Sexta-feira, 21 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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E-NOTíCIAS > TELENOVELAS MALVADAS

Leila Reis

06/04/2004 na edição 271

‘Faz tempo que o gênero novela, que muitos vaticínios já enterraram, não experimentava tamanho vigor. Na Globo, a alegria é geral nos bastidores das três novelas. Chocolate com Pimenta festeja 41 pontos de média, enquanto Da Cor do Pecado chega perto de Celebridade (54) marcando 45 (dados de terça-feira).

Esses índices animam a concorrência a retomar produções. O objetivo é levar para o seu canal o anunciante, que vem atrás da massa que adora acompanhar histórias que simulam a vida real.

Que brasileiro adora novela não é nenhuma novidade. Mas existem momentos que ele gosta mais ainda, como agora. O que faz o público rejeitar ou cair de amores por uma novela é uma incógnita cujo desvendamento é o sonho dourado de todo mundo que faz TV.

Uma das hipóteses plausíveis para a atual onda de amor pelo gênero é a mexicanização. Em Celebridade ela é gritante. A heroína tem filho no meio da estrada, amparada pelo seu apaixonado hippie. A dondoca Beatriz (Débora Evelyn) é tão péssima mãe que se esquece do aniversário do único filho.

Naquele antro de pessoas de caráter duvidoso – Nelito, Jaqueline Joy, Ana Paula, Darlene, Iolanda & Cia – existem figuras piores ainda. Ninguém neste mundo tem a capacidade de ser mais vil do que Renato (Fábio Assunção) e Laura (Cláudia Abreu).

Para pintar com cores piores, o autor coloca na boca do arrivista Renato frases de horrorizar até bruxa de conto de fadas. Esta semana Renato declara seu desprezo pelos bebês – ‘uma coisinha babenta’ – e reclama do fato de não existir mais colégio interno para colocar o sobrinho, do qual obteve a guarda para tentar apossar-se de sua herança.

Laura chama Maria Clara (a boazinha que ela quer liquidar) de ‘mala’ e sua filha de ‘frasqueirinha recém-nascida’, destrata continuamente a avó e a hóspede indesejada (a irmã de Maria Clara, outra bisca que já está levando a sua). No outro lado do maniqueísmo, até hoje Maria Clara esconde de Fernando (Marcos Palmeira) a paternidade de sua filha para protegê-lo da possibilidade de ir em cana.

Bárbara (Giovanna Antonelli), de Da Cor do Pecado, consegue ser pior mãe do que a Beatriz de Celebridade. Para atingir seu objetivo (claro que é também garfar uma fortuna), chantageia o filho, obriga-o roubar, mentir e trair.

Profere todo tipo de impropério racista para manifestar seu ódio pelo filho de Preta (Taís Araújo), sua antagonista que, na verdade, é o verdadeiro herdeiro do milionário (Lima Duarte) que quer ludibriar. A performance da vilãzona é tão boa que, assim como sua colega Laura (da novela seguinte), coloca a protagonista na penumbra. Podem escrever: dentro de alguns anos, Laura e Bárbara ainda serão lembradas, já Maria Clara e Preta…

Essa falta de meios tons marca a saída das novelas da fase naturalista, jogando-as na seara dos dramalhões. O exagero faz com que as tramas pareçam, sim, as cucarachas que preenchem a programação do SBT. Isso não quer dizer que as novelas ficaram ruins. É um jeito novo, mais engraçado até, que o público está gostando. De natural, já chega o nosso cotidiano, deve raciocinar o telespectador.’



Bia Abramo

A novela que todos amam detestar’, copyright Folha de S. Paulo, 4/04/04

‘Há uma espécie de campanha contra a novela das oito. A heroína é chata, dizem. A malvada é ridícula, também dizem. A trama é cheia de falhas e absurdos, afirmam. Gilberto Braga está reciclando idéias desgastadas, acrescentam. Até aqui, nenhuma novidade, pois não há nada de muito específico nessas alfinetadas.

Em qualquer novela, as personagens do bem tendem a ser mais aborrecidas do que as do mal, que, por sua vez, correm o risco de parecerem caricatas a certa altura da trama e, numa obra seriada diária, a trama se esgarça com alguma facilidade para sustentar um roteiro que, afinal, gira em torno de algumas constantes. Ou seja, aquilo que se diz de Gilberto Braga e de ‘Celebridade’ é o que se poderia dizer de qualquer novela.

Apontar essa certa inespecificidade nos reparos feitos à novela de Braga não significa deixar de reconhecer que há lá algo que soa irritante, quase impertinente. Talvez nem tanto por parte da audiência em geral -uma vez que ela vai indo bem de ibope e, na semana passada, atingiu picos de 54 pontos no capítulo em que nasce o bebê de Maria Clara (Malu Mader)- e mais da opinião que vai se cristalizando em torno, ‘Celebridade’ é a novela que todos amam detestar.

