Quarta-feira, 19 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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E-NOTíCIAS > MÍDIA FRANCESA

France Monde nasce sob o signo da discórdia

Por Leneide Duarte-Plon, de Paris em 04/03/2008 na edição 475

No princípio era TV5 Monde, RFI (Radio France International) e France24. Mas aí veio Nicolas Sarkozy e resolveu este ano reunir essas três mídias sob uma holding que batizou de France Monde. Mas não contou com os acionistas estrangeiros (Bélgica, Suíça e Canadá) da TV5 Monde, que não gostaram nem um pouco de serem engolidos por uma holding que tem França no nome, revelando indisfarçáveis pretensões hegemônicas.

Como escreveu um jornalista, os sócios da França na TV5 Monde têm o direito de dizer: ‘Francófila, ok, Sarkófila, não, muito obrigado’. Belgas, suíços e canadenses não gostaram nada de ver o nome da França numa empresa que vai contar, mesmo que minoritariamente, com capital de seus países. Eles ameaçaram até mesmo se retirar de TV5 Monde, fundada em 1984 e vista em 202 países por mais de 25 milhões de telespectadores.

TV5 Monde, RFI e France24 tinham uma coisa em comum: todas difundiam da França para o mundo. Mas não pertenciam todas ao país de Voltaire. A TV5 Monde é multinacional, seus programas são em francês, mas vêm também dos países francófonos acionistas. A RFI é totalmente pública, está ligada aos ministérios da Cultura e das Relações Exteriores e difunde programas de rádio em diversas línguas para o mundo todo, inclusive o Brasil. E o France24 – um canal de notícias 24 horas em francês, inglês e árabe que tem apenas um ano de existência – é fruto de um casamento misto: 50% do seu capital é público (da France Télévisions, holding da TV pública francesa que tem vários canais) e 50% pertencem à TF1, a maior audiência da televisão francesa, privatizada em 1987, no governo Mitterrand.

Nomeação escandalosa

Com o anúncio da criação de France Monde, Nicolas Sarkozy conseguiu descontentar os seus parceiros da TV5 Monde e ainda por cima semear o pânico entre os jornalistas dos três veículos, que temem um grande enxugamento (leia-se desemprego), agora eufemisticamente carimbado com o nome de sinergia. Jornalistas especializados devem se transformar em ‘polivalentes’ e um só fazer o trabalho de dois ou três. ‘Modernidade’ oblige. Prevê-se um forte movimento sindical de reação à implantação desse modelo de jornalismo no qual o jornalista não é chamado a analisar, a refletir, mas é um mero formatador de eventos. Quanto menos crítico, melhor.

O anúncio do big boss de France Monde – essa nova entidade que pretende marcar mais ainda a presença da França e da língua francesa no mundo da mídia globalizada – foi feito há pouco mais de uma semana e já veio cercado de polêmica : o número um é Alain de Pouzilhac, ex-presidente e diretor-geral do France 24, vindo do mundo da publicidade, e não do jornalismo, promovido agora a presidente e diretor-geral da nova holding. Sua vice-presidente é ninguém menos que Christine Okrent, a mulher do ministro das Relações Exteriores da França, Bernard Kouchner.

Os jornais de esquerda denunciaram a nomeação de Okrent como escandalosa, algo que fere a ética mais primária, pois a mulher do ministro que comanda a política externa vai comandar a mídia francesa que levará a imagem da França para o mundo. Que nome dar a isso? Mistura de gêneros, conflito de interesses, controle da informação pelo presidente francês? Ou tudo isso ao mesmo tempo?

Ameaça à isenção

O jornal Libération fez uma capa com a foto de Christine Okrent e o título: ‘L’affaire Okrent’. Na matéria, o Libé rememorava todas as ligações perigosas de Nicolas Sarkozy com os grandes patrões da imprensa francesa para mostrar que mesmo o audiovisual público como France Monde (que não é totalmente público, pois o France24 tem capital privado) vai ficar sob a tutela de pessoas próximas ao presidente.

O Libération não deixou de lembrar que a cobertura da política externa francesa – das viagens, das declarações e de todas as decisões tomadas pelo Quai d´Orsay – passaria pelo crivo da própria mulher de Bernard Kouchner. Mesmo que o governo tenha tido o cuidado de subordinar a nova holding ao gabinete do primeiro-ministro, e não ao Quai d´Orsay, como era a TV5 Monde, a nomeação de Okrent é vista como uma ameaça à isenção da informação.

A polêmica apenas começou.

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Jornalista

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