Terça-feira, 25 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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Não existe almoço grátis

Por Alexandre Cruz Almeida em 20/04/2004 na edição 273

No fim do ano passado, o Blogger (da Globo.com) apagou subitamente dois blogs de conteúdo sexual: Suruba Digital e o Uva na Vulva.

Muitos internautas ficaram revoltados. Uma blogueira, Camaleoa (http://contosdacamaleoa.weblogger.terra.com.br/), expressou assim a indignação geral:

‘Em outubro, também, dois blogs conhecidos foram deletados da web sem mais nem menos. Sem justificativas ou aviso-prévio, o Blogger extinguiu todo o conteúdo dos weblogs Suruba Digital e Uva na Vulva. Semana passada, discuti com um amigo e internauta convicto a sugestão de extinção de um flog sobre BDSM (Bondage, Dominação e Sadomasoquismo) da comunidade Fotolog por considerá-lo contra as normas de gerenciamento. Será que há uma censura ‘invisível’ no que se refere a sexo na internet? Será que, assim como o flog sobre BDSM, os blogs SD e UNV foram execrados pelo conteúdo ‘obsceno’? Quem determina o que é (e baseado em quê conceitos) obsceno, agressivo e vulgar?’

Quem me conhece sabe que defendo incansavelmente a liberdade em todas as suas formas. Sou radical mesmo, chuto o balde e vou até os extremos. Eu adorava o Suruba Digital e o Uva na Vulva e conhecia o Jozé e a Femme C., dois blogueiros de primeira. Foi uma pena o que aconteceu com esses excelentes blogs, mas não há motivo para indignação.

Apagar sem nenhum aviso

O Blogger não apagou ninguém sem aviso, pois já estavam todos pré-avisados pelos termos de uso da ferramenta.

Outro dia, na universidade, o laboratório de informática estava lotado, mas tinha uma aula rolando em outra sala. Havia uma placa enorme na porta avisando que aqueles computadores só poderiam ser usados por quem estivesse naquela aula, mas sou malandro, fingi que não vi e fui entrando. Fiquei lá atrás usando a internet por bastante tempo, até que o professor percebeu que eu não era aluno dele e pediu pra eu me retirar.

Foi sem aviso? Não, eu já estava avisado desde que vi a placa na porta: sabia que estava lá na malandragem e aproveitei enquanto pude.

A mesma coisa aconteceu com os blogs de conteúdo visualmente sexual, como o Suruba e o Uva. Eles estavam infringindo os termos de uso do Blogger e sabiam, ou deveriam saber, que assim como eu na sala de informática, estavam lá somente até que o dono da casa reparasse na malandragem. Quando o professor reparou e os expulsou, foi uma pena para todos nós leitores, mas não tinham direito moral algum de ficar revoltados.

Censura invisível

E depois a Camaleoa pergunta:

‘Será que há uma censura ‘invisível’ no que se refere a sexo na internet? (…) Quem determina o que é (e baseado em que conceitos) obsceno, agressivo e vulgar?’

Bem, essa é fácil. Nesse caso, é o Blogger. A ferramenta é dele, a casa é dele, os custos são dele, ele tem todo o direito de decidir que tipo de blog quer hospedar. Não há censura invisível. Ela é visível, clara, estampada explicitamente nos termos de uso da ferramenta, sem um pingo de hipocrisia.

Essa questão de definir pornografia é complicada quando estamos falando de governo. Que direito o governo tem, por exemplo, de classificar essa ou aquela obra de pornográfica ou erótica? Em geral, a conseqüência desse tipo de classificação é a restrição ao acesso do conteúdo tipo pornográfico, resultando numa espécie de censura.

Quer dizer, quando o governo começa a querer rotular isso ou aquilo de conteúdo pornográfico é um problema de todos: eles podem estar restringindo seu acesso a um conteúdo que você quer ver.

Mas uma empresa privada, que está dando de graça algo que ela custou pra desenvolver e custa ainda caro pra manter, tem todo o direito de só dar esse presente a quem quiser, sem precisar dar explicações a ninguém.

Na sua casa, cada um faz o que quer.

Campanha Free Blogs

As pessoas confundem direitos com privilégios.

O Blig está começando a cobrar dos blogueiros por serviços adicionais (o Blig Turbo) e outras empresas também começam a fazer o mesmo.

Naturalmente, os blogueiros estão se rebelando. Acho muito justo. Ninguém quer pagar por nada. Eu também não gostaria de pagar para ter meu blog. Aliás, eu não gostaria de pagar meu aluguel, não gostaria de ter que pagar pra comer, mas enfim…

O problema é que as pessoas se revoltam pelas coisas erradas. Começam a falar de direitos, inclusão digital e liberdade de expressão. Mas a questão não tem nada a ver com isso. São apenas negócios.

Uma amiga blogueira, a Stormy Angel (http://www.stormyangel.blogger.com.br/), lançou a campanha Free Blogs, escrevendo:

‘Eu tinha montado uma rádio pessoal na Usina do Som, na qual ouvia minha seleção de músicas, até que o serviço passou a ser cobrado: nunca mais voltei lá. A internet é um meio de comunicação e de divulgação de cultura e informação fantástico. Um meio que pode ser usado para fins nada louváveis, como todas as coisas que podem ser deturpadas e corrompidas. Mas é, antes de tudo, um instrumento de inclusão. Já pagamos impulsos (para as conexões discadas), mensalidades (para as bandas largas), provedores… Se agora serviços antes gratuitos começarem a ser cobrados, toda a beleza e liberdade que este instrumento proporciona estará ameaçada. Proponho que os blogueiros mais antenados e todos nós, com seus pequenos espaços, nos unamos para defender esta liberdade de expressão. Não sou adepta do FlashMob, mas acho que mobilizações são válidas quando defendem a liberdade e o direito à informação e expressão.’

