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Quarta-feira, 15 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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Mídia, pesquisa e conflito de interesses

Por Maurício Tuffani em 23/12/2008 na edição 517

O jornal O Estado de S. Paulo abordou na sexta-feira (18/11) um tema muito negligenciado pela imprensa brasileira, que é o conflito de interesses em pesquisas médicas. A reportagem ‘Pesquisa sobre males do amianto tem verba do setor‘, do jornalista Emilio Sant´Anna, informa que três universidades públicas paulistas – USP, Unicamp e Unifesp – investigam denúncia de conflito de interesses em um estudo sobre os efeitos do amianto sobre a saúde humana.


Segundo a reportagem, as três universidades não foram informadas que a pesquisa teve suporte financeiro de 1 milhão de reais do Instituto Brasileiro do Crisotila (IBC), entidade de empresas e associações de trabalhadores ligados à mineração do amianto e à fabricação de produtos com esse material. O projeto recebeu também 1 milhão de reais do CNPq e recursos do governo do estado de Goiás, cujo valor não é mencionado na reportagem.


No site do projeto Asbesto Ambiental não é mencionado suporte financeiro do IBC. Os coordenadores da pesquisa são os pneumologistas Mário Terra Filho, da USP, e Ericson Bagatin, da Unicamp, e o fisiologista Luiz Eduardo Nery, da Unifesp. A matéria do Estadão registra a declaração de Bagatin de que não foi criticada a metodologia do estudo, que, segundo ele, dá continuidade a 15 anos de trabalhos para ‘obter dados científicos brasileiros para dar condições de discutir se é possível ou não usar o material de forma segura’.


Padrões internacionais


O fato de uma pesquisa receber apoio financeiro de entidade que tem interesse direto no tema a ser estudado não implica necessariamente que as conclusões dos pesquisadores sejam enviesadas. Mas toda vinculação desse tipo, tanto do estudo como de seus participantes, deve ser formalmente informada às instituições que dão suporte ao trabalho e também à revista científica que o publica. Essa situação é definida como de potencial conflito de interesse segundo os preceitos da chamada ética da pesquisa. No caso da medicina, sobre isso existem padrões internacionais, como os do Comitê Internacional de Editores de Revistas Médicas (ICMJE).


As normas do ICMJE não se aplicam apenas a autores de estudos médicos, mas também a editores, revisores e demais membros do staff editorial. Uma síntese dessas normas é mostrada no estudo ‘Conflito de interesses em pesquisa clínica‘, dos cirurgiões Elaine Maria de Oliveira Alves e Paulo Tubino, da Universidade de Brasília [Acta Cirúrgica Brasileira. Vol 22 (5) 2007]. Nesse trabalho, é apresentada a seguinte definição.




‘O conflito de interesses surge, em pesquisa clínica, quando um ou mais de um dos participantes do processo – sejam os pesquisadores ou até mesmo o editor e/ou o revisor do periódico no qual, eventualmente, o trabalho será publicado – têm ligações com instituições ou interesses que possam prejudicar a lisura da investigação ou restringir a competência e a imparcialidade para avaliação da mesma.’


A conclusão de Alves e Tubino é a de que…




‘(…) os conflitos de interesses são generalizados e inevitáveis na vida acadêmica. O desafio não é erradicá-los, mas reconhecê-los e manejá-los adequadamente. A única prática aceitável é que sejam expostos claramente e que todas as pesquisas em seres humanos passem pelo crivo dos comitês de ética em pesquisa.’


Dinheiro de laboratórios


Esse tema já trouxe grandes constrangimentos para a medicina. Um dos episódios mais marcantes foi a revelação de que 70 estudos sobre um determinada droga anti-hipertensiva, publicados de março de 1995 a setembro de 1996, foram direta ou indiretamente financiados pelos mesmos laboratórios que os fabricam. Segundo a pesquisa ‘Conflict of interest in the debate over calcium-channel antagonists‘ [The New England Journal of Medicine, v. 338(2), janeiro de 1998, pp. 101-106], coordenada por Henry Thomas Stelfox, da Universidade de Toronto, no Canadá, os autores desses estudos estavam envolvidos com os laboratórios por meio de serviços de consultoria, pagamento de conferências, custeios de viagens, apoio a pesquisas e suporte educacional


Muitas publicações médicas brasileiras exigem declaração de conflito de interesses. Algumas chegam a exigir até mesmo declaração de que não há conflitos de interesses, como é o caso, por exemplo, da Arquivos de Gastroenterologia. Ou seja, algumas publicações simplesmente exigem que as situações de conflito de interesses sejam apontadas, enquanto outras exigem que todos os autores declarem formalmente se têm ou não qualquer vinculação desse tipo.


