Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

E-NOTíCIAS > TERROR & MÍDIA

Merval Pereira

15/03/2005 na edição 320

‘O papel da mídia diante do fenômeno do terrorismo foi tema de um dos painéis de ontem do congresso aqui em Madri, com um sugestivo título, ‘A mídia e o terrorismo: amigos ou adversários?’. Não há dúvida de que o terrorismo é uma estratégia de comunicação, o que nos coloca diante de um dilema, como ressaltou Matthias Naas, subeditor-chefe do ‘Die Zeit’, revista semanal de informações da Alemanha: o terrorismo floresce com sua divulgação.

A ex-primeira ministra inglesa Margareth Tatcher disse certa vez que ‘a informação é o oxigênio do terrorismo, e nós é que damos esse oxigênio’. Já que o que os grupos terroristas querem é publicidade, quanto maior impacto tiverem suas ações, maior destaque terão nos meios de divulgação, e assim estará aparentemente estabelecido um círculo vicioso que só favorece os terroristas.

Como os terroristas usam as modernas mídias, qual é o papel da mídia e sua responsabilidade na luta contra o terrorismo? Como jornalistas responsáveis podem lidar com o equilíbrio de informar o público e o desejo de protegê-lo contra o terrorismo?

Vários pontos de consenso surgiram, embora ficasse claro que não existe firmada uma posição comum sobre como tratar o problema. Antonio Franco, editor-chefe do ‘El Periódico’, da Cataluña, Espanha, embora tenha dito que a coesão contra o terrorismo tem que ser como uma religião, disse também que os jornalistas têm que ter claro que não estão a serviço do governo, mas dos cidadãos. Segundo ele, ‘é dever ético separar o que é ato contra a população civil da resistência dos povos contra uma invasão’, numa referência aos homens-bomba na guerra do Iraque. ‘Esses matizes devem chegar à opinião pública’, ressaltou Franco.

Não houve discordância quanto ao fato de que o jornalista não pode ser o braço informativo do governo, e de que a tendência de qualquer governo, seja de que ideologia for, é querer controlar as informações de acordo com seus interesses. Embora todos afirmem que o jornalista não pode ser neutro diante do terrorismo, nem pode fazer propaganda do terrorismo, uma pergunta do moderador da mesa, Juan Luis Cebrian, CEO do Grupo Prisa da Espanha, ficou no ar, sem resposta: a resistência francesa contra os alemães, na Segunda Guerra, era terrorista ?

Giannini Riotta, editor-chefe do ‘Corriere della Sera’, da Itália, pergunta: o que é fazer apologia do terrorismo, publicar um manifesto? Segundo ele, ‘os Estados impõem uma carga muito grande sobre a mídia’. Outro paradoxo ressaltado por ele: sabíamos tudo e não podíamos revelar nada no caso do seqüestro da jornalista italiana, para não colocar em risco sua vida. ‘Mas tenho a impressão de que quanto mais escrevermos, quanto mais sair publicado, melhor. Essa é a melhor saída’.

Hasan Cemal, colunista do ‘Milliyet National Daily’, da Turquia, lembrou que entrevistou radicais turcos no Afeganistão, que tinham ódio do regime laico da Turquia. Acabou se revelando, tempos depois, que um deles era homem da al- Qaeda. ‘Eu pensei que havia sido um instrumento dos radicais’, lembra ele. Ele criticou as muitas restrições legais na Turquia sobre terrorismo, mas lembrou que ‘temos lá 30 mil mortes em 15 anos’.

Vários dos jornalistas coincidiram que é preciso ter cuidado quando a imprensa se refere aos terroristas. Há uma crescente tendência a chamá-los de ‘insurgentes, resistentes’, e muitos políticos também adotaram a fórmula. Matthias Naas, subeditor-chefe do ‘Die Zeit’, embora tenha ressaltado que ‘não podemos ser neutros diante dos acontecimentos terroristas’, salientou que o clima de ‘quem não está conosco está contra nós, como definiu o presidente Bush certa vez, não é democrático’.

Segundo ele, o clima nos EUA é uma prova disso, ‘há demasiado patriotismo nos meios de comunicação dos Estados Unidos’. Uma das estrelas do painel foi a jornalista do ‘New York Times’ Judith Miller, que tem papel de destaque nos dois lados da questão.

