Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

E-NOTíCIAS > ISTOÉ vs. UOL

Joaquim Castanheira e Manoel Fernandes

17/02/2004 na edição 264

‘Há um vírus consumindo as entranhas daquela que já foi a maior promessa da internet brasileira, o portal Universo On Line, o UOL. No código genético desse vírus manifesta-se uma equação letal: um desequilíbrio insustentável entre receitas e despesas, cujo sintoma mais visível é um prejuízo renitente que não cede nem mesmo aos remédios mais amargos. A saúde debilitada é resultado de um modelo de negócios cujas contas não fecham. No balanço de 2002, o último publicado pela companhia, ele pode ser visto em toda sua trágica dimensão. Naquele ano, a companhia apresentou uma receita de R$ 441 milhões. Desse total, 90%, ou seja R$ 397 milhões, vieram de assinaturas – os outros 10% tiveram origem na publicidade. No mesmo período, o prejuízo bateu em R$ 317 milhões. Para compensá-lo, portanto, o UOL teria de praticamente dobrar as receitas oriundas dos assinantes em 2003, exigindo por conseqüência o aumento de sua base de internautas em pelo menos um milhão de novos usuários. Agora, a má notícia. Ocorreu exatamente o inverso. A carteira de internautas que atingira o pico de 1,5 milhão desabou para 1,2 milhão no ano passado, segundo informações da própria empresa. A saída seria apostar na banda larga, para onde os consumidores estão correndo. Agora, outra má notícia. Nesse serviço, o provedor tem apenas 170 mil assinantes, contra 500 mil do concorrente Terra. Em outras palavras: o UOL está perdendo a corrida para o futuro.

Assim, os déficits sucessivos transformaram-se numa bola de neve que carrega montanha abaixo o valor da companhia. O UOL, que já havia sido cotado na casa dos US$ 2 bilhões, hoje é avaliado por analistas e potenciais compradores em menos de US$ 100 milhões. É o mais dramático sinal de uma situação financeira deteriorada por prejuízos acumulados desde 1996, quando o portal foi ao ar pela primeira vez. Hoje, o rombo atinge a estonteante cifra de R$ 603 milhões – desse volume, segundo a empresa, 64% são referentes à integração do Zip.Net comprado pela Portugal Telecom, hoje dona de 40% do UOL, ao empresário Marcos Moraes. Por seu lado, a empresa garante que encerrou 2003 com as contas positivas. Trata-se de um caso clássico de contar o milagre e não revelar o santo. Pois em 2003, justamente quando, pela primeira vez em sua história, teoricamente teria boas notícias para anunciar, o UOL fechou seu capital. ‘Nossos concorrentes não divulgavam números e sabiam de cada passo nosso’, afirmou à DINHEIRO Marcelo Epperlein, diretor-geral do UOL. ‘Fechar o capital foi uma decisão dos acionistas.’

O balanço passou por mais sessões de limpeza. Em um movimento habitual de companhias com dívidas impagáveis, o UOL transferiu seu passivo de R$ 388 milhões para a Folhapar, a holding que controla o portal, pertencente à família Frias. O que permanece no passivo do UOL é uma briga judicial com a Embratel, em virtude do cancelamento, por parte do provedor, do contrato de fornecimento de serviços telefônicos. Outro duro golpe ocorreu no final do ano passado, quando o antigo parceiro de empreitada, o Grupo Abril, decidiu desembarcar da sociedade. Foi uma saída litigiosa, depois de um acordo financeiro que sangrou ainda mais o combalido caixa da empresa.