No Brasil, a imprensa raramente se interessa pelo conflito de interesses em pesquisas científicas. Uma grande reportagem sobre esse tema foi feita há oito anos pelos jornalistas Eliane Brum, Bruno Weis e Raphael Falavigna para a revista Época (‘A maldição do amianto‘, 16/04/2001). Na ocasião, uma outra pesquisa sobre amianto, também realizada por Bagatin, havia recebido financiamento privado não informado à sua agência pública fomentadora, a Fapesp.


Jornalistas devem ser atentos ao aspecto de conflitos de interesse sempre que divulgarem pesquisas científicas em geral, e não só as da área de saúde. Vale a pena conferir, nas publicações científicas, se suas instruções para autores incluem normas sobre isso. A lista de periódicos nacionais da Scientific Electronic Library Online – Scielo facilita essa verificação. Ainda há revistas que não exigem declaração alguma.


Recentemente, o New York Times noticiou uma pesquisa que mostrou conflitos de interesses na área médica também entre jornalistas (‘Conflicts of interest may ensnare journalists, too‘). Mas isso será assunto para outra conversa.

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Jornalista especializado em ciência e meio ambiente

Todos os comentários

  1. Comentou em 27/12/2008 Marcelo Ramos

    O comportamento do Bandarra é o clássico preconceito. Fechado em seu mundinho ideal, onde a homeopatia (e outros progressos) ainda não chegaram. A homeopatia e medicina chinesa estão não apenas nos países que citei, estão em outros também. É que procuro pegar leve quando as pessoas demonstram preconceito. Essas modalidades estão penetrando no sistema médico ocidental pois preenchem necessidades que o a medicina normal não preenche. A medicina alternativa não veio para ‘tirar o lugar’ da medicina normal.

  2. Comentou em 26/12/2008 Felipe Faria

    Nunca sugeri que a liberdade da publicidade deva ser ilimitada, e tenho a perfeita noção de que os direitos de cada um acabam quando começa o direito dos outros. Poré, a liberdade de expressão é a chave fundamental de todas outras liberdades. Este filme sobre o julgamento do dono da revista Hustler ilustra bem porque mesmo os que dizem bobagem devem ter o direito de dizê-la. . . http://www.youtube.com/watch?v=Z0X3T6-K22o

  3. Comentou em 26/12/2008 Paulo Bandarra

    O Publicitário Marcelo Ramos, como de costume diz afirmações gratuitas sem contato com a realidade. Sendo um profissional da propaganda é normal para ele não se utilizar de fontes sérias além da sua opinião. Faz parte da sua formação. Dar garantias falsas. Caro Felipe Faria, não se trata de proibir a livre iniciativa ou a propaganda, mas de fiscalizá-las. Saber das suas intenções, controlá-las. Denunciá-las como faz Tuffani nesta matéria. Jamais cair no canto da sereia socialista onde toda a forma de resistência e denúncia é proibida, e em vez de enfrentar um grupo econômico, se enfrenta o estado em si, totalitário, cruel, permanente. Veja Cuba a péssima qualidade de vida e a abolição dos direitos humanos como estes que estamos falando aqui! Aqui você ainda pode pedir indenização pelos terroristas mortos no Araguaia, querer saber de seus corpos, culpar o estado por ter eliminado os terroristas. Lá isto há 50 anos é tabu perguntar. Saber onde foram parar as pessoas que lutaram contra a ditadura de Fidel.

