Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

E-NOTíCIAS > SEGUNDA-FEIRA, 3/09

Ministro Ayres Britto diz que
sociedade pressionou o STF

Por Textos selecionados por Luiz Antonio Magalhães em 05/09/2007 na edição 449


Leia abaixo a seleção de segunda-feira para a seção Entre Aspas.


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Folha de S. Paulo


Segunda-feira, 3 de setembro de 2007


STF, MENSALÃO & MÍDIA
Silvana de Freitas


Pressão social por ética influenciou decisão do STF sobre mensalão


‘O MINISTRO DO STF (Supremo Tribunal Federal) Carlos Ayres Britto, 64, disse que a expectativa da sociedade por ética na política pesou na decisão de abertura da ação penal contra os 40 denunciados do mensalão, embora sustente que o julgamento foi técnico.


‘Nós decidimos tecnicamente, mas não podemos negar que a ambiência psicossocial favoreceu um compromisso ainda mais forte com as exigências éticas’, afirmou o ministro em entrevista à Folha, concedida em seu apartamento, na manhã de quinta-feira.


Britto acusou a imprensa de comportamento abusivo nos dois episódios que expuseram a imagem do tribunal: a reprodução da conversa por e-mails entre os ministros Ricardo Lewandowski e Cármen Lúcia Antunes Rocha e a divulgação do diálogo de Lewandowski com o irmão, por telefone, em um restaurante de Brasília.


Ele negou interferências políticas no julgamento, mas, ao comentar a nomeação do ministro Carlos Alberto Menezes Direito para o STF, confirmou a existência de ‘correntes’ no tribunal. ‘É bom que haja pessoas representativas das diversas correntes políticas.’


Ex-petista, o ministro acredita que o episódio do mensalão não ‘contaminou’ o partido. Ele foi filiado por 18 anos e se desligou em 2003, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva o indicou para o STF. A seguir, os principais trechos da entrevista:


FOLHA – Qual a avaliação que o sr. faz do maior julgamento da história do STF?


CARLOS AYRES BRITO – Foi o maior julgamento em duração, complexidade e magnitude da causa, pela qualidade das pessoas envolvidas, pelo papel social, político e empresarial dos envolvidos. Daí o seu caráter histórico. Ele foi essencialmente técnico, da própria técnica jurídica. Eu tenho certeza de que todo mundo decidiu fundamentadamente.


Agora, é uma decisão que comporta outra leitura do ponto de vista ético-político. A tecnicalidade da decisão não nos impede de reconhecer isso: o STF está sintonizado com os novos ares republicanos, democráticos, que permeiam o momento histórico brasileiro.


Há uma exigência maior de qualidade de vida política para o país, de uma política permeada de ética. Lancei oralmente um jogo de palavras [no julgamento] que reafirmo: ‘Onde a ética na política não é tudo, a política não é nada’. Estamos no limiar de uma era que sinaliza para essa compreensão.


FOLHA – O sr. diria que o julgamento foi técnico, mas levou em conta o momento social em que a preocupação com a ética é dominante?


BRITTO – Sim. Decidimos tecnicamente, mas não podemos negar que a ambiência psicossocial favoreceu um compromisso ainda mais forte com as exigências éticas.


FOLHA – O julgamento foi permeado de incidentes, como a troca de e-mails entre os ministros Ricardo Lewandowski e Cármen Lúcia e o telefonema de Lewandowski para o irmão. O cidadão ficou com a forte impressão de que os srs. julgaram sob pressão e que houve interferência de questões políticas na decisão. Havia, por exemplo, a intenção inicial de ‘amaciar’ para o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu?


BRITTO – Estou no STF há quatro anos e três meses. Já me sinto, digamos assim, experimentado. Eu não me senti acuado ou pressionado em nenhum momento. Está para nascer quem me acue na hora da minha decisão. Decido solitariamente, sentado no tribunal da minha própria consciência. Eu não vi ninguém se reunindo, cabalando, não houve nada disso.


FOLHA – Em que momento o sr. definiu o seu voto, na sua essência? Foi antes do julgamento, depois de ouvir o procurador-geral e os advogados dos réus, após o voto do relator?


BRITTO – Vou dizer uma coisa que, diante de uma platéia de acadêmicos, seria interpretado como um recibo de anticientificidade. Faço meditação oriental há 13 anos e aprendi com os místicos mais acatados, como Buda, Cristo, são Francisco de Assis e, mais recentemente, Krishnamurti e Osho.


Em suma, eu aprendi nessa literatura espiritualizada que você deve ficar cada momento numa espécie de eterno agora, cortar o cordão umbilical com o passado e com o futuro. Sou uma pessoa muito atenta. Então vou para uma sessão para decidir na hora. Fui decidindo à medida em que os debates ocorriam. Não combinei voto com ninguém nem acho que os outros tenham combinado.


FOLHA – O sr. tem o hábito de usar o laptop durante a sessão. Costuma trocar e-mails?


BRITTO – Sim. Converso com os meus assessores e, vez por outra, com os ministros, mas não sobre o conteúdo técnico da decisão. Geralmente para dar uma relaxada. Faço um trocadilho, uma observação lateral.


Ontem mesmo [quarta-feira], estávamos julgando uma lei de São Paulo que proibiu a fabricação, o uso e o transporte de amianto, que tem um componente cancerígeno. Já no fim da sessão, eu disse que isso me remetia para a minha experiência nordestina. Lá, as casas pequenas, dos despatrimonializados, são cobertas com telhado de amianto. É uma crueldade, um calor imenso. Eu disse: ‘Quando eu via o sol batendo de chapa no telhado de amianto eu ficava na dúvida se o telhado estava batendo ou apanhando’.


Esse tipo de coisa descontrai. Às vezes, digo na sessão. Outras, mando para eles [e-mail].


Quando você vir um ministro rir de nada, pode saber que outro mandou uma mensagem.


FOLHA – O sr. contou, em certo julgamento, a história de uma criança que desenhou uma galinha com três pernas.


BRITTO – E a professora disse que a galinha não podia voar perto das nuvens, como se fosse um pássaro, e que nenhuma tem três pernas. Aí a garota disse: ‘Eu sei disso. Porém eu coloquei a terceira perna para dar o impulso’. O que eu quis dizer é que precisamos de heterodoxia, de criatividade, de não reproduzirmos as coisas mecanicamente. O julgamento exige de nós um pouco de ousadia para sintonizar não com a sociedade, mas com a existência.


FOLHA – Que julgamento o sr. faz da imprensa, no caso mensalão?


BRITTO – Primeiro, faço um elogio. Nós já vivemos a Idade Média. Agora estamos vivendo a ‘idade mídia’. Significa que a imprensa ultrapassa sua dimensão informativa para incorporar a analítica, a investigativa e a denunciativa, no que tem o respaldo da Constituição.


