Sexta-feira, 20 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

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Munição para o desenvolvimento

Por Pedro Paulo Costallat Bruno em 29/03/2005 na edição 322

Trava-se uma competição nos centros de geração de conhecimento mundo afora para definir o método a ser considerado mais apropriado para mensurar aquele que surge como o mais recente e prestigiado fator de produção: o conhecimento.

Esse desafio de ordem intelectual depende fortemente da capacidade de obter e administrar o recurso informação. Essa capacidade ganha importância ainda maior para os agentes públicos, uma vez que para o Brasil ampliar, aproveitar ou mesmo mensurar esse fator de produção dependerá, em grande medida, de contar com processos organizacionais devidamente estruturados para identificar necessidades e usos, obter, tratar e disseminar informações.

É comum observar no noticiário do dia-a-dia destaque conferido à informação como o recurso estratégico para fazer a firma vencer a competição com a sua maior concorrente. É freqüente também que considerem a informação o recurso mais importante para tornar eficaz o combate a doenças como a Aids, evitar e controlar a poluição do meio ambiente, bem como enfrentar outras situações problemáticas como o analfabetismo, cuja redução interessa especialmente ao poder público promover.

Duas iniciativas

As pesquisas destinadas a mensurar esse prestigiado fator de produção focam principalmente o conhecimento disponível nas organizações e nos países. No que tange às organizações, a maior preocupação vem sendo centrada na gestão do conhecimento (knowledge management) realizada com o objetivo de aproveitar o conhecimento da organização em razão dos seus principais propósitos. Sejam eles o lucro, o benefício social ou ambos.

Já no âmbito dos países, os estudos voltam-se mais nitidamente para aumentar a compreensão sobre a correlação comprovadamente existente entre conhecimento e desenvolvimento. Parte-se, assim, da premissa de que quanto mais preparada estiver intelectualmente uma sociedade, mais provavelmente ela passará a integrar o grupo constituído dos países mais desenvolvidos do mundo. Propósito que, inegavelmente, todos os países de baixa ou média renda fora desse pequeno grupo almejam alcançar.

Organismos como a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e a Organização Mundial da Saúde (OMS) têm participado de alguma forma para ampliar o ativo conhecimento (knowledge assets) dos países, de um modo geral.

A título de exemplo, a OMS publica o Observatório Global do Conhecimento (Global Knowledge Observatory). A finalidade dessa iniciativa, conforme registrado em seu site, é oferecer informações para subsidiar as decisões governamentais sobre saúde em países com baixa ou média renda.

Já a Unesco oferece o Observatório da Sociedade da Informação, com o objetivo de ‘acompanhar o desenvolvimento da sociedade da informação nos países de língua portuguesa, coletando informações de domínio público sobre desafios éticos, legais e sociais desse desenvolvimento, tornando as informações disponíveis a partir de um só local, diretamente ou apontando sua localização’.

Abismo maior

Esteja-se satisfeito ou não com as formas atuais de medir os fatores de produção clássicos, terra, trabalho e capital, o fato é que já existe uma tradição em avaliar a produtividade das grandes ou pequenas propriedades, da força de trabalho empregada nos setores primário, secundário ou terciário da economia, e do capital financeiro. O proprietário do capital, como é sabido, faz circular seu dinheiro ao redor do mundo em busca de assegurar a aplicação que associe a mais alta remuneração ao mais baixo risco.

O mesmo não ocorre, ao menos ainda, com o conhecimento ou capital intelectual de uma pessoa, organização ou país. Esse recurso intangível vem sendo tratado como um ativo produtivo estratégico passível de ser contabilizado. A exemplo do que é feito com os demais fatores de produção.

Com o decorrer do tempo e o avanço das pesquisas em curso, o resultado provável será a constituição de um mercado local e outro global que expressarão não apenas a remuneração devida aos que detêm a propriedade da terra, da força de trabalho e do dinheiro, mas também a propriedade do conhecimento.

O risco que traz a constituição de mercados desse tipo para os países ainda não-desenvolvidos, como é o caso do Brasil, é ocorrer um distanciamento ainda maior entre os países que detêm esse fator produtivo em abundância e os demais países.

Salto sem segredo

Por isso, parece urgente que o Estado brasileiro se organize para estruturar processos destinados a tratar melhor o recurso informação, com vistas a ampliar e aproveitar melhor o seu capital intelectual. Quem sabe, a exemplo da prioridade tradicionalmente dada ao fator financeiro para honrar dívidas, não é chegado o momento de efetivamente priorizar a política de informação para ampliar o fator conhecimento?

Tardiamente ou não, esse tipo de compromisso lograria reduzir o reconhecido déficit desse tipo de riqueza no país. Com isso, o resultado esperado seria a ampliação do conhecimento das pessoas, levando-as a obter bons empregos; das organizações, induzindo-as a elevar sua capacidade produtiva; e do conhecimento das instituições públicas, fazendo-as produzir benefícios que realmente interessam à sociedade.

Em especial, porque, ao contrário do segredo, do sigilo, da espionagem e da desinformação, tão habilmente praticados pelo governo no passado, com resquícios notados ainda no presente, é sabido há muito tempo que o recurso informação tornado acessível, confiável e qualificado é que tornará o Brasil capaz de desenvolver-se a ponto de fazer parte do grupo de países desenvolvidos e socialmente justos.

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Mestre em Ciência da Informação

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