Terça-feira, 23 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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O avanço para trás

Por Fernando Massote em 23/12/2008 na edição 517

Alberto Dines, bom jornalista e estudioso da comunicação, refletindo sobre as sapatadas do jornalista iraquiano contra Bush, instituiu o sapato como meio e mensagem da comunicação e distribui merecidas sapatadas a meio mundo da política [ver ‘O sapato como meio e mensagem‘]. A que destinou a Aécio Neves foi uma das mais bem endereçadas. Em pelo menos 74 cidades de Minas Gerais, a população, principalmente a mais pobre e abandonada, vive em grande aflição, sofre e morre afogada pelas enchentes. Como é que as políticas de ‘choque de gestão’ e ‘déficit zero’ não serviram para minorar esta situação de calamidade pública? E o governador, a quem só interessam os projetos de poder? Ele só aparece de helicóptero e na propaganda perdulária que seu governo pratica, como primeiro item, qualitativo, das atividades de governo. Tudo em Minas Gerais é política de prestígio, de poder, para o governador aparecer como candidato à presidência da República.


O melhor exemplo dessa situação é a lamentável situação em que se encontra um dos maiores hospitais públicos da América Latina em número de atendimentos, o João XXIII, em Belo Horizonte. É o maior hospital de urgências de Minas Gerais, realizando cerca de 400 atendimentos diários; uma referência, no estado, para traumatismos graves (acidentes automobilísticos, quedas de altura, agressão por armas de fogo, amputações, traumatismos cranianos etc.) e a única para grandes queimados e intoxicações (medicamentos, agrotóxicos, picadas de cobra, escorpião, aranhas etc.). E é onde falta tudo, desde monitores cardíacos, fios cirúrgicos, antibióticos e antiinflamatórios e outros meios para realizar exames essenciais!


Artistas globais


Aécio investiu 20 milhões na estrutura física e mais 40 milhões no sistema de computação do hospital, mas basta isto para tratar um hospital desse porte? E os salários de médicos, enfermeiros, técnicos em enfermagem e radiologia, que estão abaixo dos da rede municipal? Numa situação tão desastrosa, muitos médicos não acharam outro caminho senão pedir demissão, levando o hospital para o CTI, onde ele se encontra até hoje. Depois de um concurso realizado em maio de 2007, só 50% dos concursados assumiram.


Para salvar o hospital da situação de inanição em que se encontra, os médicos iniciaram um movimento que já contatou o Ministério Público (Promotoria da Saúde), o Sindicato dos Médicos, a Associação Médica e o Conselho Regional de Medicina. Todos participaram de Assembléias, visitas e reuniões com os mais diversos setores do estado – Assembléia Legislativa, direção da FHEMIG, Secretaria de Saúde do Estado – e julgaram legal e necessário o movimento. Foram realizadas duas paralisações de 24 horas com atendimento só dos casos de risco de vida, levando todos os outros casos para o atendimento das unidades da rede municipal, já muito atravancadas com os atendimentos da capital e do interior do estado.


Depois de cerca de três meses de movimento e sete assembléias dos médicos, nenhuma proposta concreta foi apresentada pelo governo; nenhuma reivindicação foi negociada ou atendida.


Enquanto atividades tão essenciais como a do hospital João XXIII vivem no abandono, os artistas globais continuam aparecendo nos horários nobres da TV para alardear a preço de ouro os feitos do governo… Eles afirmam, como bons papagaios, que o que mostram ‘é Minas andando para a frente sem deixar ninguém para trás’.

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Professor da UFMG, cientista político e autor do livro A história pela metade, cenários de política contemporânea, 3ª edição pela Editora da Universidade Federal de Viçosa (MG), agosto de 2008

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