A crítica que não posso deixar de fazer se restringe ao episódio da intranet, da comunicação entre o ministro Lewandowski e seu gabinete e entre ele e a ministra Cármen. Acho que aí houve um abuso do direito de informar. A imprensa acha pouco a transparência com que se dá toda sessão do STF? Tudo ao vivo, televisionado, todo mundo com celulares, câmeras fotográficas, seus gravadores, filmadoras, com transparência total. A imprensa está achando pouco e ainda se impõe a devassar a intimidade das nossas comunicações?


FOLHA – E sobre o diálogo do ministro Lewandowski com o irmão, por telefone, testemunhado pela repórter da Folha?


BRITTO – Foi uma interceptação [de uma conversa telefônica]. Esse momento da comunicação é um bem jurídico protegido pela Constituição. Enquanto essa comunicação se processa, esse bem é inviolável.


FOLHA – O interesse público em relação à conversa captada justifica a divulgação?


BRITTO – Isso é delicado, porque há interesse público em manter a privacidade das pessoas. É preciso ver cada situação.


FOLHA – O STF julgou com a ‘faca no pescoço’?


BRITTO – De nenhum modo. Nenhum ambiente de que participei me sugeriu que fosse uma pressão política, seja da imprensa, seja do governo.


FOLHA – O sr. já foi filiado ao PT. Como vê o fato de dirigentes do partido estarem envolvidos em uma ação penal tão grandiosa?


BRITTO – É lastimável, embora eu faça uma diferença. Vejo o PT como um todo e é sobre uma pequena parte dele que recaem indícios de delitividade. Isso não chega a contaminá-lo.


FOLHA – E sobre a indicação do ministro Carlos Alberto Direito?


BRITTO – Ele é muito competente, responsável e cordato. Se é ou não conservador, isso não me preocupa, porque a sociedade é plural, e o pluralismo se traduz nesse direito de ser diferente. É bom que haja nos tribunais pessoas representativas das várias correntes políticas.


FOLHA – O STF ficará mais equilibrado? Hoje está muito liberal?


BRITTO – Acho que ele vem para somar, para agregar.’


ECOS DA DITADURA
Igor Gielow


Jobim e os generais


‘BRASÍLIA – Nelson Jobim é hoje o mais curioso integrante dessa federação heterogênea de interesses e qualidades chamada governo Lula. É chamado de tucano por petistas, de adesista por alguns tucanos e de quinta-coluna por outros.


O ministro se porta como um Nicolas Sarkozy de Santa Maria. Com a carta branca que a inação de Lula sobre a crise aérea acabou lhe facultando, Jobim age no ritmo do hiperativo presidente francês, e levanta iguais dúvidas sobre os limites entre discurso e substância.


Até aqui, é só desenvoltura. Em menos de um mês, implodiu a Anac, obteve os trocados que os militares pediam, inspecionou até bebedor de aeroporto e deu palpite sobre poltrona de avião. De quebra, arrumou tempo para emplacar um indicado no Supremo, espezinhar o rival Tarso Genro e visitar o enrolado amigo Renan Calheiros.


Para os militares, Jobim era uma expectativa. Agora, é uma ambígua realidade. Arrumou um aumento de 54% para sua pasta na mesma semana em que se meteu num vespeiro historicamente interessante, mas cujo retrospecto não é favorável a quem está em seu lugar.


Jobim falou grosso sobre eventuais críticas ao livro do governo em que a ditadura é acusada de crueldades. Após vazar sua insatisfação, o Exército divulgou na sexta uma nota que, se indicar só 10% da raiva do generalato, já garante a Jobim inimizades perenes.


Ontem, Jobim contemporizou antes de ir ao Haiti elogiar os fardados. Esperem fotos e discursos. No fundo, talvez o ministro conte com as amizades que as verbas asseguram. Mas dinheiro acaba mais rápido que ressentimento, e o tom ‘Exército de Caxias’ do texto é eloqüente. Jobim vai ter trabalho.


Lula pede solidariedade a mensaleiros e diz que pode haver alguém com moral igual, mas não superior, aos petistas. Dante estava certo: no inferno, o teto é o chão.’


TODA MÍDIA
Nelson de Sá


2010 e a nova classe média


‘Mais que mensalão e estatização da Vale, 2010 foi o foco ontem dos petistas em congresso e da cobertura. Nas manchetes e ‘+ lidas’ de Folha Online e demais, o vaivém no discurso petista quanto ao PMDB e Ciro.


Ao fundo, o blog de Tales Faria ouviu o ministro peemedebista Geddel Vieira Lima e postou que, de olho em 2010, ‘a onda no governo é falar de uma nova classe média’. Uma ‘classe C emergente’ identificada no Vox Populi e alvo do neogetulismo de Lula -e não ‘o setor da classe média’ que mostra ‘insatisfação’. E no ‘Valor’ Cristina Fernandes ouviu o petista Jorge Vianna atacar quem dá a classe média por ‘inimiga’.


Duas semanas atrás, para registro, a ‘Economist’ foi à cidade onde surgiu Lula saudar o nascimento de uma ‘nova classe média’, dada por ‘muito diferente’. E já disputada, na reportagem, pelo ‘sociólogo’ FHC.


JOBIM, RENAN, GLOBO


Foi manchete no ‘Jornal da Band’ a reunião de Renan ‘com o ministro da Defesa’. Mas não no ‘JN’, que sábado só citou ‘a visita de Jobim, um dos principais ministros’.


Já ontem foi a manchete do Globo Online, ‘Jobim pede que Senado conclua logo caso Renan’, com o registro de que ‘ele pode ajudar na defesa’. Ele que presidiu o Supremo e que vem de ajudar a indicar mais um ministro para a casa.


E A GUERRA DAS TELES


O ‘Financial Times’ até destacou que o Brasil estava ‘prestes a abrir o caminho’ ao acordo Telefônica/Telecom Itália. Mas a Anatel adiou. O ‘Wall Street Journal’, a Bloomberg e outros citaram ‘fontes não-identificadas’, vazando que foi por pressão da Telmex de Carlos Slim.


E agora o ‘FT’ deu que, por conta, a compra da Telecom Itália pela Telefônica passou a ser ‘repensada’ na Europa.


O DECLÍNIO DO IMPÉRIO


A ‘sinofobia’ eleitoral sobe nos EUA. O ‘Washington Post’ deu a análise ‘Aposte na América’, com o subtítulo ‘Esqueça a maldição e a melancolia, em 50 anos seremos ainda número 1’. Ataca ‘declinistas’ que só vêem China, Rússia etc. Questiona a Goldman Sachs e os seus Brics.


Já a Associated Press produziu especial desde Austrália, Libéria, Brasil, para dizer que a ‘Influência da China se espalha pelo mundo’. Daqui, retratou Novo Progresso, na Amazônia sob invasão da China faminta por commodities.


