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Terça-feira, 21 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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Laicismo em doses diárias

Por Alberto Dines em 02/12/2008 na edição 514

Enquanto os leitores mais exigentes são obrigados a contentar-se com a caricatura do jornalismo americano oferecida às segundas-feiras no caderno do New York Times encartado na Folha de S.Paulo, o diário espanhol El País oferece todos os dias, por 8 reais, um show de bom jornalismo, inteligência e informação privilegiada (e sem infográficos, professor Di Franco!).


Enquanto nos bastidores trava uma guerra contra a influência da Opus Dei na mídia espanhola e ibero-americana, El País vem acompanhando com muita seriedade o despertar do laicismo na sociedade européia.


No domingo (30/11, na página 30 inteira e com destaque na capa), o jornal entrevistou o pai da aluna da escola pública em Valladolid que venceu a demanda judicial e obrigou a direção do estabelecimento a retirar os símbolos religiosos dos locais públicos. Fernando Pastor, porta-voz da Associación Escuela Laica agora denuncia as represálias contra sua filha: ‘Ahora insultan a mi hija en clase. No sé se aguantaré’.


Dia seguinte, segunda (1/12), com duas páginas (e chamada na capa), o jornal madrileno investe contra a exibição de crucifixos nos espaços públicos dos governos e revela as sucessivas vitórias da sociedade civil espanhola para garantir o caráter não-confessional do Estado. O último feito é atribuído aos jovens casais que exigem a retirada do crucifixo em ambientes onde se celebram casamentos civis.


Na mesma edição, um editorial sereno e firme (‘Aulas sin crucifijo’, página 26) elogia o governo Zapatero por não converter a questão num conflito político. Basta que respeite a lei.


Secularização vs. fanatismo


A secularização da Espanha é um fato novo e contrasta vivamente com uma história de fanatismo religioso e brutalidade. A Espanha institucionalizou a Inquisição no século 15 e a transformou num aparelho policial; promoveu pogroms contra judeus e mouros antes mesmo da expulsão de 1492; criou duas poderosas ordens religiosas opostas, porém com enorme penetração mundial (a Companhia de Jesus e a Opus Dei); e, como se não bastasse, a Igreja espanhola foi um dos baluartes do franquismo. E também vítima da paranóia de grupos extremistas republicanos.


Antonio Hernández Gil, o jurista que em 1977 mandou tirar o crucifixo da sala das Cortes, era profundamente católico. Teve a grandeza para perceber os perigos de um Estado confessional. Sabia que religião misturada à política inevitavelmente acaba em banho de sangue.


A chacina de Mumbai mostra que tinha razão.

Todos os comentários

  1. Comentou em 10/04/2011 Ana Cristina Ostermann

    Olá,

    Sou professora e pesquisadora na Universidade do Vale do Rio dos Sinos, com interesse de pesquisa na comunicação na saúde da mulher. Tenho lido alguns artigos de Ana Reis (médica de Salvador, BA), publicados por vocês e gostaria de entrar em contato com a autora.

    Para isso, solicito se poderiam me enviar seu endereço eletrônico.

    Atenciosamente,
    Profa. Dra. Ana Cristina Ostermann

  2. Comentou em 08/12/2008 João Silva

    1) Gregório, sobre o comentário de Ana, falei a respeito e dei o meu depoimento sobre as aulas nas universidades. 2) O mesmo direito que você tem de ser ateu, um relioso também tem. 3) Vou fazer uma outra analogia. Imagine que temos um grupo de pessoas que reservou um restaurante para jantar. Neste grupo temos 90% de não fumantes e 10% de fumantes. Me diga, o dono do restaurante deve colocar disponível quantas salas para não fumantes e fumantes? Os fumantes devem dominar o restaurante? Por qual critério? Deveria ser abolida todas as salas de não fumantes? 4) Sobre ensino religioso, concordo e acredito que não exista obrigatoridade em ensino religioso, se houver que seja sobre todas as religiões (incluindo a corrente ateísta). Agora, penso que deveria ser proibido também o ensino de ateísmo nas escolas. Existe (falo por experiência) muitas aulas falando que religião é uma ilusão e a Igreja Católica um monstro que inventou algo para enganar as pessoas, que Deus não passa de uma palavra. Bem se não temos provas para falar que Deus existe, muito menos temos provas para falar que ele não existe. Assim sendo o ensino ‘ateísta’ deveria ser banido das universidades.

  3. Comentou em 04/12/2008 Jaime Collier Coeli

    Poder e, em decorrência, violencia. Epicuro dizia, muito antes dos choques filosoficos, politicos e militares do seculo XX, que não podia considerar a hipótese de um deus benevolente. Como cético, devo dar direito à dúvida, mas a experiência de vida me impossibilita encontrar alguma ‘benevolência’ nesse tema.