Ninguém defende a liberdade mais do que eu, mas lutar pra não pagar por ter um blog não tem nada a ver com liberdade, e muito menos, com liberdade de expressão.

Vamos deixar bem claro: ter um blog de graça não é um direito. Não é nem um privilégio, no sentido estrito do termo. É, digamos, um presente.

Existem empresas, empresas que empregam muitas pessoas, empresas que tiveram custos altos para desenvolver essas ferramentas de publicação de blogs, empresas que ainda têm custos altos todos os meses para manter milhares de blogs no ar. Essas empresas não têm obrigação nenhuma de oferecer de graça as ferramentas que lhes custaram tanto para criar e lhes custam tanto para manter.

Mais ainda, não há nem mesmo expectativa de que deveriam oferecer seu peixe de graça. Ninguém espera que o Jornal do Brasil gaste uma grana fazendo um bom jornal para depois distribuir gratuitamente. Por que o Blig então teria que fazer isso?

A Stormy ainda fala, depois de comentar sobre o episódio da Usina do Som:

‘Um meio que pode ser usado para fins nada louváveis, como todas as coisas que podem ser deturpadas e corrompidas.’

Eu só queria saber por que a Usina do Som obter lucro com uma ferramenta muito legal que ela criou e implementou pode ser considerado um ‘fim nada louvável’. Se ela der tudo de graça, vai se manter como? Vai pagar os salários dos funcionários como? Por que uma empresa se manter viva é considerado algo de ruim?

A questão é: por que as pessoas acham que têm direito de receber, de graça, produtos e serviços que custam muito caro para quem os faz? Não consigo entender.

Não adianta dizer, como a Stormy, que já se paga muito, que se paga pulso, provedor etc.:

‘Já pagamos impulsos (para as conexões discadas), mensalidades (para as bandas largas), provedores…’

Mas o que o Blogger tem a ver com isso? Quer dizer que os caras criam a ferramenta, disponibilizam, e então não podem cobrar porque você já paga por outros serviços que não têm nada a ver com eles?

É como chegar ao restaurante e achar que você tem direito a sobremesa de graça: já pagamos pela comida, pela bebida, já pagamos por tanta coisa, agora vamos ter que pagar pela sobremesa também?

Na verdade, é um mau exemplo, pois o dinheiro da comida e da bebida vai para os bolsos do mesmo cara, o dono do restaurante, e ele pode até decidir, ocasionalmente, dar desconto em um item se você consumir muito do outro, mas o dinheiro que pagamos por pulsos telefônicos e provedores passa longe das empresas de blogs.

Imagine que você vá a uma empresa de outdoors e queira veicular uma mensagem de graça. E, quando ele cobra, você reage, indignado: ‘O quê?? Cobrando de mim?! Isso é um atentado à liberdade de expressão! Eu tenho que poder me expressar como eu quiser! E a inclusão outdoorial!? Sabe quantas pessoas não têm acesso a se manifestar num outdoor?’

E o dono da empresa vai suspirar e dizer:

‘Olha, isso é tudo muito bonito, mas eu tenho custos, contas a pagar, funcionários. Para se expressar no meu outdoor, custa 150 reais por mês. Mas isso não interfere na sua liberdade de expressão. Você pode se expressar por qualquer outro meio… que não crie custos para mim! Pega um caixote, sobe nele e vai gritar na praça, por exemplo…’

É muito fácil querer ter liberdade de expressão, mas mandar outra pessoa pagar a conta.

Aqueles velhos professores de OSPB

Ana Terra, outra blogueira, escreveu:

‘Parte do post que todo mundo deve ler:

‘Voltei aqui porque a história do BliG cobrar deu pano pra manga. Não é só a questão do BliG cobrar. É toda uma mentalidade comercial que tem se apossado da internet. Tudo bem que nada é de graça, que armazenamento tem preço. Mas conteúdo também tem preço. Publicidade tem preço, e um preço alto. E, ora, o que nós usuários fizemos para o BliG, para a Globo.com e para tantos outros? Não é fornecer conteúdo e ajudá-los a construir o nome deles e divulgar os serviços deles?

‘Se eles querem cobrar, tudo bem. Mas nós podemos pagar na mesma moeda. Precisamos rever alguns conceitos. Será burrice nossa se, além de trabalharmos de graça para eles, ainda nos sujeitarmos a pagar por isso, a publicidade, o conteúdo e a divulgação que garantimos a eles.

‘Parte opcional do post:

‘Há cerca de sete anos, quando a internet começou a crescer, certamente também havia custos. E quem pagava? Engraçado que só agora querem cobrar… agora que a rede é um sucesso, virou fonte de lucro, então. Ah, tá. Meus amores, isso vai acabar com a rede. Vai transformá-la numa grande porcaria. Mas talvez seja isso que as grandes corporações querem, não é? Controle, e não liberdade. Tudo massivo, enlatado, pago. Para que não haja muita opinião contrária, para que não haja muito questionamento, para que aquelas pessoas que se sentem em desvantagem não possam se unir, se organizar. Ah, sim: isso lembra censura, ditadura. Por isso eu sempre digo: a sutil ditadura em que vivemos hoje é muito pior do que a do passado. Porque hoje a gente acha que vive numa democracia. Mas que democracia é esta em que ninguém tem acesso a nada? (E que, como agora na internet, quando o acesso aumenta, as barreiras começam a surgir?)

