Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

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Internet e eleições na Espanha

Por Vera Chaia em 12/02/2008 na edição 472

Os estudos comparativos na área de Comunicação Política ganham importância à medida em que ocorrem transformações nas democracias representativas ocidentais, principalmente ao se considerar a centralidade dos meios de comunicação que afetam o sentido desse processo. Nessa situação, os especialistas em marketing político, pesquisas e estratégias de comunicação tornam-se imprescindíveis em qualquer campanha política. Portanto, o reconhecimento do impacto dos meios de comunicação e a incorporação de novas estratégias na política devem ser compreendidos como uma contingência comum às democracias ocidentais. Entretanto, deve-se considerar que cada país conduz as mudanças de procedimentos políticos de maneira diferenciada, pois as inovações adotam formas diferentes de acordo com a cultura política, as instituições e o sistema de meios de comunicação vigentes em cada país.

Estamos tendo a oportunidade de acompanhar as eleições presidenciais espanholas, que se realizarão em 9 de março de 2008. O acompanhamento de opiniões de especialistas na área de Comunicação Política, noticiário de jornais espanhóis e sites da internet têm permitido conhecer, com maior profundidade, questões referentes às eleições espanholas e constatar diferenças e semelhanças entre as campanhas eleitorais no Brasil e na Espanha [estou na Espanha com uma bolsa de pós-doutorado, através do projeto binacional ‘O uso das novas tecnologias e a ação política no Brasil e na Espanha’, entre a PUC-SP e a Universidad Rey Juan Carlos e financiada pela CAPES/BR e MECD/ES].

Usuários da internet

As similaridades entre a Espanha e o Brasil podem ser encontradas nas formas das inovações em comunicação política e nas suas conseqüências institucionais. As diferenças entre os dois países também devem ser destacadas e, nesse sentido, podemos arrolar alguns aspectos que merecerão uma análise mais aprofundada para compreender melhor as especificidades das campanhas eleitorais. Primeiro, em relação à forma de governo, o Brasil se constitui numa República, enquanto na Espanha temos uma Monarquia. O sistema de governo é caracterizado, no Brasil, como uma democracia representativa presidencialista, enquanto na Espanha temos uma democracia representativa parlamentarista. No decorrer do século 20, tanto a Espanha como o Brasil vivenciaram regimes autoritários, com repressão e resistência. As transições políticas foram semelhantes em alguns aspectos, principalmente no estabelecimento de pactos e na transição negociada para que os militares abandonassem o poder. O Brasil é uma República Federativa com língua e cultura mais unificada que a Espanha, caracterizada por regiões que se diferenciam pela língua, cultura e questões políticas. E, finalmente, o sufrágio é obrigatório no Brasil, enquanto na Espanha é facultativo.

Em relação aos internautas, os dados também se diferenciam no Brasil e na Espanha. Segundo o site http://internetworldstats.com/, acessado no dia 07/01/08, a população espanhola é de 41.895 milhões e os usuários da internet são 14.445 milhões, perfazendo 34,5% da população. No Brasil a população perfaz 186.771 milhões, enquanto os usuários da internet são 42.600 milhões, representando uma porcentagem de 22,8% da população.

A Igreja na campanha

Na Espanha, o confronto eleitoral na mídia está se dando basicamente entre três candidatos: José Luis Rodríguez Zapatero, candidato à reeleição, do PSOE (Partido Socialista Espanhol), Mariano Rajoy, do PP (Partido Popular), e Gaspar Llamazares, da IU (Izquierda Unida). Embora a campanha eleitoral obrigatória na televisão se limite a 15 dias, as aparições dos candidatos estão acontecendo há alguns meses nos telejornais, nas entrevistas e no noticiário impresso e, principalmente, na internet.

