Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

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Novos dilemas digitais

Por Carlos Castilho em 23/11/2004 na edição 304

A internet e em especial os blogs foram a grande vedete das últimas eleições norte-americanas, apesar da polêmica envolvendo a equivocada antecipação dos vencedores com base em pesquisas de boca-de-urna.

Pesquisa do Pew Research Center for the People and the Press (http://people-press.org) , indicou que quase dobrou o número de norte-americanos que fizeram da internet a sua principal fonte de informações para escolher um candidato presidencial. Na votação deste ano, 21% dos eleitores admitiram ter usado majoritariamente a web para decidir em quem votar, contra 11% nas eleições presidenciais de 2000 e 3% em 1996.

A relevância conquistada pela web como fonte de informação eleitoral igualou-se à do canal Fox News, superou todas as demais redes de televisão dos EUA e perdeu apenas para os jornais, que obtiveram 43% das preferências.

Os números da pesquisa do Pew mostram também um comportamento paradoxal do eleitor norte-americano. Se por um lado ele se mostra conservador na preferência pelo canal Fox (decididamente pró-Bush) e tradicionalista na fidelidade aos jornais, por outro surpreendeu os pesquisadores ao dedicar cada vez mais atenção à internet, um veículo de comunicação cuja característica principal é a quebra de paradigmas.

Informação e sociedade

Mas o que mais impressionou especialistas em comunicação, como o professor Jay Rosen (http://journalism.nyu.edu/pubzone/weblogs/pressthink/), diretor da Faculdade de Jornalismo da Universidade de Nova York, é o fato de 60% dos jovens com menos de 30 anos procurarem periodicamente informações na web e 40% consultarem unicamente a internet. ‘Já temos uma geração cuja dieta informativa é majoritariamente formada por fontes não-convencionais, o que é uma grande ameaça para os jornais e para a televisão’, diz Rosen.

A divulgação da pesquisa do Pew Research Center (detalhes em http://people-press.org/reports/display.php3?ReportID=233) jogou mais lenha na fogueira acesa pelo debate pós-eleitoral sobre a relação entre os blogs e o jornalismo. A polêmica mobilizou os principais gurus da blogosfera (o mundo dos blogueiros) e foi o assunto principal da conferência anual da Associação de Jornalismo na Web (Online News Association, a ONA, em http://journalist.org/2004conference/), o mais badalado ponto de encontro dos jornalistas que trabalham na web).

Os dados da realidade, bem como a polêmica entre os profissionais e os novos protagonistas da arena informativa, dão um quadro da relevância do problema surgido com o crescimento do fenômeno do blog, cujo real significado pode ser entendido melhor quando se leva em conta o processo do qual ele faz parte.

O fenômeno dos blogs é conseqüência direta das inovações tecnológicas que transformaram a informação na matéria-prima-chave de nossa sociedade e que permitiriam ao consumidor comum de notícias transformar-se também em produtor de conteúdos.

Terremoto na imprensa

A informação ganhou, na era digital, o status de matéria-prima com importância econômica igual à que tiveram o petróleo, os grãos e os metais, nas várias etapas do desenvolvimento capitalista. O novo modelo de desenvolvimento corporativo exige que a matéria-prima informação circule da forma mais rápida e livre possível porque isso garante a maximização do seu valor agregado. Sem isso o sistema financeiro mundial, por exemplo, entraria em colapso.

A inovação tecnológica criou também uma avalancha informativa fruto da informática, da automação e da telemática. A conseqüência de tudo isso é que o jornalista e o jornalismo perderam o monopólio do fluxo da informação. Os veículos de comunicação analógicos ficaram impotentes para administrar e publicar volumes amazônicos de notícias, imagens, dados e conhecimentos.

Além disso, os desenvolvedores de software criaram programas que tornaram quase elementar a publicação de conteúdos informativos na web, e assim a avalancha tornou-se ainda mais intensa, com o surgimento de aproximadamente quatro milhões de blogueiros. Quase 95% deles têm pouca ou nenhuma importância, mas o que publicam os restantes 200 mil já é suficiente para provocar um terremoto na imprensa mundial.

Uma conversa

O fluxo avassalador de informações colocou em evidência a incapacidade da mídia convencional de contextualizar as notícias que serão distribuídas ao público. A contextualização é um dos grandes dilemas da mídia contemporânea porque sem ela aumenta enormemente o risco de distorções e erros, com graves conseqüências sociais ou financeiras. A identificação de causas, protagonistas, interesses e conseqüências numa notícia ficou ainda mais complicada porque, além de haver mais notícias para contextualizar, aumentou a complexidade de cada uma delas.

