Domingo, 21 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Nas sendas da evolução

Por Daniele Barizon em 13/05/2008 na edição 485

O avanço da mídia, com o advento da internet, é incontestável. A informação, desde então, transita com velocidade entre produtores (a cada dia mais popularizados) e receptores, tornando instantânea a reação. Ao mesmo tempo, o aperfeiçoamento de outros veículos, como o rádio, a TV e o meio impresso (que se utilizam da rede como complemento), acelera a produção de gama extraordinária de notícias, que desabam sobre nossas cabeças em fluxo contínuo. Se não cuidarmos filtrar o que absorvemos, corremos o risco de ser influenciados pelas idéias mais estapafúrdias.

Não é recente, no entanto, a preleção de ascendência dos meios de comunicação sobre os indivíduos. A atenção para a então chamada sociedade de massa, subjugada pela espetacularização dos fatos e manipulação de consciências pela imprensa, conforme paradigmas de Adorno e Horkheimer, enceta-se pela década de 30, tendo como pano de fundo o nazismo e os hábitos norte-americanos, sob a percepção de filósofos judeus emigrados e decepcionados com os rumos da cultura ocidental. Hoje, essas teorias já caíram em desuso. Mas as influências ainda ocorrem, por outros prismas. Muito em voga, diga-se de passagem, anda o conceito da ‘fatalização’.

Um verdadeiro circo

Ultimamente, novidades chocantes têm invadido nosso cotidiano, deixando-nos estarrecidos e fazendo-nos engrossar o discurso de que o mundo anda mesmo de pernas para o ar. No Rio de Janeiro, diariamente, tráfico e violência estampam os noticiários. De São Paulo, não se fala outra coisa que não seja a tragédia da menina jogada do sexto andar de prédio, supostamente pelo próprio pai. Na Bahia, coordenador de curso de medicina de tradicional faculdade vale-se de antigos pressupostos darwinianos para classificar seus conterrâneos de inferiores (ignorando baianos ilustres como Jorge Amado, Glauber Rocha, Dorival Caymmi e Caetano Veloso, entre outros). No Amazonas, embarcação não legalizada naufraga, vitimando quantidade ainda não mensurada de pessoas. Em Santa Catarina, fenômeno climático é responsável por mortes e devastação. Isso para falar apenas de Brasil. Em âmbito mundial, o cenário é ainda mais aterrador.

Demais? Concordo. Mas, será mesmo tão diverso do nosso vergonhoso passado, que ainda traz vestígios das chagas provocadas por guerras, extermínio em massa, assassinatos cruéis, escravidão e grandes desastres naturais?

A notícia atual sempre nos parece mais extraordinária, uma vez que afeta diretamente nossa rotina. Alguns órgãos, de acordo com o nível de audiência e/ou outras conveniências, tendem a superexplorar determinados assuntos e criar verdadeiro circo sobre os acontecimentos.

Respirar boas novas

A consternação pública é evidente, como se verifica no caso Isabella Nardoni. Aterrador sim, atípico e monstruoso. Tal qual outros, que não chegaram a atingir a mesma repercussão. Como exemplo, podemos citar o de Laila Fonseca, de 9 anos, cujo corpo foi encontrado enterrado em abril, em casa de amiga, em Goiás. Ou do estudante Cayro Emanuel, de 12 anos, que faleceu em fevereiro, após ter sido baleado em colégio, em Petrolina. Os irmãos Luisa e Evandro, de um e dois anos, foram assassinados pelo pai, em janeiro, no Planalto. No ano passado, em Araguari, menina de quatro anos foi morta a pedradas, após ter sido estuprada por vizinho. Poderiam ter sido mais divulgados? Sem dúvida. Penso, entretanto, que o foram na medida certa. O mais, é teatralizar.

A sociedade, com seus feitos grandiosos no campo da ciência e da tecnologia (e com sua tendência irrefreável ao desmatamento e à poluição), ainda engatinha. Na evolução pessoal do indivíduo, na sua humanização e conscientização, na real valorização dos sentimentos e das virtudes. A mídia progride gradualmente, desde tempos idos. Mas, assim como sucede ao homem, está longe de apresentar-se iniludivelmente irrepreensível, impoluta e ética.

Esperemos, pois, que o cidadão e seu instrumento ascendam juntos. Neste ínterim, ansiemos apenas por respirar um pouco das boas novas que, no carrilhão desta enxurrada diária, para nosso alívio também se manifestam.

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Diretora de teatro e estudante de Jornalismo, Rio de Janeiro, RJ

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