Com suas reportagens sobre as armas de destruição em massa apoiadas basicamente em informações do então presidente do Congresso iraquiano, Ahmad Chalabi, ela ganhou prêmios e ajudou a criar o clima propício à invasão do Iraque. Mais adiante, com a desmoralização de Chalabi, o próprio ‘New York Times’ teve que pedir desculpas em público por ter baseado reportagens ‘em fontes não confiáveis’.

Acusada de governismo, Judith Miller hoje encontra-se do outro lado, sendo pressionada por um juiz a revelar as fontes de uma reportagem que não chegou a escrever, sobre a identidade de uma espiã da CIA. Judith chegou a ser condenada a 18 meses de prisão por se recusar a revelar as fontes, e ontem disse que o que está em jogo nos Estados Unidos ‘é a liberdade de imprensa e a democracia’.

Jean-Marie Colombani, editor do ‘Le Monde’, da França, ressaltou que os meios de comunicação têm que tentar sair do marco ideológico, que define a classificação dos atos terroristas. Lembrou que ‘a tentação autoritária é controlar a imprensa, tanto por parte dos governos quanto dos terroristas’.

Francisco Santos Calderon, jornalista seqüestrado por oito meses pelas Farc, hoje vice-presidente da Colômbia, levantou uma questão muito conhecida pelos jornalistas, especialmente os do Rio de janeiro: acusou os meios de comunicação de servirem de ‘caixa de ressonância’ aos grupos terroristas, e está sendo muito criticado em seu país por isso.

Segundo ele, em dois anos o governo colombiano recuperou o território legal, reduziu drasticamente o número de seqüestros e de atentados. ‘Mas três atentados recentes fizeram a imprensa questionar a eficácia do sistema de segurança. É preciso ajudar a construir a confiança nas forças públicas’.’



Tito Drago

‘Todo ataque a civis é terrorismo, diz juiz Garzón’, copyright O Estado de S. Paulo, 11/03/05

‘Todo ataque ou agressão contra a população civil é um delito de terrorismo, seja perpetrado por grupos civis, insurgentes, terroristas ou exércitos regulares, afirma o juiz espanhol Baltasar Garzón, famoso pelo processo contra o ex-ditador chileno Augusto Pinochet. Garzón acaba de lançar seu livro Um mundo sem medo.

Por que seu livro fala do medo?

Digo que temos de alcançar um mundo sem medo. Porque é por meio do direito que devemos encarar a solução dos conflitos, sejam quais forem, e não tanto por meio da razão da força.

Sem nunca apelar para a força?

Não, nunca não, mas sempre lembrando que, mesmo quando esta é necessária, deve-se aplicá-la atuando dentro das margens do direito internacional.

O medo poderá ser eliminado?

O medo acompanha normalmente o ser humano, mas deveria ser limitado à intimidade de cada um, para que cada um lidasse com seus próprios fantasmas.

Mas então por que o sr. fala em acabar com o medo?

Refiro-me ao medo imposto pelo poder, que não deveria mais existir. É necessária uma ação plural para que o medo das organizações criminosas desapareça, e que, a partir das instituições, sejamos capazes de oferecer uma resposta positiva às vítimas e aos cidadãos em geral.

Desde que, por pedido seu, Pinochet foi preso e processado em Londres, em 1998, houve avanço no direito penal internacional?

Sim, sem dúvida a justiça internacional seguiu seu curso, na Europa e na América Latina. Esse julgamento (de Pinochet) representou um impulso que continua até hoje, e é bom que seja assim, porque se limita o espaço da impunidade em casos tão graves como os crimes contra a humanidade.

A criação do Tribunal Penal Internacional é um avanço efetivo?

Sim, embora ainda esteja em seus primeiros momentos. O transcendente é que estão sendo promovidas ações com o objetivo de fechar o cerco à impunidade nos países que sofrem com isso. Estas ações deve basear-se na vontade de que os delitos de lesa humanidade não prescrevam e sejam julgados em toda a sua extensão, sem entraves temporais.

O que pensa das denúncias de tortura e violação dos direitos humanos por parte dos EUA pelo que ocorre em Guantánamo?

