Terça-feira, 16 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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O dono do conteúdo na sociedade interpretativa

Por Darlon Silva em 27/06/2011 na edição 648

As redes sociais não nasceram ontem, e nem foi com a web. Desde os primórdios, os seres humanos buscam cada vez mais por formas complexas de satisfazer suas necessidades de interação social. Desde os primeiros grupos humanos, as grandes civilizações, as organizações secretas, a formação das religiões, as tribos urbanas, são todas redes sociais, diferentes em seus contextos históricos, políticos e sociais. Na contemporaneidade, percebe-se a consolidação de uma grande rede social virtual. Continua a ideia de rede social, muda apenas o espaço onde é desenvolvida.

Vive-se hoje em uma sociedade interpretativa. Essa percepção aumenta quando se nota que os indivíduos a cada dia mais interagem, opinam e interpretam os fatos à sua maneira. Oras, sempre se fez isso, não? O que diferencia esta sociedade de outras é o fato de que a mesma tem plataformas disponíveis que possibilitam o compartilhamento de todas essas informações, opiniões e interpretações. Para o bem e para o mal.

A cada dia que passa, as pessoas ficam mais críticas e analíticas quanto ao conteúdo que consomem. Em meio a tantas ferramentas e possibilidades de compartilhamento, é importante marcar território, conquistar seguidores. Não é uma tarefa fácil. Tanto é que talvez seja esse o grande desafio do jornalismo atual: transformar o “mundo cão” que é a internet em um grande palco para o debate das ideias e construção de uma opinião pública mais consistente, democrática e popular.

Ser “dono do pedaço” é arriscado

Em um mundo tão vasto de possibilidades, existem algumas pessoas que se adiantam. Nessa sociedade da interpretação, o melhor exemplo disso é o gerador de conteúdo. Ele é o responsável por encontrar, adiantar, compartilhar e mesmo opinar e dar uma primeira interpretação às informações. Parte dele o primeiro link, a primeira visualização do vídeo, o primeiro cadastro naquela rede social nova. Portanto, pode-se dizer que as interpretações que virão daí, em boa parte são influenciadas a priori pelo ponto de vista do gerador de conteúdo.

Aquela pessoa que tem conteúdo em uma sociedade interpretativa transforma-se, de certa forma, em dono do poder. O conteúdo na sociedade da informação é moeda de troca, garantia de status e afirmação social, se bem utilizado. No entanto, nota-se que este conteúdo deve ser sempre novo, ágil, segmentado. A sociedade interpretativa está cada vez mais especializada e segmentada. As pessoas sabem muito sobre vários assuntos, mas em setores específicos, onde ocorre a realização de seus objetivos comunicativos pessoais e profissionais. O dono do conteúdo é aquele que sabe primeiro, acha primeiro, divide primeiro. Na sociedade da interpretação, apenas “copiar e colar” a informação não conta. É necessária uma interpretação, uma opinião ou, em casos de novas tecnologias, uma orientação sobre o produto/conteúdo fornecido. Espera-se certa assertividade nas críticas do seu dono de conteúdo favorito, rapidez na busca de informações e credibilidade nas fontes usadas.

O dono do conteúdo transforma-se numa espécie de senhor feudal, com seus territórios virtuais dominados, seguidores ávidos por alimento e status de “dono do pedaço”. Mas é preciso tomar cuidado. Ser “dono do pedaço” em uma sociedade efêmera é arriscado. Pois mesmo que esta seja uma terra de “feudos”, não há vassalos. Em uma sociedade que a cada dia mais se alimenta de conteúdo e informação, qualquer bobagem dita pode virar unfollow. Porém, é melhor não arriscar porque por aqui as pessoas interpretam, opinam e reagem.

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[Darlon Silva é redator de mídia, Campinas, SP]

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