência nas atitudes do governo no campo econômico. Até o encerramento daquele ano foram divulgados nove trabalhos, segundo levantamento feito a partir de relação do próprio BC.

Em 2001, o número de estudos publicados pulou para 26, mantendo o mesmo ritmo no ano seguinte. Em 2003, primeiro ano do governo Luiz Inácio Lula da Silva, esse número começa a cair e vai para 19, depois para 11 em 2004 e chega a apenas 9 no ano passado.

A queda é acentuada a partir de julho de 2003, coincidentemente o período em que Afonso Beviláqua, apontado nos bastidores do governo como o ‘engavetador’ dos estudos produzidos na instituição, assume o comando da diretoria de Política Econômica.

No primeiro semestre de 2003, a relação de trabalhos para discussão soma 15 documentos. Nos seis meses seguintes, cai para apenas quatro.

‘Esses ‘papers’ mostram o que o BC está pensando e também ajudam a esclarecer pontos que somente a ata e os relatórios de inflação, de ‘spread’ e juros e de estabilidade financeira não conseguem’, defende Sérgio Werlang, ex-diretor de Política Econômica do BC. Werlang foi o responsável pela instituição desse canal de comunicação, intensificado pelo seu sucessor, Ilan Goldfajn.

‘É uma forma de abrir espaço para críticas e debates que levam a aperfeiçoamentos’, argumenta. De acordo com ele, apesar de boa parte dos estudos ser produzida por técnicos dos bancos e não representar uma opinião formal da maioria da instituição, o canal é importante para que despontem novas idéias.

‘É uma maneira barata de o BC ter consultores que estão avaliando modelos e ajudando a testá-los e a pensar políticas econômicas’, diz Werlang.

‘O BC tem um corpo técnico altamente qualificado para gerar um bom debate’, destaca Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor de Política Monetária. Ele diz que esses trabalhos reforçam a capacidade de o BC coordenar as expectativas do mercado financeiro e que permitem trocar idéias com outros bancos centrais e acadêmicos de outros países.

Tensão

Nos últimos meses, a tensão dentro do governo por causa de ‘excesso de controle’ desses estudos aumentou, o que elevou o medo dos técnicos de tratarem do tema. Segundo relato de funcionários que não querem se identificar, a cúpula do Banco Central não só engaveta os estudos como também censura temas que considera delicados. Um deles, motivo de divergência internamente, é justamente a taxa de juros.

Trabalhos mostrando o impacto dos juros em segmentos da economia ou mesmo tratando da formação do custo do dinheiro no país foram vetados. A brincadeira nos corredores da sede do BC em Brasília é que está mais fácil publicar trabalhos acadêmicos fora do BC do que na instituição em que trabalham.

A insatisfação com relação à divulgação desses textos, que são importantes para o currículo dos pesquisadores, gerou um debate interno sobre a transferência da responsabilidade pela divulgação dos trabalhos acadêmicos da diretoria de Política Econômica para a universidade corporativa, a Unibacen. Na verdade, um departamento que cuida especialmente de cursos para formação dos servidores do BC e está na alçada da Diretoria de Administração. O assunto, no entanto, não evoluiu.’

CRÔNICA
Arapongas

Ferreira Gullar

‘Cada dia que passa, mais me convenço de que vivemos num mundo inventado, e não apenas no que se refere às tecnologias e valores que sustentam nossa vida, mas também no que diz respeito à história ou histórias que constituem o nosso passado. Têm alguma razão os que dizem ser a versão mais verdadeira que os fatos, mas, ao que parece, existem quase sempre não uma, mas várias versões de um mesmo fato, o que dificulta saber qual delas é a verdadeira. A esta altura me pergunto se alguma delas o é ou, pelo menos, se é possível aferir qual. Digo isto porque, afora o fato material em si mesmo -por exemplo, um sujeito foi atropelado por um carro-, tudo o mais são versões: a versão do atropelado, a do atropelador, a do transeunte que estava na calçada…

Cada um deles viu o fato de um ângulo diferente e, por isso, as versões divergem em alguns pontos. Pode ser que se consiga construir, a partir delas, uma versão única e coerente, mas será impossível afirmar que se trata de uma verdade indiscutível. E a coisa se complica depois que cada um conta sua versão a outra pessoa, que a passa adiante, sempre mudando alguma coisa ou lhe acrescentando algo. Isso tratando-se de um simples acidente de trânsito; imagine agora quando se trata de um acontecimento como a Revolução Francesa ou o assassinato de John Kennedy? Bem, dirá você, importa é o que de fato ocorreu e mudou a vida das pessoas; o que se conta e se escreve é história ou estória -que é sempre ficção.

Mas a que vem esse papo-cabeça, perguntará o leitor, já temendo que vá eu prosseguir na minha filosofia de ponta-de-lenço. É que acabo de ler que o novo diretor da Abin (Agência Brasileira de Inteligência), que substituiu o SNI (Serviço Nacional de Informações), decidiu que a ave que simbolizará, de agora em diante, o agente secreto brasileiro não será mais a araponga, mas o carcará. Pode parecer piada, mas, a confiarmos na imprensa, é pura verdade. Se essa decisão do diretor da Abin já parece inverossímil, a informação, contida na notícia, de que o nome araponga ‘persegue os agentes do SNI desde a época da ditadura’ é falsa. O apelido ‘araponga’ nasceu com a novela do mesmo nome, exibida pela TV Globo em 1990-91, escrita por Dias Gomes, Lauro César Muniz e eu. E surgiu da seguinte maneira: propusemos à emissora uma novela de caráter policial-humorístico e pensamos numa história que envolvesse um agente secreto da ditadura. Aceita a proposta, solicitamos uma pesquisa que nos fornecesse o máximo de informações sobre o SNI e soubemos, assim, que a direção da agência adotava o critério de usar, como codinome de seus agentes, nomes de pássaros e insetos, desde pipira até percevejo. Foi o Dias que, de molecagem, botou o nome de Araponga em nosso personagem. Parecia-nos realmente gaiato um agente secreto adotar o nome de um pássaro cujo berro metálico ecoa por quilômetros de mata.

Quem viu a novela deve se lembrar de que o personagem, uma vez finda a ditadura, não tinha mais a quem alcagüetar nem torturar (isso de torturar era uma licença ‘poética’, que fundia o SNI com o DOI-Codi) e, por essa razão, trancado em seu quarto, torturava-se a si mesmo e depois sorvia leite de uma mamadeira. Indicamos Lima Duarte para o papel de Araponga, mas, como ele já estava escalado para outro trabalho, o escolhido foi Tarcísio Meira, que hesitou em aceitá-lo. Afinal de contas, talvez pegasse mal o charmoso galã das novelas aparecer no vídeo tomando mamadeira. O público adorou.

Esta é a minha versão dos fatos que, por ser verdadeira, evidencia o disparate dessa decisão do novo chefe da Abin de trocar o nome de araponga por carcará. Trata-se, além do mais, de uma providência inócua, uma vez que apelido, não é o apelidado que escolhe. Foi a imprensa que, a partir da novela, passou a chamar de ‘arapongas’ os agentes secretos em geral. Não será uma decisão burocrática que irá mudar isso.

No entanto, se a tal mudança ocorresse, se a imprensa se dobrasse à decisão do diretor da Abin, seus agentes teriam como apelido o nome de um pássaro que se tornou popular graças a um espetáculo teatral também feito contra a ditadura: o show ‘Opinião’, escrito e montado por integrantes do extinto CPC da UNE que, após o golpe de 1964, transformara-se no grupo Opinião. A música de João do Vale -que, com Nara e Zé Keti, integrava o espetáculo- falava de um pássaro malvado, de bico volteado, ‘que avoa que nem avião’ e que, quando divisa uma presa, ‘pega, mata e come’. Nara adoeceu e foi substituída por uma jovem cantora baiana até então desconhecida, chamada Maria Bethânia, que, com sua postura corporal e sua interpretação, tornou aquela música o ponto alto do espetáculo, o primeiro ‘ato público’ contra o regime militar.

