Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

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Meios de ganhar dinheiro na internet

Por Alexandre Cruz Almeida em 23/11/2004 na edição 304

Não há dúvidas que o grande desafio da internet é provar-se um mercado economicamente viável. Em poucos anos, passamos da loucura da bolha, quando todos iríamos ser milionários, para uma depressão pós-crash onde nada vai dar certo, nada vai dar dinheiro, oh! vida, oh! azar.

Naturalmente, a verdade deve estar no meio. Mas onde? Não sei, eu também estou procurando. Ofereço esse consolo: a web é muito nova. Quanto lucro vocês acham que o cinema deu nos seus dez primeiros anos de vida? Quase nada. Os pioneiros estavam ocupados demais tentando entender as potencialidades daquele novo meio.

Se falta dinheiro na internet, não faltam bom conteúdo e muitos usuários. Chegamos a um tal crescimento que muitos sites, pequenos ontem, feitos artesanalmente por seus criadores, hoje recebem centenas de milhares de visitas.

E é natural que esses criadores, depois de anos e anos escrevendo conteúdo de graça para hordas de leitores famintos, se perguntem: mas será que tem como eu tirar algum dinheiro disso?

Submarino & Mercado Livre

Uma opção é fazer parcerias com sites de comércio eletrônico. Submarino, Mercado Livre, Buscapé e outros oferecem parcerias nas seguintes bases: você coloca links em seu site e ganha uma percentagem da venda dos usuários que chegarem por intermédio de você.

O Liberal Libertário Libertino tem um perfil literário e decidi fazer uma parceria com o Submarino. Vivo falando de livros, por que não ganhar um dinheiro se meus leitores decidirem comprá-los? Além disso, a comissão para livros é generosa, 8%. Na pior das hipóteses, poderia comprar livros para mim, com desconto. E, por fim, o Submarino tem um catálogo enorme e vende de relógios à geladeiras – embora a comissão desses outros produtos seja bem menor.

Os resultados foram ótimos. Em dois meses, vendi R$ 1.300 através do blog, gerando uma comissão de 90 reais. Leitores utilizaram o blog para comprar não só livros, mas também copos, vídeo games, DVDs e CDs.

Um exemplo: em setembro, li O Código Da Vinci. Escrevi uma resenha do romance e mencionei alguns livros relacionados, como uma coletânea dos Evangelhos Apócrifos tão citados na trama. Pois esse meu único post vendeu quatro cópias de O Código Da Vinci e duas dos Apócrifos, gerando uma comissão de 20 reais.

Parece bastante coisa, mas não é tanto assim. Ganhei quase cem reais em dois meses pelo Submarino, é verdade, mas deu trabalho. Tive que de fato escrever sobre os livros, tive que de fato rechear os textos de links para o Submarino e tive que de fato ir lá garimpar esses links.

Por outro lado, o Google AdSense me rendeu os mesmos cem reais em dois meses, sem me dar literalmente trabalho algum e mostrando apenas anúncios aleatórios. Se e quando for possível configurar o tema dos anúncios, para torná-los mais relevantes, o programa deve tornar-se ainda mais lucrativo.

Já o Mercado Livre, empresa esperta, não cai nesse erro e oferece justamente essa personalização que o Google não permite. Por exemplo, quem tem um site de informática pode exibir só anúncios de informática, e por aí vai. Melhor ainda, você ganha por clique (no Submarino, só se vender) e ainda recebe um adicional por compra.

Coloquei um pop-under do Mercado Livre em meu blog e confesso ter ficado insatisfeito. A interface da área de parceiros é complicadíssima e eu até hoje, dois meses depois, ainda não consegui descobrir uma informação básica como quantos bannerviews gerei ou quantos usuários mandei.

Por outro lado, um amigo blogueiro do mais alto gabarito, cujos sites geram um total de três milhões e meio de pageviews mensais, jura de pés juntos que tira 2.000 reais por mês só do Mercado Livre. Se diz, eu acredito. Não posso citar seu nome, pois ele teme a repercussão da boa-nova: sabe que nesse país nada machuca tanto quanto o sucesso alheio e não quer perder amigos.

Um outro blogueiro famoso, o Polzonoff, cujo assunto principal é literatura, também tem uma parceria com o Submarino: ganha cerca de 70 reais por mês e, faz questão de frisar, gasta tudo em livros.

Listas de Presentes

Para os caras-de-pau, uma opção é pedir presentes ou doações diretamente aos usuários.

Criei uma Lista de Presentes no Submarino, com alguns dos livros que eu mais quero. Depois, foi só passar a sacolinha entre os leitores: ‘Se gostam do que eu escrevo, se lhes ensinei alguma coisa e se não for faltar no leite das crianças, por que não dar um presentinho ao seu blogueiro favorito?’

Soltei a notícia em um jantar de família: ‘Pai, estou mendigando livros pela internet’. Os enteados dele começaram a rir, duvidaram. Meu pai suavemente pousou a mão sobre o braço de um deles e confirmou: ‘Não riam, ele seria realmente capaz de fazer isso’. Nunca tive tanto orgulho do meu pai como nesse momento.

Os leitores deste Observatório também estão liberados para participar (http://www.submarino.com.br/wishlist_client.asp?wlid=134594&franq=136855)

Desde maio, já ganhei mais de 300 reais em livros.

Google AdSense

Com certeza, a melhor opção é mesmo o AdSense, o programa de parceria publicitária do Google.

O esquema é simples: você se cadastra no programa e, se for aceito, insere anúncios do Google no seu site. Há diversas opções de tamanhos e formatos.