Nos EUA está em vigor a ‘Lei Patriótica’, que permite a detenção de inimigos por tempo indeterminado, sejam combatentes ou não. De meu ponto de vista, é uma flagrante violação dos direitos fundamentais das pessoas, como está sendo determinado nos próprios EUA por sua Corte Suprema. Isso evidencia que a violação dos direitos não pode subsistir e os detidos em Guantánamo, como qualquer outra pessoa submetida à jurisdição americana, devem ter todo um conjunto de direitos previstos pela lei, para que haja um julgamento justo.

É otimista, então, quanto ao futuro dos direitos humanos nos EUA?

Espero e desejo que as coisas evoluam nesse sentido. A situação atual é insustentável, é um círculo fechado que deverá abrir-se mais cedo do que se espera, e o único modo de fazer isso é levando os casos à Justiça comum.

Na Cúpula Ibero-Americana de 2003 na Bolívia, o ex-presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso propôs o desenvolvimento e a harmonização das legislações nacionais em áreas estratégicas da economia. Isso deveria ser feito também em assuntos penais?

Sem dúvida. Num mundo globalizado, não só na economia, mas também na política, deve-se afirmar a coordenação no âmbito da justiça e da liberdade, como está sendo feito na União Européia.

Quando se deve falar de terrorismo e quando de guerrilha?

A doutrina é perfeitamente clara sobre guerrilha, insurgência e terrorismo. Quando a ação de uma organização vai contra a população civil, não combatente, independentemente do que se proclama, sua atividade é claramente terrorista, pois afeta os próprios direitos da humanidade. Em hipótese nenhuma a população civil pode ser agredida, e quem o faz comete crimes contra a humanidade. A insurgência guerrilheira exige um confronto entre exércitos regulares ou não regulares. Mas a ação contra uma população civil nunca poderá ser legitimada, independentemente de quem a pratique e da justificativa apresentada .

Isso vale também quando o ataque é lançado por um exército regular?

O que digo está nas Convenções de Genebra e no estatuto do Tribunal Penal Internacional. É válido para qualquer pessoa ou entidade que desenvolva ou participe de ações delituosas contra a população civil.

Para combater o terrorismo, faz falta alguma organização internacional especial, ou basta a coordenação entre países?

São necessárias uma coordenação e uma cooperação eficazes, e uma legislação que defina de modo uniforme os conceitos e o fenômeno em si e atribua especificamente um papel dirigente, nos âmbitos político, diplomático e de implementação, à ONU.

*Tito Drago, jornalista hispano-argentino, é diretor da Inter Press Service Espanha’



THE ECONOMIST
Raymond Snoddy

‘‘Economist’ ganha leitores com qualidade’, copyright Folha de S. Paulo / The Independent, 13/03/05

‘Bill Emmott, 48, não é editor para ser convidado para a residência de campo do primeiro-ministro. Alastair Campbell, assessor de comunicação de Tony Blair, não saberia seu número de telefone nem teria interesse em tentar intimidá-lo. Nem a Casa Branca. Fora de casa só seria um nome importante nas instituições de pesquisa e entre os economistas liberais e defensores do livre mercado. ‘Jamais fomos elite, ficamos sempre um pouco de fora, mesmo que pessoas no mundo dos negócios e no governo nos leiam’, diz Emmott, que edita a revista britânica ‘Economist’ desde 1993.

‘Não estamos presos a ninguém. Isso descreve nossa independência e nos ajuda a preservá-la’, diz Emmott, cordial, em seu espaçoso escritório na sede da ‘Economist’, em Londres. Suas referências a ‘pessoas no mundo dos negócios e no governo’ entre os leitores são modestas. ‘A revista que eu leio é ‘The Economist’, diz Bill Gates. Gordon Brown, o ministro das Finanças britânico, a descreve como ‘leitura absorvente’, mesmo que a revista não esteja muito segura de suas qualidades ministeriais, considerando que ele talvez tenha apetite grande demais por tributação elevada.

Não que a ‘Economist’ seja território de uma pequena, mas poderosa, elite. Números de circulação divulgados no mês passado mostram que Emmott é o primeiro editor nos 162 anos de existência da revista a atingir os sete dígitos no número de cópias. Para ser exato, são 1.009.759. Ele diz que o avanço foi conseguido apesar de a publicação (que classifica como jornal, não revista) ter um título que afasta leitores comuns.

