Domingo, 21 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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Kiki, uma adolescente massacrada pela web

Por David Brooks em 27/06/2011 na edição 648

Em 1900, Theodore Dreiser escreveu Irmã Carrie, romance sobre uma jovem que deixava o campo e era massacrada pelas esmagadoras forças da América industrial: a solidão da vida urbana, as condições precárias da fábrica, o encanto fácil do teatro, o materialismo da nova cultura do consumo. Se Dreiser estivesse vivo hoje, talvez escrevesse a respeito de Kiki Ostrenga. Tema de um assustador perfil publicado por Sabrina Rubin Erdely na edição de abril da Rolling Stone, Kiki era uma jovem adolescente que foi massacrada por algumas das piores forças da era da informação.

Solitária na escola, ela buscou refúgio da criação de uma personagem na rede, Kiki Kannibal, postando fotos de si mesma em vários estilos e penteados diferentes – menina gótica num dia; imitação hipersexualizada de Lady Gaga no outro. Apesar dos 13 anos de idade, Kiki era muito talentosa nas mudanças de figurino. As fotos com frequência mostram a menina usando apenas roupa de baixo ou saias curtíssimas, com maquiagem insinuante, poses atrevidas e expressões convidativas. Nelas, pode-se ver a habilidade da criança em imitar a aparência e a atitude daquilo que ela admira – nesse caso, o culto às celebridades da alta moda tão glamourizadas por veículos como Vogue, Cosmopolitan, E!, TMZ, Real World e tantos outros.

Nos esportes, reinam a força e a agilidade. Na música, sobressaem o talento e a dedicação. Na rede, os olhares e os acessos são os fatores dominantes. O sucesso é definido pela capacidade de chamar a atenção. E, com a tecnologia de hoje, esse tipo de status de celebridade não é apenas um sonho. Os jovens são capazes de criar isso para si mesmos.

Onda de ridicularização

Kiki deve ter percebido o imenso capital erótico que uma menina bonita, vulnerável e recém-chegada à puberdade comanda na internet – mesmo que não tenha compreendido as consequências do próprio poder de sedução. Como não poderia deixar de ser, ela se tornou uma sensação no MySpace. O registro de acessos dos vídeos transmitidos por ela via streaming mostra que ela foi assistida por dois milhões de pessoas. Em pouco tempo, surgiram 530 perfis no Facebook pertencentes a pessoas que afirmavam ser Kiki (todos falsos). Ela se tornou objeto de celebração, ridicularização e ódio.

Fala-se muito numa “comunidade” online, mas parece mais correto enxergar a resposta provocada por Kiki como uma guerra de guerrilha. A jovem fez uma jogada agressiva em busca de atenção. Outras pessoas tentaram chamar atenção ao atacá-la. A maior parte da violência proferida contra ela não pode ser publicada aqui, mas o artigo da Rolling Stone descrevia com precisão o comportamento digno de uma turba de linchadores: ameaças de morte, comentários sexuais agressivos. “Sei onde você mora e vou matar seu gato”, escreveu alguém. “Kiki, sua (palavrão) horrenda, morra de uma vez”, escreveu outra pessoa.

Kiki inspirou uma onda de ridicularização que afetou sua vida real, incluindo um episódio em que ela foi agredida num show e outra ocasião em que a palavra “vadia” foi escrita em letras garrafais no portão da garagem dela.

Brinquedos exibicionistas

Ela foi contatada por um rapaz de 18 anos, Danny Cespedes, que encantou Kiki e os pais dela e se tornou presença comum no lar deles. Sem que soubessem, Danny já tinha tentado seduzir uma série de outras adolescentes, algumas de até 12 anos. Depois que a mãe descobriu que o jovem tinha obrigado Kiki a manter relações com ele certa noite, a família Ostrenga prestou queixa à polícia. Enquanto era detido, ele pulou do segundo andar de um estacionamento e acabou em coma. De acordo com a Rolling Stone, o jovem morreu dois meses mais tarde.

Em seguida, Kiki tornou-se a vítima do proprietário de um site comercial de exploração de adolescentes chamado Stickydrama. O dono do site organizou sessões coletivas de ataque contra ela ao mesmo tempo em que a convidava para morar com ele e se tornar um dos brinquedos exibicionistas da página. “Se não puder tê-la, vou destruí-la”, teria escrito ele numa mensagem da rede Twitter.

Uma ilusão extravagante

Viciada em atenção e agora administrando uma loja de joias online, Kiki não podia sair da rede, mesmo enquanto se tornava dolorosamente ciente da distinção entre a interpretação de uma celebridade e o relacionamento amoroso de mão dupla pelo qual ela ansiava. Os pais de Kiki pareceram incapazes de retomar o controle da situação, mesmo depois de verem que a presença dela na rede não era simplesmente uma forma de expressar a criatividade. No fim, eles tiveram de se mudar para escapar das ameaças. Nesse processo, perderam tudo que tinham.

A cultura da infância está sendo comprimida. Coisas que antes os jovens aprendiam aos 18, são agora conhecidas aos 10 ou 12 anos. O resultado disso também é desconhecido. Mais importante, alguns jovens estão crescendo sem aprender a distinção entre respeitabilidade e atenção. Duvido que adultos possam proteger facilmente os jovens daquilo que encontrarão na rede, mas os adultos podem ensinar a eles as normas e valores que os ajudarão a pôr em perspectiva esse mundo, fazendo-o parecer algum tipo de ilusão extravagante ou divertida, e não algo que uma pessoa decente poderia desejar para si.

A história de Kiki não mostra apenas aquilo que pode ocorrer na rede, mas também o que não ocorre fora dela.

***

[David Brooks é colunista do New York Times]

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