Quinta-feira, 19 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

E-NOTíCIAS > TOTAL INFORMATION AWARENESS

O Pentágono estica seu olho

Por Elaine Tavares em 15/03/2005 na edição 320

Não é de hoje que a ficção se adianta ao futuro como se fosse uma antena a nos mostrar cenas do que virá. Por isso, é sempre bom ficar atento ao que diz a arte. Um exemplo disso é o filme Minority Report, estrelado por Tom Cruise. Nele, Tom é um policial do departamento de pré-crime, setor da polícia que conta com três videntes – eles próprios prisioneiros – que conseguem visualizar crimes que ainda vão acontecer. Com base nessas visões, os policiais investigam e acabam prendendo o suspeito antes que ele cometa o crime. A discussão ética que permeia o filme é: até onde essa presumida previsão pode ser certa? Não haverá, para o suposto criminoso, qualquer chance de que ele mude seu destino até minutos antes do crime? Como é possível alguém ser preso como assassino se não consumou o crime? E por aí se desenrola a trama, muito bem urdida.

Pois é, mas quem pensa que isso é só ficção se engana. O departamento pré-crime já está a todo o vapor. E funciona no único lugar do mundo onde isso seria possível: os Estados Unidos. Lá, está em andamento o projeto TIA (Total Information Awareness), que significa ‘conhecimento total da informação’. Este será o mais gigantesco sistema de controle social jamais imaginado, chegando a superar o ficcional Big Brother, de Orwell. O TIA é um sistema de inteligência global, planetário, que vigia o território dos Estados Unidos, mas também todo o resto do mundo.

As unidades do TIA

Segundo o jornalista Thierry Meyssan, da Reseau Voltaire [iniciativa francesa pela liberdade de expressão, em espanhol no endereço www.redvoltaire.net/], o TIA será o ápice de um processo de controle das vidas humanas no planeta que já está em andamento. Ele lembra que tudo isso começou com a invenção da internet, desenvolvida primeiramente (e sempre) com fins bélicos pela Arpa, agência do Pentágono. O sistema hoje está composto por oito unidades e é dirigido pelo almirante reformado John Poindexter, figura carimbada na Casa Branca, envolvido no escândalo Irangate [ou Irã-Contras, esquema pelo qual CIA e militares, um deles servindo na Casa Branca, vendiam armas via Israel ao Irã, apesar da proibição do Congresso americano, e o lucro era repassado aos contra-revolucionários da Nicarágua, para derrubar o governo sandinista]. Acabou condenado por cinco delitos, mas o julgamento foi anulado em 1990 por tecnicalidades jurídicas. Conselheiro de Segurança Nacional de Ronald Reagan, foi ele quem introduziu as novas tecnologias na Casa Branca.

Mesmo com todas as acusações de traficante de armas e cocaína, o almirante é hoje vice-presidente da sociedade Syntek Technologies, braço do Pentágono, a mesma que construiu o programa Genoa, capaz de espionar qualquer base de dados informatizados no mundo. Ele também dirige o IAO (Information Awareness Office), organismo oficial de investigação que controla as oito unidades de espionagem legalizadas dos EUA. Com esse sistema, os Estados Unidos podem observar os comportamentos individuais de qualquer pessoa no mundo, detectar o que chamam de ‘atitudes suspeitas’ e os perigosos ‘terroristas’. Ou seja, é o departamento de pré-crime, prospectado pela ficção do filme estrelado por Tom Cruise.

No texto ‘Conocimiento total de la informacion’, distribuído pela Rede Voltaire, o jornalista Thierry Meyssan mostra cada pedaço do sistema e aponta os responsáveis técnicos por eles. O TIA está formado pelas seguintes unidades:

1. Projeto Genysis – Torna compatíveis entre si as informações reunidas em todas as bases de dados públicas do mundo.

2. Projeto Genoa II – Desenvolve programa de exploração clandestina nas bases de dados informatizadas.

3. Projeto TIDES – Traduz automaticamente para o inglês todas as línguas do mundo conectadas na internet.

4. EELD – Obtenção de indícios e cruzamento de dados: sistema que interpreta as informações captadas pela rede para ver quem está ligado a quem.

5. EARS – Sistema cuja missão é transformar em texto escrito as comunicações orais interceptadas.

6. Biovigilância – Sistema que coleta informações que podem indicar a dispersão de agentes biológicos.

7. HID – Identificação humana a distância – Sistema de padrões biométricos, com uso de câmeras e softwares que permitem a identificação de ‘suspeitos’ na multidão.

8. WAE – Sistema de simulação de ambientes assimétricos.

Vidinha real

Tudo isso forma o que o governo estadunidense chama de conhecimento total da informação. Com isso, tem o controle de tudo o que se faz e se diz no planeta. Um poder avassalador sobre a vida dos seres humanos que acaba de vez com a idéia de vida privada. Assim, não se surpreenda quem fizer um panfleto engraçado para divertir os colegas de aula: pode ter a casa invadida por um comando do exército estadunidense fortemente armado. Todos agora sabem que estão sendo vigiados, e, qualquer ato considerado ‘suspeito’ pelos estadunidenses põe a polícia do mundo em alerta nas suas sujas guerras preventivas.

Se alguém lá naquele país sonhar que alguém em Biafra disse a palavra ‘terrorismo’ é motivo para uma intervenção de prevenção. Uma guerra.

Assim, sugiro que vejam o filme do Tom Cruise para ter alguma noção do pavor. É claro que, na ficção, tudo acaba bem. Mas, na nossa vidinha real, pode algo acabar bem? A pergunta que fica é: quem controla quem controla? Um paradoxo ou um desafio? Cabe aos povos do mundo saber e decidir!

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Jornalista no Observatório Latino-Americano (OLA/UFSC)

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