Devo esclarecer que tanto faz -para mim e, creio, para o povo em geral- que os agentes da Abin sejam chamados por esse ou aquele apelido, mas ficaríamos todos nós bem mais tranqüilos se eles, no seu comportamento, se mantiverem mais parecidos com as pacíficas arapongas, que só têm garganta, do que com os agressivos carcarás, terror dos bichos menores e indefesos.’

INTERNET
Folha de S. Paulo

Curto-Circuito Na Rede

‘Na mesma semana em que o gigante de buscas na internet, o Google, foi apontado em uma pesquisa de profissionais de propaganda de todo o mundo (divulgada pelo site Brandchannel na segunda-feira) como a marca mais influente do planeta, a internet passou a ser alvo de restrições -impostas ou auto-impostas- em sua atividade primordial de fornecer informações.

No caso mais grave, a própria empresa aceitou censurar seus conteúdos para poder entrar no enorme mercado chinês. Por exigência do governo do país, foram censuradas buscas polêmicas, como ‘massacre da Praça Tiananmen’, ‘Tibete’, ‘Independência de Taiwan’, ‘Dalai Lama’.

Paralelamente, o site de buscas trava um forte embate com o governo dos EUA, depois que o Departamento de Justiça pediu a um juiz federal que obrigasse a empresa a entregar os registros referentes a milhões de buscas efetuadas por seus usuários.

No Irã, uma união de internautas ‘bombardeou’ o Google, fazendo com que buscas por ‘Golfo Árabe’ não fossem reconhecidas e indicando a busca por ‘Golfo Pérsico’ -que é a designação que defendem os iranianos. Além disso, o governo do país bloqueou, no Irã, o site em língua persa da BBC, seu maior portal em língua não-inglesa.

Outro site de referência, a Wikipedia, enciclopédia internacional aberta, foi obrigada pela Justiça da Alemanha a fechar por dois dias seu portal naquele país -o segundo maior, perdendo apenas para o de língua inglesa-, depois que os pais de um hacker alemão, morto em 1999, processaram o site por divulgar seu nome completo na enciclopédia. Ainda que tecnicamente não o faça, a enciclopédia fornece uma série de links para outros sites que, estes sim, o fazem.

Preconizando a falência da internet, David Talbot, correspondente-chefe da ‘Technology Review’, ligada ao Massachusetts Institute of Technology, publicou no final de 2005 uma série de artigos e entrevistas em que afirma que o custo de bilhões de dólares causados por falhas na rede impedem a inovação, ameaçam a segurança dos países e limitam o uso da web como meio de comunicação àqueles que têm muito dinheiro para gastar.

Par a analisar a nova, inesperada e preocupante conjuntura que a web vive hoje, a Folha entrevistou seu criador, que hoje é diretor do Google -Vinton Cerf. Para ele, a internet não corre risco de ‘quebrar’, mas precisa evoluir para combater a maior ameaça, que são as invasões ao sistema. Já para o professor de comunicação da Universidade da Califórnia John Battelle (leia entrevista na página 6), o Google se ajustou às regras do mercado ao se autocensurar, mas corre o risco de ter sua imagem arranhada.’

Daniel Buarque

O meio sem a mensagem

‘Evoluir é preciso. Para Vinton Cerf, idealizador da internet e criador dos protocolos que deram origem a toda a rede de computadores tal como existe hoje, não há sombra de falência do projeto, apesar dos atuais entraves envolvendo a Wikipedia ou o Google, empresa em que trabalha hoje.

Para ele, a internet continua sendo um meio de comunicação capaz de sediar modelos de compartilhamento de informações -como fora pensada originalmente.

Porém é crescente e mais importante, diz, a preocupação com segurança, confidencialidade, integridade da comunicação e outras práticas abusivas. Ele acredita que a internet precisa evoluir para desenvolver novas formas de tratar tais questões. ‘A internet é o que o mundo faz dela. Não podemos ditar a forma como ela será usada em todos os lugares.’

Cerf foi autor, em 1973, com Robert Cohn, dos estudos originais que projetaram a internet. Hoje ele é ‘Chief Internet Evangelist’ (algo como gerente evangelista de internet) do Google, responsável, por encorajar a expansão da rede em escala global e uma das principais faces públicas da empresa.

Na entrevista abaixo, concedida à Folha em dois tempos, por telefone e e-mail, ele ressalta o empenho das pessoas envolvidas no desenvolvimento de tecnologias e usos da internet e aponta que 99% das aplicações a serem usadas no futuro ainda não foram inventadas.

Cerf indica um certo crescimento de alguns tipos de atividade fraudulenta, por conta da internet, mas diz que esse é um comportamento humano, havendo ou não a rede de computadores.

Ele admite que estamos nos tornando dependentes e cada vez mais frágeis, graças ao desenvolvimento da internet. ‘Eu tenho este cenário de pesadelo, num futuro frágil, em que o sistema cada vez mais complexo com milhões de softwares, interagindo uns com os outros, sempre de formas inovadoras.’

Folha – Como as recentes restrições ao Google na China, as imposições do governo dos EUA e a restrição às informações na Wikipedia da Alemanha afetam a liberdade de expressão?

Vinton Cerf – A internet é o que o mundo faz dela, e nós realmente não podemos ditar como ela deve ser usada em todos os lugares. Nós podemos apenas fazer o melhor para tornar o meio tão aberto quanto os usuários permitam que ele seja.

Folha – Chegamos ao fim da internet como era pensada na última década, como um universo democrático, de informações circulando livremente?

Cerf – Espero que esse não seja o caso. A internet sempre foi pensada como um sistema capaz de sediar uma vasta gama de modelos de compartilhamento de informações.

Está claro que nem todos os países e sociedades compartilham do mesmo ponto de vista, de que toda informação deveria estar disponível livremente. Há preocupação sobre a exposição de menores a material que deveria ser apenas para adultos ou talvez nem mesmo permitido na rede. Há preocupação de que alguns tipos de informação podem trazer problemas políticos.

E também existe a preocupação com softwares malignos, que violam a privacidade de cidadãos ou os prejudicam financeiramente ou de outras formas.

Folha – A internet está passando por uma fase de ruptura?

Cerf – A internet continua a servir um número crescente de usuários. Estimativas atuais dão conta de 1 bilhão de pessoas conectadas. Entretanto as aplicações da internet só evoluíram com o tempo. Como empresas e usuários individuais entram nesse ambiente virtual, há uma preocupação crescente com a segurança, confidencialidade, integridade da comunicação e práticas abusivas, incluindo spam e vários tipos de software maliciosos.

Conseqüentemente, há um grande interesse em evoluir a internet para satisfazer essas novas ou expandidas demandas. Ao mesmo tempo em que digo que a internet não está ‘quebrada’ ou falida, não há nenhuma dúvida de que ela precisa evoluir e desenvolver novas funcionalidades para satisfazer necessidades.

Folha – Como o Google trabalha para controlar a qualidade das informações que oferece em suas ferramentas de busca?

Cerf – O Google não garante o conteúdo que descobre na internet. Seus algoritmos, que fazem o ranking do material que ele apresenta, são intencionalmente preparados para dar destaque ao que parece ser mais relevante.

Usamos vários tipos de técnicas para fazer essa identificação e essa classificação, mas não temos meios automáticos que garantam a confiabilidade da informação descoberta. As ferramentas de busca do Google permitem que os usuários restrinjam sua busca em domínios especificados (por exemplo: governo, textos acadêmicos, livros etc.), numa tentativa de oferecer mais altos graus de relevância nas respostas às buscas.

Folha – É possível controlar a qualidade das informações na internet, evitando abusos?

Cerf – Bem, o conceito que uso, de ‘má informação’ é relativo e depende de quem a está utilizando, podendo achar útil ou não.

É difícil falar disso em termos absolutos. Algumas informações são rejeitadas internacionalmente, como pornografia infantil, mas é mais difícil controlar quando se trata de informações que não são reprovadas universalmente e apontam apenas opiniões divergentes.

Nesse caso, da minha perspectiva norte-americana, fazemos uma defesa muito forte da liberdade de expressão, originalmente criada para proteger o livre discurso político, mas que ganhou uma visão mais abrangente e inclui qualquer tipo de discurso.