TOYOTA E OS BRICS


No ‘WSJ’, a projeção da Toyota, maior montadora, de vender 10 milhões de carros em 2009, avaliando que ‘os novos mercados fora dos EUA e Europa são a chave’: 50% do salto seria nos ‘emergentes Brasil, Rússia, Índia e China’.


ONDE INVESTIR


Em análises sobre aplicação ontem, ‘New York Times’ e ‘WSJ’ deram as alternativas aos EUA, eles que ‘desta vez exportaram a volatilidade ao mundo’ na crise. Indicaram, com cautela, emergentes e suas commodities, até carne.


‘DOENÇA BRASILEIRA’


Já o ‘FT’ deu longa análise com base em Luiz Carlos Mendonça de Barros -que apontou a ‘doença brasileira’ de apoiar setores primários, de commodities, não aqueles com valor agregado. Daí os ‘Riscos reais ao renascente Brasil’ nesta crise imobiliária.


DIAS DE PRESSÃO


Mas o ‘FT’ diz que, apesar da crise, por aqui ‘a conversa é só o ritmo no corte do juro’. É o foco -com ‘instituições financeiras’, desde o exterior, apostando em queda menor, da Dow Jones à Bloomberg.


NIGÉRIA E SUA ESTATAL


O ‘FT’ destacou no sábado que também a ‘Nigéria quer transformar sua empresa de petróleo em ator global’. A ‘comparação’ do governo nigeriano é da estatal a outras ‘como a Gazprom, da Rússia, e a Petrobras, do Brasil, que estão na vanguarda da tendência de interesses nacionais que desafiam a dominação das grandes internacionais’.’


LÍNGUA PORTUGUESA
Ruy Castro


Expulsos da língua


‘RIO DE JANEIRO – Ainda sobre a reforma ortográfica a entrar em vigor em 2008 e que se propõe a ‘unificar’ a escrita no Brasil, em Portugal e nos países africanos onde a língua portuguesa disputa algumas bocas com dezenas de dialetos locais. Exceto pela volta à legalidade do ‘k’, do ‘w’ e do ‘y’, continuo sem entender a que ela virá.


Não me consta, por exemplo, que nossos países escrevam certas palavras como enjôo, jibóia, desmilingüido e anti-social de forma diferente. Mas, pelo visto, é o que acontece. Daí que, a partir da ‘unificação’, as ditas palavras se tornarão enjoo, jiboia, desmilinguido e antissocial.


Pena que, para isso, o acento circunflexo, o agudo do ditongo aberto, o trema e o hífen, de tantos serviços prestados, tenham sido quase que expulsos da língua. Mas imagino que, com essa medida, nossos cadernos literários, que mal têm espaço para escritores brasileiros, poderão abrir suas páginas para a literatura do Timor Leste e da Guiné-Bissau.


E como ficam certas idiossincrasias lingüísticas como, digamos, o nome Bahia? No Brasil, o ‘h’ de Bahia sobreviveu graças a uma convenção. Mas, para os portugueses, a Bahia sempre foi a Baía, mesmo -talvez porque precisassem daquele ‘h’ para escrever húmido. Bem, agora que o ‘h’ de húmido caiu, eles também terão de escrever Bahia?


Sem falar na confusão que se instalará por lá ante a queda do ‘c’ mudo. Com isso, facto (acontecimento, evento, realidade) passa a se escrever como fato (roupa, indumentária, traje). Pergunte a um inglês se ele admite perder o ‘u’ de ‘colour’.


Essa reforma privilegia o português do Brasil, e não é por acaso que Portugal hesita em assiná-la. Mas, com a adesão e os votos de Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, o Brasil pode e vai aplicá-la na marra. Que ‘unificação’.’


CRÔNICA
Nelson Ascher


Presente, passado, futuro


‘QUANTO CADA qual de nós sabe do que está acontecendo de importante no mundo: 85%, 10%, 0,75%? Para começar, o que é que conta como tal? Historiadores franceses gostam de subdividir sua disciplina entre a parte que cuida do relevante, isto é, alterações e mudanças que ocorrem ao longo de séculos ou milênios, e outra, que se ocupa de fatos ‘menores’: a Revolução Russa, duas guerras mundiais etc. No que tange a nós, efêmeros ocupantes deste hotel terreno, tudo que nos determina a vida cabe, com espaço, na história menor.


Isso posto, de que nos adianta sabermos tal ou qual parcela do que está ocorrendo? Obras na minha rua, greves no metrô, a taxa de inflação, coisas assim afetam meu dia-a-dia. Mas que é que eu e demais concidadãos comuns temos a ver, por exemplo, com a Guerra do Iraque, a crise perpetuamente irresolúvel do Oriente Médio, os genocídios em Ruanda e Camboja, as decisões da ONU, da União Européia ou do Supremo Tribunal norte-americano? Por que não poderíamos relegar este rol e outros similares à história de ‘longa duração’, a que se ocupa do que, embora mais importante, só nos diz respeito indiretamente?


A rigor, não sei. Condizentemente, o espaço que jornais e a mídia concedem a tais assuntos mal compete com aquele dedicado aos esportes. E o entendedor de vinhos reúne em torno de si mais gente em qualquer jantar do que o perito em fome na África. (Note-se: não estou reclamando, somente constatando.) O que se pode dizer com relativa segurança é que há pessoas que se interessam pelo tema mais do que outras e que, quanto menos informado é um interlocutor, maior a chance de que, insistindo em discorrer sobre o que não entende, ostente também mais certezas do que dúvidas.


São essas as pessoas que, curto-circuitando pilhas de dados e informações, recusam-se a aceitar as suspeitas ‘versões oficiais’ que, de acordo com eles, convencem somente crédulos e tolos. Eles ‘sabem’, digamos, que os atentados de 11 de Setembro foram perpetrados pelos próprios americanos. Eles se sentem igualmente à vontade para julgar como crime os bombardeios de Dresden ou Hiroxima (mas não a obliteração de Varsóvia). Em suma, eles ‘sabem’ quem é que controla o mundo e o que é que estes querem. Entre os ignorante opinadores e os ignorantes assumidos, incomoda menos conversar com os últimos.


Mas como cada um de nós pode estar seguro de que, mesmo sem desejá-lo, não pertence ao grupo dos ignorantes opinadores? Esse dilema é a razão para a pergunta inicial, ou seja, quão bem precisamos dominar um assunto desses para não sermos considerados de todo ignorantes. Não há, é claro, como começar a responder a isto antes de se ter uma idéia do seguinte: quanto é possível saber sobre o assunto? Vejamos: o fim da URSS provou que a maioria dos ‘kremlinologistas’ estava errada e a abertura de arquivos da KGB desmascarou não poucos como meros doutrinadores. O fenômeno se repetirá, cedo ou tarde, com Cuba. Mesmo em áreas menos passionais, há espaço para debates acalorados. Que dizer, então, das especulações acerca do presente e do futuro?


