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Terça-feira, 21 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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O motor da diferença

Por The Economist em 10/08/2010 na edição 602

Trata-se de uma questão que vem mexendo com os críticos culturais há décadas: se temos mais conhecimento do que nunca, estaríamos ficando menos inteligentes devido à crescente quantidade de tecnologia à nossa disposição? A leitura de debates históricos e a escuta da atenção que lhes foi prestada por uma audiência pensativa certamente nos faz pensar. Falando, na década de 1820, sobre o Motor da Diferença mecânico que ele criara para computar funções polinômicas, Charles Babbage, o pai do computador programável, declarou, na Casa dos Comuns:

‘Por duas vezes, me perguntaram (membros do Parlamento): `Diga-me, sr. Babbage, se forem introduzidos os números errados na máquina, as respostas que sairão serão corretas?´ Não consigo apreender o tipo de confusão mental que provoca esse tipo de pergunta.’

A eloquência incisiva – tanto em latim e grego, quanto em sua língua materna – era bastante comum na sociedade britânica do século 19, que pudera desfrutar de doze anos de escola. Ficamos imaginando como os criadores do Facebook, do Twitter ou do YouTube poderiam responder a semelhantes perguntas que lhes fossem lançadas durante palestras.

O atual debate sobre inteligência, acirrado pelo recente e excelente livro The Shallows, de Nicholas Carr, pergunta o que a internet estaria fazendo com nosso cérebro. Assim como ocorrera com os livros The Age of American Unreason, de Susan Jacoby, e How Dumb Are You?, de Adam Winer, no início desta década, Carr mexe com a sensação de desespero, entre intelectuais norte-americanos, no que se refere à exposição de uma educação ruim no país, quando comparada com outras nações.

Proporção de jovens que não leem nada duplicou

Nas disciplinas de leitura, matemática e ciência, os jovens norte-americanos de 15 anos penam abaixo da metade na classificação entre os 30 países mais ricos da Organização para o Desenvolvimento Econômico e de Cooperação (OECD). Outros países de língua inglesa, como o Canadá, a Nova Zelândia, a Austrália e mesmo a Grã-Bretanha classificam-se entre os 25 primeiros. A Coreia do Sul e o Japão estão entre os dez primeiros.

Fatos tão indiscutíveis representam uma óbvia preocupação para os educadores e pais através dos Estados Unidos. Mas os motivos para o degradante fracasso da educação norte-americana – principalmente no ensino médio – foram bem compreendidos e as medidas corretivas são amplamente aceitas. Sua implementação, entretanto, continua politicamente inviável, como sempre.

Mas não se trata apenas da tristeza de ver a juventude de uma nação tão mal servida. Com esse debate sobre a crescente falta de inteligência nos Estados Unidos, vem surgindo uma nostalgia não mencionada de um tempo em que o aprendizado pelos livros era o mais nobre dos objetivos. Não por acaso, os críticos mais veementes são de meia idade ou mais velhos.

Entre outras coisas, Susan Jacoby responsabiliza uma crescente onda de anti-intelectualismo. Ela destaca que a leitura de livros, jornais e revistas caiu consideravelmente. A proporção de jovens de 17 anos que não leem absolutamente nada (a menos que a escola o exija), mais do que duplicou entre 1984 e 2004 – período em que se registrou o crescimento dos computadores pessoais, da internet e dos vídeo games. Ela lamenta a forma pela qual a mídia eletrônica, com sua exigência pelo espetáculo e pela rapidez, restringiu o leque de nossas atenções. Ela ainda ressalta que a duração das tiradas relevantes por candidatos presidenciais caiu de 48 segundos, em 1968, para menos de oito segundos em 2000.

A ubiquidade da internet

Mas as coisas raramente são como parecem. É o caso dos e-books, por exemplo, que praticamente inexistiam dez anos atrás e explodiram em popularidade depois que a Amazon apresentou o Kindle, poucos anos atrás e uma horda de concorrentes a seguiu com versões análogas. Para muitos leitores, a capacidade de interagir com e-books digitalmente – fazendo buscas automáticas, inserindo marcas de leitura e anotações digitais, aumentando a fonte nas notas de letra miúda – tornou os livros de capa dura e brochuras obsoletos. Tanto é assim que atualmente os e-books vendem mais que os livros de capa dura. Talvez não estejamos assistindo a um declínio na leitura de livros, e sim, a um renascimento. A ironia é que, se os computadores tivessem sido inventados antes dos livros, estaríamos agora nos lastimando sobre a perda da multimídia, dos computadores multi-tarefas e das habilidades com jogos, enquanto nossos filhos consumiriam seu tempo com os narizes mergulhados em calhamaços de um único tema.