Costumo lembrar, entretanto, que o direito à expressão não garante que ninguém deva ouvi-lo. Não posso dizer o quanto eu me importo com fazer com que o pensamento crítico se torne parte da formação das crianças para que tenhamos adultos capazes de distinguir uma informação de qualidade da informação inútil.

Isso não apenas na internet, mas em todas as fontes de informação, sejam revistas, jornais, televisão, cinema, rádio, além de nossos parentes e amigos. Acho que impor controle governamental ao conteúdo das páginas na rede seria tecnicamente muito difícil, além de moralmente condenável.

Folha – Com o crescimento da internet, pode-se dizer que estamos nos tornando cada vez mais frágeis?

Cerf – Tenho esse cenário de pesadelo, num futuro frágil, de um sistema cada vez mais complexo com milhões de softwares, interagindo uns com os outros, sempre de formas inovadoras. Posso dizer que os cientistas que estão pesquisando os sistemas de computadores em todo o mundo, as pesquisas acadêmicas, precisam se dedicar muito mais de que têm trabalhado recentemente para construir sistemas mais confiáveis e resistentes, menos frágeis à invasão e à fraude.

Apesar de todos os ataques, nesses quase 30 anos da internet, ainda não houve nenhum problema de segurança que afetasse de forma grave a sociedade, mas isso não deve evitar que se trabalhe duro para criar sistemas mais seguros. Essa deveria ser nossa meta para este novo século.

Folha – Além da censura, a privacidade e o anonimato na internet também podem ser um problema?

Cerf – Anonimato é muitas vezes uma ferramenta importante, mas, em outras vezes, apenas algo que facilita o uso abusivo da rede. A divulgação anônima de informações na rede é muito difícil de controlar, e a melhor forma de combatê-la é colocar sua própria informação na rede, para ir contra o que quer que esteja sendo dito. A solução para combater a má informação é ter cada vez mais informações on-line.

Por outro lado, o anonimato pode ser muito importante, pois encoraja pessoas a apontarem abusos e problemas, especialmente quando se trata de questões ligadas ao governo.

Folha – O que o sr. acha da internet como invenção?

Cerf – É muito empolgante. O que mais me impressiona é que esse trabalho foi reaproveitado por outras pessoas que também se empolgaram rapidamente com a idéia de conectar computadores de todo o mundo, de compartilhar informação da forma como fazemos hoje, de ser uma plataforma para todos os tipos de comunicação digital, não só mensagens de texto e páginas na internet mas também voz e vídeo.

É um ambiente riquíssimo, e provavelmente 99% das aplicações que serão usadas na rede no futuro ainda nem foram inventadas. Estamos ainda nos estágios iniciais da compreensão sobre o que podemos fazer com esse tipo de recurso.

Folha – Nos anos 70, quando a tecnologia foi inventada, o sr. imaginava tais desdobramentos?

Cerf – (Rindo) Eu gostaria de poder dizer que ‘claro que sim, e tudo que você vê hoje eu já tinha em mente’, mas estaria mentindo. Acho que nosso entendimento coletivo do poder da web apareceu enquanto ele crescia, enquanto se tornava capaz de assumir novas funções, aumentar a velocidade. Quando começamos, fazíamos conexões a 50 mil bits por segundo, hoje não é incomum ver conexões de 10 bilhões de bits por segundo e já houve demonstrações de conexões de 40 bilhões de bits por segundo.

Dá para ver que as coisas mudaram em vários sentidos. Similarmente, quando o sistema começou a operar, em 1º de janeiro de 1983, havia 400 computadores conectados. Hoje acho que podemos encontrar cerca de 1 bilhão de usuários. No intervalo de 20 anos, o sistema cresceu numa proporção inimaginável.

Folha – Nesses diferentes desenvolvimentos da tecnologia, o que mais o surpreendeu?

Cerf – Com o tempo, ainda virão muitos outros dispositivos de uso dessa tecnologia. Hoje em dia, uma das tecnologias que têm se desenvolvido mais é a de telefonia móvel. O sistema de telefonia mais de que duplicou nos últimos cinco ou seis anos por causa da telefonia sem fio e por celular, e todos esse telefones, com o tempo, vão estar ligados também por meio de conexões de internet. Então veremos um aumento exponencial no número de pessoas que têm acesso à internet.

Folha – E o que o desapontou?

Cerf – Muitas coisas, de fato. Uma delas é quase inescapável. Quando se entra na www (World Wide Web), se encontra uma quantidade enorme de informações -que não poderiam ser encontradas sem que companhias como o Google ajudassem- e se descobre que há muita informação ruim na rede, seja material sem valor ou mesmo divulgação de informações que representam mal o tema em questão, o que pode confundir ainda mais quem está navegando.

De qualquer forma, isso é um resultado paralelo ao fato de a população em geral ter acesso à rede e ter a possibilidade de divulgar o que quiser por meio dela. Não sei, portanto, se se trata de um desapontamento com a internet ou de uma decepção com a sociedade global e sua pouca habilidade em compreender e divulgar as coisas.

Começamos a ver fraudes e outras formas de abuso como o spam, e-mail comercial não-solicitado, coisas desse tipo. E essas coisas me parecem quase um aspecto inescapável do desenvolvimento da civilização moderna. Acho que teria que dizer que fraudes já existiam 10 mil anos atrás, em sociedades mais primitivas, não são um fenômeno novo, embora tenham se tornado globais com a internet.

Folha – Qual é a principal questão relacionada à segurança na internet?

Cerf – Acho que o maior problema hoje é a fraqueza dos sistemas operacionais de segurança em uso na rede -com base no Windows, Linux, Macintosh ou qualquer outro. Todos têm muitas falhas que podem ser exploradas e não apenas por especialistas. Há ferramentas que facilitam o acesso a essas falhas mesmo a pessoas que não entendem tanto do sistema operacional dos computadores na rede.

Temos também problemas de autenticação. É difícil identificar as partes numa transação comercial. São necessárias melhores ferramentas de autenticação para evitar esse tipo de abuso.

O spam é hoje um fenômeno econômico. Como o envio de mensagens eletrônicas é gratuito, as pessoas podem enviar quantidades imensas de anúncios por meio de spam, e, se apenas uma parcela ínfima responder, já vale o trabalho e cobre o custo. Não tenho uma solução simples para esse problema, apesar de achar que identificar as fontes das mensagens ajudaria.

Folha – Dificulta o fato de não haver uma regulamentação internacional para um fenômeno tão global?

Cerf – É um ponto importante. Precisamos de um padrão internacional de legislação que ajude na aplicação da lei em base internacional. Temos a Interpol, mas, além desses corpos internacionais de coordenação e aplicação da lei, também é preciso haver alguma compatibilidade de lei em países diferentes. O spam é um problema internacional.

Por exemplo, se todos os países tomassem uma posição semelhante, proibindo-o, as pessoas que enviassem mensagens por spam de um país para outro poderiam ser processadas. O mesmo poderia ser válido para outros tipos de atividades ilegais pela internet.

Folha – O sr. acredita que esse tipo de regulamentação seja possível?

Cerf – Acho que não. É mais provável que vejamos acordos multilaterais ou bilaterais de que um padrão mundial de regras como o que mencionei. Aponto, entretanto, que temos uma necessidade igualmente importante de padronizar internacionalmente o comércio eletrônico; isto é, o que é um contrato legal, como assiná-lo digitalmente, como resolver disputas internacionais de negociações feitas pela internet.

Precisamos de acordos internacionais indo além da busca por criminosos, o que acho difícil de criar em uma rede global tão abrangente.’