Mergulhado numa crise permanente e com a sobrevivência ameaçada, os acionistas passaram a agir como um clube de futebol ameaçado pelo rebaixamento. A cada duas derrotas troca o técnico. Nos últimos 18 meses, a direção geral da companhia tornou-se um cargo de alta rotatividade. No período, quatro executivos diferentes ocuparam a cadeira. A comissão técnica também foi vítima de uma debandada. Oito vice-presidentes e diretores deixaram a empresa, entre eles o jornalista Caio Túlio Costa, um colaborador da família Frias, controladora do UOL, ao longo de 21 anos. Essa instabilidade coloca um enorme ponto de interrogação no futuro da empresa. De onde viria o dinheiro capaz de sanear a operação? Os sócios não estão dispostos a desembolsar um tostão a mais em uma operação que coleciona fracassos atrás de fracassos. Outra saída seria a venda. Mas quem compraria? No passado, os controladores do provedor assistiram um desfile de candidatos à aquisição do UOL. Nenhum lhes despertou a atenção. Resultado: hoje eles desapareceram. América On Line, Yahoo!, Terra, enfim todos, em algum momento, tentaram se associar ou até mesmo comprar o provedor. As conversas com os espanhóis do Terra foram as que mais avançaram. A empresa chegou a propor um negócio de US$ 2 bilhões para o UOL. Os controladores, porém, acreditavam que o valor estava em torno de US$ 4 bilhões. A venda, tanto para o Terra como para os demais portais, nunca aconteceu porque o grupo Folha não aceitava entregar o controle acionário da operação. Com a AOL as conversas chegaram a envolver até mesmo Steve Case. Em uma viagem a Nova York, Luís Frias, presidente do conselho de administração do UOL, e Caio Túlio sentaram-se à mesa com o fundador do portal americano, mas o encontro deu em nada.

Mesmo assim, a história continuou a se mostrar generosa com o UOL, e a companhia continuou sondada por possíveis compradores. Um deles foi o Yahoo!. Durante sua primeira e até agora única visita ao Brasil, Jerry Yang, o fundador da companhia americana, encontrou-se, em São Paulo, no Hotel Meliá, com os dois acionistas do UOL, Roberto Civita, da Abril, e Luís Frias, da Folha. Foi uma conversa animada e ao final Yang fez uma profética declaração: ‘Há problema de foco nessa empresa pois os sócios professam religiões diferentes.’

Hoje, há tratativas com o Terra e a própria Portugal Telecom. Em conversas com a família Frias, os sócios portugueses deixaram claro que se interessariam em aumentar sua participação, desde que ficassem com o controle – e aí a resistência do clã continua se manifestando. ‘Não há negociação porque o UOL é estratégico para o Grupo Folhas’, afirma Epperlein. Há outro obstáculo no caminho do UOL. Muitos analistas acreditam que os provedores independentes, não ligados a uma operadora de telefonia, estão com os dias contados. O surgimento dos provedores gratuitos iG (Brasil Telecom e Telemar), Ibest (Brasil Telecom) e iTelefônica (Telefônica) apontam nessa nova direção. O UOL bem que tentou entrar nesse mercado. Desengavetou uma segunda marca, o BOL (herdada do Grupo Abril), e a lançou como provedor gratuito. Em seis meses a operação foi encerrada, após rotundo fracasso. ‘Nosso negócio não é telefonia. Somos uma empresa de internet’, diz Victor Ribeiro, outro diretor do UOL. ‘Esperamos ser tratados com isonomia por todas as operadoras.’

Em sua biografia, o UOL pode contabilizar pelo menos um ponto positivo, o pioneirismo – mas para possíveis compradores a história não agrega valor. A internet brasileira seria bem diferente sem ele. A companhia alfabetizou os internautas brasileiros, como fez a AOL nos Estados Unidos. A qualidade dos seus produtos era similar e em alguns casos antecipou tendências mundiais. A associação entre o Grupo Folha e a Abril, por exemplo, aconteceu bem antes da fusão entre o grupo Time Warner e a AOL. Mas, como uma empresa de internet, o UOL também não resistiu ao canto da sereia da bolha das pontocom e se convenceu que a fonte de dinheiro jamais secaria. Era um mundo que permitia tal luxo porque o grande Olimpo estava à espera: a abertura de capital na Nasdaq, a bolsa americana das empresas de tecnologia.

