Sexta-feira, 21 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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Jornal manipula informação contra o MST

Por Mário Augusto Jakobskind em 29/07/2008 na edição 496

A manipulação da informação pela mídia conservadora é um fato concreto. Por mais que os editores dos jornalões posem de imparciais, uma análise um pouco mais apurada faz cair por terra esse argumento. Ou seja, a imparcialidade da mídia conservadora não resiste à menor análise. Exemplo concreto desta manipulação da informação e de esquema de pensamento único foi dado na edição de quinta-feira (24/7), pelo jornal O Globo, com a manchete ‘Líder do MST apóia candidato de curral eleitoral da Rocinha’.

O editores – certamente obedecendo a ordens superiores, pode-se imaginar de quem – não obedeceram a um requisito básico do jornalismo, o de ouvir uma das partes envolvidas. Dizia O Globo que ‘o líder do MST, que há anos comanda invasões de terra em São Paulo, disse que incentivou a candidatura a vereador do presidente da Associação dos Moradores’. Rainha, que não mais integra os quadros do MST, é amigo do candidato Claudinho da Academia. É público e notório que Rainha não representa mais os trabalhadores sem terra e também que o MST não participa do processo eleitoral nem apóia candidaturas a prefeito e vereador.

Outra prova da desonestidade jornalística de O Globo foi a apresentação na primeira página de uma foto de arquivo com José Rainha segurando uma bandeira do MST. Que estranho critério de um jornal colocar em manchete, com o maior destaque, uma foto de arquivo tirada da gaveta…

Vínculos com as Farc

E tem mais: a manchete irresponsável de O Globo foi feita desconsiderando uma nota enviada pela direção nacional do MST ao jornal, esclarecendo que ‘não tem qualquer envolvimento com essa articulação, que usa indevidamente o nome do MST’.

O Globo, um jornal que nos últimos tempos acirrou o seu ódio editorial contra os movimentos sociais, está inserido no contexto político de criminalização do MST. Esta chamativa manchete de primeira página faz parte dessa estratégia. Não chega a ser uma novidade, mas demonstra também como a mídia conservadora cada vez mais se torna um aparelho ideológico de setores econômicos interessados em manter os privilégios a qualquer custo, inclusive em detrimento da maioria do povo brasileiro.

Junto ao Globo se inscrevem outros órgãos de imprensa, impressa ou eletrônica, como a própria TV Globo, a Bandeirantes e a Record, que pautam matérias com o visível objetivo de queimar os movimentos sociais, sobretudo o MST, diante da opinião pública.

A TV Bandeirantes, por sinal, sob o comando do âncora ‘é uma vergonha’ Boris Casoy, passou vários dias destilando ódio contra o MST, chegando até a insinuar, como fazem atualmente os setores mais de direita do espectro político brasileiro, e não raramente vinculados à bancada ruralista, que o movimento tem vínculos com a guerrilha das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).

Matérias tendenciosas

Casoy chega até a alterar a fisionomia quando fala ou comenta algo sobre o MST. Isto, na verdade, não é jornalismo, mas sim, ‘uma vergonha’ e exemplo típico de manipulação da informação e de estratégia de pensamento único.

Este registro sobre o comportamento midiático deve ser entendido no contexto da criminalização dos movimentos sociais. Ou seja, faz parte de todo um jogo que a todo custo tenta inviabilizar a organização da sociedade, principalmente a dos setores de menor poder aquisitivo.

Exemplo do mesmo teor está acontecendo atualmente no Rio Grande do Sul, onde a governadora Yeda Crusius (PSDB), que teve o apoio na campanha eleitoral de multinacionais como a Monsanto, ordena à Brigada Militar (polícia militar estadual) reprimir com todo o rigor as manifestações pacíficas do MST. [Crusius, até bem pouco tempo atrás, era considerada por alguns analistas como um dos trunfos do PSDB para concorrer à presidência da República em 2010. Os sucessivos escândalos de corrupção envolvendo integrantes do seu governo e a truculência da Brigada Militar contra o MST desgastaram a imagem da política tucana]. Associada ao governo Crusius se encontra a mídia conservadora local, cujo maior representante é o jornal Zero Hora, do grupo RBS (Rede Brasil Sul), que diariamente publica matérias tendenciosas, como no domingo (20/07) contra os sem terra.

Sentenças discriminatórias

Como registro, vale lembrar que recentemente um relatório do Departamento de Estado norte-americano mencionava o Movimento dos Sem Terra como uma das organizações problemáticas. Exatamente um governo que tem se caracterizado por sucessivas intromissões em assuntos internos de vários países latino-americanos, inclusive com apoio a tentativas de golpe de Estado, como o da Venezuela, em abril de 2002, e os incentivos a grupos políticos conservadores que adotam estratégias divisionistas, como recentemente em alguns departamentos (estados) na Bolívia.

A partir desse relatório, por coincidência ou não, acirrou-se a manipulação da informação e o esquema do pensamento único em relação às lutas do MST em defesa da reforma agrária.

Em função da criminalização que vem sofrendo o MST, entidades de várias partes do mundo, inclusive dos Estados Unidos, têm se manifestado em notas oficiais e manifestos em favor do movimento e criticando não só o governo Crusius, como setores do Poder Judiciário que adotam sentenças visivelmente discriminatórias contra militantes dos movimentos sociais e geralmente não adotam o mesmo rigor contra criminosos do colarinho branco que integram as elites brasileiras.

Esquema goebelliano

Em tempo: na sexta-feira (25/7), embora tenha divulgado o informe do departamento jurídico do MST afirmando que ‘José Rainha foi afastado do movimento por não se submeter às orientações do MST’ e reafirmando que ‘não tem vinculação política com candidatos, partidos políticos ou governos de todas as esferas’, O Globo, em um minieditorial, os chamados ‘tijolos’, confirma exatamente o que foi dito neste artigo, ou seja, a prática de manipulação da informação do jornal de maior circulação no Rio de Janeiro.

Apesar das explicações do MST, O Globo concluiu no minieditorial que ‘com ou sem o beneplácito do movimento, a participação de militantes do MST na campanha eleitoral da Rocinha, em defesa do candidato do curral eleitoral da favela, é mais um indício de que ele se converteu numa organização política cujo foco vai muito além da reforma agrária’.

Na mesma edição (25/7), reafirmando o esquema goebelliano de que uma mentira muito repetida acaba virando uma verdade, as cartas selecionadas foram de duras críticas ao MST e de reforço ao que foi dito mentirosamente pelo jornal no dia anterior.

Em suma: vale sempre reafirmar, O Globo comprovadamente defende interesses contrários aos dos movimentos sociais e da maioria do povo brasileiro.

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Jornalista, Rio de Janeiro, RJ

Todos os comentários

  1. Comentou em 04/08/2008 Daniel F. Silva

    Taí, cadê a novidade? Não é preciso ir muito longe pra constatar que o MST caminha para ser a versão lusofônica das FARC. E a tendência é piorar, podem aguardar os próximos acontecimentos. Os fatos apenas estão mostrando que o Foro de São Paulo não é um ‘delírio de militantes de extrema-direita’.

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