Sábado, 23 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1064
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O futuro do jornalismo é agora. Mexa-se

Por Bia Moraes em 20/03/2006 na edição 373

De um seminário de três dias, que se propõe a discutir o tema ‘Imprensa Multimídia – As redações de terceira geração’, espera-se sair com respostas. Ao menos, previsões de como será o futuro próximo da nossa profissão. Porém, ao final do terceiro dia do evento, promovido em Brasília pela revista Imprensa, peguei o vôo de volta a Curitiba na quarta-feira (15/3) com mais perguntas do que respostas martelando minha cabeça.

Não que isso seja ruim – pelo contrário. Chego à minha cidade com muitas informações novas, dados e temas para reflexão. Assunto para conversas, pesquisas pessoais e questionamentos sobre os rumos da minha própria carreira.

Ficou claro, ao longo de painéis, palestras e explanações, que estamos vivendo um momento ao mesmo tempo decisivo e confuso. Um daqueles períodos históricos que será lembrado, lá na frente, como fundamental para a comunicação como um todo: novas tecnologias, convergência de mídias, fusões, derrocadas, casos inesperados de sucesso, inversão de papéis, mudança de linguagens… o desafio é grande para nós, jornalistas, e não podemos nos dar ao luxo de simplesmente ignorar as imensas transformações em curso no exercício da profissão. Estamos naquele estágio que a expressão americana ‘turning point’ traduz bem.

É pegar o bonde ou ficar para trás. E não que ficar para trás possa ser uma opção equivocada: como disse Marcelo Rech, diretor de redação do jornal Zero Hora (do grupo gaúcho RBS), ‘sempre haverá espaço para o jornalista monomídia’. Um exemplo? ‘Luís Fernando Veríssimo’, citou Rech: ele só escreve; não fala, não vai à TV, não tem afinidade com tecnologia. Então, tá. Mas quantos Veríssimos existem por aí?

Caio Túlio Costa nos mostra o panorama global e local do mundo da mídia. Corporações vindas de outros mercados abocanham grupos de comunicação planeta afora. A concentração desse mercado em poucas mãos – e, saliento, a maioria delas estranhas ao mundo da informação – é assustadora: nos anos 1980, eram 50 grandes grupos de comunicação; nos 1990, passaram a 27; na virada do século, encolheram para apenas 7. (No dia seguinte à palestra de Costa, somos informados de mais uma aquisição, do grupo de jornais norte-americano Knight-Ridders pela companhia McClatchy).

Localmente, aponta Caio Túlio, os tradicionais grupos de comunicação com origem familiar e controlados por patriarcas começam a mudar de cara e de mãos: os Mesquita perdem a gestão econômica do Grupo Estado; o Jornal do Brasil, atolado em dívidas, passa para o controle daquele senhor-que-todos-sabem-o-nome (que o palestrante não nomina, mas cita como um empresário especializado em adquirir companhias em estado falimentar); Gazeta Mercantil, idem; Bloch falida; grupos Folha e Abril, endividados, abrem para capital estrangeiro; e Globo, se desfazendo de partes da corporação (canais a cabo).

Tempo e paciência

Nem preciso dizer que tais transformações estão longe de figurar apenas como notícias distantes do noticiário econômico. Elas atingem a nós, bichos criados em redações, diretamente. Atingem nosso salário, nossas condições de trabalho, nossas perspectivas de carreira e, em última análise, nossa opção profissional.

Entre tanta informação disseminada no seminário, algumas afirmações se repetem em diferentes painéis, e portanto não podem ser esquecidas. São elas, principalmente, que martelam meu cérebro enquanto o avião pousa em Curitiba: nós, profissionais da comunicação, temos um grande desafio pela frente. O momento é de quebra de paradigmas e grandes transformações. Os jornais impressos, como suporte de informação, caminham para o fim. Temos que deixar de ser apenas produtores de notícias e nos prepararmos para ser gestores da informação. O fenômeno dos blogs, as novas tecnologias e a internet rápida e barata criam um leitor cada vez mais ativo, questionador, participativo, interativo e, porque não, concorrente direto e próximo do nosso próprio ofício.

Sim, senhores. A palavra que define este novo leitor é ‘prosumer’ (consumidor proativo): ele, aquele cara que pegava o jornal de manhã na porta de casa e mandava uma cartinha para a redação reclamando do terreno baldio no bairro dele; ela, a mulher que comprava a revista preferida na banca e enviava um e-mail para participar da promoção ‘conte sua história de amor e ganhe uma semana de spa’; ele, o ‘nosso’ leitor, não é mais apenas consumidor passivo da informação.

Antes que você possa decifrar o internetês abreviado que seu filho tecla no Messenger com os amigos; antes que você se dê conta que o seu perfil no Orkut – se é que você tem um – já foi escrutinado pelo novo diretor de marketing do seu jornal; ele, aquele cara chamado leitor, vai começar produzir e publicar, através de uma infinidade de ferramentas e mídias novas, aquilo que nós passamos uma vida aprendendo a fazer nas redações…

Quem mandou sermos arrogantes e passar essa vida toda na redação pautando, escrevendo e editando matérias para… para quem, mesmo? Quem mandou implicar com o departamento comercial, mandar às favas as pesquisas de marketing, esconjurar os publicitários metidos a moderninhos com seus gadgets eletrônicos?

Viram no que dá não ter tido paciência, nem tempo, de atender o leitor indignado que telefonava apontando erro na sua matéria? Ele agora tem um blog. Arrisca ser, o blog dele, mais lido (perdão, acessado) do que a sua grande reportagem de domingo no grande jornal da sua cidade.

Cartas para onde?

Chego em casa, largo a mala e vejo a filha adolescente, no quarto, teclando na internet. Os dois filhos pequenos estão jogando videogame online no computador do pai. Bobagem? Perda de tempo? Não; a garota está pesquisando sobre a banda de rock que lhe ocupa os desejos no momento. Conheceu o vocalista recentemente durante sessão de fotos para uma revista em São Paulo; trocou e-mails; agora envia sugestões sobre a roupa que o cara vai usar nos próximos shows.

O guri de 8 anos, que está ficando fera no videogame, já sabe que existe faculdade para formar carinhas experts em design de games, futuros profissionais de um dos setores que mais cresce no rentável mundo do entretenimento. Sabe que este seria o emprego dos sonhos de um tipo como ele, que desenha bem, inventa histórias de aventura e é capaz de juntar tudo num game animal. E sonha com isso.

Como, meus amigos, vamos convencer esse menino de 8 anos e essa garota de 14 a assinar um jornal impresso, que traz as notícias de ontem, quando eles tiverem idade e poder aquisitivo para isso – ou seja, daqui a uma geração? Como mantê-los sentados em frente a uma TV assistindo a um telejornal padrão William Bonner/Homer Simpson? E como fazê-los ouvir uma rádio noticiosa no trajeto entre a casa e a escola, em vez de plugar no carro o tocador de MP3 com as novidades recém-baixadas da web?

(Por força do orgulho materno, devo acrescentar que livros, sim, eles lêem, e muito. E gostam de ler. Ufa. Livros vão sobreviver, penso, esperançosa.)

Quem tiver respostas, por favor: cartas, e-mails, SMS, torpedos, podcasts, blogs, para a… não sei muito bem para onde. Qual é a minha mídia, mesmo?

******

Jornalista, http://sexomentirasefilmes.blogspot.com e www.comunique-se.com.br

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