Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

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Manuel Pinto

17/02/2004 na edição 264

‘Quantas vezes nos irritámos ao ler no nosso jornal um daqueles erros que nos parece impossível que ninguém tivesse visto e corrigido?! E quantas vezes nos tem apetecido pegar no telefone, na caneta ou pormo-nos diante do computador para protestar, reagir, alertar? E quantas vezes, ainda, concluímos que, às tantas, nem vale a pena contactar o jornal, com a ideia de que outros o farão? Ou, então: para quê gastar nisso energias? Será que o gesto terá consequências?

Errar, em jornalismo, ainda é mais humano do que no adágio conhecido. A falta de leitura final; a preguiça ou a falta de tempo para a verificação dos dados; a pressa para entregar as matérias; os vários trabalhos em simultâneo – tudo concorre para a possibilidade de os erros surgirem.

Em muitos casos o leitor tem da realidade tratada no jornal um conhecimento que pode ser muito superior ao do jornalista. Por exemplo, quando se trata de apresentar uma comunidade, uma região ou uma cultura. E, em tais circunstâncias, os eventuais erros assumem uma dimensão ainda superior. Recentemente, a propósito da série de trabalhos que o JN publicou sobre a Espanha, o leitor Serafim Teixeira, que deduzo ser conhecedor do país vizinho, reagiu asperamente por duas vezes, apontando aquilo que considera serem imprecisões e erros. Num desses trabalhos, publicado a 25 de Janeiro, compara-se a área das Astúrias (10 564 km2) com a de Portugal, escrevendo-se que uma tal área corresponde a ‘nove décimos’ da do nosso país. O erro crasso não passou ao olhar atento do leitor J. Cunha Ramos que se insurgiu contra ‘tão estapafúrdia comparação’.

O rigor linguístico (ou a falta dele) é também uma matéria recorrente. O leitor Jorge Mota da Silva pergunta, com humor, se não se estará a trocar os V pelos P (em vez de pelos B) ao escrever-se, repetidamente, numa página do caderno de Desporto, o termo ‘compulsivamente’ em vez de ‘convulsivamente’.

Em todos estes casos estamos diante de pequenas falhas que, no entanto, não dispensam cuidado e atenção da parte de cada jornalista e dos editores. Mais grave é quando as notícias dadas não correspondem de todo à verdade ou, para sermos directos, não passam de redondas mentiras. De França veio, na semana que passou,um desses casos. No canal da televisão pública France 2, enquanto o apresentador – uma conhecida vedeta da TV – anunciava peremptoriamente que o ex-primeiro-ministro e chefe da formação da actual maioria UMP (Union pour un Mouvement Populaire), Alain Juppé, ia abandonar a política em virtude de ter sido condenado a 18 meses de prisão com pena suspensa, o mesmo Alain Juppé declarava, no canal privado TF1, que havia recorrido da sentença e que se iria manter nos seus postos. Só no dia seguinte foram pedidas desculpas aos telespectadores pelo erro cometido e a perturbação no France2 foi tão grande que o director de informação foi obrigado a demitir-se.

Muito mais grave ainda foi o que se passou há menos de um ano naquela que muitos chamam a ‘bíblia’ do jornalismo, o jornal ‘The New York Times’. Aí se descobriu, a partir de indícios vários, que um jornalista tinha andado, durante anos, a forjar notícias e reportagens, inventando fontes de informação, dando conta de estadas em lugar onde nunca estivera, manipulando materiais. A descoberta do embuste provocou um verdadeiro choque interna e também externamente, levou à saída do repórter e à queda de algumas chefias. E foi na sequência do processo de revisão de práticas internas, a partir de então desencadeada que o jornal finalmente adoptou a figura de um provedor do leitor, que nunca tinha achado relevante.

A multiplicação de erros significa para os leitores reticências e desconfiança face ao jornal. O cuidado na colheita dos dados e a activação de mecanismos internos de verificação, controlo e validação podem contribuir para os reduzir. É provável que, como alertava há dias o provedor do jornal norte-americano ‘Boston Globe’, quando se activa os processos de vigilância face aos erros e incorrecções, corre-se o risco, paradoxalmente, de os ver aumentar, porque se lhes presta uma atenção mais aguda. Foi o que sucedeu em vários órgãos de informação, espicaçados pelo que se passou no ‘New York Times’.

Nunca se conseguirá, porém, um trabalho impecável. Erros e imperfeições sempre os encontraremos. Mas, então, como os enfrentar? Fazer de conta que eles não existem e esperar que ninguém os note? Ou, antes, reconhecê-los, assumi-los e corrigi-los?

Observando com atenção, agora por dever de ofício, as páginas deste jornal, uma questão que se me tem colocado tem sido a inexistência de um espaço regular para a correcção dos erros que vão surgindo. Um espaço em que se dê uma ‘satisfação’ aos leitores, sempre que houver motivo para isso.

Coloquei, por isso, a questão ao director de Redacção que, numa resposta por escrito, reconheceu que, ‘infelizmente, ainda se pratica muito a velha escola de que o jornal tem sempre razão e de se esconderem os erros’, quando a verdade é que ‘o reconhecimento dos erros só credibiliza o jornal’. E anunciou a intenção de retomar uma secção que já houve, mas que desapareceu, intitulada ‘JN corrige’.

Mais do que um confessionário ou um pelourinho, um espaço desse tipo constitui o reconhecimento, perante os leitores, de que o jornal aposta na melhoria do seu trabalho e valoriza o direito dos leitores a uma informação correcta. É um sinal humilde …de humildade.

Sugeri, na primeira destas colunas semanais, que as análises, comentários, críticas e sugestões sobre o JN pudessem ser feitos não apenas por iniciativa individual, mas também em grupo: na escola, na universidade, na associação, no grupo de jovens. Alguém lhe chamou ‘clubes de leitura’ e, em certa medida, podem sê-lo. Não têm, sequer que se circunscrever ao JN.

Até ao momento, não tenho ecos de que a sugestão tenha motivado alguma iniciativa. Apenas conversas sobre o assunto.

Há pelo menos dois modos de pegar no repto. Um é o informal: surge espontaneamente, fruto de um comentário num grupo de amigos, de uma conversa, de uma dúvida partilhada, na sequência da leitura das notícias. Outro é o planeado: transforma-se num projecto com determinados objectivos – culturais, educativos, cívicos ou outros.

São dois caminhos possíveis, complementares.

O repto, aqui, reside, sobretudo, em alguém no grupo tomar a iniciativa de partilhar as opiniões e comentários com o jornal, através do provedor. Porque, tanto quanto sei, a reflexão, ou a simples conversa, sobre o jornal e sobre os media já acontece, em diversas situações.

As opções editoriais de um jornal de grande audiência como o JN – não apenas as grandes linhas, mas a sua concretização no dia-a-dia – não têm que ser matéria exclusiva dos responsáveis do jornal e dos seus jornalistas. Discutir por que é que as notícias são como são, perguntar por que se deu destaque a umas e se remeteu outras para a sombra, com que critérios se elegeu a manchete e os outros títulos da primeira página é algo que se discute nas redacções. Mas não faria mal que se discutisse igualmente entre os leitores e que estes o dissessem, da forma que melhor entendessem.

Do ponto de vista do provedor, não é apenas o jornal que pode beneficiar. É também a sociedade no seu todo, uma vez que assim se descobre que, também face aos media, não tem de se ‘comer e calar’.’

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