O incômodo talvez venha do fato que Braga se coloque numa posição excessivamente ‘autoral’, o que deixa o espectador à mercê dos seus caprichos, sem o menor domínio sobre a história. É como se ele se arrogasse liberdade demais para manejar os elementos que compõem a trama -o perfil psicológico dos personagens, os ardis, os equívocos, as justificativas, as guinadas, os erros de julgamento-, sem muita consideração ao que parece ser ‘razoável’.

Cobra-se da ficção que ela vá de encontro a uma série de expectativas e que não exija muito da imaginação. Há uma preguiça, uma desconfiança e, por vezes, uma certa dificuldade de compreensão em relação à ficção que faz com que se estabeleça uma fronteira algo rígida entre aquilo que se permite ou não ao autor. Em contraste com a invencionice do noveleiro, a previsibilidade do ‘reality show’, que, ainda bem, acaba logo, logo, é muito mais reconfortante.

Não que não haja problemas em ‘Celebridade’; há os de sempre das novelas -a falta de originalidade, a canastrice dos atores, a repetição de fórmulas-, acrescidos de alguns novos, como a frouxidão na direção, que deixa uma sensação de improviso e alguns tropeços no desenvolvimento de determinados personagens.

De alguma forma, o que torna ‘Celebridade’ uma novela menor, por exemplo, do que ‘Vale Tudo’, só para ficar no mesmo autor, é menos a invencionice algo desmedida de Braga do que a inadequação de seu estilo ao atual ‘padrão de qualidade’.’



Eliane Lobato e Willian Novaes

Raio X das vilãs’, copyright IstoÉ, 7/04/04

‘Cena 1: se a personagem Laura da novela Celebridade, interpretada pela atriz Cláudia Abreu, tivesse algum dia pisado o set de filmagem da novela Mulheres Apaixonadas e lá se deparado com uma Heloísa em crise de ciúme, coitada da Heloísa, a personagem interpretada por Giulia Gam – com certeza Laura a teria coberto de porradas e a teria internado à força numa clínica psiquiátrica. Explica-se: Laura só pensa em si e não tem o menor respeito ou sentimento por ninguém, passa por cima de quem a perturba ou lhe atravanca o caminho. É essencialmente fria e racional, enquanto Heloísa era sobretudo uma mulher psiquicamente cega por sua impulsividade.

Cena 2: se ocorrer o contrário e algum dia a personagem Heloísa, ainda nos seus momentos de crise, invadir uma cena de Laura, duas coisas podem acontecer: ou Laura a manipula e a coloca a seu serviço na execução de alguma ruindade ou Heloísa, atuando aos berros como quem joga todas as suas emoções e dores psíquicas no ventilador, fará ruir o mais sigiloso e meticuloso dos planos maldosos de Laura. Explica-se: Heloísa é uma personalidade altamente sugestionável, tipo camaleão e portanto facilmente passível de ser manipulada. Mas, por agir impulsivamente e por ser uma pessoa explosiva, ela também seria capaz de colocar por terra o mais racional, frio e bem arquitetado plano de Laura.

Há então uma diferença entre ambas, ainda que em alguns capítulos, cada uma no seu set e na sua novela, as consequências de suas ações tenham feito sofrer outras personagens – e levado o telespectador a odiá-las, mas sem despregar os olhos da tevê. Heloísa quando berrava e xingava, quando invadia o espaço do marido, quando lhe enchia o saco a qualquer hora do dia ou da noite, quando se cortava ou tentava suicídio, fazia tudo isso porque era invadida por um sentimento real ou imaginado de abandono e estava implorando por afeto. Corte: ainda que o tivesse, ela continuaria achando que não estaria recebendo a devida atenção e afetividade. Já Laura, quando se vale de todos os métodos ilícitos, perversos, antiéticos e amorais para aniquilar Maria Clara (a personagem vivida por Malu Mader), ela só tem como objetivo a conquista de poder e dinheiro. Não atua psiquicamente buscando o não-abandono; atua, isso sim, buscando somente vantagens materiais. Corte: por mais que as consiga, sempre quererá mais e mais.

Da tela para a vida real, a diferença entre as tantas Lauras e as tantas Heloísas de carne e osso também é a mesma: a calculista Laura aproxima-se de uma personagem portadora de transtorno da personalidade anti-social – coisa que a psiquiatria, até há pouco tempo, considerava apenas ruindade e mau-caratismo, mas hoje já começa a cogitar da possibilidade de ser uma patologia e, assim, quem sabe passível de tratamento e controle. Quanto à impulsiva Heloísa, ela era mesmo uma mulher doente, portadora de transtorno da personalidade borderline, e na comunidade científica já não há dúvida de que esse tipo de transtorno é uma doença – e existem tratamentos de controle da enfermidade por meio de medicamentos e de psicoterapia. Cada qual em sua novela ou em seu set, mas ambas apaixonantes para os telespectadores, vale a pergunta: quem é Laura e quem é Heloísa?