‘É desalentador, aquele nome’, diz. ‘É nossa maior barreira, porque as pessoas acham que ela trata de economia. Somos provavelmente um pouco acadêmicos. Bastante sérios. Mas o nome também vem sendo uma das nossas maiores vantagens, porque tem ressonância. Tem história. E porta certa autoridade e prestígio.’

Nos seis meses até setembro, o grupo Economist, uma empresa de capital fechado, auferiu lucro anterior aos impostos de 11,5 milhões de libras, sobre um faturamento de 94,2 milhões de libras, mas é provável que o lucro cresça à medida que melhora a perspectiva de publicidade internacional.

Em parte devido à estabilidade do controle -50% das ações estão nas mãos da Pearson, controladora do ‘Financial Times’, e o restante nas mãos de poderosas famílias da City e da indústria, como os Rothschild, Schroeder e Cadbury- , a ‘Economist’ vem conseguindo realizar investimentos de longo prazo, ano após ano.

Rivais americanos

Como resultado, quase todo mês surgem pequenos marcos positivos. A revista superou as vendas em banca dos principais rivais americanos, ‘Forbes’, ‘Fortune’ e ‘BusinessWeek’, e vende hoje mais de 500 mil cópias semanais nos EUA. Mas como uma pequena revista semanal britânica com um nome desestimulante e uma formidável reputação intelectual conseguiu conquistar tanta circulação e a expansão dos negócios? A resposta está em um processo longo, lento e gradual.

‘A inteligência do que [o editor-executivo David] Hanger e seus colegas da parte comercial fizeram envolve, essencialmente, compreender que, se você crescer 7% ao ano, duplica de tamanho em dez anos. Não é preciso crescer entre 15% e 20% ao ano.’ Essa abordagem ‘lenta mas constante’ valeu um acúmulo de leitores para a publicação em todo o mundo.

Hanger, que começou a trabalhar para a ‘Economist’ em 1968 com o plano de ficar por dois anos e turbinar seu currículo, e que se aposenta neste mês, diz que ‘a verdade é que nós avançamos a nossa posição em diversos mercados. Temos cerca de 110 mil leitores na Ásia, 150 mil cópias semanais no Reino Unido, mais de 200 mil no continente [europeu] e 500 mil na América do Norte’. A publicação também é vendida (uma cópia por país) em Cuba, Guiné-Bissau e nas Ilhas Cook. Já em Chade, República Democrática do Congo e Ilhas Reunião, são duas cópias semanais.

Segundo Hanger, o investimento em recursos foi crucial. ‘Enquanto fazemos tudo isso, podemos empregar mais jornalistas, e melhores’, diz. ‘Podemos abrir sucursais no exterior, e não fizemos cortes. Todos os outros veículos passaram por cortes. Estamos sempre nos expandindo e melhorando o que temos a oferecer aos anunciantes.’

James Wilson fundou a ‘Economist’ em 1843 para lutar por uma das grandes causas de sua era, o livre comércio. Seu retrato enfeita a parede do escritório do editor. Mas os quatro últimos editores realmente ampliaram o ritmo de crescimento da revista, cada um com uma contribuição específica.

No final dos anos 1960 e começo dos 1970, a ‘Economist’ era uma pequena publicação com circulação de 100 mil exemplares e pouco crescimento. Tinha um correspondente em Washington e, mais tarde, Tóquio. Foi o editor Alastair Burnet que adotou imagens excêntricas e irreverentes na capa, em lugar de palavras densas, e tornou a revista mais vivaz. Burnet mais tarde se tornou conhecido, quando se transferiu para o ‘Daily Express’ e depois para a Independent Television News.

Seu sucessor na revista, Andrew Knight, que se tornaria presidente-executivo do Telegraph Group sob Conrad Black, começou a expansão na Europa e a pensar nos EUA. Rupert Pennant-Rea, que saiu da revista para o Banco da Inglaterra e hoje é empresário, comandou a invasão dos EUA.

Japão

Emmott, que não tem intenção de mudar de emprego no curto prazo, depois de ser correspondente no Japão acrescentou uma dimensão asiática à publicação, no exato momento em que a Ásia começava a conquistar a atenção dos jornalistas. Também houve uma série de anúncios inteligentes e divertidos, usando o vermelho e o branco como cores dominantes, com frases como ‘nem todas as substâncias que expandem sua mente são ilegais’ e ‘como vencer em jogos de tabuleiro’.

