Segunda-feira, 18 de Março de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1028
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Mário Magalhães

26/06/2007 na edição 439

‘Questão de equilíbrio: se Vavá enrolado valia manchete, Vavá se desenrolando merecia ao menos um título na página mais nobre do jornal

O aposentado Genival Inácio da Silva, irmão do presidente da República, ganhou a manchete da Folha em quatro edições de junho.

A primeira contou que a Polícia Federal qualificou Vavá como suspeito de tráfico de influência e exploração de prestígio. A terceira transcreveu gravações em que o indiciado usa o nome de Lula para obter dinheiro. Na segunda e na quarta, o chefe do Executivo manifestou convicção da inocência do irmão.

Na terça, o Ministério Público Federal acusou 39 pessoas por vários crimes, mas não incluiu Vavá na denúncia. Considerou que não havia provas contra ele na operação batizada como Xeque-Mate.

Era obrigatória a menção, em título da Primeira Página, à decisão favorável ao cidadão antes em apuros. Na edição São Paulo da quarta, o título ignorou a vitória de Vavá: ‘Compadre do presidente e mais 38 são denunciados’.

Escrevi na crítica diária a nota ‘Dois pesos, um erro grave’. Não bastava o texto da chamada da capa informar que a acusação não atingia Vavá, era preciso destacar. Questão de equilíbrio: se Vavá enrolado valia manchete, Vavá se desenrolando merecia ao menos um título na página mais nobre.

O jornal vinha bem na cobertura, a despeito de alguns tropeços. A posição dos procuradores sobre a ausência de provas contra Vavá não enfraquece a opção anterior da Folha de o eleger objeto de manchetes. Fiscalizar o poder é função do jornalismo.

Vavá foi indiciado, manteve relações com supostos membros de uma quadrilha, a PF pediu sua prisão (negada pela Justiça), grampos expuseram conversas suspeitas, o presidente se pronunciou a respeito da investigação.

Isso tudo é notícia, tem interesse público e legítimo.

O jornal nem ‘condenou’ nem ‘absolveu’ Vavá. Assim como não afirmou que ele logrou êxito em suas ações. Na terça, ao contrário do que fizeram os diários ‘O Estado de S. Paulo’ e ‘O Globo’, não publicou a informação sem fundamento segundo a qual o irmão de Lula seria denunciado.

Em compensação, os concorrentes, com acerto, estamparam na capa a novidade positiva para Vavá.

Na edição Nacional, concluída às 21h06, a Folha havia titulado na Primeira Página ‘Ministério Público denuncia compadre de Lula e poupa Vavá’. Não era bem isso.

Como explica o ‘Aurélio’, ‘poupar’ também tem o sentido de ‘ser tolerante’ e ‘indulgenciar’. O verbo editorializa, emite opinião subliminar em espaço impróprio.

Pedi um comentário à Redação, que respondeu: ‘Na edição São Paulo (0h19), ocorreu uma rediagramação da Primeira Página em razão da nova crise aérea. A denúncia do Ministério Público, no entanto, continuou na submanchete, mas o título passou de três para duas linhas […]’.

Mais: ‘Nas duas edições, as chamadas relativas ao caso afirmaram com todas as letras que o irmão de Lula não havia sido denunciado e que o Ministério Público Federal pedira mais apurações sobre o suposto lobby praticado por Genival Inácio da Silva (Vavá)’.

Em suma: notícia ruim para Vavá ocupou manchete; boa, limitou-se às letras pequenas do texto da chamada.’

***

‘O mal do ‘pensamento único’’’, copyright Folha de S. Paulo, 24/06/07.

‘Se a inexistência de título na Primeira Página (houve apenas interno) anunciando a decisão do Ministério Público pró-Vavá pode ser interpretada como antipática a Lula, uma notícia publicada pela Folha na terça foi condescendente com o governo federal.

O texto ‘Sem reforma, déficit do INSS pode triplicar’ saiu em Dinheiro. Acompanhou-o a ‘linha-fina’ (abaixo do título) ‘Projeções do governo indicam que, sem mudança nas regras de aposentadorias, em 2050 não haverá como conter desequilíbrio’.

O estudo do Ministério da Previdência sustenta que, conforme escreveu o jornal, ‘nem o aumento da formalização do mercado de trabalho nem altas taxas de crescimento econômico evitarão a explosão do déficit previdenciário sem uma reforma nas regras de aposentadoria’.

É idéia consagrada a de que a Previdência necessita de ajustes. Não faz sentido que o aumento da expectativa de vida não cause impacto na idade com que as pessoas deixam de trabalhar. Por outro lado, há divergências sobre os direitos a sacrificar dos assalariados que contribuíram para ter uma velhice digna.

Em tema controverso, a Folha se satisfez com a palavra oficial. O jornal concedeu só uma referência às opiniões divergentes: ‘[…] O estudo será usado para rebater os setores que condenam a reforma […], como a CUT (Central Única dos Trabalhadores)’.

Após conhecer os motivos do governo, os leitores não foram informados sobre o argumento dos que ‘condenam’. Comentei na crítica diária: ‘[O cenário projetado] pode até estar correto, mas funciona mais como instrumento de pressão contra os aposentados, se não confrontado com fontes que divirjam’.

A Folha preconiza um jornalismo crítico, mas só fez divulgar a posição do governo, sem questioná-la. Defende a manifestação plural de pensamentos, porém só contemplou um.’

***

‘Jornal destaca ‘pressão baixa’, e não TV pública’, copyright Folha de S. Paulo, 24/06/07.

‘A Folha trouxe na sexta duas reportagens sobre a criação da TV pública. Tem 112 linhas a que resume entrevista com o presidente da Fundação Padre Anchieta, Paulo Markun (‘Para Markun, projeto de TV de Lula é bom’). Na de 93 linhas, o foco é Franklin Martins (‘TV pública obriga canais a se mexer, afirma ministro’).

O jornal não publicou opiniões contrárias às deles, o que fere o pluralismo editorial.

No mesmo dia, saiu texto de 33 linhas sobre a co-apresentadora do ‘Jornal Nacional’: ‘Fátima Bernardes volta ao JN após ‘queda de pressão´‘.

O fato merecia registro, mas foi estranho a Primeira Página preterir chamada para a discussão sobre a emissora estatal, optando por noticiar o susto que fez Fátima ‘sair do ar’.

O jornal, penso, inverteu a relevância da informação. A apresentadora atrai maior interesse do público, porém a nova TV tem mais interesse público – e jornalístico.’

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