Aqui o mundo se divide entre os que têm acesso a fontes restritas e os que têm acesso só às abertas. Governantes e diplomatas, membros deste ou daquele serviço secreto ou organização terrorista pertencem ao primeiro grupo; nós, ao segundo. Aquele não é onisciente -longe disso- nem sabe tão mais do que os mortais. Quanto aos que dependem de fontes abertas, mesmo os que exauriram todas ignoram muito mais do que sabem. Talvez se pudesse dizer que, entre os leigos, os mais confiáveis são, por um lado, aqueles dispostos a reconhecer a dimensão do desconhecido e, por outro, os que freqüentam mais despreconcebidamente as fontes disponíveis, quer dizer, os que consultam tanto publicações de direita como de esquerda e ouvem tanto os amigos como os inimigos, sempre avaliando, comparando e cruzando as informações.


Pensando bem, eis a principal característica que diferencia estes céticos da categoria já mencionada, digna de inveja e mais numerosa, que reúne jornalistas e personagens midiáticos, militantes de ONGs variadas, professores universitários e, em geral, muitos entre os que aderem com paixão a causas avessas à dissidência. Eles sabem mais do que os que integram ambas as categorias acima porque seu conhecimento deriva não de princípios teóricos e investigação minuciosa, não da dúvida ou da curiosidade, mas, sim, de sua visão do porvir. Como o futuro é conhecido, tudo que resta ao presente (e ao passado) é adequar-se a ele.’


TELEVISÃO
Daniel Castro


Assinante paga para ver 14 horas de anúncio


‘Sete canais pagos exibem todos os dias pelo menos duas horas de ‘infomerciais’, como são chamados os grandes blocos de comerciais de empresas que alugam horários na televisão.


A apresentação dos comerciais ocorre quase sempre no mesmo horário, das 8h às 10h, o que faz com que o assinante perca sete canais de uma vez. O anunciante é um só: a Polishop.


O recurso é utilizado por três dos canais mais vistos -o Universal Channel, a Fox e o Discovery-, além do People+Arts, Animal Planet, Discovery Home and Health e MGM.


O Universal é o único que exibe das 7h às 9h e que informa isso em sua grade na internet. Os dois Discovery, o Animal Planet e a Fox omitem a informação (só dizem o programa que passa às 7h ou 7h30 e o que entra às 10h). O People+Arts ‘informa’ em seu site que apresenta programas entre 8h e 10h, o que não é real. Diz que o site está em reforma.


Os canais afirmam que exibem ‘infomerciais’ porque eles os ajudam a investir em programação de qualidade. Sem eles, custariam mais às operadoras, o que os tiraria de pacotes básicos. O horário, dizem, é o de menor audiência.


O Discovery afirma que veta o formato no Discovery Kids e em outros quatro canais. A Fox diz que ‘infomerciais’ dão retorno ao anunciante e apresentam produtos legais. O Universal informa que está reduzindo o espaço de ‘infomerciais’.


QUEM ENVENENOU? 1


Um novo mistério vai agitar o último mês de ‘Paraíso Tropical’. No capítulo do dia 19, a trambiqueira Marion (Vera Holtz) sofrerá um infarto após tomar gim supostamente envenenado. A garrafa da bebida, um ‘presente’, terá um cartão de Antenor (Tony Ramos).


QUEM ENVENENOU? 2


Mas o empresário não será o único suspeito. No mesmo dia, passarão pela casa da promoter Paula (Alessandra Negrini), Virgínia (Yoná Magalhães), Ivan (Bruno Gagliasso) e Cláudio (Jonathan Haagensen).


ÂNIMO


A cúpula da Globo se animou com o desempenho de ‘Profissão Repórter’, exibido quinta no lugar de ‘Linha Direta’. O programa deu 24 pontos, dois a mais do que a média do horário.


CHATEAÇÃO


A Net e o SporTV vão lançar um novo recurso de interatividade. Pela ferramenta, durante a transmissão de jogos o assinante poderá enviar mensagens, via celular, que aparecerão na tela do televisor. A idéia é atrair o torcedor que quer fazer troça dos adversários, uma guerra de torcidas virtual.


VIOLÊNCIA 1


O Ministério da Justiça instaurou processo que poderá classificar como inadequado para antes das 20h (impróprio para menores de 12 anos) o desenho animado ‘Naruto’, uma das maiores audiências do SBT -dá até oito pontos no Ibope.


VIOLÊNCIA 2


O menino Naruto sonha ser ninja. Para o ministério, o desenho é violento. O SBT diz que está cortando cenas violentas.’


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O Estado de S. Paulo


Segunda-feira, 3 de setembro de 2007


ECOS DA DITADURA
O Estado de S. Paulo


Ministro nega crise e diz concordar com nota militar


‘O ministro da Defesa, Nelson Jobim, negou ontem que exista alguma aresta entre ele e os militares por conta do lançamento do livro Direito à Memória e à Verdade, que traz a versão oficial sobre presos políticos que desapareceram no regime militar (1964-1985). Os comandantes das três Forças não compareceram à cerimônia para lançamento da publicação, na quinta-feira, e no dia seguinte divulgaram nota dizendo ser ‘inaceitável o cala-boca’ de Jobim. O ministro afirmou na ocasião que quem reagisse ao livro ‘teria resposta’.


Ontem, após participar em Brasília da solenidade de Troca da Bandeira, Jobim declarou encerrado o assunto. Para ele, o fato de setores ligados aos militares reformados terem a memória da época da ditadura pode provocar alguma discordância.


O ministro reafirmou que quando o Alto Comando resolveu emitir a nota ele foi procurado. E disse concordar com a opinião de que há duas versões para a história. Para Jobim, a nota ‘narra um fato’. ‘E volto a repetir que nada mais teimoso do que o fato.’ Ele lembrou que a meta da Lei da Anistia, de 1979, é promover conciliação e pacificação e refutou sua revisão com base na tese de que houve crime de tortura, segundo a Comissão de Mortos e Desaparecidos. Na cerimônia, seu interlocutor mais freqüente foi o comandante da Marinha, almirante-de-esquadra Julio Soares de Moura Neto.’


PUBLICIDADE
Marili Ribeiro


Chega ao País a moda das butiques de criação


‘A tendência das butiques criativas – que tem a proposta de ter estrutura pequena, agilidade no atendimento e ousadia na criação – começa a se estabelecer no Brasil. Na semana passada, o publicitário Alexandre Peralta anunciou uma sociedade com a agência holandesa StrawberryFrog, uma das referência internacionais entre as butiques criativas. Já a festejada Nitro, fundada em Xangai por australianos, está chegando ao País, negociando a compra de uma agência em São Paulo. As duas iniciativas rompem a resistência do mercado nacional a esse modelo.