Se um repórter de polícia fosse contextualizar todas as informações publicadas em torno de um crime, por exemplo, ele acabaria tendo que encher uma página para cada evento. Ampliando esse procedimento para todas as editorias, o jornal acabaria virando um calhamaço, o que inviabilizaria a sua sobrevivência como empresa.

A velocidade de distribuição das notícias tornou-se vertiginosa, e com isso a investigação e a contextualização já não podem mais ser feitas seguindo o modelo tradicional da reportagem na mídia convencional. O ritmo-padrão de trabalho na web é de 24 horas, sete dias da semana, sem feriados. A demanda por contextualização abriu espaço para os blogs na arena informativa.

A notícia deixou de ser um produto que o jornalista entrega pronto ao consumidor para ser desenvolvido conjuntamente, pelo processo de colaboração tornado possível pela web. A comunicação na internet deixou de ser um processo de mão única, como é na mídia convencional, para ser uma conversa, conforme expressão criada pelos autores do Cluetrain Manifesto (www.cluetrain.com/portuguese/index.html), o documento que os principais gurus cibernéticos consideram a melhor síntese das potencialidades inovadoras da internet.

Funções afetadas

Sem poder mais administrar o fluxo avassalador de informações, a notícia escapa também ao controle do jornalista. Na web, ela deixa de ter um formato acabado para transformar-se num produto em constante reelaboração, com a participação tanto dos profissionais como dos amadores na área da informação. É o que alguns chamam de jornalismo participativo ou cidadão, praticado por muitos blogueiros independentes.

O processo investigativo na reportagem jornalística, assim, também é obrigado a adaptar-se às novas circunstâncias. Até agora a rotina jornalística determinava que a investigação de um fato precedia a publicação da reportagem ou do comentário analítico. Na web, o processo se inverte. Primeiro se publica e depois se investiga. É evidente que esta inversão implica riscos consideráveis, como mostrou o episódio dos posts publicados pelos blogs norte-americanos sobre as pesquisas de boca-de-urna, nas eleições presidenciais do início do mês [ver remissão abaixo], mas a mudança simplesmente está sendo imposta pela realidade, ou seja, pela incapacidade da mídia convencional de processar todas as informações que surgem numa determinada comunidade. Não é culpa dos jornais e nem dos blogs. É um fato novo, criado por condições que conhecemos bem, mas cujas conseqüências e desdobramentos só estamos descobrindo gradualmente.

A revolução no ambiente informativo, da qual os blogs são apenas uma expressão, vai ainda mais longe. A mídia convencional e notadamente os jornais sempre foram um dos pilares da sociedade ocidental, pela sua função como certificadora da credibilidade das informações. Mas, na medida em que o ambiente informativo é sacudido pelo maremoto criado pela internet, a função certificadora também foi drasticamente afetada.

Fruto da ruptura

Os jornais podiam considerar-se os guardiões da objetividade, isenção e credibilidade porque o fluxo de informações era reduzido e o processo podia ser administrado sem grandes sobressaltos. Hoje, no entanto, as redações se tornaram impotentes para administrar o fluxo de notícias e conseqüentemente multiplicaram-se as informações inverídicas ou distorcidas por falta de uma contextualização adequada.

Além de perder o controle da notícia, a imprensa está perdendo a função certificadora para um novo processo baseado na idéia da reputação. Trata-se de um sistema baseado no consenso e no comportamento dos atores sociais, que já garante o funcionamento do mecanismo de buscas Google, do site de vendas por leilões eBay e o badalado jornal sul-coreano OhmyNews. Mais detalhes no documento Manifesto for the Reputation Society (www.firstmonday.dk/issues/issue9_7/masum/).

Os blogs são fruto desta ruptura do modelo informativo vigente. Pagam o preço da avalanche informativa tanto quanto a grande imprensa. Cometem erros factuais e de contextualização não muito diferentes dos jornais. Mas enquanto a mídia convencional não consegue mais dar respostas a novos dilemas, os blogs integram um processo que, de forma não-convencional, tenta encontrar soluções para as novas exigências e valores informativos criados pela era digital.

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Jornalista e pesquisador de mídia eletrônica

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