***

Breve história da internet

Anos 70 Primeiras experiências de uma rede conectando computadores, no início como projeto militar dos EUA

1972 A Agência de Pesquisa para Projetos Avançados, organização do governo norte-americano, lança a Arpanet, bases da ‘inter-networking’, protótipo da internet

1973 Em Stanford, Vinton Cerf escreve o artigo ‘Internetting’, publicado no ano seguinte

Anos 80 É criada a linguagem de computação que permitiria o desenvolvimento de páginas gráficas e a utilização dos hipertextos; a expressão World Wide Web é consolidada, traduzindo a idéia uma rede global; instituições universitárias são conectadas através da rede

1º de janeiro de 1983 Vinton Cerf inaugura a comunicação de todo o seu grupo acadêmico permanentemente em Transmission Control Protocol (TCP), que enviava informações em blocos

Começo dos anos 90 É criado o browser Mosaic, que estava na origem de todos os navegadores utilizados atualmente; são criadas as ‘páginas’ de internet tal como as conhecemos hoje

1995 A internet comercial passa a funcionar. É criado o site Yahoo!. Os primeiros sites brasileiros entram no ar

1996 É o auge da disputa entre Microsoft e Netscape, que era então a maior ameaça à hegemonia da empresa de Bill Gates

Final dos anos 90 A Microsoft reestrutura seus negócios para fazer face à rede e investe no navegador Internet Explorer; Google começa a se consolidar

2000 Ataques em larga escala a grandes portais prenunciam a necessidade de aumentarem as medidas de segurança; grandes empresas são beneficiadas; estoura a bolha, e a valorização das pontocom no mercado de ações desaba

2001 A Justiça norte-americana restringe o portal Napster, que havia se popularizado oferecendo intercâmbio gratuito de músicas pela internet Começo dos anos 2000 O portal Google se consagra, lidera os portais de busca e rivaliza com a Microsoft

2005 O projeto do portal Google de disponibilizar livros em larga escala na rede é alvo de forte oposição de editoras americanas e de especialistas; temas como direitos autorais, pirataria e a proteção dos acervos das bibliotecas nacionais causam polêmica, e a empresa recua

2005-2006 Calcula-se que o número de ciberusuários no mundo tenha chegado a 1 bilhão 2006 em poucos dias, diferentes episódios ameaçam o funcionamento livre e democrático da rede’

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A regra do jogo

‘Contrário à idéia de demonização ou endeusamento do Google, o professor de comunicação da Universidade da Califórnia em Berkeley John Battelle diz que o site de busca apenas aceitou as regras do jogo mercadológico ao concordar com as restrições de conteúdo impostas pelo governo chinês. Para ele, isso não compromete totalmente a idéia de liberdade de expressão pela internet.

Segundo Battelle, que é autor de ‘The Search – How Google and Its Rivals Rewrote the Rules of Business and Transformed Our Culture’ (A Procura – Como o Google e Seus Concorrentes Reescreveram as Regras dos Negócios e Mudaram Nossa Cultura’, ed. Portfolio) e co-fundador da revista ‘Wired’, o Google não é moralmente pior nem melhor de que empresas como Yahoo! e Microsoft, e não tem planos malignos de remodelar a cultura do planeta.

Pergunta – O fato de o Google ter aceito as restrições de conteúdo exigidas pelo governo chinês limitam a idéia de liberdade na internet?

John Battelle – Foi sem dúvida uma decisão muito difícil para o Google, mas foi inevitável e com certeza deve ter desapontado muita gente que esperava que a empresa agisse de forma diferente. O Google agiu como qualquer outra empresa que quer trabalhar na China e aceitou jogar pelas regras do país, o que não compromete seu o projeto, mas pode ter um efeito negativo em sua imagem.

Foi uma decisão de mercado. Mas não acho que tenha sido uma decisão errada ou que vá comprometer totalmente a liberdade de expressão ou mesmo a liberdade de circulação de informações na internet.

Pergunta – O senhor acha que deveríamos ter medo do Google?

Battelle – Devemos sempre desconfiar quando permitimos que uma empresa tenha acesso a detalhes de nossa vida privada. Nesse caso, é o que nós fazemos ao realizar buscas na internet, ao utilizar o correio eletrônico e todas as outras aplicações oferecidas pelo Google. Dito isso, ele não é pior nem melhor do que o Yahoo! ou a Microsoft.

Quanto às empresas tradicionais, como editoras ou operadoras telefônicas, a intrusão do Google em seu mercado as obriga a rever sua forma de trabalhar. Elas têm boas razões para temê-lo mas também podem trabalhar com ele e achar novas formas de obter retorno do mercado.

Pergunta – É saudável que uma empresa construa um monopólio de pesquisa e inovação na internet?

Battelle – Ela é simplesmente a primeira a fazer o que faz. Graças a Deus não tem nada a ver com a Microsoft dos tempos da dominação do Windows. No futuro, o Google oferecerá tudo o que a informática permite oferecer em escala mundial. Mas a inovação vai se concentrar no que permite adicionar conteúdo a seu índice, pois isso permitirá aumentar sua publicidade.

Pergunta – O Google tem um objetivo preciso?

Battelle – Tenho certeza de que o Google tem ‘planos’, como todas as empresas. Mas não acho que impor uma dominação anglófona faça parte desses planos. Os que dirigem a empresa não tiveram cuidado ao cuidar dos aspectos jurídicos -dos direitos autorais, especialmente- e acreditaram estar em seu direito ao decidirem recolher informações de outros sites (Google News) ou com a digitalização de livros (Google Print). O que interessa ao Google é alcançar e realizar tudo o que é tecnicamente possível. Isso é típico das empresas dirigidas por engenheiros. Com o ‘Le Monde’.’

Stéphane Foucart

A Máquina Universal

‘Seis letras em cores simples, uma página despojada, quase branca, um formulário de pesquisa. Para a maioria dos internautas, essa simplicidade não engana. Sugere que o Google pouco evoluiu desde 1998, quando foi criada por Sergey Brin e Larry Page, dois matemáticos da Universidade Stanford (EUA).

Por trás do aparente despojamento escondem-se um poder de cálculo fenomenal, uma capacidade de inovar e uma criatividade que preocupam todos os setores econômicos que têm uma parte de sua atividade desmaterializada. A ambição do Google, que acaba de entrar no capital da AOL Time Warner com 5%, é ‘simplesmente’ tornar-se uma máquina universal.

Seu principal segredo é seu algoritmo, PageRank, que classifica os 8 bilhões ou 9 bilhões de páginas da web indexadas por sua máquina em razão de diversos parâmetros -freqüência de atualização, popularidade etc. Se os detalhes dessa fórmula matemática permanecem ocultos, suas linhas maiores e seus princípios são conhecidos de longa data. Desde 2003, quando houve um crescimento extraordinário da potência da máquina, o verdadeiro segredo do Google é outro: não se trata mais tanto da eficácia desse ou daquele algoritmo quanto de seu prodigioso poder de cálculo, de processamento e armazenamento da informação.

Para não assustar divulgando cifras colossais, o Google não comunica sua capacidade de cálculo. Os últimos números publicados datam de aproximadamente dois anos e mencionam a existência de mais de 10 mil servidores. Ou seja… Não muitos; mas a verdadeira capacidade da empresa alimenta todas as especulações. Em janeiro, o analista Charles Ferguson, da ‘Technology Review’, sugeriu o número de 250 mil servidores utilizados no mundo inteiro.

Stephen Arnold, consultor independente e autor de ‘The Google Legacy’ (O Legado do Google, ed. Infonortics), estima que a empresa ‘dispõe de 30 centros de processamento de dados no mundo, cuja localização é mantida em segredo por motivos de segurança, e cada um deles é constituído por cerca de 10 mil servidores’.

Isso não é tudo. ‘Uma das principais atividades do Google hoje é comprar fibra ótica no mundo inteiro, para interconectar seus ‘data centers’, acrescenta Howard Rheingold, autor de ‘Smart Mobs’ (Multidões Inteligentes). Arnold confirma essa vontade de interligar a rede de ‘data centers’ e explica que hoje só uma parte ínfima dessa banda de transmissão disponível é utilizada.

Por que tanto esforço? Porque o Google deixou, ‘sem dúvida no final de 2003’, segundo Arnold, de ser uma máquina de buscas. Faltam palavras para definir sua verdadeira natureza. ‘O Google tornou-se uma plataforma de aplicativos.’

Pura ficção? Em San Francisco, o Google já está na frente do Wi-Fi gratuito (acesso sem fio à internet), oficialmente em caráter experimental. Quanto à transmissão de voz pela internet, o negócio está em andamento com o Google Talk. Isso tudo no lado tecnológico.

