Segunda-feira, 25 de Março de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1029
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O jornalismo do futuro já chegou

Por Daniela Bertocchi, de Braga (Portugal) em 10/05/2005 na edição 328

O jornalismo do futuro começa no passado 11 de Setembro. Em Nós, os Media (Editorial Presença , Lisboa, 2005; 15 euros), o jornalista norte-americano Dan Gillmor afirma que essa ruptura temporal entre passado e futuro jornalístico deflagrou-se precisamente no momento em que pessoas comuns apropriaram-se de diversas ferramentas comunicacionais disponíveis no ciberespaço e, por meio delas, começaram a produzir as suas próprias notícias.

Em outras palavras: a transformação do jornalismo de hoje para o jornalismo do amanhã deu-se quando, em um momento único e crítico da História, a tecnologia estava para qualquer um vestir o figurino do jornalista e relatar o acontecimento. Entramos, naquele momento, na era em que ‘nós somos os media‘.

O ex-jornalista do San Jose Mercury News, em Silicon Valley, e hoje blogueiro do famoso Grassroots Journalism , Gillmor acredita que o desdobramento do fenômeno do 11 de Setembro está sendo o diálogo concreto entre público, jornalistas e fontes – algo impensável em épocas anteriores. Começamos a experimentar, cada vez mais, a notícia como ‘seminário’. No lugar da lição de escola unidirecional, uma troca de idéias.

Nesta nova era do jornalismo – de um jornalismo mais cívico e democrático – o autor espera que os comunicadores dos big media comecem a se mexer para acrescentar o conhecimento dos leitores em suas matérias. Os leitores, por sua vez, aprendam a se integrar no processo jornalístico. As fontes se apropriem de novas formas para fazerem chegar as suas mensagens. Como resultado, e em tom de previsão, ele nos fala que a linha divisória entre produtores e consumidores tenderá a atenuar-se. E a rede de comunicações irá se tornar um meio para dar voz a qualquer pessoa.

Códigos e linguagens

Neste novo mundo em que qualquer pessoa pode ser jornalista, qual o papel do jornalista?

O jornalismo cívico em ascensão segue o princípio fundamental de que os leitores sabem mais que os jornalistas e intervêm imediatamente quando percebem algo de errado. E isso, diz Gillmor, ao contrário de ser uma ameaça, é uma oportunidade para os jornalistas. Estes deveriam aprender a pedir ao público comentários, histórias pessoais, fotos, vídeos; afinal, os leitores irão publicar isso na rede de qualquer forma.

O jornalista profissional continuará a existir e a fazer todo o sentido neste novo mundo do jornalismo cívico. A sua capacidade de dar forma a grandes debates de idéias, e de as analisar, será tão importante como a capacidade para recolher os fatos e os relatar. A diferença é que o público tem muito a contribuir e agora tem como fazê-lo. E isso, para Gillmor, pode significar um jornalismo melhor.

Este cidadão-repórter que Gillmor desenha, longe de ser o indivíduo que apenas sugere pautas ao repórter, telefona para a emissora rádio ou envia cartas ao editor do jornal, será cada vez mais aquele cidadão ativo que organiza grupos, ultrapassa as fontes tradicionais de informação, interfere no processo jornalístico. E isso existe: são os muitos blogueiros que fazem do seu ‘jornalismo pessoal’ um ato de participação cívica, por exemplo, ou os mais de 26 mil cidadãos-jornalistas coreanos que escrevem para o OhMyNews , site informativo que Gillmor chama de a ‘antevisão do futuro’.

Os críticos do jornalista o atacam dizendo que seu olhar otimista (e tecnologicamente determinista) o cega para alguns questionamentos relevantes. Alguns deles:

** nem jornalistas nem público estão preparados (se é que um dia estarão) para o chamado jornalismo livre;

** jornalistas têm os seus constrangimentos (empresariais, de formação etc.) e, por outro lado, nem todos os cidadãos nasceram para relatar (ou ajudar a relatar) acontecimentos – a maioria ainda é consumidora passiva de informações e desconhece totalmente os procedimentos jornalísticos relativos à ética e deontologia;

** nem todos, além disso, têm boa fé para essa missão – sem contar que o ciberespaço serve à uma pequena elite conhecedora dos códigos e linguagens digitais para iniciados, e a democracia exige um jornalismo que atinja um público mais amplo.

Obra aberta

O titulo original We the Media: Grassroots Journalism by the People, for the People começou a ser escrito em março do ano passado, publicamente, no blog do autor, aberto a apontamentos e participações de leitores. Hoje está traduzido para o espanhol e, desde o começo deste 2005, em língua portuguesa.

Gillmor conseguiu, ao longo desse tempo, reunir pela web uma legião de defensores do jornalismo cívico, desse jornalismo de que ‘necessitamos tão desesperadamente’ e que devemos ‘defender com o mesmo vigor que defendemos todas as outras liberdades’, como ele repete obra afora.

Blogueiros, acadêmicos, jornalistas, leitores e demais interessados em discutir mídia e cidadania engrossam o coro a favor do que ele denomina de jornalismo ‘de código aberto’, ‘democrático’, ‘livre’, ‘cidadão’, ‘de publicação pessoal’ – entre outras adjetivações que talvez nos tenham escapado pelas 269 páginas de Nós, os Media.

Gillmor corre mesmo o risco de ser um daqueles autores que se torna mais lembrado e citado do que verdadeiramente lido. Isso, entretanto, parece que pouco importa a essa altura. O momento está mais para derramamento de tinta digital: seus adeptos formam comunidades em torno de interesses comuns, blogam, editam páginas wikis, acompanham os diálogos pelo RSS, compartilham arquivos e por aí afora. São desafiados pelo autor a ouvirem-se uns aos outros, dialogarem e construírem notícias num formato colaborativo, seja dentro ou fora do ciberespaço.

A despeito de inexistir em sua plenitude, e mesmo sem sabermos se vingará ou não, o fato é que o jornalismo do futuro que Dan Gillmor retrata em sua aberta e inacabada obra já tem o seu slogan, uma quase rebeldia contagiante, a reverberar pela rede afora: ‘Nós somos o meio’. Ouve-se o eco daqui.

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Jornalista e pesquisadora de mídias digitais na Universidade do Minho, Portugal; mantém o blog Intermezzo

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