Os jornais possuem um dinamismo próprio e se configuram como intelectuais orgânicos, conforme conceito de Antonio Gramsci, já que se posicionam e se identificam abertamente com posições políticas. Por exemplo, os jornais El País e Público [jornal criado em 2007] que se situam numa posição mais à esquerda, enquanto que os jornais ABC, El Mundo e La Razón se situam mais à direita. Todos possuem sites na internet e atualizam suas notícias constantemente.

Como na Espanha o sistema é parlamentar e as listas dos candidatos são estabelecidas pelo partido político, segundo as conveniências dos grupos que detêm poder na estrutura partidária, observamos uma disputa política direta entre os setores mais conservadores do PP, partido de Mariano Raroy, que não incorporaram nas listas partidárias lideranças políticas de destaque.

Outro aspecto que deve ser destacado neste processo eleitoral é a presença constante e atuante da Igreja católica espanhola, que se posiciona e organiza mobilizações contra o aborto, a regulamentação dos casamentos entre homossexuais, e a laicização da sociedade espanhola. O setor que predomina na Igreja católica é o mais conservador e que afronta diretamente o processo de liberalização e democratização e o aumento de impostos, medidas implantadas no governo de José Zapatero, do PSOE.

Receber propostas e agüentar insultos

O jornal Público, que se posiciona contra a Igreja católica, destaca na manchete do dia 04/02/08 – ‘Cañizares mete a Dios en campaña’, segundo depoimento do cardeal Antonio Cañizares de Toledo ‘Dios aprueba nuestras actuaciones’, em nota da Igreja orientando o voto a favor do PP. Em confronto declarado com a Igreja, a vice-presidenta María Tereza Fernández de la Vega fez pronunciamentos críticos à atuação do clero espanhol, tendo realizado uma visita protocolar ao papa Bento 16 no Vaticano, onde defendeu abertamente a separação entre Igreja e Estado.

Os debates políticos entre os candidatos à Presidência da Espanha já foram agendados e o mais interessante é que está havendo uma mobilização a favor de um debate presidencial a ser realizado pela internet. Neste sentido, foi criado um site para que os eleitores se posicionem pela realização deste confronto político – www.porundebateeninternet.es . O setor que mais exige esse debate, além dos portais na internet, é composto por espanhóis residentes no exterior e que querem acompanhar as posições dos respectivos candidatos para decidirem seu voto.

Em relação aos candidatos, estamos acompanhando uma corrida ao uso das novas tecnologias para conquistar os internautas e os eleitores mais jovens, usuários habituais das novas tecnologias. Os presidenciáveis se apresentam em blogs, fotoblogs e fóruns, entre outros instrumentos. O candidato Mariano Rajoy, do PP, ‘explota en la Red su lado ‘campechano’.’ ‘A través de su página – – Mariano Rajoy 2008, trata de ofrecer un lado más humano, menos crispado’, segundo o jornal Público (21/12/07).

Gaspar Llamazares é candidato à Presidência pelo partido IU e sua página –– é original ao se aproximar das comunidades on line MySpace e FaceBook, trabalhar com vídeos inseridos no YouTube, escrever um blog e possuir um avatar no Second Life. Um dos itens que mais se diferenciam é o link ‘O candidato responde’: Llamazares responde, com imagem e voz, às perguntas dos internautas, que escrevem e teclam para ouvir as respostas. O próprio candidato aparece e responde à pergunta. Para que esse esquema funcione, a IU gravou mais de 70 respostas com o candidato. Llamazares foi ‘clonado’ em forma de desenho e aparece em vários momentos na web, gozando os outros dois candidatos – Zapatero e Rajoy. Para os construtores da web e para os marqueteiros que comandam a sua campanha eleitoral, ‘hay que ‘captar la atención’ para garantizarse uma ‘alta repercusión mediática’.’ Segundo o jornal Público, ‘en IU parecen comprender que la Red no es una televisión pequeña, sino una herramienta de comunicación entre personas donde se viene a charlar, debatir, recibir propuestas y soportar insultos’ (29/01/08).

