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Sexta-feira, 17 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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Grandes contadores de histórias

Por Rodrigo Savazoni em 06/05/2008 na edição 484

Se você navega por sites gringos, com o olho condicionado, encontra reportagens de altíssima qualidade. Isso é resultado da explosão do jornalismo digital nos últimos dois anos. Texto, áudio, vídeo, foto, mashups, mapas reunidos por criativos jornalistas resultam em histórias contadas de um jeito que jamais se viu. Alguns chamam de multimídia. Eu gosto da expressão hipermídia.

No Brasil, esse processo é mais lento. Pouca gente, até agora e infelizmente, apostou em boas reportagens digitais. Há apenas um centro de excelência, montado no Jornal do Comércio em Recife. Quando estive na direção da Agência Brasil, tentei construir algo. Às vezes, surge coisa interessante no G1. São exceções. A regra é produzir com pouco orçamento materiais quase amadores.

Daí o pioneirismo da Garapa, produtora de jornalismo multimídia montada por Paulo Fehlauer, Leo Caobelli e Rodrigo Marcondes. São poucos os trabalhos disponíveis no site do coletivo. Mas esse pouco já permite dizer que estamos diante de grandes contadores de histórias. Em especial, destaco o trabalho de Caobelli sobre a cobertura do caso Isabella pela imprensa.

Aperfeiçoar a linguagem

A inspiração da Garapa é o MediaStorm, de Brian Storm, ex-diretor da MSNBC que resolveu apostar seus dotes e dólares na construção de uma produtora digital para a rede. O MediaStorm tem trabalhos publicado por veículos da grande mídia americana, entre os quais a própria MSNBC, o Washington Post e o Los Angeles Times.

É impossível não se emocionar com trabalhos como o Blodlines, finalista do Emmy, ou o sensacional Kingsley Crossing, vencedor do Emmy. Na época do vídeo fácil, do YouTube, o MediaStorm tem apostado em trabalhos de altíssima qualidade, baixo orçamento e muita criatividade. E tem contribuído para ampliar os horizontes de quem trabalha contando histórias no mundo digital.

Fehlauer, Caobelli e Marcondes resolveram entrar nessa briga. Por enquanto, estão fazendo na raça. Logo-logo, espero, alguém vai sacar e vai bancar para eles condições de seguirem aperfeiçoando essa linguagem. Leiam, abaixo, uma entrevista que fiz com eles por e-mail. As respostas foram enviadas pelo Fehlauer. Leia mais também no blog Em Busca da Palavra Justa.

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Quando a Garapa foi fundada, por quem e qual a idéia de vocês com isso?

Paulo Fehlauer – Acho que ainda estamos nesse processo, descobrindo uma linguagem. A Garapa foi meio que gerada, espremida mesmo, quase como uma vontade coletiva dos três sócios, que colidiu em um momento muito oportuno. Voltei de Nova York com muita vontade de explorar esses novos caminhos do jornalismo, tendo participado um pouco desse debate por lá. Chego ao Brasil e encontro o Leo, que trouxe o Rodrigo de Londres, pensando em fazer algo na mesma linha. Somos três ‘garapeiros’: Leo Caobelli, Paulo Fehlauer e Rodrigo Marcondes, três jornalistas-fotógrafos indignados com a mesmice do nosso jornalismo.

Falem um pouco das influências. Dá para perceber que Brian Storm e sua MediaStorm são referências de vocês. Quem mais?

P.F. – A MediaStorm é definitivamente uma inspiração. Pelo que sabemos, é a única empresa dedicada à produção desse tipo de conteúdo. É incrível que eles consigam fornecer ao mercado editorial peças com mais de 10 minutos de duração, um tempo relativamente longo para a internet. As agências VII Photo e Magnum têm trabalhos belíssimos, mais ligados à tradição fotográfica. Acho que também somos influenciados por uma tradição de documentaristas, fotógrafos e cineastas e, por que não, romancistas, cronistas. No fim das contas, queremos contar histórias, e estamos explorando os meios que nos parecem mais interessantes.

Vocês partem da fotografia para o exercício da narrativa hipermidiática. Esse tem sido um caminho natural nos Estados Unidos. O último Pulitzer premiou uma fotógrafa que fez um trabalho, fantástico, audiovisual. É esse o caminho para os fotógrafos agora?

P.F. – Não sei se para os fotógrafos de forma geral. Tem muita gente que não quer saber disso, mas achamos que há um espaço a ser ocupado. Nos EUA, há até uma certa pressão sobre os fotojornalistas. Muitos são obrigados pelos jornais a levar câmeras de vídeo e gravadores de áudio para a rua. Por outro lado, ainda tem muita gente que não abre mão do filme. Mas não há dúvida que a internet abriu muitos caminhos e há uma geração de fotógrafos e jornalistas que quer explorá-los. Há uma linguagem a ser desenvolvida, e um público a ser formado – público esse, é bom lembrar, que se habituou rapidamente aos vídeos curtíssimos do YouTube e congêneres. Com a internet, os formatos se diluíram muito, fica difícil delimitar os conteúdos. E, se os campos se cruzam, é natural que a fotografia se ligue a outros formatos. As ferramentas são cada vez mais acessíveis, e o fluxo de informação cada vez maior. Acho que a idéia é achar formas de expressão que se encaixem nesse fluxo, e acho que essa é a nossa busca.

Qual a sua avaliação do trabalho realizado pelos veículos jornalísticos online? Você acha que os grandes abrirão espaço para esse tipo de trabalho?

P.F. – O mercado brasileiro é bem diferente do norte-americano, é bem menor, bem mais concentrado, tradicional, familiar, é até injusto comparar. Pelos contatos que tivemos recentemente, percebemos que essa abertura deve começar pelos veículos essencialmente online, como os grandes portais. A estrutura dos grandes conglomerados da mídia impressa ainda é arcaica, conservadora, pouco atenta às mudanças. É impensável, por exemplo, uma integração de redações como aquelas por que têm passado os grandes jornais dos Estados Unidos. Aqui, impresso é impresso, online é primo pobre e a lógica nesse caso costuma ser a do máximo lucro com mínimo investimento. Mas em algum momento essa abertura vai acontecer. Grande parte do público desses veículos tem acesso à banda larga e há um potencial de geração de receita com publicidade, ainda pouco explorado. Quando o primeiro grande veículo investir, a concorrência vai ter que correr atrás. Acreditamos que, em um momento não muito distante, a produção online vai se dissociar bastante do conteúdo impresso.

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