A arma econômica, por sua vez, é conhecida: trata-se da gratuidade, financiada pela publicidade dirigida.

Os estrategistas de Mountain View pensam com dez passos de antecipação. Mas o futuro da companhia não está decidido. As evoluções do Google são criadas em razão do comportamento dos internautas.

Mas o Google não está livre de um grande bug. No tempo que seria necessário para consertá-lo, o Yahoo!, o MSN ou outros poderiam assumir a liderança.

Este texto foi publicado no ‘Le Monde’. Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves.’

RECORD vs. GLOBO
Laura Mattos

Record estréia ‘clone’ do ‘Jornal Nacional’

‘O objetivo do novo ‘Jornal da Record’, que entra no ar amanhã em torno de 20h30: dar ao telespectador a impressão de assistir ao ‘Jornal Nacional’ nas férias de William Bonner e Fátima Bernardes. Afinal, a Record copiou o jornalístico da Globo em tudo o que pôde, mas não conseguiu o casal 20 para sua bancada.

A apresentação do ‘JR’ ficará a cargo dos ex-globais Celso Freitas e Adriana Araújo. Eles substituem Boris Casoy, que não concordou com o projeto de ‘clonagem’ e saiu da emissora no fim de 2005.

Mas não são só apresentadores que vão dar cara de Globo para o ‘Jornal da Record’. O novo cenário é uma cópia do ‘JN’, apesar de a emissora falar oficialmente que a ‘inspiração’ veio de telejornais norte-americanos. Até a Redação ao fundo, que virou marca do ‘Jornal Nacional’, estará no ‘JR’. São poucas as mudanças, como a cor da bancada e a posição dos apresentadores. Dá até para brincar de procurar as diferenças, como mostra o quadro ao lado.

A ‘clonagem’ inclui também a equipe de reportagem. Em São Paulo, apenas um repórter do antigo ‘JR’ será mantido, Celso Teixeira. Todos os outros foram garimpados na Globo, como Lúcio Sturm, Silvestre Serrano e a veterana Abigail Costa, entre outros.

E não é só na tela que o ‘JR’ tem ar global. Com o valor do alto salário de Boris Casoy, foi possível contratar também produtores e editores de telejornais da Globo.

Douglas Tavolaro, 28, diretor de jornalismo da emissora, nega o projeto de clonagem. ‘A idéia não é fazer um clone do ‘Jornal Nacional’. A gente quer ter um caminho próprio, com a cara da Record.’ Mas, em seguida, orgulha-se: ‘Montamos um time de jornalistas de primeira, todos da Globo. Entre produtores e editores, tiramos oito profissionais deles’. Segundo Tavolaro, a Record fez ‘um ataque a Pearl Harbor [bombardeio do Japão nos EUA, em 1941]’ para tentar contratar globais. ‘Convidamos vários de uma vez para dar menos tempo para a Globo cobrir as propostas.’

O ‘JR’ terá correspondentes em Tóquio, Jerusalém e em alguma capital africana, a ser definida, além de Londres e Nova York.

Igreja

Homem de confiança da Igreja Universal, que controla a Record, o jovem Tavolaro ganhou poder com a saída de Boris Casoy. Antes, o ‘Jornal da Record’ era uma ‘ilha’ na emissora, não subordinado à direção de jornalismo.

O novo diretor não quer mais um telejornal opinativo, como era com Casoy. Segundo ele, a intenção é ganhar ‘agilidade’. ‘Com todas as mudanças do jornalismo da Record, a proposta editorial do antigo ‘JR’ acabou destoando. Estava um pouco aquém dos outros telejornais, que são mais dinâmicos e modernos.’

As reportagens serão mais curtas e o ‘clone’ do ‘JN’ dificilmente começará com notícias densas e complicadas para o Hommer (personagem um tanto alienado dos Simpsons, usado por William Bonner nos bastidores para definir o telespectador médio).

O plano é aproveitar a boa fase de ‘Prova de Amor’, que antecede o ‘JR’ na programação. A novela das sete tem registrado médias perto de 20 pontos (já empatou com o ‘JN’), mas o ‘JR’ derruba para, no máximo, sete pontos. A partir de amanhã, com a repaginação, a Record quer subir a média para mais de dez, o que também facilitaria a estréia de ‘Cidadão Brasileiro’, em março. Afinal, ‘clone’ da Globo que se preze não pode deixar de ter uma novela das oito forte.’

TELEVISÃO
Daniel Castro

Show dos Stones na TV terá câmera no mar

‘A Globo empregará 14 câmeras na transmissão, ao vivo, do show que a banda inglesa Rolling Stones fará em Copacabana, no Rio, no dia 18. A principal novidade será uma câmera instalada em uma lancha ancorada no mar.

A ‘câmera marítima’ servirá para mostrar ao telespectador um ângulo inusitado: o palco visto do mar, com o público no meio.

Outras dez câmeras serão instaladas no palco ou ao redor dele. Haverá ainda duas câmeras fixas no meio da multidão e uma aérea.

Zeca Camargo será o âncora das transmissões, que terá o comando de J.B. de Oliveira, o Boninho, diretor de ‘Big Brother Brasil’.

A Globo prevê iniciar as transmissões às 22h, após a novela ‘Belíssima’. O show dos Stones deve durar uma hora e meia, com pequenos intervalos comerciais.

Aparato semelhante (mas sem a câmera no mar) será usado nas transmissões, também ao vivo, do show da banda irlandesa U2, no Morumbi, em São Paulo, dois dias depois (20/2, uma segunda-feira).

Agentes do U2 tentaram convencer a Globo a exibir o show do dia 21, mas, com o rápido esgotamento dos ingressos do dia 20, a Globo conseguiu impor sua data preferida. Para exibir o show do dia 21, uma terça, a emissora teria que mudar o ‘paredão’ de ‘BBB6’. As transmissões do U2, a partir das 22h, também serão ancoradas por Zeca Camargo, mas o diretor será Roberto Talma (dos especiais de Roberto Carlos).

OUTRO CANAL

Suspense 1 Um mistério marcará a volta da atriz Glória Pires (a Júlia) a ‘Belíssima’, o que dever ocorrer no capítulo do próximo dia 8. Antes, no episódio do dia dia 4, Nikos (Tony Ramos), invadirá a clínica em que Júlia fora internada por André (Marcello Antony). Ele entra em um quarto e vê uma mulher deitada, virada para a parede oposta. Acaba o capítulo.

Suspense 2 No episódio seguinte, na segunda, dia 6, Nikos irá virar a mulher e descobrirá que não é ‘Zúlia’ (como o grego a chama). Dois capítulos depois será desfeito o mistério: ao saber que Nikos rondou a clínica em que internou Júlia, André a transferiu para outro estabelecimento, muito mais VIP e seguro.

Hit parade 1 Nem ‘As Meninas Superpoderosas’ nem ‘O Laboratório de Dexter’. O desenho animado da TV paga mais visto durante todo o ano de 2005 foi ‘Eu Sou o Máximo’, do Cartoon Network, em suas exibições de sábado à tarde. O desenho é ‘estrelado’ por Bundfora, personagem que, como o nome diz, exibe os glúteos, além de diabólicos par de chifres e rabo.

Hit parade 2 O Cartoon domina o ranking dos programas infantis mais assistidos na TV paga em 2005. Os 13 primeiros colocados são seus _’Dexter’ foi o quarto e ‘Superpoderosas’, o sétimo. Em ascensão está ‘Os Padrinhos Mágicos’, do Jetix.’

Bia Abramo

O espaço da gastronomia na TV brasileira

‘É muito simpático que comida tenha um espaço tão divertido e variado na TV. As TVs abertas ainda marcam passo em programas convencionais, para a dona-de-casa que espia a televisão entre uma tarefa e outra, mas na TV paga há uma grande oferta de programas interessantes.

Claro: enquanto a TV aberta pensa num público para o qual cozinhar é obrigação, a TV paga pode tratar do que se chama, não sem certo salto alto, de ‘gastronomia’, em outras palavras, fala para pessoas que podem pensar em cozinhar por prazer. É uma divisão cruel: enquanto nas anamariabragas da vida se aprendem coisas práticas e rápidas, com muitos produtos industrializados, do outro lado, pensa-se nas atividades envolvendo comida como experiências criativas e refinadas.