A demora da adoção da agências-butique se deve, segundo os próprios profissionais da área, ao sistema de remuneração do mercado nacional atrelado à comissão da compra de mídia. As butiques, também chamadas de hotshops, cobram seu trabalho de forma flexível, que pode ser por projeto ou por participação nos resultados.


‘A relação entre anunciante e agência com pagamento por contrato garante isenção nas recomendações das ações adotadas, porque a agência não depende da veiculação de mídia para fazer caixa’, diz Peralta.


Para Peralta, a atuação modular se ajusta melhor à demanda do cliente porque a equipe da agência cresce ou diminui em função da tarefa. ‘As agências tradicionais mantêm entre 150 e 300 funcionários e precisam garantir receita que mantenha essa estrutura. O tamanho inviabiliza o trabalho por projeto e pode tirar a liberdade de criação’, diz ele.


Grandes marcas, como Coca-Cola, Nike e Axe (Unilever), descobriram faz anos a agilidade das chamadas butiques e já delegaram parte de suas verbas publicitárias para pequenas agências com esse perfil. A pressão por inovação na comunicação tem acelerado esse processo.


Na década de 90 surgiu a agência americana Wieden + Kennedy, situada em Portland, e não no eixo central do núcleo criativo da propaganda entre Nova York e Londres. A partir daí, o movimento das hotshops ganhou impulso. Há oito anos, apareceu a holandesa StrawberryFrog e a inglesa Mother. Atualmente há filhotes em vários países como a Taxi, no Canadá, a Madame Rushmore, na Espanha, e as Santo e La Comunidad, na Argentina.


Washington Olivetto, presidente da W/Brasil , acredita que a onda das hotshops não passa de uma nova definição para algo que sempre caracterizou a publicidade. Seria a clássica situação do criativo que abre uma agência pequena com características inovadoras, que vai crescendo, ganha musculatura e torna-se uma grande agência. Uma rotina que a sua própria carreira descreve. Olivetto saiu da DPZ para criar a W/ Brasil há 20 anos.


No que se classificaria como as hotshops brasileiras estariam hoje as agências Santa Clara e Famiglia. As duas abriram suas portas no último ano. ‘Não temos pretensão de ser grandes e perder a agilidade’, diz Fernando Campos, um dos sócios da Santa Clara. ‘Hoje em dia, graças à tecnologia, é possível manter uma estrutura enxuta e capaz de oferecer soluções de comunicação personalizadas a cada cliente, o que era impossível há 20 anos atrás’.


Átila Francucci, sócio da Famiglia, diz que a butique criativa requer uma fórmula de atuação em constante construção. ‘Afinal, é esse espírito que gera o nervosismo que a novidade requer’, filosofa. Francisco Petros, também sócio da Famiglia e que saiu do mercado financeiro para se aventurar no mundo da comunicação, diz que sua visão pragmática dos negócios teve que se reestruturar. ‘Propaganda é um negócio de idéias, que não se pode mensurar. É subjetivo e requer agilidade para funcionar.’


Para muitos publicitários o modelo de butique parece se adaptar melhor às necessidades do momento de transição pelo qual passa o mercado de comunicação. Afinal, as demandas dos anunciantes se tornaram multimídias e a flexibilização e rapidez da agência são mais do que adequadas ao momento.


‘Não é tanto questão de tamanho, mas de ter capacidade de romper com estruturas acomodadas e inaugurar caminhos que dêem resultados na tarefa de produzir imagem e construir marca’, diz Francucci.


FRASES


Fernando Campos


Sócio da Santa Clara


‘Hoje em dia, graças à tecnologia, é possível manter uma estrutura enxuta e capaz de oferecer soluções de comunicação personalizadas a cada cliente, o que era impossível há 20 anos’


Francisco Petros


Sócio da Famiglia


‘Propaganda é um negócio de idéias, que não se pode mensurar. É subjetivo e requer agilidade para funcionar’’


INTERNET
Lucas Pretti


O fim do Second Life como o conhecemos


‘Esta não é mais uma entre as tantas notícias assim: ‘Fulano entrou no Second Life’. Mesmo porque o ‘fulano’ desta reportagem são sete grandes universidades brasileiras, duas norte-americanas e pelo menos quatro empresas privadas. Toda essa gente se juntou para alterar o curso que vinha seguindo no País o popular universo digital tridimensional. E para descobrir, enfim, qual a utilidade prática do Second Life.


A palavra é educação. Liderada pela Universidade de São Paulo (USP), foi inaugurada na semana passada a Cidade do Conhecimento 2.0, uma incubadora de projetos digitais aberta a qualquer residente do mundo virtual. A mudança de paradigma está no conceito de não haver fins lucrativos na iniciativa.


Até então no Brasil, com algumas exceções (leia abaixo), o Second Life se resumia a um punhado de ilhas forradas de outdoors, com festas ininterruptas e outros atrativos hedonistas para avatares os mais vaidosos. Psicologicamente, uma válvula de escape dos problemas cotidianos. Economicamente, uma divisão do território entre senhores feudais capitalistas.


O modelo de exploração se esgotou rapidamente. Levar uma segunda vida ficou chato e sem graça para 80% dos usuários, que abandonaram seus avatares depois da ‘febre’ no início do ano. Hoje, há 9,2 milhões de residentes cadastrados, mas apenas 465 mil estiveram conectados na última semana.


‘O Brasil no Second Life é infestado de marketing, faltava uma iniciativa com esse fôlego’, disse ao Link o diretor da Cidade do Conhecimento, Gilson Schwartz. No evento de lançamento da incubadora, na última terça-feira, houve um desfile de teorias e conjecturas sobre o futuro dos simuladores em 3D e da própria internet, vindas de acadêmicos e profissionais de diversas áreas.


Para o economista Décio Zylbersztajn, a impossibilidade de medir a reputação dos avatares e a falta de instituições (governo, legislação, etc.) fazem do Second Life não algo futurista, mas ‘jurássico’ do ponto de vista de estrutura social.


Não é o que pensa o criador do game e presidente da Linden Lab, Philip Rosedale. Na abertura da Second Life Community Convention, em Chicago, na semana passada, ele previu que o metaverso será ‘tão grande quanto’ a web e que todo mundo um dia terá um avatar.


A semioticista Lucia Santaella, professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), é mais realista. ‘Antes de ter preconceito e criticar, é preciso apalpar, explorar as possibilidades.’


É a proposta da Cidade do Conhecimento 2.0. Construir mãos coletivas para quem quiser tatear e sondar esse novo conceito de civilização online.’


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Candidatos a pesquisadores devem se inscrever por e-mail


‘COMO FUNCIONA


A incubadora digital brasileira vai seguir três passos para viabilizar projetos. Qualquer idéia pode ser enviada para o endereço cidade.conhecimento@gmail.com, quando será iniciada uma conversa informal sobre a proposta. ‘A idéia é não ser burocrático’, afirma o diretor da Cidade 2.0, Gilson Schwartz.


