Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Luta de classes à brasileira

Por Eugênio Bucci em 06/06/2008 na edição 488

Agora é assim. O político demagogo chora no palanque e grita que passou fome. Pede que lhe dêem mais um mandato. Ele só tem medo da filha, que pode armar um escândalo daqueles. Enquanto isso, na surdina, o executivo corrupto ganha uma mala preta cheia de dólares.


Agora é assim: a juventude se refestela na mansão da família rica, mas gosta de dizer que é ‘de esquerda’ e que repudia a ‘exploração do homem pelo homem’. O bilionário dá de ombros, carinhoso, condescendente. Ele sabe que, nessa idade, moços e moças se apaixonam, fogem da escola e fazem oposição aos mais velhos. No mais, a luta de classes é a lei da história.


Agora é assim. Entrou no ar nova novela das 8 da Rede Globo, A Favorita, de João Emanuel Carneiro, e é disto que o Brasil profundo vai falar na próxima temporada: de luta de classes à brasileira.


A novela das 8 – que atualmente vai ao ar às 9 – é uma instituição que não se abala. A TV por assinatura e a internet não lhe roubaram o posto, como alguns previam. É verdade que, em seu primeiro capítulo, A Favorita registrou uma audiência considerada fraca, de 35 pontos, mas isso não se deveu a uma vitória das novas tecnologias sobre a velha TV aberta: deveu-se, isso sim, à concorrência de uma outra novela, Caminhos do Coração, da Record, que investe pesado. A instituição da novela continua viva, tanto que é objeto de disputa.


Tratados morais


Sabemos todos que a internet cresce a taxas espantosas. Segundo o Ibope//NetRatings, os brasileiros que têm acesso residencial à rede mundial de computadores já somam 34,1 milhões (eram 25 milhões há um ano). Comunidades virtuais atraem cada vez mais adolescentes. A vida se transforma aceleradamente. É claro que as pessoas dedicam ao teclado algumas das mesmas horas que antes gastavam vendo TV. Esta, no entanto, ainda ocupa nada menos que o centro do espaço público nacional. Em recente pesquisa do Instituto Pró-Livro, 80% dos estudantes declaram que, em seu tempo livre, assistem à televisão. A leitura aparece como uma das opções de 38% e a internet é citada por apenas 30%. Como explicar a sobrevida da TV?


Muitos jovens ainda não dispõem de computadores conectados e, por isso, não acessam a internet. Mas a principal razão para essa sobrevida tem que ver com o tipo de comunicação que a TV proporciona, que ainda não é oferecida pela web. Só existe espaço público nacional quando é possível congregar, ao mesmo tempo, grandes multidões em torno de espetáculos comuns – um jogo de futebol, um telejornal, um melodrama. Ora, quem promove essa comunicação instantânea e abrangente é, ainda, a televisão aberta. Ao menos por enquanto.


Nesse universo, telejornal e telenovela se combinam como num dueto: o primeiro informa, a segunda reelabora em ficção os temas do noticiário. O primeiro fala à razão; a segunda, à emoção. O telejornal avisa que há crimes de colarinho-branco, mas cabe à telenovela dar a dimensão humana do corrupto, expor suas dilacerações éticas, transformá-lo num ser de carne e osso. Ela traz a pauta do noticiário para a intimidade familiar.


Ao contrário dos dramalhões mexicanos dos quais se originou, a novela brasileira não evita a realidade, mas mergulha de cabeça dentro dela. Em sua narrativa, promove extensos tratados morais e tece o vínculo entre os fatos jornalísticos e o cotidiano afetivo do telespectador. Por isso, mais que entretenimento, a novela é uma instituição.


Brasil profundo


É aí que entram o demagogo Romildo (Milton Gonçalves), o corrupto Dodi (Murilo Benício) e a jovenzinha Lara (Mariana Ximenes), tão bonita e tão ‘de esquerda’, e seu avô magnata, Gonçalo (Mauro Mendonça). A Favorita entra em cartaz como parábola da luta de classes. Logo no primeiro capítulo, o burguês Gonçalo e o líder sindical Copola (Tarcísio Meira) quase entraram em luta corporal. A coreografia dos dois, dando socos no ar e ameaçando partir para o pugilato selvagem, lembrou Robert De Niro e Gérard Depardieu no filme Novecento (1976), de Bernardo Bertolucci. De Niro, senhor de terras, e Depardieu, comunista, são amigos de infância e inimigos de classe. Passam a vida se batendo – e se querendo bem. Gonçalo e Copola, quase irmãos no passado, também brigam. Um, como é óbvio, representa o capital (ou a ambição do lucro). O outro, o trabalho (ou o desejo de greve).


Esse tipo de realismo mecânico-sentimental de inspiração marxista (‘melodramarx’) é recorrente na dramaturgia brasileira. A propósito, o Copola de Tarcísio Meira, com seu apego à família e sua índole honestíssima, traz de volta outro personagem, este de um filme brasileiro: o sindicalista interpretado por Gianfrancesco Guarnieri em Eles Não Usam Blacktie, de 1981 (dirigido por Leon Hirszman e baseado na peça homônima do próprio Guarnieri). Embora, nos noticiários atuais, o adjetivo ‘honesto’ não acompanhe tão assiduamente o substantivo ‘sindicalista’, A Favorita reedita o código moral de Eles Não Usam Blacktie: os cidadãos são de esquerda porque têm coração mole e são de direita quando desistem de sonhar. A virtude, na cartilha do melodrama, não estaria nem de um lado nem de outro, mas no amor – no amor da juventude. Eis que a neta de Gonçalo e o neto de Copola se apaixonam, como Julieta e Romeu em plena era neoliberal. O amor triunfará no final feliz?


Agora é assim: é desse melodrama que virão as chaves pelas quais o Brasil profundo vai refletir sobre a realidade imunda que brota dos telejornais. Pode parecer um modelo esquemático demais, não importa. As novelas não existem para elucidar teorias, mas para apontar o que o povo sente. Às vezes conseguem. Quanto a isso, A Favorita não começou mal e deveria ser seguida com atenção – sobretudo pelos que acham que a televisão morreu.

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Jornalista, pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da USP

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