Segunda-feira, 23 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

E-NOTíCIAS > A "diferentona"

O humor escrachado na forma de meme

Por Taís Brem em 15/01/2016 na edição 885

Caso 2016 terminasse neste exato momento, ao falar em retrospectiva seria indispensável mencionar a página “Diferentona” como o meme do ano. Ela pode até soar chata e repetitiva depois de algumas postagens, mas o fato é que, agradando ou desagradando os internautas, não se fala noutra coisa na rede nos últimos dias. Trata-se de um deboche à exclusividade que as pessoas acham que têm em determinado assunto. “Só eu que faço papel de trouxa?”, “Só eu que nunca acampei?”, “Só eu que sofro nesta vida?” e “Só eu que amo frio?” são alguns exemplos das questões levantadas pela página e respondidas com muito bom humor. “Sim, só você. ‘Diferentona’. A rainha do gelo. O coração frio. Frozen. Toma aqui seu certificado de amante do gelo”, arrematou a postagem do dia 3 de janeiro.

Reprodução

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“Diferentona” é uma página de humor, embora esteja definida como “Artes e espetáculos” no Facebook. Sua ilustração principal mostra uma moça com ares de musa barroca, revirando os olhos, como tipicamente se faz quando se acha algo bizarro. A origem exata da brincadeira é desconhecida, mas é possível que tudo tenha começado no Twitter, quando a usuária @nicesthing, em novembro do ano passado, irritada com os comentários do tipo “Será que eu sou a única pessoa que…”, respondeu: “Sim. Só tu. Just you. Pioneira. Inovadora. Vanguardista. 7 bilhão de pessoa [sic] no mundo mas VC.” O tuíte se espalhou e a brincadeira se expandiu, gerando a tal página do Face (que, enquanto este texto era escrito tinha mais de 700 mil curtidas), um perfil no Twitter (com 24,4 mil seguidores) e um no Snapchat, entre outras cópias, como as páginas “Diferentona Indelicada” e “Esquisitona”, para não citar as homônimas que seguem o mesmo padrão de posts.

“A questão dos virais é sempre complicada, é muito difícil apontar os elementos que o constituem. Justamente por isso, tantas empresas falham tentando produzi-los”, explicou a jornalista e mestre em Letras Taiane Volcan, de 27 anos. “Os virais são influenciados por um alinhamento de fatores, como momento histórico, padrões consideravelmente estáveis no ambiente da rede social e uma sacada que não pode ser nem simples demais, nem complexa demais, pois precisa se popularizar entre os diferentes grupos que constituem a rede.”

Aproveitando a onda

Embora faça tanto sucesso, tem quem esteja achando que “Diferentona” não durará muito mais, pois as postagens já estariam soando enjoativas. Taiane, que atualmente é doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Católica de Pelotas (UCPel) e desenvolve pesquisas sobre discurso, humor e política em ambientes virtuais, considera que o fenômeno está seguindo um curso natural. “Um meme é um viral e sua tendência é não ter vida muito longa mesmo. Ele representa os quinze minutos de fama nas redes sociais. Todos atingem o seu ápice e depois tendem a enfraquecer. A página “Diferentona” está fadada a ter uma queda de popularidade atingindo o seu ponto de estabilidade, que é quando uma página produz conteúdos interessantes, as pessoas acompanham e alguns [desses conteúdos], mais eventualmente, se destacam”, pontuou, ao citar que o mesmo processo ocorreu com outras páginas famosas, como “Gina Indelicada”, “Dilma Bolada” e “Diva Depressão”, entre outras.

Grande parte do público que curte e segue “Diferentona” não apenas aprecia as postagens, como interage, criando memes parecidos e ganhando, também, alguma notoriedade. Foi o que ocorreu quando a página brincou com a questão “Só eu não tenho celulite?” Nos comentários, a usuária Fernanda Aquino fez a pergunta inversa, foi criativa na resposta e recebeu 104 curtidas. “Só eu que tenho celulite? Sim, só você. Miss queijo suíço. Xodó da Coca-Cola. Cratera lunar. A peneira humana. Brocada. Casa de cupim.” A atriz global Camila Pitanga confessou, em sua conta no Twitter, que até já entendeu como funciona a brincadeira, mas considera não ter a mesma habilidade. Os internautas não perdoaram. “Chegou a diferentona. Que não sabe fazer meme. A deslocada. Adultona”, disse um. “Só você, Camila. A pitanga estragada da pitangueira. A falsiane do Twitter. O palitinho premiado. A sensação do momento”, exagerou outro.

Além de reles mortais e celebridades, empresas e instituições públicas também estão fazendo questão de aproveitar a deixa – a exemplo da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), da prefeitura de Olinda, do governo do Rio Grande do Sul, do canal de TV paga Multishow, da marca de automóveis Jeep e da rede de varejo Ricardo Eletro. “No caso da ‘Diferentona’, existe uma estabilidade do uso de humor como forma de comunicação nas redes sociais que se apropria da capacidade do humor de comunicar e de tornar o que é comunicado mais palatável, pois permite brincar com essa questão da diferença de opinião e suaviza o ambiente de disputa que vinha pesando cada vez mais na rede, especialmente em função de discursos políticos e religiosos, bastante controversos e populares”, comentou Taiane. “Considero o ‘Diferentona’ um viral extremamente importante, especialmente em um contexto de disputas discursivas tão ríspidas como tenho observado nas redes sociais. É um sopro de humor na nuvem de discursos de ódio da rede que surge para nos lembrar que não somos os únicos que pensamos diferente, que sempre irão existir opiniões opostas e que, muitas vezes, é possível se divertir com isso sem necessariamente fazer um novo inimigo.”

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Taís Brem é jornalista

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