LAURA, IMANTADA E ATALHISTA

Imantada porque é extremamente sedutora e atrai as pessoas e atalhista porque sempre busca o caminho mais curto para as suas conquistas materiais, Laura possui essas duas características de personalidade. Até aí tudo bem, não fossem a sedução e o atalho utilizados para a maldade, a manipulação e a destruição de Maria Clara. ‘A Laura age o tempo todo contra tudo e contra todos’, diz Maria de Lourdes Motter, coordenadora do Núcleo de Pesquisa de Telenovela e professora livre-docente da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. ‘Ela não demonstra sentimentos por ninguém, nunca aparece triste ou abalada, não sofre nem se arrepende. Se for preciso, é capaz de prejudicar todos os personagens, é fria e calculista.’ Resumo da ópera: Laura espalha sofrimento ao seu redor, mas não sofre com isso.

O que é transtorno anti-social?

Nas novelas e nos filmes, as personagens geralmente já aparecem adultas. Mas, para que alguém possa receber o diagnóstico de personalidade anti-social, é preciso que alguns pontos sejam observados na infância e na adolescência – entre eles o de saber se essa pessoa apresentou transtornos de conduta ao longo de sua vida até completar 18 anos, todos compatíveis com a escadinha progressiva da idade. Aqui entram as imagens da posta de peixe e do filé de peixe, como define o psiquiatra Alvaro Ancona de Faria: ‘Quem olha a posta vê de frente a fatia do peixe e sabe apenas como a fatia é. Vê apenas sintomas. Quem olha o filé tem uma visão longitudinal do peixe e passa a saber como é o peixe todo. Para diagnosticar transtornos de personalidade é preciso olhar o peixe inteiro. A personalidade é o filé, não a posta.’

O diagnóstico de anti-social só pode ser fechado para as pessoas a partir dos 18 anos de idade – ou seja, o filé tem de ser olhado. Mais: para alguém ser portador de transtorno da personalidade anti-social é preciso que tenha apresentado transtornos de conduta: cabular aula sistematicamente, maltratar animais, mentir na escola, mentir para os pais, mentir para obter vantagens materiais, furtar dinheiro em casa, iniciar com frequência brigas na escola. ‘Uma criança ou adolescente que tenha transtorno de conduta não irá necessariamente se tornar um anti-social. Mas se estudarmos qualquer anti-social, ele sempre teve transtornos de conduta na infância e adolescência’, diz a psiquiatra clínica, psiquiatra forense e doutora em ciências pela Universidade de São Paulo, Hilda Morana, uma das principais autoridades internacionais em transtorno de personalidade e a única no Brasil especializada em psicopatia. Algumas características do transtorno anti-social são: desrespeito brutal aos direitos e sentimentos dos outros, ausência de sentimento de culpa e remorso, insensibilidade com as outras pessoas, incapacidade de planejar o futuro, incapacidade de aprender com a própria experiência de erros e fracassos.

HELOÍSA, UMA HEMORRAGIA DE EMOÇÕES

Bordeline: impulsividade, instabilidade afetiva, sentimento de abandono, auto-agressão e tentativa de suicídio marcaram a personagem Heloísa

Hemorragia de emoções porque, quando disparava sua metralhadora giratória psíquica contra o personagem de seu marido, Heloísa estava de fato sofrendo intensamente um sentimento de abandono, real ou imaginado – seja qual for, ela o sentia psiquicamente como real. Detalhe importante: ainda que o marido não a tivesse deixado, ela também teria esse sentimento de abandono que detona a impulsividade e a instabilidade afetiva, duas cortantes características do transtorno da personalidade borderline. Eis um ponto que distancia a anti-social Laura da borderline Heloísa: a vilã de Celebridade não sofre, enquanto a vilã de Mulheres Apaixonadas sofria, tinha sentimentos de culpa e remorso. ‘Quando a mulher borderline, por exemplo, fica perturbando o marido, ela acredita que tem uma motivação legítima para fazer isso, é o sentimento de abandono’, diz o psiquiatra e analista jungiano Alvaro Ancona de Faria, diretor de cursos abertos da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica. ‘Ela é uma enferma, mas não é uma psicótica, dá um passeio rapidinho na psicose e logo sai dela.

E há outra característica marcante do transtorno borderline que são as automutilações, o que demonstra que elas sofrem. Muitas borderlines afirmam: eu me mutilo e me corto para não me matar’, diz Faria. A ferida do corte é, na verdade, uma cicatrização pelo avesso: apesar de ser um corte, ela é a cicatrização de uma ferida muito maior, de um corte muito mais profundo, que seria a morte. Resumo da ópera: Heloísa espalhava sofrimento ao seu redor, mas sofria com isso.

O que é transtorno borderline?

Traduzindo do inglês, a expressão borderline significa fronteira ou fronteiriço. Fronteira do que com o quê? Basicamente, fronteira entre um sentimento de abandono real ou imaginado que vai subindo de escala até ultrapassar a linha divisória em que a impulsividade leva a pessoa à auto-agressão e à violenta agressão verbal contra os outros – mas principalmente contra aquele que de fato lhe importa afetivamente. Tudo em sua vida emocional é uma fronteira, a ponto de xingar e enxovalhar justamente a pessoa da qual ela quer atenção e amor e para a qual ela quer dizer ‘eu te amo’. Repita-se: ainda que o ser amado esteja com ela, ainda assim ela continuará a sentir abandono. A mulher borderline (utiliza-se a imagem feminina, já que no universo desse transtorno 75% são mulheres), se auto-agride e se automutila muito mais do que agride fisicamente os outros. Se Heloísa de Mulheres Apaixonadas se sentisse abandonada por Laura de Celebridade, ela berraria, xingaria, se cortaria e se mutilaria, faria uso abusivo de álcool ou tranquilizantes, chegaria a tentar suicídio. Se ocorresse o contrário, se fosse Laura a se decepcionar com Heloísa, com certeza a vilã de Celebridade agrediria fisicamente a outra sem o menor remorso. Toda a atuação da borderline é um apelo pelo afeto, é uma doença do vínculo. A impulsividade e a instabilidade afetiva são as suas marcas registradas. A borderline sangra psiquicamente a sua própria emoção e a sua própria dor, ao passo que a anti-social vai esburacar e sangrar justamente a emoção do outro – e, não raramente, também o físico da outra pessoa. A explicação é do psiquiatra Alvaro Ancona de Faria: ‘Eu defino a borderline como sendo a teoria do C.Q.D., que significa o famoso Como Queríamos Demonstrar. A mulher borderline tanto perturba o namorado, achando que ele vai abandoná-la, que o namorado se cansa e a abandona mesmo. Aí a borderline diz: eu não falei que você iria me deixar? Ou seja, ela vive fechando o círculo do C.Q.D.’ Eis outro exemplo típico, segundo Faria: ‘O psicoterapeuta avisa uma borderline que não vai poder atendê-la na próxima semana porque ele tem, por exemplo, uma viagem marcada. A paciente responde: se fosse aquela vaca que vem aqui antes de mim, se fosse aquela vaca, você atenderia!’ E Faria conclui: ‘Eu usei a expressão vaca porque esse é um dos xingamentos mais usados pelas borderlines.’ Outra imagem associada à auto-agressão e ao sentimento de abandono vem de Rosa Cukier na obra Eu te odeio… por favor não me abandones: ‘Imaginem uma pessoa que por algum erro constitucional nascesse sem pele: qualquer toque, por mais leve, provocaria dor e reação intensa. Assim é o borderline, o que lhe falta é a pele emocional.’

TRATAMENTOS POSSÍVEIS

Pesquisador: o psiquiatra José Paulo Fiks combina ciência e cinema

Um ponto é unanimidade na ciência, seja ela clínica ou forense (ciência aplicada às questões da Justiça): tanto o transtorno da personalidade borderline quanto o transtorno da personalidade anti-social têm origem em fatores biológicos, psicológicos e ambientais. Borderlines como Heloísa não são, ao contrário da cultura impregnada na sociedade, pessoas de ‘sangue ruim’. São doentes. E podem ser tratadas com psicoterapia e medicamentos, geralmente antipsicóticos em baixa dose e antidepressivos que atuam no neurotransmissor serotonina. No momento em que estou pensando para escrever esse texto, no momento em que os meus dedos digitam o teclado do computador, no momento em que o leitor está lendo, isso só é possível porque em nosso cérebro os neurônios estão se comunicando uns com os outros. Essa comunicação se dá através dos neurotransmissores – e a serotonina é um deles. Nos borderlines ela passa de um neurônio para o outro e o que sobra dela é rapidamente reabsorvido pelo neurônio anterior. Os antidepressivos usados nesses casos retardam essa reabsorção, fazendo com que a serotonina que sobra atue por mais tempo. Não há cura, mas é possível o paciente viver bem em determinados períodos seguindo o tratamento.

O transtorno borderline é uma doença, não é ruindade. E o transtorno anti-social de Laura? Aqui é o nó da questão, mesmo porque é sobre pessoas como ela que recai com mais força o estigma da ‘fulana sangue ruim’. O fato é que também os anti-sociais começam a ser tratados pela ciência. ‘Isso é possível’, diz a psiquiatra Hilda Morana, pioneira no Brasil nesse tipo de atendimento, tanto ambulatorial no Hospital das Clínicas de São Paulo quanto em seu consultório. ‘Ainda não temos dados conclusivos, mas estamos medicando com sucesso portadores de transtorno anti-social’, diz ela. Hilda faz um corte necessário entre a psiquiatria clínica, que cuida dos transtornos anti-sociais, e a psiquiatria forense, que aborda também a psicopatia. E o que é psicopatia? ‘É a ruindade fortuita, a ruindade desnecessária’, diz ela. ‘Alguém que sequestre para extorquir dinheiro, mas não corte a orelha da vítima, está agindo como um anti-social. Claro que tem de ser preso e punido, mas cientificamente é um anti-social. Já alguém que sequestre e corte a orelha da vítima, aí sim, está tendo um comportamento psicopata porque para conseguir o resgate não precisaria fazer isso. É uma ruindade que foge à coerência’, conclui Hilda. Nessa direção, ainda que nova no Brasil mas já aceita em países como os EUA e o Canadá, também a anti-social Laura é doente e passível de tratamento – desde que até o último capítulo, por exemplo, ela não corte a orelha de ninguém, uma ‘ruindade desnecessária’ para conseguir todo o dinheiro e todo o poder que tanto persegue à custa do sofrimento da Maria Clara.’



UM SÓ CORAÇÃO
Sérgio Roveri

‘Ana Paula segue os ritos da ficção’, copyright Valor Econômico, 2/4/04

‘Ana Paula Arósio enfrentou, nesta semana, um lento processo de despedida de Yolanda Penteado, a personagem que interpreta na minissérie da Rede Globo ‘Um Só Coração’, que termina nesta quinta, dia 8. No final de março ela gravou, no Viaduto do Chá, centro de São Paulo, as cenas finais da saga escrita por Maria Adelaide Amaral e Alcides Nogueira. Como as gravações não costumam respeitar ordem cronológica, a atriz ainda voltou ao Projac, no Rio, para os últimos três dias de gravação. Um churrasco, na tarde de ontem, foi o último compromisso do elenco de uma atração que, ao combinar realidade e ficção para narrar a trajetória de alguns dos mais ilustres paulistanos da primeira metade do século XX, estreou com média de 37 pontos no Ibope e encerrou sua temporada com respeitáveis 30 pontos.

O encerramento da minissérie não significa, entretanto, que o rosto de Ana Paula, 28 anos, permanecerá um dia sequer longe da televisão. O contrato que a liga à Embratel, cujas cifras são mantidas em segredo tanto pela atriz quanto pela empresa – uma das cláusulas permite o rompimento imediato do acordo caso uma das partes divulgue os valores da negociação -, continuará assegurando à atriz, pelo menos até dezembro, o título de mais famosa garota-propaganda do Brasil. Em março, ela dedicou três fins de semana às gravações dos novos comerciais da Embratel – um novo, e ainda sigiloso, personagem foi criado para a atriz, para substituir o gênio da garrafa que ela interpreta atualmente.

Na última semana, a atriz foi sondada também para um tipo de contrato até então inédito em sua carreira: três editoras se mostraram interessadas em publicar os contos que Ana Paula passou a escrever em suas horas vagas. Até o momento, ela tem três contos concluídos, todos versando sobre um tema do qual, nos últimos anos, ela tem se tornado cada vez mais íntima – a vida no campo. A atriz garante que não alimenta, até agora, intenção de publicá-los. Em primeiro lugar, porque são em número reduzido; e depois porque, estariam na fase de rascunho. Os poucos amigos a quem ela mostrou seus escritos afirmam, no entanto, que a atriz está sendo modesta em relação à sua produção literária. Alguns dizem que os contos apresentam personagens bem delineados e uma trama bem urdida.

O certo é que, se resolveu escrever sobre o cotidiano rural, Ana Paula não se vê obrigada a recorrer aos mecanismos da ficção para rechear sua narrativa, pois curral e cocheira são departamentos que ela conhece tão bem quanto palco e estúdio. Semana que vem ela viaja para seu sítio, em Itu, onde se dedica a tarefas como acordar às seis da manhã para ordenhar as vacas, escovar cavalos, alimentar as galinhas, verificar cercas, brincar com os cachorros. E reserva o fim de tarde para corridas de oito a dez quilômetros pelas pastagens. A mesma distância que cobre, religiosamente quando está no Rio, entre as praias do Leme ao Leblon.

Um dos rostos mais esplêndidos da televisão brasileira, Ana Paula Arósio interpretou em ‘Um Só Coração’ o primeiro personagem de sua carreira que a obrigou a envelhecer. Nas últimas semanas, circulava com os cabelos da fronte ligeiramente grisalhos. ‘A minissérie não irá mostrar os últimos dias da Yolanda Penteado’, disse a atriz. ‘Ela morreu de câncer, debilitada, e não é esta a imagem que os autores e diretores da minissérie querem reservar ao público. A história dela será contada até a primeira ou a segunda Bienal de Arte de São Paulo’.

Uma atriz autodidata, Ana Paula Arósio nunca fez cursos de teatro, embora seja uma leitora voraz de textos teatrais, clássicos ou contemporâneos. No momento, está lendo ‘Escola de Mulheres’, de Molière. A atriz confessa que sente falta de formação acadêmica e, por isso mesmo, não dispensa a ajuda dos diretores e autores na hora de compor seus personagens.

‘No caso da Yolanda, contei com a generosidade da Maria Adelaide Amaral, que me forneceu muito material de época sobre ela. Li as coisas que escreveram sobre a Yolanda e também o que ela escreveu sobre os seus contemporâneos’, diz. ‘A Yolanda é uma mulher inimitável, não só porque ela foi real, mas porque ela continua real na cabeça de quem a conheceu. Então, é difícil você abordar um personagem assim, porque eu não quis fazer uma santa, quis fazer uma pessoa de carne e osso, com defeitos, qualidades, alguém que foi importante e que sofreu por causa desta importância’. Segundo a atriz, alguns dados da biografia de Yolanda Penteado ficaram fora da minissérie, como, por exemplo, sua infertilidade. ‘Ter um filho era uma coisa visceral para ela, e a minissérie não deixou isto tão claro’.

A produção estimulou a editora Globo a lançar, esta semana, o livro-álbum ‘São Paulo através da minissérie Um Só Coração’, pesquisa e texto de Valentina Nunes (120 págs., R$ 45). O volume traz um pouco da história da cidade no século XIX, começando pelo tempo da SP de Piratininga até chegar à nova e moderna metrópole.

De todos os personagens que interpretou na TV, a garota judia Camille, da novela ‘Esperança’, de Benedito Ruy Barbosa, foi a que exigiu da atriz uma composição mais trabalhosa. Ana Paula passou a freqüentar festas da comunidade judaica, teve aulas com uma professora particular para aprimorar o sotaque e esteve prestes a se tornar uma especialista em comida casher. Depois de tanto empenho, o personagem que emergiu foi uma mulher ardilosa e vingativa, que chegou a despertar ódio no público. ‘Para uma atriz, é diferente você fazer um personagem que o público ama e outro que as pessoas odeiam. Mas é uma situação interessante também, porque aquele personagem odioso é uma cria sua, que merece ser defendida’.

Avessa a emendar um trabalho a outro, a atriz não pretende voltar às novelas ou minisséries tão cedo. ‘Acredito que o ator precisa entender que é necessário um intervalo entre um trabalho e outro. Mesmo para os profissionais mais experientes, este afastamento da mídia é fundamental, tanto para que o público deixe de associar você ao seu último papel como para que você também se liberte dele. Se após ter feito a Giuliana da novela ‘Terra Nostra’ eu tivesse aceito um convite na seqüência, a chance de eu quebrar a cara teria sido imensa’.

Isso não quer dizer que a atriz não esteja ansiosa por um convite para fazer cinema, veículo no qual ainda não deixou sua marca. ‘O cinema, para mim, nunca passou de uma paquera, mas sinto que está na hora de transformar isso em um relacionamento sério’. O último filme do qual a atriz participou foi ‘Celeste Estrela’, de Betse de Paula, no qual vive uma atendente estrábica. ‘É um papel pequeno, uma ponta que aceitei somente pelo prazer de fazer cinema. Espero que este ano surjam novos convites’.

Ana Paula despontou como modelo aos 12 anos, numa época em que a ditadura das medidas que beiram à anorexia ainda não havia fincado sua marca no mundo da moda. Com apenas 1m68 de altura, canelas arredondadas e bumbum saliente (a descrição é dela própria) Arósio seguramente encontraria, hoje, interditado o seu caminho rumo às passarelas. Mas ela conseguiu atravessar toda a década de 90 como uma das modelos mais requisitadas do País. Seu rosto estampou centenas de publicações destinadas ao público adolescente e sua agenda internacional era recheada de trabalhos em Tóquio, Milão e Paris. ‘Eu não sei dizer se o processo de transição da modelo para a atriz foi rápido. Sei que foi aos poucos’, confessa. ‘Eu não comecei a trabalhar como atriz numa novela das oito da Globo. Se eu tivesse iniciado por este caminho, com certeza teria me dado mal, porque é muito difícil suportar este peso. Não só pelo trabalho árduo da atriz, mas também pelo fato de virar uma personalidade. De repente, você está se transformando em algo muito maior do que a pessoa normal que você sempre foi. Esta transição se deu num ritmo que me permitiu direcionar minha carreira. Tive tempo para amadurecer’.

