Sábado, 23 de Fevereiro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1025
Menu

E-NOTíCIAS >

O telefonema de Steve Jobs

Por Bill Fisher em 29/08/2011 na edição 657

Steve Jobs não deve se lembrar de um telefonema que fez para um universitário americano de 20 anos. Mas eu me lembro. Apaixonado por computador, meu segundo objeto favorito na faculdade era uma guitarra branca Les Paul Classic. Liguei o instrumento a um enorme amplificador e a um gravador de fita cassete que me permitia catalogar meus acordes, esperando que toda a humanidade os admirasse num futuro (que ainda não chegou), quando o telefone tocou. Lembrando que, há 20 anos, o telefone não era um celular, mas um aparelho fixo, com fio, quase extinto hoje.

– “Alô?”, atendi, bravo.

– “Posso falar com o Bill, por favor?”, disse a voz do outro lado.

– “Sou eu”, respondi perguntando quem era do outro lado. Foi então que ouvi as frases mais inesquecíveis da minha vida:

– “Bill, aqui é o Steve Jobs. Soube que você está pensando em comprar um de nossos computadores NeXT.” (Empresa de computadores que Jobs fundou quando saiu da Apple, em 1988, antes de voltar para recriar a empresa).

Depois daquela ligação, o NeXT Cube se tornou meu brinquedo favorito na faculdade. Era um computador excepcionalmente bom. Prova disso é que Tim Berners-Lee usou um NeXT para desenvolver o primeiro navegador de internet do mundo.

Efeito multiplicador

É difícil acreditar nessa história hoje. Por que Steve Jobs pegaria o telefone para ligar para um estudante de ciência da computação da Brown University para vender um computador de US$3 mil? Acontece que eu tive a sorte de estar no lugar certo, na hora certa: meu pai trabalhava na fornecedora de peças da NeXT e comentou a meu respeito com Jobs. Ele sabia que eu existia. E eu estava estudando ciência da computação num momento crucial para a NeXT ter programadores comprando suas máquinas. Foi muita sorte!

Mas o principal dessa história não é mostrar que eu sou um cara maneiro que “conhece” o Steve Jobs (muito embora eu não me importe se você achar isso). O principal é pontuar algumas coisas sobre Steve Jobs, o empreendedor em quem sempre me inspirei.

Ele falhou. O fracasso é uma commodity subestimada, especialmente numa realidade tão competitiva. Acredito que a maioria dos empreendedores abre um novo negócio achando que não vai errar e fica obcecada tentando evitar o fracasso. Mas, quando fracassam (o que não é raro), os empreendedores bons de fato, como Steve Jobs, aceitam a perda, aprendem com ela e tocam a vida. Steve Jobs já disse que a vergonha de ter sido tirado da Apple o fez pensar em se mudar do Vale do Silício; em vez disso, ficou e abriu a NeXT e a Pixar. Falhar na Apple foi a melhor coisa que podia ter acontecido a ele – ironicamente, foi isso que o levou depois a salvar a Apple, criando uma das empresas mais valiosas do mundo.

Ele deu atenção aos detalhes. Quando Jobs me ligou, não usou a fama para me impressionar e me convencer a comprar o computador. Queria mesmo falar sobre os detalhes que tornavam o NeXT melhor do que os outros computadores. São detalhes como esses que separam as empresas “que quebram um galho” das excepcionais.

O fato de ele ter ligado para um universitário mostra muito. De certa forma, não deveria ser uma surpresa, já que ele é de pôr a mão na massa mesmo, e essa característica o transformou em assunto mundial. Além disso, ele é um ótimo vendedor. Não se sentiu bom demais para pegar o telefone e convencer um comprador em potencial, alguém que poderia se tornar referência na área. Para o empreendedor em começo de carreira (e Jobs estava recomeçando), envolver-se pessoalmente com um cliente interessado é uma experiência inestimável.

Ele ganhou a venda no dia e um cliente para a vida toda. Falando de forma realista, ligar para um universitário não faria muita diferença para o futuro da NeXT. A maioria dos líderes e gestores teria dispensado essa estratégia. Só que Steve Jobs reconheceu o potencial de falar com uma só pessoa para poder ampliar a voz do consumidor de um grupo pequeno, porém influente, para impulsionar o lançamento do produto. Eu não era só um garoto na faculdade, eu era um amplificador para ele, iria passar adiante a novidade para todo o departamento de ciência da computação.

Presença da Apple

Como sempre, Steve Jobs estava à frente de sua época. Hoje, a habilidade de líderes corporativos de falar com as pessoas e criar consumidores “fanáticos” é algo sem precedentes. Vivemos num mundo reto, todo cliente está a apenas um clique de nós.

Apesar de os computadores NeXT não terem sido um grande sucesso de vendas, sei que os leais seguidores que Jobs criou à época ainda são fãs dele hoje. Estou digitando este artigo num MacBook Air, tentando não me distrair com as mensagens do iPhone e, quando acabar aqui, vou ler um livro no iPad.

***

[Bill Fisher é CEO e co-fundador da escola de inglês Englishtown]

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem