Sábado, 26 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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E-NOTíCIAS > SAPATOS, MEIO E MENSAGEM

O avanço para trás

Por Fernando Massote em 23/12/2008 na edição 517

Alberto Dines, bom jornalista e estudioso da comunicação, refletindo sobre as sapatadas do jornalista iraquiano contra Bush, instituiu o sapato como meio e mensagem da comunicação e distribui merecidas sapatadas a meio mundo da política [ver ‘O sapato como meio e mensagem‘]. A que destinou a Aécio Neves foi uma das mais bem endereçadas. Em pelo menos 74 cidades de Minas Gerais, a população, principalmente a mais pobre e abandonada, vive em grande aflição, sofre e morre afogada pelas enchentes. Como é que as políticas de ‘choque de gestão’ e ‘déficit zero’ não serviram para minorar esta situação de calamidade pública? E o governador, a quem só interessam os projetos de poder? Ele só aparece de helicóptero e na propaganda perdulária que seu governo pratica, como primeiro item, qualitativo, das atividades de governo. Tudo em Minas Gerais é política de prestígio, de poder, para o governador aparecer como candidato à presidência da República.


O melhor exemplo dessa situação é a lamentável situação em que se encontra um dos maiores hospitais públicos da América Latina em número de atendimentos, o João XXIII, em Belo Horizonte. É o maior hospital de urgências de Minas Gerais, realizando cerca de 400 atendimentos diários; uma referência, no estado, para traumatismos graves (acidentes automobilísticos, quedas de altura, agressão por armas de fogo, amputações, traumatismos cranianos etc.) e a única para grandes queimados e intoxicações (medicamentos, agrotóxicos, picadas de cobra, escorpião, aranhas etc.). E é onde falta tudo, desde monitores cardíacos, fios cirúrgicos, antibióticos e antiinflamatórios e outros meios para realizar exames essenciais!


Artistas globais


Aécio investiu 20 milhões na estrutura física e mais 40 milhões no sistema de computação do hospital, mas basta isto para tratar um hospital desse porte? E os salários de médicos, enfermeiros, técnicos em enfermagem e radiologia, que estão abaixo dos da rede municipal? Numa situação tão desastrosa, muitos médicos não acharam outro caminho senão pedir demissão, levando o hospital para o CTI, onde ele se encontra até hoje. Depois de um concurso realizado em maio de 2007, só 50% dos concursados assumiram.


Para salvar o hospital da situação de inanição em que se encontra, os médicos iniciaram um movimento que já contatou o Ministério Público (Promotoria da Saúde), o Sindicato dos Médicos, a Associação Médica e o Conselho Regional de Medicina. Todos participaram de Assembléias, visitas e reuniões com os mais diversos setores do estado – Assembléia Legislativa, direção da FHEMIG, Secretaria de Saúde do Estado – e julgaram legal e necessário o movimento. Foram realizadas duas paralisações de 24 horas com atendimento só dos casos de risco de vida, levando todos os outros casos para o atendimento das unidades da rede municipal, já muito atravancadas com os atendimentos da capital e do interior do estado.


Depois de cerca de três meses de movimento e sete assembléias dos médicos, nenhuma proposta concreta foi apresentada pelo governo; nenhuma reivindicação foi negociada ou atendida.


Enquanto atividades tão essenciais como a do hospital João XXIII vivem no abandono, os artistas globais continuam aparecendo nos horários nobres da TV para alardear a preço de ouro os feitos do governo… Eles afirmam, como bons papagaios, que o que mostram ‘é Minas andando para a frente sem deixar ninguém para trás’.

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Professor da UFMG, cientista político e autor do livro A história pela metade, cenários de política contemporânea, 3ª edição pela Editora da Universidade Federal de Viçosa (MG), agosto de 2008

Todos os comentários

  1. Comentou em 27/12/2008 alfredo sternheim

    Caro José Castro, a minha restrição tem sentido. Repito: não vivo e, lamentavelmente, não vou a Belo Horizonte há cerca de 18 anos. Pelos comentários mineiros aqui postos, as reclamações do professor parecem justas, corretas. Um grave problema de saúde pública e demagogia. Mas o Observatório tem que observar não a questão e sim como a imprensa trata ou deixa de tratar esses assuntos de importância local. Em SP, ninguém da mídia se importou com os sujeitos que foram inocentados no caso padre Lancelloti, depois de aparecem como supostos culpados quando o escândalo estava sendo explorado. São pobres, assim como o sujeito acusado de ser o serial killer dos gays em cidade da grande SP, e que se diz inocente. Mas está preso. A imprensa silenciou a respeito, omissa ficou. Há dezenas de casos similares e pouca reação a respeito observamos aqui. Mas a sapatada no Iraque rendeu dezenas de artigos, mnuitos defendendo o gesto rude do jornalista iraquiano. Pode ter emoção simbólica como disse alguém, mas por esse viès, uma pedrada no Papa de um jornalista gay credenciado no Vaticano também é válida, por conta dos preconceitos distilados pelochefe da Igreja Católica. Agressão física e sem direito de defesa não se justifica. E me causa espanto ver essa defesa da sapatada por jornalistas. Vamos protestar contra a falta de liberdade na imprensa do Iraque, China, Cuba sem atirar

  2. Comentou em 26/12/2008 Paulo Barbosa

    Com todo respeito ao colega aí de cima, mas vá ser medroso assim lá longe. Quer dizer então que não se pode mais dizer nada contra a perseguição deste papa nazista aos gays? Que devemos bancar os bons rapazes e ficar de biquinho calado enquanto políticos como Bush e outros nos fodem o rabo? Que silenciemos diante das empulhaçõe? Ora, o que é isso, companheiro? Você não entendeu que o gesto do jornalista árabe foi carregado de simbologia? Uma das missões da imprensa é combater as imposturas dos governantes. E muitas vezes é preciso deixar que a emoção nos invada, sim, sem o que ficamos reduzidos à condição de bestas. Jornalismo bom (impresso, bem entendido) é jornalismo com emoção, com as salvaguardas de praxe. É disso que esta velha e boa profissão precisa, para se renovar, inclusive: emoção.

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