CRITÉRIOS


Desde que adequada aos conceitos de Creative Commons, a idéia se transformará em projeto, com prazo para ser desenvolvido e implementado. Se então houver interesse de empresas, o direito de vendê-lo é do autor, e não das instituições envolvidas na Cidade do Conhecimento. Cultura semelhante à do Vale do Silício, nos EUA.


PROGRAMAÇÃO


Uma grade de oficinas voltadas ao Second Life será divulgada em outubro, mas já em setembro será lançado o boletim ‘Redemoinhos 2.0’, para divulgar os trabalhos da incubadora. Haverá também quatro ‘bazares digitais’ por ano, para trocas de experiências. O site oficial do projeto é http://cidade2.ig.com.br.’


Pedro Doria


Falta ambição aos blogs


‘Nas últimas semanas, o debate na blogosfera brasileira aumentou. Há um bocado sobre o assunto nesta edição do Link que está em suas mãos. A conversa tem múltiplos aspectos. Como fazer dinheiro é um deles. Adquirir credibilidade é outro.


Como uma campanha publicitária recente do Estado fez parte desse debate, o jornal convocou alguns dos blogueiros mais conhecidos para uma mesa redonda, na semana passada. A conversa ainda repercute pela blogosfera.


Há quem diga que blogs são uma resposta independente à mídia institucionalizada. Podem ser uma resposta à grande imprensa, sim. Alguns dos mais importantes blogs políticos americanos, como o DailyKos e o Talking Points Memo (TPM), apontam constantemente erros em jornais.


Mas, se corrigir jornais quando pescassem seus erros fosse sua única atribuição, seria pouco. Entre finais do ano passado e início deste, o TPM descobriu, lendo a imprensa local de vários Estados americanos, que uma série de procuradores públicos que haviam processado políticos do Partido Republicano estavam sendo demitidos.


Para a imprensa local de cada Estado, era uma história corriqueira de um funcionário público sendo demitido. Junte-as todas, como fizeram os blogueiros do TPM, e lá está um padrão constante de perseguição política partindo da Casa Branca. O ministro da Justiça Alberto Gonzales pediu sua própria demissão faz dez dias.


A oposição imprensa versus blogs é falsa. Ambos são, na maioria das vezes, complementares. Quando blogueiros sabem ler bem a imprensa, como fez a trupe do TPM, conseguem transformar uma história aparentemente corriqueira num escândalo de derrubar ministros. Isto também pode acontecer no Brasil.


A blogosfera é muito lida, principalmente por dentro. A maioria dos leitores freqüentes de blogs são blogueiros. Mas não será sempre assim. Pelo contrário: conforme a blogosfera cresce, mais isso mudará, até que exista uma proporção muito maior de leitores do que blogueiros. Leitores que contribuem, que debatem, tudo verdade. Mas leitores. Muitos leitores geram impacto.


Esta coluna é pura provocação: falta aos blogs ambição. A vontade de derrubar o ministro, o técnico do Flamengo ou o vereador corrupto. Falta vontade de mudar o mundo. Não é pregar o golpismo: derruba-se legalmente levantando informação que prove sua incapacidade.


Quem fizer um blog de futebol reunindo diariamente tanta informação quanto exista sobre o Flamengo será lido pelos torcedores do Flamengo. Num ou dois meses, jogadores, técnico – o presidente do clube – saberão de sua existência.


Eles darão entrevistas ao blogueiro. A oposição ao presidente também vazará informação. Jornalistas aos poucos perceberão que é impossível tratar do assunto sem ler aquele blog. O blogueiro começará a dar entrevistas como especialista. E, vez por outra, algum jornal vai publicar seu material sem dar crédito.


Quem será o primeiro a derrubar alguém?’


Elisangela Roxo e Rodrigo Martins


Qual é o papel dos blogs no Brasil?


‘Qual é o papel da blogosfera na mídia brasileira? A semana passada foi agitada no mundo dos blogs. Discussões no campo virtual e no real colocaram em pauta a credibilidade, a interferência da ‘monetização’ no conteúdo e a relevância desses sites.


O burburinho começou sábado e domingo, dias 25 e 26 de agosto, quando rolou em São Paulo o BlogCamp, que reuniu 150 blogueiros para discutir a blogosfera. Na quarta-feira, o portal estadão.com.br realizou uma mesa-redonda para debater a credibilidade dos blogs. O evento ocorreu por causa da polêmica campanha publicitária do portal Estadão, encarada por parte dos blogueiros como desrespeitosa (leia abaixo). Durante a semana, os blogs travaram debates acalorados na internet.


O que se viu nas discussões é que, cada vez mais, há blogueiros que encaram seus sites de forma profissional. No BlogCamp, quem esperava encontrar a meninada adolescente se decepcionou. Era difícil ver alguém com menos de 25 anos. Em dois dias de debates, onde os presentes se dividiam em três salas, o tema mais recorrente foi ‘como tornar o blog rentável?’


Por causa disso, um dos únicos blogueiros que se sustentam na web, Edney Souza, do Interney.net, foi a estrela do encontro. ‘Para ganhar dinheiro, é preciso levar o negócio a sério, fazer marketing, ficar de olho no que as pessoas querem ler’, disse a espectadores que não desgrudavam os olhos dele.


No meio das discussões, havia insatisfeitos. ‘Vim para dividir experiências educacionais em blogs’, disse o diretor do Instituto Ladjane Bandeira, do Recife, Joel Moraes, que queria trocar idéias para seu trabalho com crianças. ‘Falta pluralidade. Os blogueiros só pensam em dinheiro.’


A discussão da qualidade de conteúdo, porém, seria importante, opina o blogueiro Carlos Merigo, do www.brainstorm9.com.br. Ele participou do evento do Estadão na última quarta e disse que mais do que falar de ‘monetização’ é preciso discutir o que se produz.


‘Há quem abra mão da qualidade para aumentar a visitação e ganhar mais’, conta. ‘A grana tem de ser uma conseqüência, não o motivo. É por isso que há muito lixo. Temos de começar a discutir conteúdo.’


No debate, os blogueiros foram provocados pelo professor Gilson Schwartz, da USP. ‘O aumento de blogs pode baixar a qualidade, transformando a web em uma lixolândia.’ O colunista do Link, Pedro Doria, por sua vez, colocou em cheque a relevância dos blogs. ‘Falta impacto. Em países, como a França, candidatos a presidente dão entrevistas a eles’ (Doria também fala sobre o assunto em sua coluna nesta edição).


‘Seria bom discutirmos a qualidade’, diz a pesquisadora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Ana Maria Brambilla. ‘Para ganhar relevância, há que se pensar em público, conteúdo e foco.’’


