Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

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Humilhação pública

Por Pedro Doria em 28/04/2015 na edição 848
Reproduzido do Globo, 21/4/2015; intertítulo do OI

Era quase Natal: 20 de dezembro, 2013. Justine Sacco estava de férias, prestes a entrar em um avião no aeroporto de Heathrow, próximo a Londres. Seu rumo, a África do Sul, onde tinha família. Pensou em como o continente vive uma endemia de Aids. Em como tantos a sua volta sentem-se imunes à doença, como se fosse um problema de lá longe. Justine estava num clima ácido. E aí não pensou, apenas abriu o Twitter e disparou. “Indo para a África. Espero não pegar Aids. Só brincando. Sou branca!” Era uma piada de gosto duvidoso, fazia sentido em sua cabeça e apenas nela. Mas Justine tinha 175 seguidores na rede social. Só gente conhecida. Embarcou, pois, em um voo de onze horas.

Acaba de sair, nos EUA, um livro instigante. Chama-se “So You’ve Been Publicly Shamed”, algo como “E aí você foi humilhado em público”. Quem o assina é o escritor galês Jon Ronson, que trata, bem, dos ritos de humilhação da vida em rede. Justine Sacco é uma das personagens mais vívidas.

Poucos minutos após enviado o tweet, um dos amigos de Justine o encaminhou para Sam Biddle, repórter do site de fofocas Valleywag, versão Vale do Silício do megablog Gawker. Biddle retuitou para seus 15 mil seguidores. Justine era assessora de imprensa para uma empresa da internet. A onda foi rápida. Dos comentários iniciais de repúdio ao aparente racismo a pedidos de sua demissão imediata a ameaças de estupro. #HasJustineLandedYet? virou a hashtag mais popular do Twitter naquele dia. Ataques intensos, violentos, juntavam-se. No avião, a moça sequer desconfiava de que já era tema de matérias curtas em inúmeros sites, inúmeras línguas, e que se tornara o principal assunto da internet. No aeroporto, tinha gente esperando para recebê-la.

Criação conjunta

Justine perdeu o emprego. Era uma carreira sólida. Evaporou. Foi o de menos. Depressão, fobia, passou um tempo trancada em casa. Busque seu nome no Google, coisa que muitos fazem ao conhecer alguém, e lemos que se trata duma racista rábica. Não encontra amigos, quanto mais namorado. Pode ter feito uma piada particularmente infeliz, mas não é racista. Lentamente, foi saindo de casa. Após um ano, encontrou emprego. Paga menos, mas vai indo. A recuperação é lenta.

O argumento de Ronson está embutido na história de Justine. Durante um dia, a massa da internet voltou-se contra alguém que fez um comentário infeliz. Ninguém a conhecia, ninguém sabia sua história. A vida da moça foi destruída. Não é caso único. Pelo contrário. Numa sociedade inteiramente livre e sem regras como a construída na internet, histórias estupendas surgem. Assim como histórias de barbárie.

Por trás da ideia de Justiça está o conceito de que a punição não deve ser ser cruel, que deve ser proporcional ao malfeito. Houve o tempo em que humilhação pública fazia parte do repertório de penas legais. Mulheres infiéis, por exemplo, recebiam na pele a marca incandescente da prostituta. Este tipo de punição foi abandonada nos EUA, Ronson descobriu, porque no início do século XIX avaliaram que era castigo cruel demais. Algumas chibatadas seriam mais leves.

A internet é também uma criação conjunta de todos nós. Alguns dos críticos do livro alegam que, em verdade, o que ocorre é democracia plena em ação. O povo tem voz real para questionar. Só tem um jeito. Da próxima vez que ocorrer, cada um de nós terá de decidir o que é civilizado fazer.

***

Pedro Doria, do Globo

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