Curiosamente, uma das maiores estrelas de programas gastronômicos, Jamie Oliver, é dos poucos que cruzam a fronteira. No ano passado, a GNT exibiu uma série de programas em que ele tenta modificar o cardápio tenebroso das escolas públicas inglesas; neste ano, em sua ‘escapada’ pela Itália, Oliver quer investigar por que os italianos comem infinitamente melhor que os ingleses.

‘A Grande Fuga de Jamie Oliver para Itália’, espécie de combinação entre ‘reality show’ e documentário, combina o olhar jornalístico e o carisma desajeitado do chef -um inglês de 30 anos, com todos os signos pop e uma desenvoltura invejável diante da câmera-, com agilidade típica de ‘TV jovem’. Mais: apesar de uma formação e experiências variadas na alta gastronomia, Oliver é, antes de tudo, um bom cozinheiro. Sua inquietude e curiosidade diante das panelas, dos ingredientes, dos utensílios é contagiante- e desmitifica a idéia de que cozinhar bem é para pedantes.

O olhar documental, quase que antropológico de Flávia Quaresma é também o grande trunfo de ‘Mesa para Dois’. Suas reportagens sobre ingredientes e culinárias regionais constituem a melhor parte do programa, que ainda tem Alex Atala desenvolvendo receitas para os temas pesquisados por Flávia Quaresma.

‘Menu Confiança’ tem Claude Troisgrois propondo pratos para os vinhos escolhidos por Renato Machado ou vice-versa -o que se chama, hoje em dia, de ‘harmonização’. Não tem jeito: a enologia continua sendo coisa meio antipática, para iniciados ou para quem consegue distinguir madeiras, chocolates e framboesas nos sabores do vinho, mas a simpatia de Troisgrois, seu excelente português e sua naturalidade diante das câmeras compensam o tom exclusivista do programa.

É outro francês -não por acaso, claro, uma vez que a cultura culinária francesa é vasta e de enorme tradição- que constitui a exceção da TV aberta. Olivier Anquier também fala de comida com propriedade, sem afetação e com um entusiasmo genuíno em ‘Tudo a Ver’.’

Alexandre Matias

Lente de Scorsese redimensiona Dylan em documentário

‘Imagine se João Gilberto virasse um Chico Buarque tropicalista, como se o herói de uma música ‘refinada’ e ‘adulta’ se virasse para as guitarras da jovem guarda e dissesse que aquilo era o futuro de sua carreira. A comparação é forçada, mas basta ver a reação dos antigos fãs de Bob Dylan ao sair de seu concerto elétrico em maio de 1966 e compará-lo com o esgar permanente de MPBistas a termos como ‘rock’ ou ‘pop’. Ao canalizar sua veia criativa na força juvenil dos Beatles, Dylan não apenas deixou a repetitiva cena folk para a história como ampliou seu alcance e importância.

Não dá nem para tentar comparações sobre o outro lado da câmera. Enquanto Dylan pode ser descrito como o híbrido mutante do início do texto, melhor evitar achar o que significaria, num parâmetro brasileiro, um dos principais momentos desta carreira ser revisto pela lente cada vez mais classuda de Martin Scorsese. Mais do que a primeira e mais importante parte da história do principal compositor vivo dos EUA pela lente do autor de ‘Touro Indomável’ e ‘Taxi Driver’, ‘No Direction Home’ (que o Telecine Premium exibe amanhã às 23h40) é a dança perfeita entre dois mestres da manipulação -e o resultado é um dos melhores documentários, não apenas sobre rock, não apenas sobre música, já feitos.

Dividido em duas partes, o filme do ano passado mostra como Robert Zimmerman saiu de uma cidade do interior para se tornar Bob Dylan, o Messias da geração folk do Village nova-iorquino. A primeira parte vem repleta de vasto material audiovisual inédito sobre o cantor, e o diretor recria geneticamente a persona Dylan, comparando maneirismos de suas influências confessas (Woody Guthrie, Hank Williams, Billie Holliday) com o jogo de cena adotado após ser descoberto.

Mas é na segunda parte que está o filé mignon, quando o compositor, encurralado com o título de voz de sua geração, puxa um cavalo-de-pau na própria história e abraça o rock’n’roll como estética, ideologia e válvula de escape. Assume as rédeas de sua vida, ciente das responsabilidades e conseqüências, sem rumo, mas livre. Dylan não tinha nada a perder. Não faltam imagens raras, entrevistas inéditas, apresentações históricas, sobras de filmes da época, em especial da turnê entre 65 e 66, boa parte registrada pelo documentarista para o também clássico ‘Don’t Look Back’, de 1968 (cenas coloridas!). Há até o célebre momento em que, numa apresentação com a banda elétrica em Manchester, um espectador chama Dylan de Judas antes de uma rendição agressiva de seu clássico central, ‘Like a Rolling Stone’, do qual saiu o título do documentário.

O crescendo dramático imposto por Scorsese em qualquer um de seus filmes ganha um enredo perfeito e uma coleção de imagens preciosas, que o deixam confortável para recriar os anos 60 norte-americanos usando Dylan como linha mestra. O resultado é mais um capítulo da história dos EUA contada por um de seus mais hábeis narradores. ‘No Direction Home’ faz parte do mesmo novo Scorsese que se reinventa como historiador e esteta. Está para os anos 60 como ‘O Aviador’ está para a Segunda Guerra Mundial e ‘Gangues de Nova York’ para a virada do século 18 para o 19.

Mas ao terminar o filme no mítico acidente de moto que tirou Dylan de circulação por oito anos em 66, o diretor suspende a tensão no ar, quase que matando seu personagem. Não precisa ser ‘dylanólogo’ para saber que Scorsese pára um pouco antes do território mais fértil e sagrado do compositor, quando ele e a Band viram as costas para o ‘Verão do Amor’ para gravar sua própria lenda, recontando a história musical dos EUA nas ainda oficialmente inéditas Basement Tapes. E caso Scorsese venha a concluir seus anos 60 fazendo uma segunda parte sobre este período… Melhor guardar os superlativos para quando (e se) isso sair.

No Direction Home

Onde: Telecine Premium

Quando: amanhã, às 23h40 (reprise na quarta, às 11h10)’

BBB NO COMÉRCIO
Adriana Mattos

Loja põe ‘Big Brother’ na casa do consumidor

‘Durante uma semana em novembro do ano passado, Alexandra Jacob Santos, 32, diretora de marketing do CompreBem/Sendas participou de uma ‘internação’ na casa de uma família de classe média baixa em Irajá, bairro da zona norte do Rio.

Com planilha na mão, acompanhou o dia-a-dia da mãe, do pai e dos dois filhos pequenos que vivem na casa. Do início da manhã até o final da novela das oito, a ‘visita’ fez parte de um projeto com ar de ‘Big Brother’.

Nele, onze executivos da rede acompanharam o cotidiano de onze famílias do Rio de Janeiro por sete dias. Comeram, beberam, levaram os filhos à escola ao lado da mãe, foram à casa do vizinho juntos ‘para apurar, da forma mais próxima possível tudo o que aquele consumidor faz, gosta e quer’, diz Santos.

Com base nas percepções, e em dados de pesquisas anteriores, fizeram mudanças na cara que a loja tem hoje. O projeto teve apoio da consultoria Data Popular, incluía um reembolso à família (próximo a meio salário mínimo) e seguia os moldes da primeira ação ocorrida em São Paulo, em novembro de 2004.

Tudo amarrado no recente processo de reestruturação das lojas Sendas e CompreBem, ambas do grupo Pão de Açúcar, a maior rede de varejo do Brasil.

‘Percebemos, por exemplo, a importância da questão do lazer e da beleza para as mulheres cariocas. Nas últimas reformas de nossas lojas do Rio, a área de perfumaria foi parar na frente do ponto-de-venda’, explicou a diretora.