Melhor informação e participação

Num artigo denominado ‘Más ciberdemocracia para la campaña’, Juan Varela, jornalista e autor do blog www.periodistas21.com, comenta que os meios digitais se uniram tendo como objetivo solicitar um debate eleitoral pela internet e pelo YouTube. Para o jornalista, ‘el PP experimenta lo difícil de controlar la política y la participación en internet, donde la democracia deliberativa se ha desarrollado con más fuerza que en ninguno de los medios conocidos’. O programa eleitoral do PSOE possui mais iniciativas sobre a sociedade de informação e as novas tecnologias e está disponível na internet – http://www.lamiradapositiva.es/, além de contar com apoio de comunidades no FaceBook. A imagem continua sendo fundamental em uma campanha eleitoral, por isso a importância dada aos vídeos do YouTube e aos vídeos de modo geral na internet Público (20/01/08).

As redes de televisão também estão cientes da importância das novas tecnologias, tanto que as principais cadeias de televisão estão fazendo uso da internet. As redes TVE, A3 e La Sexta recolhem propostas na internet para suas entrevistas com os candidatos. No site http://www.youtube.es/elecciones08, criado por RTVE e YouTube, os internautas registram suas perguntas para os candidatos em vídeos de 30 segundos: ‘Tengo una pregunta para usted’. As perguntas mais interessantes são colocadas no ar pela TVE e dirigidas aos candidatos. Os políticos também poderão, caso queiram, interagir com os cidadãos no mesmo canal. ‘La experiencia de ‘Tengo una pregunta para usted’ nos ha demostrado que los ciudadanos aportan frescura y una mirada diferente a la de los profesionales. Sus preguntas son complementarias porque amplían el campo y eso es lo que nos interesa, además de darle a los telespectadores la mejor información y la posibilidad de participar en el debate político’, afirma o diretor dos telejornais da TVE, Fran Llorente, El Mundo (24/01/08).

Uma arma política de persuasão

A Antena 3 criou www.youtube.com/elecciones9m para fazer as perguntas aos candidatos em entrevistas e no debate televisivo. Será disponibilizada para os internautas uma ferramenta para votarem nos candidatos favoritos, via internet. A Antena 3 também criou uma página www.a3elecciones.com e está ampliando sua cobertura jornalística, utilizando-se da telefonia celular e da televisão via internet. La Sexta também possui na web www.tupreguntas.com para que os internautas façam perguntas aos candidatos.

A seguinte manchete sintetiza a importância das novas tecnologias no processo espanhol: ‘Llega la Ciberpolítica’ – ‘La Red, aquel reducto de grupúsculos, ha sido fagocitada por los grandes partidos. No hay político sin su grupo de apoyo virtual. Menos militantes, más activistas, las campañas del futuro también contarán con el ángulo MySpace’. Todos possuem seus canais no Youtube. ‘Pasada la época de la militancia política, la clave para el futuro es el ciberactivismo: los nuevos ciudadanos digitales no pertenecen a la estructura del partido, pero sí funcionan como nodos transmisores del mensaje. Por eso para esta campaña, lo importante no es tener una web sino distribuir contenidos’ (matéria assinada por Ícaro Moyano no El País, 28 de dezembro de 2007).

Portanto, podemos afirmar que nesse período eleitoral ocorreu uma mudança nas estratégias das campanhas presidenciais espanholas, pois além de reconhecerem a importância da introdução das novas tecnologias no processo político, também estão sendo utilizadas novas maneiras de conquistar o eleitorado. Certas estratégias e inovações manejadas nesse período eleitoral devem ser incorporadas pelos marqueteiros, devido ao potencial das novas tecnologias, configurando-se como mais uma arma política de persuasão.

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Professora do Departamento de Política e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, pesquisadora do Neamp (Núcleo de Estudos em Arte, Mídia e Política) da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e pesquisadora do CNPq

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