  4. Comentou em 26/12/2008 Paulo Bandarra

    O Publicitário Marcelo Ramos, como de costume diz afirmações gratuitas sem contato com a realidade. Sendo um profissional da propaganda é normal para ele não se utilizar de fontes sérias além da sua opinião. Faz parte da sua formação. Dar garantias falsas. Caro Felipe Faria, não se trata de proibir a livre iniciativa ou a propaganda, mas de fiscalizá-las. Saber das suas intenções, controlá-las. Denunciá-las como faz Tuffani nesta matéria. Jamais cair no canto da sereia socialista onde toda a forma de resistência e denúncia é proibida, e em vez de enfrentar um grupo econômico, se enfrenta o estado em si, totalitário, cruel, permanente. Veja Cuba a péssima qualidade de vida e a abolição dos direitos humanos como estes que estamos falando aqui! Aqui você ainda pode pedir indenização pelos terroristas mortos no Araguaia, querer saber de seus corpos, culpar o estado por ter eliminado os terroristas. Lá isto há 50 anos é tabu perguntar. Saber onde foram parar as pessoas que lutaram contra a ditadura de Fidel.

  5. Comentou em 26/12/2008 Felipe Faria

    O problema , Bandara, é que a publicidade é a alma do capitalismo e é fruto da liberdade de expressão. Proibi-la seria tenebroso. Só regimes totalitários fazem isso. No fim eles subsituem a escolha individual pela escolha do estado. O estado decide o que é bom para você. Quem erra mais? O estado ou o individuo? Para você ver como o cienticismo positivista tende ao totalitarismo.

  6. Comentou em 24/12/2008 Marcelo Ramos

    Agradecendo a intervenção do sr. Ricardo Camargo, voltamos ao debate. Senhores, há coisas que podemos falar a partir da experiência e outras não. Eu nunca fiz parte e nunca cooptei ou ofereci propina à nenhum médico, assim como creio que o sr. Bandarra nunca tenha recebido nenhuma propina para prescrever um ou outro medicamento. Como já coloquei de outras vezes, existem maus profissionais em todas as áreas, não se pode condenar toda uma área por causa de alguns. O que pode haver de comum é que, tanto publicitários quanto médicos e jornalistas e advogados trabalham para alguém que paga. Ninguém duvida que há interesses econômicos por trás de certos grupos de comunicação, assim como, em alguns casos, a questão por ‘liberdade de expressão’ é apenas cortina de fumaça para interesses econômicos ocultos, já que publicitários ou médicos, ou qualquer outro não são os que mais lucram.

  7. Comentou em 24/12/2008 Ricardp Camargo

    Paulo Bandarra, simplesmente foi posto o problema de Cubatão por ser dado sobejamente conhecido desde a década de 70. Recordo, mais, que o Prof. Manoel Gonçalves Ferreira Filho (vice-governador de São Paulo no período 1974-1978), no seu ‘A democracia possível’, publicado em 1978, considerava a preocupação com o ambiente um exagero, dadas as necessidades de desenvolvimento do país, com o que me coloco em pleno acordo com o amigo no que diz respeito ao dano que provoca a ausência de democracia e de liberdade de expressão. Por outra banda, o regime soviético terminou há quase 20 anos: com a ‘democratização’ da ex-URSS os problemas ambientais de então foram resolvidos?

  8. Comentou em 23/12/2008 Ricardo Camargo

    Sr. Marcelo Ramos e Paulo Bandarra,creio melhor evitarmos as generalizações.Neste particular,é de ser observado que um ataque generalizado à classe dos publicitários soa tão temerário quanto um ataque generalizado à classe médica.Entretanto, há alguns temas que estão colocados: o jornalismo e a publicidade são ramificações da Comunicação Social. Se é o caso de se criarem cursos separados ou não – como ocorreu com a Economia, que antes era ministrada no curso de Direito -, é um tema para reflexão posterior. A publicidade, quer se queira, quer não, é uma das atividades essenciais ao funcionamento da economia de mercado:o consumidor toma conhecimento dos produtos e serviços ofertados graças a ela.E,por outro lado, é em função dela que a atividade jornalística sobrevive,e é precisamente por isto que se fala,muitas vezes,no condicionamento da informação ao interesse dos anunciantes.Quando o Código de Defesa do Consumidor estava em discussão no Congresso Nacional,a escassez da disciplina da atividade de publicidade no Brasil era não apenas sentida,como foi famosa a mobilização contrária à adoção de definições que aparentavam cercear a criatividade,embora apenas a condicionassem.Não me consta,outrossim,que alguma cidade na URSS fosse mais poluída que a nossa Cubatão,onde já havia até mesmo a manifestação de teratogenia por conta do ar que ali se respirava.

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