Neste caminho, que passou necessariamente pelo palco, a atriz se diz grata, em especial, a dois diretores – Antonio Abujamra, com quem trabalhou em ‘Fedra’ e ‘Diário Secreto de Adão e Eva’, e Aderbal Freire-Filho, que a dirigiu em ‘Casa de Bonecas’, de Ibsen, clássico do realismo no qual interpretou a libertária Nora, que no século XIX abandonou marido e filhos em busca da sua felicidade. ‘Nora é o melhor exemplo da mulher contestadora. A contestação é o que mais me atrai em um personagem. Para que eu sinta prazer em interpretá-lo, o personagem precisa contestar ou a época, ou a condição feminina ou mesmo a masculina. Mas tem de haver uma grande inquietação em seu interior’.’



Daniel Castro

Minissérie terá final ‘onírico’ e metáfora’, copyright Folha de S. Paulo, 1/04/04

‘Minissérie de maior audiência desta década, ‘Um Só Coração’ termina na próxima quinta com passagens oníricas, metáforas e homenagens. As últimas cenas foram gravadas ontem, no Rio.

Segundo o co-autor Alcides Nogueira, a história relatada pela minissérie acaba em 1953, como previsto na sinopse original, com as festividades do Quarto Centenário de São Paulo. Mas, após legendas de ‘alguns anos depois’, o programa da Globo, que misturou ficção com realidade ao contar a história cultural moderna da cidade, ‘passa para um tempo onírico, de fantasia’.

Nesse tempo, Yolanda (Ana Paula Arósio), personagem real, aparece com seu fictício grande amor, Martim (Erik Marmo).

‘É como se fosse uma metalinguagem mesmo. Entram cenas do desfile da [escola de samba] Nenê da Vila Matilde, com o Ciccillo [Edson Celulari]’, diz Nogueira. As imagens foram gravadas no último Carnaval. Haverá também tomadas atuais, de edifícios que ocuparam a paisagem paulistana.

Na ‘festa de descasamento’ de Yolanda e Ciccillo, realizada anos depois de 1954, Fernanda Torres interpretará sua mãe, Fernanda Montenegro, que também aparece, junto com Cleide Yáconis e Eva Wilma, numa homenagem a grandes nomes do teatro paulista.

‘Isso é para perder a dimensão do real. É a carnavalização que os modernistas tanto pregavam’, afirma Nogueira.

OUTRO CANAL

Bingo

A Record exibe hoje um ‘Repórter Record’ (21h45) mostrando o ‘absurdo uso do dinheiro público para socorrer uma das mais poderosas empresas de comunicação do Brasil’. O programa irá ‘denunciar’ o provável socorro do BNDES a empresas de comunicação, principalmente a Globo. É uma declaração de guerra no ar.

Paquitos

A Band vai fazer um concurso para formar uma banda com dois rapazes e duas moças de 13 a 20 anos. Deve se chamar ‘Os Morangos’. Não tem nada a ver com o ‘reality show’ que irá produzir com a RGB, por uma banda infantil, como divulgou, anteontem, executivo da própria emissora.

Recordes

‘Celebridade’ e ‘Big Brother Brasil’ cravaram ontem médias de 54 pontos na Grande São Paulo. São as maiores audiências até agora da novela e do ‘reality show’.

Decisivo

As provas do líder de ‘BBB’ exigirão ‘paciência, mira e memória’, segundo a Globo. Hoje, os três participantes disputam prova. Amanhã, os dois perdedores de hoje se enfrentam. No sábado, os vencedores decidem a liderança.

Talento

Bete Coelho vai fazer ‘Seus Olhos’, novela do SBT. Cristina Dieckman, miss Venezuela, que não é parente de Carolina, também.’



SEUS OLHOS
Carol Knoploch

SBT ajusta nova novela ao orçamento’, copyright O Estado de S. Paulo, 1/04/04

‘Vista na tela da Globo até outro dia, pela minissérie Um Só Coração, Lu Grimaldi voltará ao ar em breve, mas em outro canal. A atriz é uma das grifes, ao lado de Bete Coelho e Bete Mendes, da próxima novela do SBT, Seus Olhos, mais uma produção nacional baseada em texto da mexicana Televisa. O folhetim começa a ser gravado no dia 15.

Sempre dona de papéis do bem, Lu fará agora uma mulher que ‘aluga’ crianças para mendigarem nas ruas. O enredo gira em torno do romance de Renata (Carla Regina) e Artur (Thierry Figueira). Petrônio Gontijo, Françoise Forton, Juan Alba, Luiz Guilherme, Nico Puig, Rogério Márcico e Regina Dourado também estão no elenco.