O primeiro passo foi a transformação da companhia em uma sociedade de capital aberto. Em seguida, o UOL abriu operações em toda a América Latina. A idéia era criar a imagem de uma empresa latino-americana nos moldes da Starmedia, a primeira companhia de internet com perfil latino a vender ações nos EUA. A partir daí, a documentação começou a ser preparada e pela previsão inicial o IPO (Initial Public Offering, como é chamada a operação de abertura de capital nas bolsas americanas) do UOL aconteceria em março de 2000. Mas a bolha da internet estourou em fevereiro de 2000 e o IPO do UOL foi para o espaço. Outras oportunidades para chegar à bolsa não faltaram. A empresa El Site, ligada ao grupo venezuelano Cisneros, também interessado em fazer seu IPO, procurou o UOL. Sua proposta: unir as forças e, juntas, abrirem o capital na Nasdaq. A conversa não prosperou porque o UOL apostava que tinha fôlego para seguir sozinho.

O episódio do IPO teve para o UOL um efeito devastador. O dinheiro da venda de ações seria suficiente e sobraria para cobrir o prejuízo. Sem esses recursos, a empresa partiu para uma busca frenética pela lucratividade. O mercado já dava sinais de fragilidade, mas o dinheiro parecia não ter fim. A partir de 2001, quando iniciou um processo de profissionalização da estrutura, esse traço foi levado ao limite. Os executivos eram recrutados em grandes grupos, como Merryl Lynch, ABN, Pão de Açúcar, entre outros. As entrevistas eram marcadas na sede do grupo Folhas, no centro de São Paulo. Lá, diretores do UOL e o candidato embarcavam em um helicóptero rumo ao centro gráfico, em Tamboré. Eram recebidos em uma sala luxuosa, com chão de mármore, onde garçons de luvas brancas serviam café em bules e bandejas de prata. A seguir, assistiam a uma apresentação sobre o provedor. A apoteose era a proposta financeira, cujo ponto alto eram os famosos stock options, sempre na casa dos milhões de dólares. ‘Não havia um que escapasse’, conta um dos ‘fisgados’.

A própria estratégia de crescimento do UOL se transformou em sorvedouro de dinheiro. Um dos pontos de honra do provedor era ser caracterizado como o maior do País em page views, na época o índice mais utilizado para medir a audiência. Em função dessa política, a companhia obrigava que todos seus parceiros, os sites independentes, se hospedassem no provedor. ‘Isso exigia um parque de servidores enorme e carentes de constante atualização tecnológica’, diz um especialista. Em certo momento, o organograma do UOL apresentava 11 diretores de tecnologia. Cada uma das áreas (e-commerce, publicidade, assinaturas, etc) possui seu próprio especialista. Mais dinheiro ainda foi consumido na estratégia de expansão internacional. Mais de US$ 80 milhões foram investidos na abertura de filiais na Argentina, Colômbia, Chile, Peru, Venezuela, EUA (Miami) e Espanha. Outro fracasso. Atualmente, apenas o escritório argentino está ativo. Em Miami, o UOL estava instalado em metade de um andar de um edifício localizado em uma região nobre da cidade – a mesma onde o ex-juiz Nicolau dos Santos Neto possuía um luxuoso apartamento. Embora a filial local esteja desativada, a empresa continua pagando mensalmente o leasing, cujo vencimento só ocorre no início de 2005.

Segundo analistas, essas decisões eram tomadas ao sabor dos modismos que, como ondas, invadiam o mundo da internet. ‘As decisões eram tomadas no calor da hora’, conta um ex-diretor. Para ele, existe aí um traço da cultura empresarial da família Frias, a agressividade no marketing. Assim a Folha de S. Paulo se transformou em um dos maiores e mais influentes jornais do País no final da década de 70 – e até hoje mantém a posição. Assim eles transformaram o UOL no maior e mais valioso portal da internet brasileira – só que desta vez o brilho se perdeu no próprio arrojo.’



UOL

‘UOL processa IstoÉ Dinheiro por calúnia e difamação’, copyright UOL (www.uol.com.br), 15/02/04

‘O UOL decidiu processar a revista ‘IstoÉ Dinheiro’ por calúnia e difamação, em função da reportagem publicada na edição desta semana, com data de 18/2.

A revista, em reportagem assinada pelo editor-executivo Joaquim Castanheira e pelo editor-adjunto Manoel Fernandes, publicou uma série de informações falsas e difamatórias sobre o UOL.