Uma intervenção radical, como a da rede de supermercados, é um exemplo das novas ferramentas lançadas pelo mercado para monitorar o cotidiano do consumidor. O que se quer é entender os hábitos de compra dos clientes para acertar o bolso e a venda acontecer. Nessa tentativa, a moda agora são as ‘pesquisas atitudinais’ -que retratam aquilo que um grupo selecionado de clientes deseja comprar.

É um levantamento de ‘castas’, quase individualizado, do hábito de consumo do cliente -algo comum em mercados com um comércio varejista mais amadurecido, como Inglaterra e EUA.

‘Estamos trabalhando pesado nessa análise de dados extremamente segmentados. Não é só uma divisão de hábitos diferentes entre brancos e negros, mas, por exemplo, dos homens brancos, que ganham de R$ 10 mil a R$ 15 mil mensais, moram na zona sul, gostam de viajar, e assim por diante’, afirma Rodrigo Toni, diretor-geral da Ipsos.

Tendências de mercado

Grandes companhias, como a Ipsos, têm departamentos que acompanham de perto o comportamento do consumidor e transformam isso em estudos de tendências de mercado. Eles são vendidos para empresas como Unilever, Nestlé, Procter&Gamble, entre outras, que podem adquirir os dados coletados até diariamente.

Na ACNielsen, empresa de análise de mercado, quinzenalmente um grupo de cerca de cem pesquisadores vai a 8.500 lares em sete regiões no país (cada região compreende diferentes cidades) com um questionário na mão.

De maneira geral, fazem perguntas aos moradores da casa e escaneiam (desde outubro de 2004 usam um scanner próprio para isso) todos os produtos na despensa. Os resultados vão direto para o banco de dados da companhia. Com base nisso, conseguem ver mudanças no volume, marca ou produto adquirido nas regiões. Podem traçar análises sobre o presente e tentar fazer alguma previsão sobre o desempenho de um produto, por exemplo.

As mesmas famílias são visitadas todas as vezes pela empresa e nada se paga pela ajuda dos moradores. Há uma ‘forma de agradecimento’ que a empresa não diz qual é, mas nega ser dinheiro.

‘Recebemos pessoas dizendo que querem fazer parte do levantamento, mas a seleção é um processo estatístico e não pagamos pela ajuda’, diz Marisa Holzknecht, gerente de produto da ACNielsen. ‘O engraçado é que como esse contato é muito freqüente entre pesquisadores e a família, em muitos casos, acabam ficando amigos’, afirma Holzknecht.

Na LatinPanel/Ibope, 8.200 entrevistas são feitas a cada semana -em domicílios escolhidos em pré-seleção pelo país- com dia e hora marcados. Também há premiação. O morador que mais dados dá e permite visita integral a todos os cômodos da casa, ganha um ‘bônus’ -não se trata de dinheiro também.

Se aquele lar sai do perfil analisado -a empresa quer saber as marcas mais compradas por famílias pobres e o morador comprou um carro novo, por exemplo-, o domicílio é substituído na amostra.

Inferências podem ser feitas com base nas informações coletadas, diz Margareth Utimura, diretora comercial da LatinPanel. ‘Um lar de uma dona de casa até 29 anos é mais aberto a novidades, lançamentos. No caso dos domicílios em que a mulher tem mais de 40 anos, a posição é mais conservadora’, diz ela.

Com essas conclusões, a indústria se arma com lançamentos focados para aquilo que o público alvo quer. Nos pontos-de-venda, as degustações da indústria alimentícia usam jovens, com linguagem moderna, que tenham identificação com esse público.’

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Folha de S. Paulo

Sábado, 28 janeiro de 2006

TV DIGITAL
Daniel Castro

TV digital japonesa racha redes brasileiras

‘As redes de televisão não estão tão unidas em torno da TV digital como fizeram transparecer em carta enviada ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva no último dia 18. Pelo contrário, estão divididas.

Na carta, as redes expõem suas posições sobre o sistema a ser adotado no Brasil e apontam o padrão de modulação japonês (o BST-COFDM) como ‘o único que atende aos requisitos’ que julgam necessários para ‘garantir gratuitamente à população o serviço de melhor qualidade’.

O governo deve definir a configuração do Sistema Brasileiro de TV Digital (SBTVD) em fevereiro, mas pode adiar a decisão. Estão em disputa, além do japonês, os padrões americano e europeu.

Comunicado da Abra (Associação Brasileira de Radiodifusores, entidade liderada pela Band e que representa também o SBT e a Rede TV!) expôs fissuras entre as redes. Ontem, o SBT afirmou que não endossa o documento.

O comunicado, divulgado na quinta, respondia a uma carta de Liliana Nakonechnyj, diretora de telecomunicações da Globo, publicada no boletim on-line da revista especializada ‘Tela Viva’.

Nakonechnyj rebatia declarações de Robert Graves, presidente do ATSC (o sistema norte-americano), de que só a Globo defende o sistema japonês. Afirmava ela que todas as redes o defendem, tanto que ‘recentemente enviaram carta ao presidente Lula solicitando a adoção do sistema de transmissão ISDB-T’.

Isso permitiu interpretar que as redes querem o sistema japonês completo, o ISDB-T, e não apenas sua modulação. Um sistema de TV digital inclui também um padrão de codificação (MPEG-2, no caso do Japão) e middleware (algo como o Windows da TV digital).

A Abra entendeu a declaração como manipulação por parte da Globo. ‘As emissoras da Abra negam preferência pelo sistema japonês de TV digital’, rebateu.

‘O fato de os radiodifusores que compõem a Abra terem indicado o sistema de modulação BST-COFDM como o mais adequado não significa necessariamente adesão ao sistema japonês. A Abra não reconhece e desautoriza qualquer afirmação em contrário, ressaltando se tratar de mera especulação, fruto da má-fé de pessoas interessadas em defender interesses próprios’, afirma a nota.

Ontem, a Globo afirmou que Nakonechnyj se referia ao padrão de modulação japonês, e não ao sistema nipônico como um todo.

Mas o SBT jogou mais lenha na fogueira. Guilherme Stoliar, diretor de rede, afirmou que ‘o sistema japonês, o ISDB-T, é o melhor que se adapta ao que queremos’.

Stoliar desautorizou a nota da Abra: ‘A Abra só pode se manifestar se as três redes estiverem de acordo. Nesse caso, desconheço esse documento e não o endosso’.

A discussão, apontam observadores, não seria só uma questão de vocabulário (a confusão entre sistema e padrão de modulação). Globo e o SBT gostariam, sim, de adotar todo o ISDB-T, avaliam.

Por trás disso também está um estremecimento nas relações entre SBT e Band, por causa da retirada do canal pago BandNews da TV Alphaville, operadora do Grupo Silvio Santos (leia mais na coluna ‘Outro Canal’, na Ilustrada)

O racha fortalece os defensores do adiamento da definição do SBTVD. O sistema deverá ser híbrido, com modulação importada e softwares nacionais. A posição dominante é de que a TV digital apenas incremente a atual (a analógica), com alta definição, recepção em celulares e interatividade.’

POLÍTICA CULTURAL
Antônio Gois

Vazamento motiva saída de Herkenhoff

‘Com evidente desconforto, o diretor do Museu Nacional de Belas Artes, Paulo Herkenhoff, disse ontem que um dos motivos que o fizeram pedir demissão do cargo foi o vazamento para a imprensa de detalhes de um projeto do arquiteto Paulo Mendes da Rocha para reforma do museu. Segundo ele, faltou ‘ética ao corpo médio’ do MinC (Ministério da Cultura), que usou a informação como ‘moeda de troca’ para ganhar prestígio com jornalistas.

Ele não citou nomes, mas poupou o ministro Gilberto Gil, a quem elogiou afirmando que foi o ministro que mais se empenhou para resolver os problemas do museu. Também agradeceu ao secretário-executivo do MinC, Juca Ferreira. Herkenhoff alegou ainda razões de saúde -acabou de fazer uma operação de catarata- para deixar o cargo.

O diretor demissionário falou com empolgação do projeto de Mendes da Rocha, cuja proposta seria a de ampliar o espaço livre na entrada do museu, no centro do Rio. Hoje, o prédio é tomado por salas que diminuem o tamanho das galerias. Pelo projeto, que ainda está em fase de discussão, haveria um espaço mais amplo na entrada para o visitante.

