Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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O jornalismo e a blogosfera

Por Muniz Sodré em 07/10/2008 na edição 506

Diante dos dados que apontam para a existência de 133 milhões de blogs no mundo (cerca de dois milhões no Brasil), começa a popularizar-se na imprensa a expressão blogosfera, com algumas questões muito pertinentes para a profissão jornalística. Na capa de seu último número, por exemplo, a revista Imprensa apregoa que ‘blogueiro não é jornalista’. É saudável, entretanto, reexaminar sempre a atualidade conceitual de palavras-chave da modernidade, a exemplo de ‘jornalista’. Vale lembrar que é relativamente recente (do século 19 para cá) o emprego desta palavra para designar o profissional da informação pública. Na perspectiva dos pensadores liberais, seria conspícua a missão do jornalista na promoção da cultura e da liberdade de expressão.

É outra, porém, a realidade da informação pública sob o influxo dos tempos do deus-mercado. Esvai-se a idéia clássica de imprensa como ‘agente promotor de cultura’. Claro, o jornal pode ser sempre categorizado como ‘objeto cultural’, ao lado de tantos outros (softwares, canções, filmes, livros etc.) que se multiplicam na contemporânea ‘sociedade da informação’ e que concorrem para a mitologia de um novo tipo de democracia, definida pelo acesso de todos a esses objetos culturais, sob o signo da proteção e da difusão patrimoniais. Mas é difícil conceber objetos de cultura sem sujeitos de cultura.

Ou seja, já que não se abre mão da velha idéia de cultura, é forçoso examinar se ainda é válido associar esta palavra a ‘objeto’, sem ao mesmo tempo pesquisar sobre a validade de uma cultura sem sujeitos, que funcionaria apenas ou primordialmente no nível da produção, circulação e consumo de serviços e bens simbólicos, com as mesmas regras da economia mercantil.

O reconhecimento do outro

Para uma determinada linhagem crítica, a cultura em seu pleno sentido tem uma outra economia, uma vez que os seus bens circulariam num ‘tecido intersticial que separa e religa os sujeitos’. Cultura seria, assim, a capacidade que tem o sujeito de inscrever no tempo a sua relação imaginária com todos os outros sujeitos por meio de operações simbólicas. Isto implica uma temporalidade intersubjetiva em que se reconhece o lugar do outro – entenda-se: a constituição da imagem do sujeito no olhar do outro, pleno de autoridade – dentro de uma dimensão comum.

Esse reconhecimento passa, evidentemente, pelo discurso e implica diálogo, que não deve ser confundido com parolagem intransitiva, ou seja, como, com a mera produção, distribuição e recepção de palavras e mensagens em transitividade existencial, isto mesmo que o filósofo Martin Heidegger chama de falatório (das Geredete). Na acepção forte e simbólica do termo, o diálogo social não prescinde da cultura concebida como processo de reconhecimento de si mesmo pela presença do outro. Isto significa um substrato formativo ou ‘educativo’ (‘educação’ em sentido lato, como deslocamento ou viagem do sujeito na direção do outro) que se deixava ver, por exemplo, nas origens do espaço público europeu.

O sujeito da cultura seria, assim, um sujeito da memória (de sua inserção específica no mundo) e da promessa, no sentido de sua fidelidade ou sua vinculação a um mundo em comum. Seria, portanto, um sujeito político. Trata-se de uma perspectiva que concebe o presente de uma cultura como o vir-a-ser humano na criação de um sentido continuamente refeito entre o passado e o futuro, e não como mero ‘presenteísmo’ implicado na hipertrofia consumista do instante, corporificada na metástase da informação, que tende a abolir a memória, o vínculo intersubjetivo e, logo, o reconhecimento do outro, agora dependente apenas dos critérios técnicos de visibilidade.

A ‘semiurgia’ da mídia

Nessa hipertrofia, somem as operações simbólicas constitutivas daquilo que se vinha chamando de cultura. O sumiço começa quando, na expressão ‘sociedade da informação’, se entende a palavra ‘informação’ apenas como ‘dado’ (o conhecimento fracionado e espacializado), portanto, como uma unidade a ser quantificada e estocada, o que poderia resultar no sinônimo ‘a sociedade dos dados’.

Depois, sob o regime de uma temporalidade totalmente identificada com o capital, o principal objetivo da mídia é apropriar-se dessa matéria rentável que é o tempo do outro. Desaparece o papel de agente de cultura, que a imprensa implicitamente sempre pretendeu desempenhar na articulação simbólica entre os sujeitos. Vive-se uma nova conjuntura em que se descreve a imprensa como ‘coisa do passado, uma charrete puxada por cavalo numa via expressa de oito pistas’, como algo a ser superado por um novo tipo de mídia (a cibernética) que não é primordialmente informativa e, sim, conectiva, ou seja, dispositivos em rede voltados para a conexão generalizada dos sujeitos. Neste novo sistema, a velha imprensa se redefine como parte do que se tem chamado de ‘indústria de conteúdos’, portanto, uma produção desterritorializada de programas para as redes telemáticas.

Mas a maior parte desta argumentação crítica depende da manutenção do conceito (holístico) de cultura, isto é, de uma totalidade simbólica que liga imaginariamente os sujeitos e lhes permite reconhecer o lugar do outro. Abandonando-se este conceito em favor da perspectiva de uma semiose social, sem totalizações, mas indicativa de uma produtividade infinita de palavras, imagens e dados, pode-se chegar a um outro tipo de conclusão sobre as transformações da imprensa pelas redes telemáticas, em que provavelmente não haverá lugar para a nostalgia humanista do sentido universal, nem para as sínteses culturais. A ‘semiurgia’ pura e simples da mídia tem como horizonte exclusivo o mercado.

Livre expressão e cultura

O problema é que, ao se trocar o holos cultural pela produtividade semiúrgica, abala-se de algum modo o pacto de confiança que subjaz a toda e qualquer organização social e que ajuda a manter a idéia de ‘sociedade’. Paul Valéry – para quem ‘a sociedade é um funcionamento fiduciário’ – mostra que ‘o sermão, o crédito, o contrato, a assinatura, as relações que elas supõem’ respondem pela coesão da estrutura social: ‘Acreditar na palavra humana, falada ou escrita, é tão indispensável aos humanos quanto se fiar na firmeza do solo’ (‘La politique de l´esprit, notre souverain bien’, Varieté, La Pléiade, 1968).

Valéry não menciona a imprensa, mas esta se acha diretamente implicada nessa reflexão, quando se considera que a interação jornalística com o público tem sido retroalimentada desde o século 19 por uma fiabilidade coletiva que, mesmo cambiante, funciona como condição de possibilidade para que os jornalistas cumpram a sua função histórica. Ora, diante da crise contemporânea da confiança em instituições clássicas da modernidade (política, credos, grandes explicações do mundo etc.), cabe mesmo indagar sobre se ainda seriam válidos os pressupostos que apoiavam a clássica associação feita pela consciência liberal entre imprensa, soberania da livre expressão e promoção de cultura. Esta associação é que tem lastreado a identidade do jornalista.

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Jornalista, escritor e professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro

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