‘Meu Deus, estou falando que nem meus velhos professores de OSPB – que eu achava chatérrimos. Acho que é porque quanto mais a gente se sente atingido pelas injustiças, mais a gente vê como são as coisas, e elas são exatamente como falavam os meus professores chatérrimos…’

Gostei da Ana Terra. Ela está meio alucinada, mas ainda lembra como eram patéticos aqueles professores de OSPB e Moral e Cívica, com seus chinelos de couro, bradando chavões de esquerda e ignorando totalmente o funcionamento do mundo de verdade. Ainda há esperanças para ela. Talvez.

Mas existem alguns erros crassos no seu texto.

O maior é achar que os blogueiros estão produzindo conteúdo para as empresas de internet. Não estão. Confie em mim. Eu trabalho produzindo conteúdo para alguns sites. O buraco é bem mais embaixo. Conteúdo é algo produzido sob medida, de acordo com as necessidades dos clientes e anunciantes.

Ou seja, legiões de adolescentes descrevendo a noitada de ontem, ou o que mais bem entenderem, em dialeto ininteligível, não estão trabalhando de graça para o Terra. E, se acham que estão, deveriam parar, para não serem tão vilmente explorados.

Pense naqueles brindes de empresas. Ao andar por aí com uma camiseta do Terra você está divulgando o Terra. Mas, por outro lado, você só está divulgando o Terra porque está usufruindo o presente que o Terra lhe deu, ou seja, está usando a camiseta.

Se você tivesse bradado ‘Nunca vou usar isso! Não vou trabalhar de graça pro Terra! Chega de exploração! Che vive!’ e não tivesse tirado a camiseta da gaveta, bem, aí sim você não teria divulgado o Terra mas, também, não teria usufruído do presente.

Não somos nós blogueiros que estamos trabalhando de graça para o Terra: foi o Terra que, muito espertamente, nos deu um presente que, assim como uma camiseta, sempre que é usado, divulga o Terra. Mas todos temos o direito de simplesmente não usar o presente, ou nem mesmo aceitá-lo.

Em relação à parte opcional do post da Ana, sério, eu só posso rir. Não foi à toa que soaram alarmes na cabeça dela. É exatamente aquele amontoado de chavões defensivos de uma esquerda incompetente que se acha perseguida por conspirações diabólicas.

Como será que esse pessoal visualiza essas conspirações? Como será que eles acham que as coisas funcionam nas grandes e perversas empresas? Será que acham mesmo que os malvados do iG (controlando o Blig), do Terra (controlando o Weblogger) e da Globo.com (controlando o Blogger.com.br) se reúnem e dizem coisas como:

‘Cavalheiros, chega de internet livre! Já atingimos nosso objetivo e conseguimos viciar as pessoas em Internet! Hahahaha! Agora é a hora de apertar o nó! Essa liberdade toda em blogs, sites e fóruns tem causado muito questionamento, mas agora acabou! Uma vez implementada a nova fase do nosso plano diabólico, em que passaremos a cobrar pelo que antes oferecíamos de graça, vamos finalmente exterminar com essa pouca vergonha libertária! A internet vai passar a ser como queremos, uma grande porcaria, tudo controlado, massivo, enlatado, pago! Buáháhá! Desculpem a gargalhada perversa, mal consigo me conter! E o pior é que os otários nem se dão conta de que estão vivendo em uma ditadura sutil, muito pior que a outra! Quer dizer, existem alguns membros da extrema esquerda que enxergam a verdade, mas como nós controlamos os meios de comunicação, ninguém os escuta! Senhores, o mundo é nosso!!!!’

Ai, ai, só rindo mesmo.

Não existe carona grátis

O Guga, que tem um blog chamado Nervosinho (http://www.nervosinho.blogger.com.br/), escreveu:

‘Vim engrossar o coro da Stormy e da Ana Terra quanto à cobrança de serviços na net. O problema não é cobrar, mas cobrar depois de ter oferecido gratuitamente por tanto tempo. A Globo.com está fazendo isso com os e-mails. Ofereciam um serviço muito bom de graça, de uma hora para a outra recebo um aviso ao tentar entrar no meu mail dizendo que ‘seria muito bom se eu continuasse sendo um usuário globomail’. Palhaçada, me nego. Nunca mais entro nesse site. Sabem quantas vezes eu acessei o site da UOL na minha vida? No máximo 10 vezes. Sei que pode parecer ridículo mas se todo mundo que já foi lesado de alguma maneira fizesse isso as coisas com certeza seriam diferentes. O que o Blig está fazendo não é justo com pessoas que proporcionaram tantos ‘clicks’ para eles. E como disse a Ana, é isso que eles querem. Acredito que quase todo mundo que me visita tem blog. Imaginem se isso estivesse sendo feito com vocês. Não podemos esperar a nossa vez. Eu já comecei o boicote e farei o que tiver que ser feito, pois isso não está certo. Que raiva me dá… Contando até 10…’

A leitura desse texto nervosinho me causou muitas dúvidas existenciais profundas.

Será que essas pessoas se acham tão importantes assim que merecem ser servidas de graça por enormes empresas, cheias de funcionários, sem dar nada em troca? Desde quando é ilícito ser cobrado por um serviço prestado?

Em que universo essa pessoa vive, que noção ela tem do funcionamento das mais básicas dinâmicas econômicas se ela acha que foi lesada só porque a Globo.com tentou cobrar por um serviço de email do qual ela já vinha usufruindo há meses?

Como pode isso?