Durante os anos de Emmott à frente da publicação, ele tentou criar um produto mais global e construir uma comunidade de leitores entre os funcionários de governos, empresas, universidades e organizações de pesquisa que viajam muito e se conhecem.

Nesse sentido, é como uma revista de paróquia, mas do tamanho do mundo. Quanto mais o mundo avança para a informação instantânea, mais ele acredita que seja necessária uma publicação que separe o importante da abundância de informação que o cerca.

A expansão internacional e o sucesso financeiro obviamente foram ajudados pelas tendências sociais e econômicas como a globalização e a difusão do inglês. Mas nenhuma outra empresa britânica de mídia, com a possível exceção do ‘Financial Times’, conseguiu o mesmo efeito.

Mas o que se pode oferecer a um quadro de leitores que tem renda pessoal muito alta e como manter o aspecto global de uma revista publicada no coração de Londres?

Além dos 28 jornalistas em 21 sucursais internacionais, Emmott e os demais jornalistas de sua equipe -um total de 70- viajam muito e tentam evitar influência excessiva da mídia local. Os únicos jornais diários que o editor da ‘Economist’ lê são o londrino ‘Financial Times’ e o ‘International Herald Tribune’. Ele não lê nenhum dos jornais dominicais britânicos. Tira o dia de folga.

Embora tente evitar a influência britânica excessiva, Emmott também precisa se manter firme contra a tendência de tornar ‘The Economist’ americana demais, o que é um sério desafio, já que metade dos leitores da publicação estão lá e os EUA geram vasta quantidade de notícias todo dia.

‘Você tem de se lembrar o tempo todo de que não é americano’, diz Emmott, nascido em Londres, filho de um contador que trabalhava para o governo e formado em política, filosofia e economia em Oxford. ‘Quando se pergunta por que os americanos desejariam comprar a ‘Economist’, a resposta é pela cobertura dos assuntos mundiais e eles continuam querendo que levemos o mundo a eles’, diz.

Será que 500 mil americanos são leitores detalhados de uma revista britânica desafiadora chamada ‘Economist’? Ou alguns exemplares só enfeitam as mesas de centro de pessoas que gostam de ser vistas como sofisticadas?

‘É difícil enquadrar essa teoria às pesquisas que conduzimos, e 500 mil mesas de centro é realmente um número elevado’, diz. ‘Nosso pessoal de pesquisa de mercado afirma que as pessoas têm alegado que passam ainda mais tempo lendo o nosso jornal. Por que elas mentiriam ainda mais do que no passado?’

Emmott é razoavelmente bem conhecido nos EUA, mas há dois países em que ele é realmente famoso: o Japão e a Itália. Sobre o Japão ele escreveu um livro, chamado ‘The Sun Also Sets’ (o sol também se põe), em que previa corretamente a extinção do domínio japonês. ‘Os japoneses não conseguiam decidir se eu estava do lado deles ou contra eles.’

Na Itália, Emmott é uma figura controversa porque ‘The Economist’ essencialmente acusou o primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, de ser um trapaceiro e responsável por subornos. Como resultado, há dois processos em curso contra a revista no país, ambos vigorosamente contestados pela publicação. A robusta cobertura sobre a Itália é uma indicação de que preconceitos que os não-leitores podem ter sobre a ‘Economist’ talvez não se apliquem.

Emmott, por exemplo, criticou a monarquia britânica alegando que, no caso de um chefe de Estado eleito ou indicado, você fica preso a um incompetente por apenas quatro ou cinco anos de cada vez. O editor apoiou o premiê conservador John Major contra Blair em 1997: ‘Um erro, porque ele não era realmente confiável’, mas considerou a postura de Tony Blair como suficientemente de centro-direita para valer seu voto, na última eleição.

Emmott também emprestou o peso de sua publicação ao casamento homossexual, como instituição, e pediu a legalização dos narcóticos. Mas apoiou a invasão do Iraque, justificando que era perigoso demais esperar para ver se Saddam Hussein tinha ou não armas de destruição em massa, e que a situação prevalecente no país era insustentável.