***


Polêmica campanha do ‘Estadão’ ganha debate


‘Nos blogs, a polêmica já rolava solta há cerca de três semanas. No BlogCamp, estava no ar, mesmo que de forma velada. Tanto nos posts virtuais como nos debates, a palavra que mais se destacava era ‘Estadão’, embora, no evento, por exemplo, nenhuma discussão específica sobre o jornal tenha se estabelecido, pois os ‘participantes estavam cansados do assunto’.


‘Não agüento mais essa discussão’, disse a blogueira Roberta Zouain, do pack2go.wordpress.com. Ela cronometrou o tempo em que se ficou sem falar do Estadão no BlogCamp. ‘O recorde foi de 5 minutos’, ri.


Essa polêmica começou com a divulgação da campanha de lançamento da nova versão do portal estadão.com.br. Um filme publicitário mostrava a figura de um macaco, que era o responsável pelo conteúdo de um blog de economia. Em contrapartida, a propaganda exaltava a credibilidade do Estadão.


‘Os blogueiros sentiram-se ofendidos, pois a campanha subestimou todos eles como se fossem ‘macacos’, diz o pesquisador da Fundação Mineira de Educação e Cultura (Fumec) Jorge Rocha. ‘Se houvesse uma crítica a ser feita à qualidade dos blogs, ela deveria ter sido menos ofensiva.’


Segundo o pesquisador da Universidade do Rio Grande do Sul (UFRGS), Alex Primo, ‘foi uma grande bola fora pois colocou na mesma vala todos os blogueiros, num momento em que alguns estão se profissionalizando.’ Já para a pesquisadora Ana Maria Brambilla, da UFRGS, foi um erro comparar jornais com blogs. ‘Cada um tem uma função diferente’, diz. ‘Os blogs não precisam, necessariamente, ter conteúdo jornalístico.’


Com a divulgação da campanha, esses argumentos foram amplamente discutidos na blogosfera. O blogueiro Carlos Merigo, do www.brainstorm9.com.br, foi o primeiro a dar grande visibilidade ao assunto na internet. ‘Um amigo meu me passou o link. Escrevi sobre isso na web, mas não esperava essa reação toda, ela foi exagerada.’


Com a polêmica, o estadão.com.br agendou um debate com blogueiros, publicitários e jornalistas para discutir , na última quarta, a ‘Responsabilidade e Conteúdo Digital’. E a discussão, que já vinha dando sinais de esfriamento, reacendeu nos blogs.


Logo na abertura, o jornalista Roberto Godoy leu uma mensagem do Grupo Estado que pedia ‘desculpas aos ofendidos’: ‘Amamos os blogs’, disse. O responsável pela criação da campanha, o publicitário João Livi, da agência Talent, disse que a propaganda tinha por objetivo reafirmar a credibilidade do portal. ‘Não tem porque não corrigir alguns detalhes da campanha, mas a essência é essa.’


Em uma hora e meia, os blogueiros Carlos Merigo, Edney Souza, do interney.net, e Bruna Calheiros, do www.sedentario.org, mostraram suas opiniões sobre a campanha e debateram o tema credibilidade com jornalistas e publicitários.


‘O que pegou na campanha foi a generalização’, disse a blogueira Bruna. ‘A campanha reforça o estereótipo de que blog é coisa de adolescente. Lutamos todo o dia para ganhar credibilidade. A mensagem que eu percebi foi: não leiam os blogs, porque o blogueiro é um macaco que só copia informações’, disse Merigo.


Para a pesquisadora Ana Maria Brambilla, entretanto, faltou ‘o mais importante do debate’. ‘Queria ouvir o cara da Talent explicar por que decidiu fazer uma campanha assim. Mas ele falou pouco, não estava com vontade de debater.’’


***


Após denúncia, link patrocinado some do Orkut


‘O Google retirou do Orkut a exibição de links patrocinados. A medida ocorreu após a ONG Safernet, que luta contra crimes de direitos humanos na web, entrar com uma representação no Conselho Nacional de Auto-Regulação Publicitária (Conar) com a alegação de que as propagandas eram exibidas em comunidades com conteúdo criminoso, como pedofilia. O Conar, então, recomendou que o Google verificasse se preservava a imagem dos anunciantes. Segundo a assessoria da empresa no Brasil, a representação no Conar foi apenas um dos motivos para retirar os links patrocinados. A publicidade, segundo ela, estava em testes e já se pensava em retirá-la do site para reavaliação.’


Filipe Serrano


‘Acabou o papo de não poder fazer download’


‘Quando o assunto é tecnologia, não tem ladainha, muito menos falsidade, com o músico e produtor brasiliense Nego Moçambique. ‘Não consigo imaginar como seria a música no Brasil se as pessoas nas favelas, nos rincões de miséria, tivessem acesso às ferramentas digitais de produção que eu tenho. Com certeza a gente está perdendo muita riqueza. O Brasil é meio estranho porque todo o boom digital continua elitizado’, chutou o balde, logo no começo da entrevista ao Link na semana passada.


Nego, que é um dos novos expoentes da música eletrônica no Brasil, tem uma dualidade marcante não só nas opiniões, mas também na música. Seu som é uma mistura de batidas e samples – trechos de gravações modificados – com ritmos dançantes africanos. Ele coloca no eletrônico uma emoção mais humana, pura.


‘A mistura veio por uma intuição mesmo, um jeito de marcar o trabalho que faço. Antes inventava um monte de teorias para explicar, mas não tem muita enrolação, não’, confessa.


A sinceridade com que ele fala é de espantar qualquer pessoa e ainda dá um tom real à sua personalidade artística.


Até pouco tempo, Nego não gostava de ser chamado de DJ. ‘Eu não toco com discos’. Mas hoje nem liga mais se alguém confunde ou não sabe que o trabalho dele mesmo é remixar ou (re)criar música em cima de outros sons.


E esse desapego às opiniões é presente também na maneira com que ele vê a influência da tecnologia na música, tanto na sua quanto de um modo geral.


‘Acho que a tecnologia (usada para a produção de música) está criando uma linguagem nova. Tem software que consegue fazer batida com uma métrica, umas viradas que um baterista humano não pensaria em fazer a princípio’, diz ele.


Mas, como Nego não faz culto a nada, ainda completa. ‘Tem músicos que negam isso. E podem renegar mesmo, não tem problema. Sempre tem de existir uma espécie de caos. E é bom que a tecnologia incentive a disputa. De qualquer maneira, o que continua valendo é o que o artista sente, o que ele tem para dizer. Tecnologia não deixa de ser ferramenta, saca?’


A visão mais realista é uma conseqüência de o músico ter entrado para o mundo digital há pouco tempo. Quatro anos atrás ele não usava a internet e até hoje é avesso ao celular. ‘Só comprei porque me encheram muito o saco’, diz.