A filha do político

Era uma vez uma menina muito rica, de família de políticos tradicionais. Todo dia, seu motorista ia buscá-la na escola com uma minivan. Como não faltava espaço naquele carro, ela dava carona pra vários outros meninos, inclusive eu.

Um belo dia, acabou a sopa. A família estava com medo, tinham recebido ameaças de seqüestro, e a recém-contratada empresa de segurança considerava um risco as múltiplas paradas que a van tinha que fazer para ir deixando as crianças pelo caminho.

Fiquei chocado com a indignação dos outros caroneiros. Ficaram revoltados. Que ela não podia fazer isso com a gente. Que era egoísmo. Que era um absurdo. Que não custava nada. Que todos tínhamos contribuído para comprar aquele carro (afinal, o pai dela era dos maiores ladrões da história da República) e tínhamos direito de andar nele. E etc.

Eu devo ser mesmo um bicho muito esquisito. Aquilo me pegou totalmente de surpresa. Eu não entendia tanta raiva contra alguém que fizera tanto por nós.

Tentei argumentar: ela não tinha obrigação alguma de dar carona para ninguém, muito menos para aquele batalhão. Ainda assim, tínhamos usufruído o carro dela por seis meses. Em vez de ficarmos irritados por não termos mais carona, não era mais lógico ficarmos gratos por termos tido carona todos os dias por tanto tempo?

Naturalmente, meus amigos me olharam como se eu fosse um ser de outro planeta. Naturalmente, se aquela pequeneza mental era o que caracterizava os terráqueos, então eu tinha muito orgulho de ser de outro planeta.

Fico imaginando como seria se meu amigo nervosinho tivesse sido um dos caronistas. Pelo o que ele escreveu, dá impressão de que ele teria tocado fogo na van.

O problema não é não dar carona, ele teria dito, no meu ver o problema é negar carona depois de ter oferecido gratuitamente por tanto tempo. Agora não quero mais saber. Deu carona, vai ter que dar sempre. Senão me sinto lesado.

Fico imaginando ele, ainda hoje, 15 anos depois, indo bater na casa da menina exigindo sua carona grátis. E contando até 10, para conter a raiva…

Uma nova visão

Em resposta à primeira parte desse artigo, a Stormy me escreveu:

‘Alexandre, seus argumentos têm fundamento, ninguém é ingênuo para não saber que tudo tem seu custo. Mas serviços disponibilizados gratuitamente são viáveis, se não, não seriam oferecidos. Dar a opção de pago com vantagens, tudo certo. Mudar as regras é que não. Quando falei de fins nada louváveis, não estava me referindo à Usina do Som. Será que você também é contra o movimento de software livre? Também acha que o Bill Gates está pobre ou que é justo que a informação só chegue até quem tem grana para pagar? Ha meios e meios de se ganhar dinheiro. Não ha nada de errado em correr atrás de seu ganha pão. Imagina se não houvessem e-mails gratuitos! Nunca paguei nada pelo Hotmail. E eles certamente têm que fazer investimentos com novos usuários e aumento de acessos. Bom, não sou entendida, mas acho que devemos sim, sempre dar um sinal de alerta quando as portas começam a se fechar. Para você, podem ser apenas negócios. Para outros não. Há pessoas que publicaram livros depois de ter feito um blog, que saíram de uma depressão, que encontraram amigos, novas formas de expressão. Sabe como quando uma música cai no domínio público e passa a ser um patrimônio de todos? Assim deveriam ser as novas formas de expressão e comunicação: uma coisa a ser partilhada. Se sabemos que as coisas não são tão simples assim neste mundo cão, você acha que temos que aceitar? Respeito a tua opinião mas acho muito deselegante alguém dar um presente e tirá-lo depois… Bjs!’

Você se engana numa coisa, Stormy. Os serviços oferecidos gratuitamente não são viáveis não. Eles só são oferecidos de graça porque as empresas pensam que ninguém vai pagar pra ter um blog, pra ter um contador, pra ter um webmail se não souber do que se trata. Lembra da época em que você nem sabia o que era um blog? Se você nem sabia o que era, imagina se iria pagar por isso!

Eu sou consultor de internet e já tive que trabalhar muito de graça, no começo da carreira, pra provar quem eu era. Outro dia, fui a um cliente para o qual fiz um trabalho de 3 mil reais em 1999 e cobrei 15 mil reais pelo mesmíssimo serviço hoje. Ele, que sabe como essas coisas funcionam, nem piscou: em 1999, eu não era ninguém nesse mercado, fiz o trabalho quase de graça pra provar que era bom. Hoje em dia, eu já tenho algum nome, não trabalho mais por 3 mil reais. Eu iria quebrar se ficasse à disposição do cliente às vezes por seis meses em troca de apenas 3 mil reais. Se o cliente só puder pagar isso, eu indico algum estagiário para fazer o serviço.

Oferecer de graça, para o cliente conhecer e experimentar o serviço/produto, e cobrar depois é uma prática comum e consolidada no mundo de negócios. Ou você nunca provou amostra grátis no supermercado? Ou nunca viu os programas do Cartoon Network quando eles abrem o sinal por um dia ou dois? Não é deselegância. Nós é que não podemos ser ingênuos e achar que só porque alguém nos pagou um almoço grátis que vamos sempre poder comer às suas custas. Será que alguém acha que só porque provou o novo Kuat com laranja no supermercado agora vai merecer um suprimento gratuito indefinidamente?

Quanto ao software livre, eu acho lindo as pessoas terem o maior trabalho desenvolvendo software para depois dá-los de graça. Eu também sou assim, de certo modo.