Liberdade individual

As opiniões e posições da ‘Economist’, acredita Emmott, estão todas conectadas por uma atitude consistente que persiste há mais de 150 anos. ‘Somos um jornal muito firmemente liberal, pelo livre comércio, nada de barreiras, mas também no apoio à liberdade individual’, disse Emmott, que acrescentou que não aprecia muito a idéia de que pessoas sejam jogadas na prisão sem julgamento.

No começo do mês, a capa britânica trazia uma jaula encimada por um telhado de casa e uma câmera de vigilância presa a um poste de luz, do lado de fora.

A manchete dizia ‘tirando as liberdades britânicas’. E a revista trazia um editorial que concluía: ‘Os britânicos são um povo de sorte e um povo complacente. As liberdades que tomam por direito evoluíram ao longo de mil anos ou mais. A idéia de que um governo possa solapá-las seriamente parece implausível. Não o é’.

Emmott quase foi rejeitado como funcionário da Economist, porque suas entrevistas iniciais não foram muito boas. Não recebeu resposta da revista e já tinha completado o primeiro ano de seu doutorado, sobre o Partido Comunista Francês, quando foi procurado pela empresa. Acabou por receber uma proposta para se tornar o segundo homem da revista em Bruxelas e depois trabalhou em Londres e se ofereceu como voluntário para uma vaga no Japão. No seu tempo livre, o símbolo do editor globalizado gosta de caminhadas pelo campo e de jogar críquete. Enquanto se prepara para mais alguns anos à frente da ‘Economist’, será que existe alguma chance de que Emmott ponha fim à política de anonimato para os jornalistas da revista, cujos nomes não são publicados?

Nenhuma. É uma tradição e agora um ponto de diferenciação. Mas, acima de tudo, acredita ele, ajuda a revista a manter uma voz coletiva. ‘A identidade da ‘Economist’ é uma coisa forte e se beneficia da cooperação entre jornalistas. Os artigos não são escritos por um coletivo, mas existe uma certa abordagem e metodologia coletiva’, insiste Emmott, o advogado da liberdade individual.

A metodologia da ‘Economist’ inclui rigor analítico e uma forma de escrever uma matéria que envolve expor os fatos e chegar a uma conclusão com base neles.

Mas Emmott não se apressa em condenar publicações menos rigorosas com seus fatos, e não dá muita trela para os que afirmam que as instituições políticas britânicas vêm sendo solapadas, de alguma maneira, por jornalistas arrogantes e irresponsáveis.

‘Eu compartilho da preocupação quanto à confiabilidade e aos padrões de profissionalismo da mídia. Creio que sejam inadequados. A necessidade de que sejam mais altos cresceu, porque os leitores agora são mais educados, e as expectativas avançaram’, explica o editor. Ao mesmo tempo, a importância política da mídia aumentou devido à capacidade de uma idéia para circular pelo mundo em tempo zero e devido ao fato de que a capacidade de comparar e contrastar dos consumidores também cresceu.

Eleição britânica

‘Essa é a verdadeira mudança. As expectativas cresceram, e a mídia não evoluiu de acordo’, acrescenta Emmott. À medida que se aproxima a próxima eleição britânica, que deve ocorrer neste semestre, o que ‘The Economist’ decidirá? Emmott não assume posição definida, porque o debate da equipe a respeito ainda não começou, mas algumas das linhas básicas da disputa já estão claras.

Por um lado, a ‘Economist’ critica os conservadores por não terem apresentado um plano tributário confiável e pelo que ele entende como abordagem teimosa quanto às mensalidades das universidades, para não mencionar a credibilidade do líder conservador Michael Howard como potencial primeiro-ministro. No prato oposto da balança, há a questão preocupante de até que ponto os trabalhistas se manteriam como partido de centro-direita sob o comando de Gordon Brown e dúvidas quanto a políticas nada liberais sobre diversas questões, do crime à imigração.

‘Pretendo sorrir inescrutavelmente’, disse Emmott, , usando a palavra que seus colegas tendem a aplicar a ele.

As chances são de que, em algum momento de abril, a ‘Economist’ diga aos seus 1.009.759 leitores que decidiu, por motivos puramente pragmáticos, apoiar um novo mandato para Tony Blair, ainda que não muita gente deva prestar atenção ou se incomodar muito.’

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