Nessa época, ele gravava muitos samples da televisão. Zapeava os canais de TV a cabo e pegava sons e falas inéditos. ‘Já consegui cada coisa assim, na sorte mesmo’, diz.


Hoje ele se diz um ‘verdadeiro parasita’ dos sites que vendem samples. Mas ele só baixa os gratuitos. ‘Tem desde macaco a carro e avião até homem fazendo bolha dentro da banheira. É uma quantidade de sons infindável. Fora coisas como as falas antigas do Jornal Nacional’, afirma.


Ao contrário de outros artistas, Nego acha que ter uma página própria no MySpace – comunidade online que reúne muitos músicos e bandas – ajuda menos na divulgação do que nos downloads em redes de compartilhamento. ‘Gosto do MySpace para conhecer outros músicos que eu acho foda e fazer contatos para futuros shows.’


A cultura livre que rola na internet vale para o seu próprio trabalho. Se alguém baixar o CD dele? ‘Ah, foda-se. Deixa o cara. Nenhum artista vai ganhar dinheiro com música, não. Tem gente que fica com esse jeito egoísta. O mundo é assim agora. Acabou o papo de não poder fazer download. Se um artista não está num BitTorrent da vida, ele simplesmente não existe.’’


TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO
Dean Hachamovitch


Uma nova etiqueta para usar laptops em reuniões


‘Em 1994, quando os PCs portáteis começaram a reduzir o seu peso de 7,5 quilos para os 2,5 quilos atuais, eu passei a levar o meu laptop para as reuniões na Microsoft. Meus colegas fizeram o mesmo. Era uma novidade. E tão útil…


Podíamos digitar nossas anotações. Conseguíamos obter informações diretamente dos nossos computadores em vez de carregarmos um monte de papéis ou termos de correr até o escritório para pegar um arquivo.


À medida que ficamos mais conectados e acostumados com a tecnologia, no entanto, começamos a nos concentrar em atividades que não tinham nada a ver com as reuniões. Líamos nossos e-mails se a discussão estivesse chata, checávamos as últimas notícias e até espiávamos o site da ESPN. Nos últimos anos, começamos até a trocar mensagens, como se fôssemos estudantes cochichando na aula. Enviávamos até piadas por mensageiros instantâneos para tentar provocar o riso de colegas.


Mas agora uma nova etiqueta surgiu. O site da Microsoft lista sete regras para o uso de laptops em reuniões, incluindo ‘Certifique-se de que há um motivo para usar a máquina’ e ‘Desligue barulhos e alertas’. Em reuniões cujo assunto é sensível, é mais respeitoso deixar os notebooks fechados. Mas, se os temas abordados não têm nada a ver comigo, não me sinto mal em apagar e-mails.


Nem tudo se resume a etiqueta, envio de mensagens e navegação na web. A tecnologia é realmente útil. Eu posso coletar dados na rede da empresa. Posso avisar minha mulher que vou me atrasar sem ter de sair da sala de reuniões e fazer uma ligação, ou responder à pergunta de um colega rapidamente. O mensageiro instantâneo permite que eu veja quem está disponível fora da sala para me enviar uma informação se eu precisar. Checar quem está online pelo PC é como botar a cabeça no corredor para ver quem está passando e pode ajudar.


Mas os laptops podem ser uma fonte de decepção se a maioria dos executivos mais experientes estiver mais concentrada na tela dos micros ou preocupada em digitar alguma coisa. O responsável pela apresentação tem de adivinhar se está sendo ouvido e entendido.


Hoje, o jeito mais discreto de checar e-mails, papear em um mensageiro instantâneo e acessar a web durante uma reunião é utilizando um celular de última geração. Os smartphones permitem que os insaciáveis por informação espiem as notícias ou enviem um e-mail sem chamar atenção. Só é preciso lembrar de desligar aquele toque com a música ‘Garota de Ipanema’.


* Dean Hachamovitch é executivo da Microsoft.’


TELEVISÃO
Keila Jimenez


RedeTV! veta Luana


‘Mexeu com o Pânico, mexeu com toda a RedeTV!. Pelo menos é assim que a direção da emissora está reagindo aos processos movidos por artistas contra os humoristas. A determinação na casa é vetar qualquer tipo de participação, aparição ou citação do nome das celebridades em questão.


O caso mais recente envolve Luana Piovani. A atriz, que move um processo por danos morais, ao lado do ex, Dado Dolabella, contra a trupe do Pânico, teve sua participação no Programa Amaury Junior cortada pela direção da emissora. O processo foi movido após Vesgo e Silvio tentarem reatar o namoro de Luana e Dado usando um carro de som.


Luana era uma das convidadas da festa de um reality que vai estrear no canal, o Amazing Race, e deu uma longa entrevista a Amaury.


‘Eu respeito o direito de processar quem quer que seja. Mas se você está processando alguém, não tem relações com essa pessoa’, justifica o vice-presidente da RedeTV!, Marcelo Carvalho. ‘Eu mandei cortar por uma questão de coerência. Ninguém que tenha qualquer pendência contra a casa vai ter mídia de graça aqui. Não aparece nem em foto.’


Quiz de folhetim


Duas amigas, interpretadas pelos atores Charles Geraldi e Ivan Mattos, disputam conhecimentos sobre novelas na peça As Filhas de Janete Clair. A peça está em cartaz no Teatro Aliança Francesa, com direção de Leopoldo Pacheco e texto de Jandira de Souza.


entre-linhas


Minha Nada Mole Vida e Jorge Horácio não deverão voltar mais à grade da Globo.


Não será só pelo Brasil que os Cassetas vão viajar. A turma já se prepara para no próximo ano ir a Pequim, para a cobertura dos Jogos Olímpicos.


Caminhos do Coração, da Record, estreou bem comercialmente. Além dos breaks, que estão lotados, a novela tem três patrocinadores – dois nacionais, e um local. Cada cota nacional custa R$ 1 milhão por mês.


O merchandising pago pelo Ministério do Turismo para colocar em cena o programa Viaja Mais na novela Paraíso Tropical prevê quatro ações. A primeira foi ao ar na segunda-feira passada.


E não foi o primeiro merchan do setor público em Paraíso Tropical. Embratur e secretarias de turismo estaduais já pagaram para desfilar na novela.


Veio da oficina de atores da Globo – sem nenhuma passagem por atrações da casa – o protagonista de Dance, Dance, Dance, da Band. Ele atende por Ricardo Martins e fará par com Juliana Baroni.


Estréia em outubro no GNT Mulheres Possíveis, série idealizada por Ingrid Guimarães.


É Mentira, Chico?, livro organizado por Ziraldo com 80 personagens de Chico Anysio caricaturados pelos maiores nomes do desenho de humor nacional, terá lançamento amanhã no Jeremias, o Bar (Rua Avanhandava, 37), a partir das 19h30.’


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