Segunda-feira, 25 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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Há uma bolha no ar

Por Pedro Doria em 05/05/2015 na edição 849
Reproduzido do Globo, 28/4/2015

Há uma conversa em curso no Vale do Silício: ela trata de uma bolha econômica. Por lá, ninguém fala sobre bolhas à toa. O estouro da última foi muito duro. Ocorreu em março de 2000 e lançou os EUA numa pequena recessão. Na indústria da tecnologia, porém, não sobrou quase nada. Cenário de terra arrasada. Não se investiu em praticamente ninguém nos cinco anos seguintes. Mas, aí, a coisa começou lentamente a se aquecer de novo.

No ano de 2014, segundo Fred Wilson, investidores puseram quase US$ 50 bilhões em empresas de tecnologia. Apenas um ano antes, o valor investido fora de US$ 30 bilhões. O valor cresceu 61%. Wilson é um veterano do ramo de colocar dinheiro em empresas nascentes do Vale. Vive disso. Estava lá no tempo da grande bolha. E ele observa outra diferença nos números comparados entre 2013 e 14. Em 2013, ocorreram 4.193 investimentos. No ano seguinte, 4.356.

Ou seja: embora a quantidade de dinheiro novo colocado em empresas tenha crescido imensamente, o número de negócios se manteve estável. Empresas que tinham dificuldade de arrecadar dinheiro persistem com a mesma dificuldade. Empresas nascentes que já tinham algum dinheiro se mantiveram mais ou menos onde estavam. Aquelas que já haviam conseguido muito ganharam mais. O mercado está concentrando seus recursos.

Má ideia.

Uma diferença marca o momento atual e aquele de há quinze anos. As primeiras empresas pontocom, do tempo exuberante da internet, eram quase todas negociadas na Bolsa de Valores. O enorme risco estava distribuído entre fundos de pensão, bancos, pessoas físicas, outros. Quando quebrou, levou muita gente junto. Agora, com raras exceções, estas empresas de internet não abriram capital. Os investidores são poucos.

Os números revelam outro ponto. Se investidores estão concentrando seu dinheiro em poucas empresas é porque elas precisam deste aporte e estão gastando rápido. Provavelmente jamais conseguirão fazer lucro. Mas buscam escritórios caros, os melhores programadores, ações de marketing ousadas. Representam, muitas vezes, apps populares que ainda não descobriram como dar retorno a quem paga a conta.

Se esta nova bolha estourar, a economia americana ficará bem. Só uma meia dúzia quebra. Mas o impacto no Vale do Silício pode não ser pequeno. Afinal, a fonte de recursos dos jovens empreendedores com novas ideias secará.

Virá a hora da xepa. Como no fim de feira. Uma penca de empresas com tecnologia nova no bolso, sem um tostão, e dificuldades de pagar os salários do mês. Investidores que puseram dez milhões tentando salvar ao menos um quê. Aí entrarão os pesos pesados. Quem tem dinheiro de sobra em caixa: Apple, Google, Facebook. Comprarão o que der. Uns médios sobreviverão independentemente. O resto sumirá do mapa.

Se hoje o cenário é de concentração de recursos em algumas poucas empresas, amanhã provavelmente será de outra concentração: a de patentes e tecnologia nas mãos das três gigantes.

A partir daí virá um período de seca. Haverá engenheiros de software desempregados, trabalhando nos porões de suas casas por tostões. Um ou outro vai ter uma ideia boa. Amargarão uma vida difícil, mas com o tempo o dinheiro volta. Novas empresas nascerão. O Vale do Silício é como um grande experimento em Evolução Natural. Há momentos de mania e de depressão, mas mutações ocorrem gerando novos seres. O perigo é só um: gigantes ficarem mais gigantes. Mas a Evolução também sabe resolver esse detalhe.

***

Pedro Doria, do Globo

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