Sou escritor e estou aqui oferecendo meus textos de graça a vocês, textos que algumas revistas e sites pagam para publicar. Mas alguma coisa espero ganhar com isso. Mais dia menos dia, vou começar a publicar livros que terão que ser comprados e espero que meus fiéis leitores da internet (alguns, pelo menos) comprem os meus livros.

Com certeza, na cabeça do desenvolvedor de software livre também deve haver alguma contrapartida, nem que apenas prestígio profissional – que não é pouca coisa.

Mas, por mais louvável que seja quem faz software de graça, não cabe criticar o Bill Gates por vender os seus. Com que moral temos o direito de exigir que o Bill Gates ofereça de graça softwares e sistemas que lhe custaram fortunas pra desenvolver? Ele tem direito moral e legal de ser recompensado por seu trabalho. Nós não temos direito algum, nem moral nem legal, de usufruir gratuitamente do trabalho dos outros.

Aliás, se bem me lembro das minhas aulas de História com professores marxistas, esse negócio de usufruir gratuitamente da força de trabalho dos outros é chamado de exploração, modo de produção capitalista etc., e é algo tido como muito feio. Coitado do Bill Gates!

Não estou dizendo que não devemos reclamar, Stormy.

Acho que podemos e devemos chiar contra a cobrança de serviços que antes eram gratuitos. Mas devemos chiar como consumidores, consumidores que têm uma relação comercial com as empresas que fornecem esses serviços. Não protestar como defensores de uma liberdade de expressão ameaçada, de uma inclusão digital mal-explicada, pois a questão não tem nada a ver com isso.

Uma empresa privada, que visa o lucro, que visa sua própria sobrevivência, não tem obrigação de dar nada de graça pra ninguém. Quem não entende isso não vai nem conseguir negociar seus direitos de consumidor com a empresa, pois estarão falando línguas completamente diferentes.

Pra mim, os blogs me deram enorme prazer, me abriram um novo mundo, me fizeram conhecer pessoas incríveis, me fizeram crescer como escritor. Mas estou sendo prático. Pra podermos defender esse mundo lindo e livre da Internet, temos que entender como o mundo verdadeiro funciona lá fora, temos que falar a língua das empresas para podermos dialogar e negociar com elas.

Por fim, a Stormy diz:

‘Sabe como quando uma música cai no domínio público e passa a ser um patrimônio de todos? Assim deveriam ser as novas formas de expressão e comunicação: uma coisa a ser partilhada. Se sabemos que as coisas não são tão simples assim neste mundo cão, você acha que temos que aceitar?’

Eu acho que tudo deveria ser partilhado. Se dependesse de mim, não eram só os serviços de internet não: o HSBC aqui da minha esquina também deveria abrir as portas e partilhar tudo o que há no cofre, deveria ser tudo domínio público, patrimônio de todos. Claro que, se o banco fizesse isso, no dia seguinte ele fechava e todo mundo ia pra rua, mas nós não nos importamos com isso, certo? Não conheço ninguém que trabalha lá, não sou acionista, pode quebrar.

Mas a questão é que podemos ficar esperando sentados que o HSBC não vai partilhar o conteúdo do seu cofre, a Coca-Cola não vai partilhar seus galões de refrigerante, a Ford não vai partilhar seus carros parados nas fábricas. Bando de egoístas, não é? Podiam dar pra gente de graça, eu estou precisando tanto de um novo Ford, mas não, insistem em vender, esses capitalistas filhos da mãe!

Stormy, eu só estou pregando um pouco de realismo. Quem vive num mundo de faz-de-conta quebra a cara todos os dias.

Estudo de caso: Daniel Braga e o Comentar

Na verdade, a maioria das pessoas tem dificuldade extrema em dar razão às grandes corporações. É compreensível e até humano. Você olha o McDonald’s de um lado, uma pobre velhinha (http://en.wikipedia.org/wiki/Stella_Liebeck_v._McDonald’s_Corporation) que se queimou do outro, nem sabe o que aconteceu, mas já sabe que está do lado da velhinha. E, assim, uma velhinha que derramou café em si mesma arrancou 3 milhões de dólares (http://www.stellaawards.com/stella.html) do restaurante escocês.

Enfim, quando olhamos, de um lado, blogueiros coitadinhos sem dinheiro pra pagar o Blig Turbo e, do outro, aquele prédio azul do iG em São Paulo, bem, fica difícil de simpatizar com o iG.

Deixa então eu colocar uma face humana na questão.

Daniel Braga tem 23 anos e mora em Osasco, São Paulo. Ele está cursando o primeiro semestre de Processamento de Dados na Faculdade de Tecnologia de São Paulo (Fatec-SP). Em suas próprias palavras:

‘Comecei na informática com 14 anos, na época do MS-DOS em três disquetes, Clipper, WordStar e computadores Cobra XT 8 bits. Depois, fiquei um pouco afastado, até retornar na área de Infra-Estrutura de Redes, no Mato Grosso (onde morei de 1992 a 2001). Em 2001 voltei para São Paulo para fazer parte de um projeto, o site Criar e Plantar. Foi nesse site que aprendi a trabalhar com o PHP, sendo possível, assim, desenvolver o Comentar.’

O Comentar (http://www.comentar.com.br/) é hoje, em minha sincera opinião, o melhor sistema de comentários do Brasil. Quem tem sorte de ter sabe do que estou falando. Mesmo quem usa o Comentar somente nos blogs pela vida afora (como o meu) pode ver como o Comentar é mais bonito, rápido e customizável do que todos os outros.