  4. Comentou em 04/12/2008 Gregório Guerra

    O ser humano é a única espécie que expressa através da escrita e dos objetos (imagens confeccionadas, pintadas ou esculpidas). E faz isto com a intenção de comunicar, impressionar, persuadir, agradar, desagradar e até agredir.
    Todos já ouviram o seguinte dizer “A aparência é a alma do negócio”.
    Muito antes de a mídia e do mundo fashion descobrirem o poder que as imagens exercem sobre as vontade e atitudes das pessoas, a Igreja católica e a política já tinha encontrado esta ferramenta poderosa há muito tempo. A política faz uso de imagens e símbolos ou logotipos desde a antiguidade. As imagens exercem grande poder sobre o consciente e o inconsciente das pessoas. Por isto elas têm sido as ferramentas de trabalho e comércio da mídia, particularmente, do cinema, da televisão e do setor publicitário.
    A Igreja católica continua agindo com segundas intenções sim, quando tenta impor seus símbolos em espaços públicos.
    Dou-lhes sugestão: para demonstrar que vivemos num estado laico, em vez de retirar os símbolos católicos, coloquem junto a esses os demais, ou seja, os pertencentes a outros seguimentos religiosos (Candomblé, Judaísmos, Budismo, Espiritismo etc.)!

  5. Comentou em 03/12/2008 Jaime Collier Coeli

    O remendão espanhol vem desde Damaso Alonso, in ‘Hijos de la ira’, em que o chamado ‘salmista ateu’ declaroou: ‘tu, maldicion de Dilos, postrer Cain, el hombre’. De fato, os espanhois pagaram muito caro a herança da Inquisição e fazem um esforço incrivel para dela se libertarem. O mesmo nao ocorre nas Americas, onde o pensamento não religioso é um estigma social. Afinal, estamos longe do ambrosiano e a cruz não é entendida como um simbolo revolucionario da pesada, encarnação de um homem que se opôs ao Templo e ao Estado e foi condenado por um e executado por outro. As ‘verdades’ decorrentes desse fato criaram imensas guerras e grandes mortandades. Mas há o verdadeiro simbolo essa época, que sobrevive e é adorado em silêncio por todos os seres humanos, de todas as crenças: o do ladrão sbsolvido, Barrabás.

  6. Comentou em 03/12/2008 Eli Vieira

    Cristofobia? Essa foi ótima!

    Estamos vendo programas humorísticos em que o enredo é sempre do filho cristão e o bordão do pai é ‘onde foi que eu errei?’, não é?

    Estamos vendo diversos nomes feios sendo criados para tratar os cristãos com animosidade, tipo ‘bicha’, ‘viadinho’, não é?

    Os adolescentes cristãos morrem de medo de confessar ao mundo a sua orientação religiosa, não é?

    Não é?

    Não. Não é. Cristofobia? ME POUPE.

  7. Comentou em 02/12/2008 Enio Modesto

    O que me deixa perplexo é o trauma que as pessoas demonstram ter quando alguma instituição tenta organizar as coisas ou impedir exageros. No Brasil, há poucos anos tentamos criar um conselho nacional dos jornalistas. Os contrários argumentaram que estaríamos cerceando a liberdade de imprensa. Pura balela. O desejo desses é justamente continuar abusando do direito ao exercício do jornalismo sem ética. Agora, na Espanha, esse problema dos leigos. Lutamos e continuaremos lutando pela Democracia, em que deve prevalecer a vontade da maioria. Se num país a maior parte dos habitantes é cristã, judaica, muçulmana ou hindu não há nada de mais em se exibir os símbolos de sua religião. Por que a vontade dos leigos deve vencer. O que não podemos é tolerar fanatismo, violência seja em nome do que for. Todos têm o direito de acreditar (ou desacreditar) no que quiser, desde que não tente obrigar os demais a segui-lo. O laicismo espanhol está errado, nesse ponto de vista, como o estiveram todos que por um motivo ou outro perseguiram católicos, protestantes, judeus, democratas, comunistas…

  8. Comentou em 12/03/2007 Jacimar Lima Soares

    Eu gostaria de pedir o apoio deste site para divulgação do Projeto Operação Kick Boxing. Este projeto que melhora a vida de centenas de jovens da cidade de Salvador.

    Envio a sintese do projeto se for possível a divulgação:

    O PROJETO OPERAÇÃO KICK BOXING é um dos projetos de cunho social desenvolvido pela FEBAM através de seus professores para inclusão social de crianças, adolescentes e adultos carentes do bairro da Liberdade, realizado no Colégio Estadual Duque de Caxias.
    O projeto surgiu com a idéia do professor Uanderson Carvalho e foi acolhido pela FEBAM. Desde a sua criação o Projeto tem criado novas sementes de cidadania, formando atletas competidores e professores, que seguem adiante fazendo o mesmo trabalho.
    O projeto consiste no ensino da arte marcial e esportes de combate, para essa camada social, dando oportunidade a: crianças, adolescentes e adultos a aprenderem um ofício, que pode lhes garantir a sobrevivência digna.
    Para os que não almejam aprender a prática esportiva para fins profissionais têm a oportunidade de conviver em um meio onde a disciplina, determinação, respeito, honra, solidariedade, união e fraternidade estão evidentes.

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