O UOL é o maior portal e provedor de acesso à Internet do país. É líder em audiência, faturamento e assinantes pagantes.

Fundado em 1996, o UOL alcançou o equilíbrio financeiro em abril do ano passado. O último balanço auditado pela Price Waterhouse, do segundo trimestre de 2003, apresenta Ebitda positivo (em português, lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) de R$ 10,3 milhões. O balanço do segundo semestre de 2003, em processo de auditoria, apresenta um Ebitda positivo de R$ 36,8 milhões. O UOL não possui nem dívida bancária nem dívida com fornecedores. O UOL tem atualmente cerca de R$ 60 milhões aplicados em bancos.

Pedido negado

Na quinta-feira, 29 de janeiro, um grupo de empresários, entre eles Domingo Alzugaray, dono da Editora Três, que publica ‘IstoÉ Dinheiro’, foi recebido em almoço na Folha.

Durante o almoço, realizado a pedido do grupo, Alzugaray solicitou reservadamente a dirigentes da Folha que retirassem o nome da sua empresa da reportagem sobre Refis (programa de refinanciamento fiscal) que estava sendo preparada pelo jornalista Josias de Souza, diretor da Sucursal da Folha em Brasília, para a publicação no domingo seguinte. A Folha não atendeu o pedido.

O não atendimento do pedido de Alzugaray pode ser a razão que motivou a reportagem extemporânea e difamatória contra o UOL, empresa controlada pelo Grupo Folha.

A reportagem da Folha ‘Governo parcela dívidas em 8.900 séculos’ tratava de processos do Refis cuja idoneidade a Controladoria da União considerou duvidosa. Refis é o programa de parcelamento de débitos tributários criado em 2000.

A Editora Três conseguiu dividir uma dívida tributária de R$ 222,4 milhões em parcelas que, a depender do faturamento da empresa, podem ser alongadas por até 344 anos.

Ouvido pela reportagem da Folha, Alzugaray levantou dúvidas sobre os números da Procuradoria da Fazenda: ‘Creio que devemos a metade disso’. Alzugaray disse ainda o seguinte: ‘Não tem fundamento a alegação de fraude. Pagamos religiosamente pelo faturamento. O que acontece é que esse faturamento não é suficiente. O país está parado. O prazo de 344 anos é até otimista. Ou começamos a faturar novamente como há cinco, seis anos, ou não vamos pagar nunca. Vamos afundar em dívidas’.’




Folha de S. Paulo


‘UOL decide processar revista ‘IstoÉ Dinheiro’’, copyright Folha de S. Paulo, 17/02/04

‘O UOL vai processar a revista ‘IstoÉ Dinheiro’ por difamação e calúnia. Em reportagem publicada na semana passada, na edição datada de 18 de fevereiro, a revista divulgou informações falsas a respeito das finanças do provedor de internet, o maior do Brasil. O Grupo Folha é um dos acionistas do UOL (Universo Online).


O UOL alcançou o equilíbrio financeiro em abril de 2003. Não possui dívida com bancos ou fornecedores. Ao contrário, dispõe de aplicações financeiras da ordem de R$ 60 milhões.


O mais recente balanço auditado do UOL, do segundo trimestre de 2003, mostra que seu lucro foi de R$ 10,3 milhões (antes de serem descontados juros, impostos, depreciação e amortização, número conhecido no mercado como Ebitda).


Dias antes da publicação da reportagem, Domingo Alzugaray, proprietário da Editora Três, que publica ‘IstoÉ Dinheiro’, pediu a dirigentes da Folha que o nome de sua empresa fosse retirado de reportagem que o jornal preparava sobre negociações do programa federal de refinanciamento de dívidas tributárias, o Refis. O pedido não foi aceito. A idoneidade dessas negociações foi posta em questão pela Controladoria da União.


A editora de Alzugaray logrou parcelar sua dívida em até 344 anos. Alzugaray disse à Folha que contesta o montante da dívida. ‘O prazo de 344 anos é até otimista. Ou começamos a faturar novamente, como há cinco, seis anos, ou não vamos pagar nunca, vamos afundar em dívidas’, declarou Alzugaray.’

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