Depois de um começo em que teve sucesso até demais, o Comentar foi obrigado a parar de aceitar novos membros. Enquanto isso, sortudos como eu acompanharam, através da lista de discussão e do blog do Comentar, a luta do Daniel tanto para passar no vestibular quanto para viabilizar financeiramente o sistema.

Quando descobri que ele mal tinha largado as chupetas e que fazia tudo sozinho, fiquei boquiaberto. Pelo que percebo da lista de discussão e do blog, a maioria esmagadora dos usuários está satisfeitíssima tanto com a qualidade do serviço quanto com o atendimento que o Daniel nos presta.

E tudo isso, claro, sem cobrar nada. Ainda bem que o Guga nervosinho não é usuário do Daniel pois, caso ele precise cobrar, perigava do Guga ir lá em Osasco bater nele…

Quando o Daniel teve problemas financeiros sérios, ele fez meio que uma enquete com o pessoal da lista e a maioria, acredito, disse que daria alguma ajuda se ele precisasse. Felizmente, não precisou, pois fechou uma parceria com um provedor mas, ainda assim, deve lançar em breve uma versão paga do Comentar, com mais recursos e funcionalidades

Enfim, amiguinhos, Daniel Braga não é uma megacorporação da família Marinho. Daniel Braga é um carinha de Osasco que rala muito, que ralou para criar o Comentar, que rala para manter o Comentar e que teve que ralar muito até para passar no vestibular. Para o Daniel, essa questão de direitos e privilégios é muito mais real do que para nós blogueiros: Daniel, coitado, está do outro lado.

Entrevista com Daniel Braga, do Comentar

Minha entrevista com o Daniel explicita muitas questões que ficaram abstratas nessa série de artigos. Aqui vai:

Por que dar o Comentar de graça, em vez de cobrar por ele?

D.B. – Quando se cobra por algo, você assume responsabilidades e deve estar sempre disponível para resolver qualquer problema relacionado a isso. Não tenho tempo para dedicar-me exclusivamente ao Comentar. Então ele fica como serviço gratuito e eu trabalho nele sempre que possível.

Como você não cobra pelo Comentar, que contrapartida espera receber pelo seu trabalho?

D.B. – O Comentar foi resultado de um desafio que eu propus a mim. Demorei quase um ano para planejá-lo e levá-lo a cabo. Em dezembro de 2002, durante minhas férias, tive um ‘estalo’ sobre como proceder para permitir a personalização dos templates dos usuários, que era o último obstáculo a ser transposto. A cada nova funcionalidade que eu imaginava e conseguia realizar era como um prêmio e isso foi o meu pagamento durante esse tempo. Pensando financeiramente, espero em breve lançar um plano pago no Comentar, com mais recursos.

Quais os custos que você tem para manter o Comentar no ar? Tanto custos de dinheiro mesmo que você tem que desembolsar quanto de horas de trabalho.

D.B. – Atualmente eu não tenho custo em espécie, pois a iMercosul WebHosting provê gratuitamente a hospedagem do Comentar. Atualmente estou dedicando duas horas diárias ao Comentar, para fazer melhorias e poder reabrir os cadastros o mais rápido possível.’

O Comentar hoje não tem custos, mas e antes da parceria com o iMercosul?

D.B. – Sim, antes da parceria havia custos. Como mudei muitas vezes de provedor de hospedagem, os valores variavam muito. Cheguei a ter um custo mensal de 70 reais com hospedagem.

[Quer dizer, gastava 70 reais mais todas as horas de trabalho que investia, o que também custa dinheiro.]

Está valendo a pena oferecer o Comentar de graça?

D.B. – Sim, mesmo com todos os problemas e um pouco de stress, está valendo a pena. É muito bacana ver algo que você criou sendo usado por outras pessoas. Apesar de não ser possível agradar a todos, sempre recebo mensagens de usuários me parabenizando pelo Comentar.

Quanto à questão de direitos e privilégios, você acha que os seus usuários têm direito a usar o Comentar gratuitamente ou acha que o uso gratuito do Comentar é um privilégio que você oferece aos usuários? Ou alguma terceira resposta?

D.B. – É um privilégio que eu ofereço aos usuários e quero mantê-lo assim.

O Blig agora está começando a cobrar de seus usuários. Muitos blogueiros estão revoltados com isso, dizendo que seus direitos foram atropelados, que o Blig está atentando contra a sua liberdade de expressão, etc. O que você acha disso?

D.B. – O Blig tem todo o direito de fazer isso, pois todos, ao usarem os seus serviços, concordaram com os termos de utilização do serviço. Acontece que quase ninguém presta atenção nesse documento. Esse pessoal é assim mesmo. Essa semana eu perdi um pouco a paciência com eles.

Que tipo de coisa faria com que fosse obrigado a cobrar pelo Comentar? E que reação você esperaria dos seus usuários?

D.B. – Eu sempre procuraria manter uma versão gratuita, com menos recursos, e criar uma versão paga com funcionalidades avançadas. No entanto, se não fosse possível continuar com a gratuidade, teria que apelar para a cobrança. Tenho certeza que poucos ficariam felizes. Mas isso é característica dos internautas brasileiros que utilizam serviços gratuitos. Funciona assim: se o seu sistema funciona e é gratuito você receberá elogios eternos. No entanto, se resolver cobrar pelo serviço, taxam-no como um interesseiro que quer arrancar dinheiro dos outros. Nessa hora, ninguém pensa no trabalho que lhe deu manter o sistema sempre disponível e os custos que isso acarreta. Atualmente vários serviços gratuitos da Internet brasileira passaram a cobrar um valor dos usuários. Talvez essa tendência venha a mudar a forma de pensar dos nossos internautas.

[Desde a realização dessa entrevista, o Comentar Free, ao atingir a marca de 1.100 usuários, parou de aceitar novos cadastros. O serviço pago, criado recentemente, Comentar Pro, custa 14,90 reais… por semestre!]

Como manter a web gratuita

Um dos meus simpáticos leitores me enviou uma treta para limar os banners do meu blog. A intenção certamente foi boa, e eu agradeço, sinceramente e em público, mas decidi recusar.

Quando eu gosto de um serviço gratuito – e eu adoro vários, como o SiteMeter, Nedstat, Comentar, Blogger etc. – eu faço questão de fazer com que essas empresas tenham algum tipo de compensação pelo presente que estão me dando. Clico conscientemente em todos os banners e botões que vejo pela frente.

Não sou criança e nem nasci ontem. Sei que se o faturamento de publicidade for bom, se o click-through compensar, essas empresas nunca vão querer se arriscar a cobrar de mim pelos serviços que usufruo de graça. Melhor ainda, nunca vão falir e me deixar sem o serviço.

Os mais jovens talvez não saibam o que é isso, mas eu ainda me lembro com pesar dos serviços gratuitos que eu adorava e que perdi, para sempre, simplesmente porque as empresas faliram. Só para dar dois exemplos: HotLinks e e-comics. Alguém ainda lembra deles?

Realmente, não sei o que leva alguém a querer eliminar os banners do seu blog. Se o cúmulo da velocidade é fechar a gaveta e jogar a chave dentro, o cúmulo do egoísmo, se não é isso, é bem próximo.

Será que não vêem que é só por causa dos banners que eles usufruem do blog gratuitamente? Que se os banners sumirem, ou pararem de dar retorno, a empresa não vai ter outra alternativa que não fechar ou cobrar? E nenhuma dessas opções, teoricamente, é agradável ao usuário que aprecia o serviço.

O melhor jeito de manter a web gratuita é justamente ajudar as empresas que oferecem serviços gratuitos, nunca sabotá-las.

Alguém tem uma idéia melhor?

Essas pessoas que bloqueiam banners devem ser as mesmas que ficaram bradando por liberdade de expressão na internet e inclusão digital quando o Blig ameaçou cobrar.

Não existe mágica. Os funcionários da Globo.com precisam ser pagos. Eu confesso que não gosto muito de banners, mas também confesso que não tenho solução melhor.

Essas pessoas que querem usufruir o serviço (ou seja, não querem que ele feche), mas que não querem pagar por ele e nem querem ficar vendo banners no seu blog, bem, acho esses quereres muito justos, mas essas pessoas deveriam sentar e pensar em algum novo modelo de arrecadação para a Globo.com e mandar para eles urgente.

Até lá, essas três opções ficam sendo praticamente as únicas: fechar de vez, cobrar assinatura ou divulgar banners.

Cuidando de mordida de cobra

Expus minha posição ao leitor que me ofereceu a treta e ele disse:

‘Pois é, Alexandre, o tema ‘Blogs Gratuitos: Ética x Estética’ daria muito pano pra manga. Minha posição é pró-Estética pelos motivos: o banner é feio, sutil como macaco em loja de louça, e já carregamos a marca ‘blogspot’ marcada com ferro em brasa no próprio nome. É o suficiente prá mim. Mas enfim…’

Acho que ele colocou a questão tão bem que virou até título do artigo: ética versus estética.

Na verdade, o que houve foi o seguinte: o Blogger deu a ele um blog de graça e pediu três coisinhas em troca.

O blogspot.com no nome do blog e o banner no topo da página não foram realmente pedidos, mas vieram com o pacote. Não há como ter um blog no Blogger sem o primeiro e, teoricamente, não deveria ser possível eliminar o segundo.

Na prática, a única coisa mesmo que o Blogger pediu foi pra ele incluir o selo do Blogger na página.

Verdade seja dita, colocar o selinho o meu leitor até colocou, quando seria fácil não colocar. O blogspot na URL ele não teve como mexer. Mas limou o banner. Pôxa, de três eu fiz dois, ele parece estar dizendo, não é o suficiente pra satisfazer esses fominhas do Blogger? E, além do mais, os banners são horríveis!

Isso tudo é muito bonito, e quase faz sentido, até você se lembrar do seguinte: o importante é o banner. O banner é a única fonte de renda do Blogger. O nome da URL e o botão são legais, ajudam, divulgam etc., mas quem paga as contas é o banner. O banner é que é fundamental para a sobrevivência da empresa.

E o banner, por motivos estéticos e anti-éticos, o meu leitor vetou.

Pior, mesmo assim, ele se sente quites com o Blogger só porque o termo blogspot aparece, ‘marcada com ferro em brasa’, em sua URL.

Imagino meu leitor socorrendo uma vítima de picada de cobra. Ele faz gaze e compressa, dá bastante água, protege a vítima do Sol, faz tudo, tudo mesmo, menos aplicar o soro anti-ofídico. E depois, quando o infeliz morre, meu leitor não se conforma e ainda se acha cheio de razão: mas, caramba, eu fiz tudo o que dizia aqui no manual de primeiros-socorros, tudo mesmo, só não fiz uma coisinha.

Logo a coisinha que era fundamental.

Ajude quem lhe ajuda

Pode ser que amanhã o universo vire de cabeça para baixo, mas hoje ainda estão valendo as regras do mercado, da oferta e da procura. Vocês podem não gostar, podem se mudar pra Albânia, podem se filiar ao PSTU, mas até a Heloísa Helena tomar o poder e nos transformar num Cubão, a realidade ainda é o mercado. E quem ignora isso só vai fazer dar com a cara na parede.