‘Isso ainda estava em fase de discussão. Estávamos esperando o momento certo para debater o projeto com todos. O modo como essa notícia vazou [para a imprensa] está entre as coisas que me fizeram pedir demissão. O corpo médio do MinC tem que ter mais ética. Não admito que se use informações do museu como moeda de prestígio. Não sou ingênuo e sei que a notícia é usada como moeda de troca de poder com jornalistas’, disse Herkenhoff.

Apesar do evidente desconforto, ele foi só elogios ao ministro Gilberto Gil: ‘Acho que desde o fim da era Getúlio Vargas, ele foi o ministro que mais prestigiou o museu, que estava numa situação de precariedade. Quando relatei essa situação, ele imediatamente me chamou em seu gabinete para resolver o problema’.

‘Tenho boca e penso’

Herkenhoff justificou sua saída também afirmando que havia chegado ao seu limite. ‘Eu já cheguei ao limite do que eu posso dar e ao limite do que o museu poderia ser beneficiado com a minha presença. Este é o momento de sair porque é preciso se adaptar a novas diretrizes, e eu não tenho mais contribuição a dar como diretor. Continuarei a trabalhar pelo museu do lado de fora.’

Ele disse deixar seu cargo finalizando um processo de ampliação do acervo do museu, que, segundo ele, era de 15 mil obras até 2002 e que caminha hoje para 18 mil. Além disso, afirma que está completando o processo de higienização do ambiente, fundamental para evitar o desgaste das obras de artes por causa de fungos.

Afirmou ainda estar recompensado pelo ‘abraço’ público que recebeu de artistas e de Juca Ferreira, que está como ministro interino no momento, mas finalizou a entrevista com um recado: ‘Tenho boca e penso. Não quero que digam nada por mim’.

A partir de segunda, a atual coordenadora técnica do MNBA, Mônica Xexéo, assume a direção da instituição. Herkenhoff é um dos principais críticos de arte brasileiros. Ex-curador adjunto do MoMA (Museum of Modern Art), em Nova York, assinou uma das curadorias brasileiras de maior respaldo crítico internacional, a da 24ª edição da Bienal de São Paulo (1998), conhecida como a ‘bienal da antropofagia’.’

GRAMPO NOS EUA
Iuri Dantas

Maioria dos americanos apóia grampo ilegal

‘O programa de espionagem de comunicações telefônicas e eletrônicas desenvolvido pelo presidente George W. Bush e conduzido pela NSA (Agência de Segurança Nacional) tem a confiança de mais da metade da população norte-americana, se os objetivos forem monitorar pessoas suspeitas. Ao mesmo tempo, causa preocupação com a possibilidade de prejudicar liberdades civis do país em 48% da sociedade.

A avaliação consta de pesquisa realizada de 20 a 25 de janeiro pelo jornal ‘The New York Times’, em parceria com a rede de TV CBS, divulgada ontem.

Indagados sobre o programa de espionagem como arma do governo para evitar novos ataques terroristas, 53% dos entrevistados aprovaram o programa. Sem a menção a terrorismo na pergunta, 50% dos pesquisados desaprovaram a interceptação telefônica sem autorização judicial.

Quando a pergunta se referia à perda objetiva de liberdades civis como resultado de medidas adotadas pelo governo Bush na luta contra o terrorismo, 64% disseram ter alguma ou muita preocupação. Outros 17% disseram não estar muito preocupados, e apenas 18% responderam não ter preocupação nenhuma.

Segundo o jornal, é cedo para dizer se a contra-ofensiva lançada por Bush nesta semana produziu resultados na opinião pública. Desde segunda-feira, autoridades do governo e o próprio presidente se revezaram em microfones para classificar a espionagem como ‘programa de vigilância de terrorismo’, como forma de incutir na sociedade a noção de que o projeto visa apenas pessoas suspeitas.

Além de Bush, o secretário da Justiça, Alberto Gonzales, e o vice-diretor da NSA, Michael Hayden, falaram sobre o tema.

Na prática, porém, é difícil apoiar a ofensiva de relações públicas da Casa Branca, primeiro porque o programa é sigiloso e os detalhes, desconhecidos, uma vez que se trata de assunto de segurança nacional.

Críticos ressaltam ainda que uma lei de 1978 permite o monitoramento de ligações originadas ou recebidas por moradores dos EUA desde que o governo consiga uma autorização judicial concedida por um tribunal secreto. A Casa Branca diz que o projeto é legal e que a consulta à corte retardaria os monitoramentos.

Quando a pergunta foi feita à população, 68% dos entrevistados disseram que apoiariam um programa de monitoramento de pessoas consideradas suspeitas pelo governo. Mas 70% responderam ser contra a vigilância de americanos comuns.

Discurso

Os números serão lidos e relidos pela equipe de Bush nos próximos dias, quando a Casa Branca prepara a versão final do discurso do Estado da União, feito pelo presidente no Congresso todos os anos. Previsto para a noite de terça-feira, o episódio vem sendo tratado pelo governo como oportunidade de retomar a agenda política e a ofensiva no noticiário.’

BAND vs. GLOBO
Daniel Castro

Para Band, Globo é arrogante e monopolista

‘Depois da Record, agora é a Band. Em editorial no ‘Jornal da Band’ de anteontem, a emissora acusou o grupo Globo de agir de forma monopolista e arrogante.

O editorial foi provocado pela TV Alphaville, operadora de TV a cabo do Grupo Silvio Santos em Barueri (Grande SP), com 8.000 assinantes. No início do mês, a TV Alphaville se desfiliou da NeoTV (fornecedora de programação alinhada à TVA) e se afiliou à Net Brasil, distribuidora da Globo. Assim, o canal de notícias BandNews deu lugar à GloboNews.

Na última quarta, o Grupo Bandeirantes conseguiu uma liminar na Justiça obrigando a TV Alphaville a voltar, a partir de hoje, a carregar o canal BandNews.

O editorial da Band se refere à liminar. Diz que a TV Alphaville agiu ‘sob pressão de outro grupo [Globo]’, o qual teria ‘vocação irresistível’ para ‘o monopólio’. ‘Esse grupo _campeão de novelas e de privilégios de todo tipo_ demonstra não ver limite para sua arrogância’, afirma. Encerra com uma ameaça: ‘A lição que recebeu da Justiça [a liminar] é um sinal de que todo abuso tem morte certa. Cuidado, donos da Globo’.

A TV Alphaville informou que a mudança para Net Brasil se baseou em pesquisas e em audiência e que foi feita em ‘benefício dos assinantes’. A Net Brasil disse ‘que é fornecedora de serviços e, como tal, foi procurada pela TV Alphaville, solicitando filiação’. A TV Globo não comentou.

OUTRO CANAL

Hospital 1 Segundo a Globo, a ausência de Walter Casagrande Jr. na transmissão de Palmeiras x Deportivo de Tachira, pela pré-Libertadores, quarta, não teve nada a ver com as críticas que o comentarista fez a Galvão Bueno em um programa de rádio em dezembro. Casagrande foi substituído por Sérgio Noronha.

Hospital 2 Casagrande, conforme a Globo, está internado desde terça-feira, com hepatite. Em dezembro, na Kiss FM, o comentarista disse que Galvão Bueno se comporta como ‘uma estrela’, que grita com técnicos de televisão e que já tinha pensando em pedir demissão ‘umas cinco vezes’ por causa dele.

Divórcio Devido à baixa audiência (cinco pontos), Silvio Santos resolveu acabar com as edições diárias de ‘Casamento À Moda Antiga’. A partir da semana que vem, o ‘reality show’ só irá ao ar às quartas-feiras. Será substituído pelo ‘game’ ‘Family Feud’.

Insinuação Descontente no SBT, Hebe Camargo mandou interlocutores sondarem o interesse da Record em seu passe.

Reforço A Globo anda forçando a mão na tentativa de movimentar o ‘Big Brother Brasil 6’, que andava num clima de acampamento juvenil. Pedro Bial tem comentado na frente de todos os participantes assuntos particulares de alguns deles e o álcool tem sido abundante nas festas.’

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