Para máxima relevância, o Google lê o seu blog e tenta mostrar anúncios relacionados ao seu tema. O raciocínio é simples: em um blog sobre música, anúncios sobre CDs serão mais clicados do que sobre artigos esportivos.

Comparado a todos os outros métodos que levantei, o AdSense é mais confiável e paga mais.

Experiências pessoais

Utilizo o AdSense há dois meses. Em setembro, ganhei 20 dólares e em outubro, 15 dólares. São aproximadamente 100 reais em dois meses, em troca de trabalho adicional algum. Instalar os códigos dos anúncios me tomou quinze minutos, e foi uma única vez. De resto, fiz o que já fazia de graça há anos: mantive meus sites e blogs. Ainda não dá para comprar aquela casa no Alto Leblon que estou namorando, mas paga uns três livrinhos ou a conta do celular. O primeiro cheque será enviado quando eu acumular 100 dólares.

Cora Rónai, blogueira do InternETC e editora do caderno de ‘Informática Etc.’ do Globo, colocou o AdSense em seu blog em abril de 2004. No primeiro mês, quando tudo ainda era novidade, ela conseguiu ganhar 120 dólares mas, logo no mês seguinte, o valor despencou para 22 dólares, caiu para 10 dólares em junho e se manteve nessa média.

Há ressalvas, entretanto.

Preço secreto

O Google faz leilões entre seus anunciantes e quem dá mais aparece no topo. Quando alguém clica em um anúncio no seu blog, você ganha uma porcentagem do que aquele anunciante pagou ao Google – mas esses dois valores você não tem como saber.

Há palavras que valem quase 1 dólar por clique, outras, meros centavos. Dependendo do dia e do anunciante, cinco cliques podem pagar cinco dólares, ou vinte cliques podem ser que não paguem nem um.

Anúncios relevantes

O AdSense funciona melhor em sites monotemáticos.

Se o seu blog é sobre artes plásticas, o Google vai identificar facilmente esse assunto, vai mostrar anúncios altamente relevantes para quem gosta de artes plásticas, seus leitores vão clicar muito e todos vão ganhar dinheiro.

Por outro lado, se você fala de tudo um pouco (como quase todo blog!), o Google não vai conseguir triangular um assunto com precisão, vai mostrar anúncios genéricos que não são lá muito interessantes para ninguém, e os cliques serão pífios.

Alguns sites, como o Mercado Livre, permitem que você escolha um tema para seus anúncios: informática, sexo, música, esportes etc. Infelizmente, o Google ainda não oferece essa opção e blogs genéricos ficam micados com anúncios desinteressantes que não geram lucro para ninguém.

Tentando driblar o Google

Tenho o AdSense há dois meses, em cinco blogs e sites que mantenho. O principal é o Liberal Libertário Libertino, com média de mil visitas diárias, e picos de até oito mil por dia. Os outros quatro têm, juntos, uma fração mínima da audiência do LLL. Entretanto, dos 35 dólares que ganhei, o LLL gerou menos de 10%.

A explicação é simples: o LLL é um blog genérico, com vários posts diários falando de política, sexo, piadas, cultura, o que der na telha. O Google não conseguiu, nem jamais conseguirá, isolar um único assunto para rotular o LLL. Os anúncios, quando existem, são esdrúxulos: na maioria dos casos, são propagandas institucionais do Google, que não pagam nem se forem clicadas. Meus outros sites e blogs, criados justamente para tratar de assuntos específicos, são poucos visitados, mas os anúncios, mais relevantes, têm altas taxas de cliques.

Cora Rónai enfrentou o mesmo problema. No começo, a maioria dos seus anúncios era sobre recuperação de HD. Esperta, decidiu tentar manipular o AdSense. Fez alguns posts sobre flores, colocou nomes de flores em negrito pelo blog e, pimba!, o Google começou a mostrar anúncios sobre compras de flores pela internet. Eu, infelizmente, fiz a mesma coisa com outros assuntos e não consegui resultado algum: os anúncios no LLL continuaram genéricos.

Atrasos no pagamento

Os primeiros participantes do AdSense se deram bem. Os anúncios ainda eram novidade e os preços estavam altos. Melhor ainda, conseguiram receber seus cheques.

Cora, uma das primeiras, até escaneou o cheque e postou no blog. Logo depois disso, entretanto, a Receita Federal começou a implicar com essa revoada de dólares Brasil adentro e fechou a torneira. Os cheques voltaram e o Google parou de enviá-los até que se chegasse a uma solução. Enquanto isso, os pagamentos iam se acumulando.

Ninguém traduziu o non-sense da situação melhor do que a própria Cora:

‘Chamem o Maluf! Mandar dólar para fora do Brasil, como sabe quem acompanha o noticiário, é o que há de mais fácil. Sobretudo quando é muito dólar. Mas receber os suados caraminguás dos anunciozinhos do Google virou um pesadelo para vários webmasters brasileiros: a Receita Federal resolveu reter os envelopes do Fedex, exigindo ‘explicações’.’

Finalmente, em outubro, o Google anunciou que tinha resolvido as pendências com a Receita. Os cheques, do Citibank, já estão sendo enviados novamente, via Fedex.

Vale a pena sublinhar que embora o Google seja uma empresa grande, sem sede no Brasil, todos os e-mails foram respondidos em poucas horas, em educado e perfeito português tupiniquim.

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Colunista de internet da Tribuna da Imprensa, editor do Guia de Blog SobreSites (http://www.sobresites.com/blog), mantém o blog Liberal Libertário Libertino (http://www.liberallibertariolibertino.blogspot.com/); e-mail (cruzalmeida@sobresites.com)

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