As empresas não sobrevivem de vento e precisam pagar suas contas. Ou elas arranjam um jeito de ganhar dinheiro ou fecham.

Portanto, se existe algum serviço gratuito que você usa e gosta, descubra qual é a fonte de receita do fornecedor do serviço e ajude-o. Assim mesmo. Só isso.

Eu sei, parece um contra-senso para a maioria das pequenas mentes marxistas que conheço, que ainda acreditam que existe almoço grátis e que toda empresa é intrinsecamente má, mas minha proposta é mesmo radical.

Ajude quem lhe ajuda. Será que você é capaz de fazer isso? Se alguém lhe dá um serviço gratuito, eu proponho que você tente dar algo em troca para esse alguém.

Se ele vende produtos, sugiro que você compre um de vez em quando. Se ele sobrevive de publicidade, sugiro que você clique nos seus banners e/ou gere pageviews. Se ele tem uma parceria com o Submarino, sugiro que você compre livros através do link em seu site para que ele ganhe uma porcentagem na venda. E por aí vai.

Todas essas iniciativas são muito pequenas, mas podem fazer uma grande diferença.

Mais do que qualquer outra coisa, você estará ajudando a si mesmo.

Chovendo no molhado

Não pensem que gosto de pagar por coisa alguma.

Adoro usar de graça o Yahoo Groups, o Blogger, o Comentar, o SiteMeter, o discador do IBest etc. Mas sei que essas empresas, que fornecem os serviços que tanto gostamos de usar de graça, têm custos e que esses custos têm que ser pagos de algum modo. ‘There’s no free lunch’ e quem não entendeu isso ainda está vivendo em um mundo de faz-de-conta.

Por outro lado, ninguém é retardado. As empresas não oferecem esses serviços de graça porque são boazinhas – e nem, que fique bem entendido, ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, cobram porque são mazinhas. Assim como todos nós, essas empresas têm que sobreviver.

Então, se não cobram, é porque buscam, ou tentam buscar, sua contrapartida em outras áreas. Por exemplo, publicidade.

Como eu sou um cara compreensivo e sei que publicidade é um péssimo meio de receita na internet, ainda tento ajudar na medida do possível, e clico em todos os banners e promoções dos serviços que mais uso e gosto.

Além disso, tem outras coisas que eu também sei.

Sei que todas as empresas que oferecem serviços gratuitos têm extrema relutância em começar a cobrar pelos serviços. Não pensem em reuniões de diretoria em que milionários de cartola dão gargalhadas malvadas e dizem: ‘Chega de dar de graça! Esses otários já estão viciados! A partir de amanhã, vamos tirar até as suas calças! Buábuáháháhá!’

As empresas sabem, e nós também deveríamos saber, que além de perder muitos usuários (os que simplesmente não podem pagar), uma iniciativa dessas ainda inflama o righteous indignation de quem não sabe a diferença entre direitos e privilégios, pessoas que bradam por liberdade de expressão e inclusão digital nas horas mais erradas.

Então, muito longe dos malvados de cartola, quando uma empresa de internet começa a cobrar por serviços que antes eram gratuitos, o que eu vejo é uma equipe acuada, sem outra opção, tendo que tomar uma medida drástica e impopular pra sobreviver, para poder manter o serviço funcionando, para poder manter seus empregos.

Sei que quando uma empresa de Internet faz isso ela está provavelmente dando sua última cartada para se viabilizar finaceiramente antes de fechar de vez.

Somos consumidores, não ativistas

Então, qual é o meu papel?

Um, entender tudo isso. Entender que a questão passa longe de inclusão digital ou liberdade de expressão.

Entender que ninguém pode ser obrigado a dar de graça algo que ela custa a produzir. Isso seria, pura e simples, exploração. É difícil de imaginar o Bill Gates sendo explorado por um Zé Mané da Esquina, mas é, literalmente, isso que acontece cada vez que o Zé Mané da Esquina pirateia o Office e usufrui, de graça, algo que pobre Bill ralou muito pra desenvolver. Uma versão moderna do que os nossos senhores de engenho faziam com os negros escravos.

Dois, tomar uma decisão economicamente racional: vale a pena pagar esse preço para manter esse serviço?

Você é o consumidor, você decide.

Muita gente fala que o Blig é ruim. Ótimo, pare de usar. Não use nem de graça.

Eu não uso nenhum serviço que eu ache ruim. Adoro o Blogger, o Comentar, o SiteMeter e Nedstat, só pra citar os serviços gratuitos desse blog. Já usei os comentários do Blogger Brasil e desisti, muito ruins. Já tive mail do MailBr e não agüentei nem dois meses. O discador do iG? Nunca mais usei depois que saiu o do IBest, que funciona muito melhor. E por aí vai.

Então, se o serviço é bom, se está satisfeito com as funcionalidades, pague a mixaria que vão pedir e lamba os beiços, pois era provavelmente isso ou nada.

Se o serviço é ruim, pare de usar, como você já não usa tantas outras coisas que não tem dinheiro ou disposição de pagar.

Nada é mais importante do que liberdade de expressão, mas os blogueiros deveriam guardar a sua indignação para quando sua liberdade de expressão estiver de fato sendo ameaçada.

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Colunista da Tribuna da Imprensa, mantém o blog Liberal Libertário Libertino (http://www.liberallibertariolibertino.blogspot.com/); e-mail (cruzalmeida@sobresites.com)

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