Domingo, 16 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1041
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Meu lar, meu escritório

Por Cora Rónai em 02/06/2015 na edição 853

Trabalhar de short, convencer a família e os amigos de que o trabalho em casa é tão trabalho quanto outro qualquer, fugir com o computador para o shopping para escapar às interrupções da família… As experiências de quem já se livrou do escritório, ou que conseguiu ao menos passar algum tempo longe dele, são muito semelhantes; eu mesma me vi em muitos dos depoimentos suscitados pela coluna da semana passada, sobre os desafios do trabalho à distância.

“Esse é o mundo sobre o qual escreveu o escritor Domenico de Masi em ‘O ócio criativo’, e que me incentivou a deixar minha cidade natal para me aventurar pelo Brasil”, escreveu Pedro Gadelha Jardim. “A partir de 2001, quando a internet já se firmava no país, eu conseguia me comunicar com vídeo com minha família, no Rio, e fazer os meus trabalhos de retoque e tratamento de imagens à distância. Mas foi uma aventura muito particular, pois tinha dois parceiros de trabalho que compartilhavam comigo essa ideia. A sociedade ainda não vê com bons olhos esse tipo de trabalho, principalmente no interior. Mesmo com toda a conectividade já existente, as pessoas ainda te acham preguiçoso e vagabundo, ainda dão mais valor ao funcionário que cumpre o horário e enrola do que a quem cumpre as tarefas e consegue ter tempo de sobra.”

Já Ricardo Mavigno observou que nem todos os problemas para uma disseminação maior do trabalho à distância são necessariamente de ordem cultural; ele acredita que aspectos jurídicos também assustam os empregadores, e conta que testemunhou o caso de uma funcionária que estava trabalhando em casa, foi à cozinha pegar uns biscoitos, subiu num banquinho, caiu, quebrou a bacia e teve ganho de causa numa ação por acidente de trabalho.

“Não vou entrar no mérito da sentença. Mas dada a possibilidade de ter sido mesmo acidente de trabalho, o que a empresa pode fazer? No seu próprio ambiente ela pode atuar para evitar acidentes, com procedimentos, equipamentos, etc. E na casa do trabalhador? Exigir que ele use equipamento de proteção para ir à cozinha? A questão é que a nossa legislação é problemática e paternalista, cheia de voltas e contornos que não deixam essas situações claras, e não dão segurança nem para o empregado, nem para o empregador.”

Mavigno levantou um ponto muito importante, sobre o qual, confesso, eu ainda não havia pensado. A verdade é que todas as mudanças de paradigma trazem consigo realidades novas, que vão sendo conhecidas e interpretadas à medida em que se apresentam. De modo geral, porém, as experiências relatadas foram positivas:

“Sou operadora de turismo, ou seja, normalmente não tenho contato direto com o passageiro”, escreveu Beatriz Palmier. “Meu contato é com agências ou operadoras do mundo todo, por isso só preciso de um computador e de um telefone para trabalhar. Fui mandada para casa há dois anos. Com o trânsito do Rio, foi a melhor coisa que me aconteceu. Meu filho estava com 11 anos na época. Almoçamos juntos todos os dias, e como a comida que eu mesma preparo. Só tenho uma reclamação: os vizinhos. Às vezes, é muito barulho. E, quando ligo para algum fornecedor, o som de fundo pode ser um bebê chorando ou um cachorro latindo. Você sabia que a maioria das pessoas dos chats on-line está em casa?”

Não, taí uma outra coisa que eu não sabia! Na verdade, sempre imaginei as pessoas que me atendem nos chats em escritórios imensos, parecidos com os de telemarketing. De agora em diante, vou pensar numa colega tranquila, sentadinha em casa. Não é que fica bem mais simpático?

***

Cora Rónai é colunista do Globo

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