Segundo David Grimberg, diretor geral do núcleo de teledramaturgia do SBT, Seus Olhos terá três fases distribuídas em 145 capítulos, 75 atores (25 em cada fase), 20 cenários e se passará em São Paulo – Este Teu Olhar, de Tom Jobim, deve ser a música da abertura. Grimberg explica que A Outra, trama inicialmente prevista para ser produzida nesta temporada, teria custo absurdo para os padrões da casa. Por isso optou-se pela versão dublada. ‘Se passa em cinco cidades. Além disso, trabalhamos com uma média de 20 cenários fixos, sem os monta-e-desmonta, que totalizam uns 100. A Outra tinha 44 cenários fixos, 55 atores, fora as participações, que daria mais de 200.

Nossa média de custo é de R$ 75 mil por capítulo. Essa novela seria o dobro’, diz o diretor.

Na Globo, uma novela das 8 sai por R$ 200 mil o capítulo. Metamorphoses, da Casablanca e da Record, custa R$ 120 mil o capítulo.

Grimberg conta que escolhe os textos mexicanos em função do autor e da audiência alcançada em outros países – a Televisa é a maior exportadora mundial de novelas. ‘Tem uns seis ou sete (autores) muito bons. Délia de Fialio, que já morreu, é a Janete Clair de lá. E o SBT nunca mostrou novela dela porque a Televisa ainda negocia os direitos com os familiares. Temos um texto aqui que é ótimo:Vivo por Elena.’

Seus Olhos, cujo texto original é de 1968 e foi ar ar na TV (em preto-e-branco) em 1970, foi traduzido e ainda está sendo adaptado por três pessoas. Noemi Marinho (diretora de teatro; de Fulaninha & Dona Coisa) foi contratada para este trabalho. ‘Geralmente empacamos nos primeiros capítulos’, conta. Seus Olhos não tem previsão de estréia.’



GNT
Daniel Castro

Canal aposta em plástica e metrossexuais’, copyright Folha de S. Paulo, 31/03/04

‘Um dos canais mais vistos da TV paga nacional, o GNT vai estrear quatro novas séries que foram escolhidas entre 50 projetos de produções independentes em um ‘vestibular’ em janeiro.

No vestibular, chamado de ‘pitching’, comum no exterior, os donos dos projetos tiveram tempo determinado para apresentá-los e foram avaliados por um júri de 14 profissionais da Globosat.

Uma das séries, ‘Beleza Comprada’ (nome provisório), tem a ver com a nova onda mundial de explorar na televisão, às vezes em ‘reality shows’, a indústria da cirurgia plástica. Outro, ‘Homem no Espelho’ (título também provisório), é inédito no Brasil. Será uma série de 26 episódios sobre beleza masculina e irá abordar também os metrossexuais, os ‘novos homens’ que fazem as unhas e aparam as sobrancelhas, mas não são homossexuais.

O canal faz mistério sobre o formato de ‘Beleza Comprada’. Diz que não será documentário nem ‘reality show’. ‘Vai falar da nossa história contemporânea de construir a própria beleza’, afirma Elizabeth Ritto, gerente de projetos. A série irá acompanhar pessoas antes e depois de cirurgias.

‘Nós e Eles’ será um programa sobre relacionamentos entre mulheres e homens. ‘Gente Pop’, a quarta série, apresentada por Maria Cristina Poli, irá mostrar celebridades sobre o ponto de vista dos fãs. ‘Beleza’ e ‘Nós e Eles’ estréiam no primeiro semestre.

OUTRO CANAL

Repeteco O final de ‘Big Brother Brasil’ vai ser igual ao do ano passado. Haverá dois paredões. O último líder, que vai direto para a finalíssima de terça, será escolhido em maratona de provas e revelado no sábado. Os outros dois participantes disputam o paredão de domingo. O vencedor enfrenta o líder na terça.

Global A atriz Regina Dourado, que fez ‘Esperança’, foi contratada para ‘Seus Olhos’, próxima novela do SBT. E Carlos Massa, o Ratinho, deve estrear novo programa já no próximo domingo.

Alavanca A Band quer que a banda infantil que será formada em ‘reality show’ a ser produzido com a RGB se chame ‘Morangos com Açúcar’, novela portuguesa que estreou segunda. Pistas para as inscrições ao ‘reality show’ serão divulgadas na novela.

TV na mesma Não deu em nada a mudança na grade da Record, que anteontem colocou o ‘Jornal da Record’ às 21h. ‘Cidade Alerta’, agora com quase três horas, deu 8 pontos, mas não alavancou a novela ‘Metamorphoses’, que ficou com 5. O telejornal de Boris Casoy cravou 5, mesma média que tinha às 19h45.

TV traço Fiasco total foi a estréia da colombiana ‘Paixões Ardentes’ na Rede TV!. Deu 0,8. Olga Bongiovanni, na mesma TV, também não passou de 0,9. ‘Morangos com Açúcar’, na Band, deu 1,8.’

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