Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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Manuel Pinto

23/01/2006 na edição 365

‘Dia 10 deste mês. Manhã cedo, lia eu a edição electrónica do JN (a edição impressa fica habitualmente para o final do dia) quando deparo com este título publicado na secção Mundo ‘Rajoy justifica ‘apoio’ do PP às afirmações de Aguado’.

O parágrafo inicial referia ‘O presidente do PP, Mariano Rajoy, considera que declarações como as do tenente-general José Mena Aguado, que há mais de 20 anos não se ouviam em Espanha, só acontecem porque existe ‘alguma inquietude na sociedade espanhola quanto ao Estatuto da Catalunha’. Além disso exigiu que o Governo explique o que terá levado aquele militar a fazer tais declarações’.

Ao ler um título como o desta peça, lembrei-me do estudo de uma investigadora espanhola que dizia (cito de memória) que para compreender uma notícia é preciso ter lido muitas notícias. Trocado em miúdos para compreender o que se lê é necessário estar por dentro de muita coisa que o jornal não pode estar sempre a recordar. Por exemplo: quem é Rajoy? E quem é Aguado? A resposta, neste caso, vinha logo a seguir, ainda que fosse preciso perguntar igualmente o que é o PP. O leitor, esse, é que já poderia ter migrado para outro sítio ou para outra página.

Deixemos, porém, a forma de expressão e passemos ao sentido. O JN tinha, de facto, noticiado que um alto responsável militar espanhol proferira, dias antes, declarações não só polémicas como graves quando um chefe militar adverte que as Forças Armadas podem intervir (militarmente, está bom de ver) por causa das acções dos políticos, o assunto só pode ser considerado da máxima gravidade.

Daí que, quando li neste Jornal que o responsável máximo do principal Partido da Oposição do país vizinho, manifestava apoio às declarações do militar fui, naturalmente, espicaçado para a leitura, ainda que as aspas do título introduzissem um bemol na força da ideia. A notícia, porém, não adiantava mais nada que sustentasse tal ‘apoio’. Do que até ali se sabia, pela leitura da imprensa espanhola, ficava a ideia de que o Partido Popular, sem poder apoiar uma ameaça declarada de intervenção militar, estava a tentar capitalizar o impacte das declarações de Mena Aguado, na sua luta contra o Governo de Rodriguez Zapatero.

Dirigi ao editor da secção Mundo uma mensagem sobre o assunto. A resposta chegou-me de imediato, através do jornalista que tinha redigido e titulado a notícia. Vinha escrita num registo que, como provedor, me apraz registar não só reconhecia ‘a importância destas chamadas de atenção’, como salientava preferir ‘ser salvo pela crítica do que assassinado pelo elogio’. Não será caso para tanto, mas fica a nota.

Sobre a matéria, explica assim as opções assumidas na elaboração da notícia

‘As aspas, em ‘apoio’, têm algum significado. Desde logo permitem ao leitor interrogar-se sobre a razão que levou o jornalista a colocá-las. Ou seja, penso eu, alertam para uma posição pouco clara que, por isso, não se demarca das afirmações do general. Foi, aliás, o PP o único partido que não as condenou, tendo mesmo o secretário do Partido para a Comunicação, Gabriel Elorriaga, considerado que as afirmações do general Aguado eram ‘inevitáveis’ (ver ‘El Mundo’ do dia 9). Não condenar não significa, é certo, dar apoio. Mas ao interpretar as afirmações como reveladoras de ‘alguma inquietude na sociedade espanhola quanto ao Estatuto da Catalunha’, Rajoy mostra que a situação reflecte algo com que o PP se preocupa e cujo esclarecimento por parte do Governo de Zapatero ‘apoia’.

A colocação das aspas na palavra ‘apoio’ teve por função, segundo o jornalista, suscitar a interrogação do leitor, levá-lo ‘à procura de algo mais profundo’, a fim de que não passasse por ali ‘como cão por vinha vindimada’. Uma função pedagógica, digamos assim.

Os títulos têm ou devem ter esse papel de suscitar curiosidade e de estabelecer contacto com quem lê. Mas desde que se situem na mesma esfera de significado das notícias a que se referem. De resto, as aspas servem, por norma, em jornalismo, para atribuir a autoria de afirmações, pelo que, no caso presente, se torna inevitável ir à procura, no corpo da notícia, do tal ‘apoio’ do PP espanhol, indicado em título. Vai-se à procura?mas não se encontra. Porque o próprio presidente do PP, apesar de reduzir o problema ao aspecto disciplinar, acabou por reconhecer que ‘a lei não permite [aos militares] fazer este tipo de declarações’ (citado também na mesma peça de ‘El Mundo’ de 9 de Janeiro).

É que, em rigor, não se trata de apoio mas de compreensão (e de tácticas da luta política). Ora é frequente depararmos com casos e situações que podemos até perceber – no encadeamento dos motivos que lhes deram origem – mas que nunca poderíamos aceitar ou, mais ainda, apoiar.

Uma palavra mal escolhida pode mudar o significado de um acontecimento’

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