Em relação à pergunta específica que faz Nicholas Carr sobre o que a internet está fazendo com nosso cérebro, a resposta simples é que nos faz pensar e comportar de forma diferente. Quanto a isso, não há dúvida. Mas isso não significa que, no processo, fiquemos menos inteligentes. O que faz as pessoas inteligentes é sua capacidade de aprender e raciocinar – resumindo, adaptar-se e prosperar em seu meio ambiente. Essa capacidade fundamental não mudou durante milhares de anos e dificilmente isso ocorreria devido ao surgimento de alguma nova tecnologia, seja ela a televisão, os fones de ouvido ou a internet.

A adaptação a um ambiente em vias de mudança é outra questão. Qualquer novo meio introduzido depois da invenção da imprensa molda nossas mentes de maneiras diferentes. Seria alarmante se assim não fosse. Hoje em dia, confrontados com a ubiquidade da internet, precisamos de uma porção de novas habilidades para navegar pelo ambiente pleno de informações em que vivemos. Dizendo de outra forma, cada novo conjunto de habilidades que aprendemos, assim como a memória que criamos, vai se construindo em nossas capacidades mentais existentes sem as alterar de maneira fundamental.

A base da inteligência

Mas devemos reconhecer que os críticos têm razão. Sua preocupação é de que o uso prolongado da internet – com sua exuberância de atraentes dicas informativas – esteja produzindo uma geração de micro-cérebros, na medida em que os usuários pulam de uma bobagem para outra, raramente focando assunto algum de forma a compreendê-lo exaustivamente. De acordo com esta visão do cérebro, a falta de ‘pensamentos profundos’ estaria na origem da incapacidade da atual geração de examinar os problemas em sua extensão. O Google, com seu acesso instantâneo a factoides de dúbia veracidade, é destacado como uma das principais fontes para esse mal-estar.

O problema, diz Nicholas Carr, é que a maioria dos que temos acesso à web passa pelo menos umas duas horas por dia online – e, às vezes, muito mais. Durante esse tempo, temos a tendência a repetir as mesmas ações continuamente. À medida em que fazemos esses movimentos, a rede devolve uma corrente contínua de informações a nossos córtices visuais, auditivos e somático-sensoriais. ‘A cacofonia de estímulos da rede provoca curto-circuitos em nossos pensamentos, conscientes e inconscientes, impedindo as pessoas de raciocinarem com profundidade ou criatividade.’ Existem provas, diz o escritor, de que a internet está prejudicando a consolidação da memória a longo prazo das pessoas, o que ele destaca como a verdadeira base da inteligência.

Loucos e alarmistas

Por mais plausível que pareça, essa explicação é consideravelmente distinta do que o demonstrado pela experiência. Grande parte dos usuários de computador passa bem menos tempo conectado do que imaginam os críticos sociais. Segundo a empresa de pesquisas Nielsen, os norte-americanos com acesso à internet dedicam 26 horas por mês a atividades online – ou seja, 5% do tempo em que estão acordados. E ainda assim, metade daquele tempo é ocupado por atividades proativas e mesmo criativas – trabalho social pela internet, jogos, correio eletrônico, visitas a portais e mensagens instantâneas. Beliscar a desdenhada fruta encontrada no Google e em outros mecanismos de busca representa minúsculos 3,5% do tempo médio que o usuário emprega online.

O que parece ter sido esquecido, no corre-corre para decidir se a internet nos faz menos inteligentes, é que a arquitetura básica do cérebro é criada por programas genéticos e interações bioquímicas que fazem seu trabalho muito antes que uma criança comece a brincar com um teclado. ‘Simplesmente não existe qualquer prova experimental que demonstre que viver com novas tecnologias altere, fundamentalmente, a organização do cérebro de tal forma que isso afete a nossa capacidade de concentração’, dizem os psicólogos Christopher Chabris e Daniel Simons, respectivamente das faculdades Union College, de Nova York, e Universidade de Illinois.

O perigo, se é que existe, é que o acesso requisitado, fácil, a montes de informação da internet, nos leve a concluir, erradamente, que aquilo que baixamos seja conhecimento genuíno válido para trabalhar. A internet é apenas uma outra fonte de referência, embora funcione com esteroides que chupam o conteúdo tão rapidamente que muito pouco pode ser concretamente revisado. Só loucos se aventurariam a entrar em tal floresta apenas com seus olhos bem abertos e seu cérebro a pleno vapor. Felizmente, existem menos loucos por aí do que pensam os alarmistas.

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