Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

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O poder feminino na imprensa

Por Ligia Martins de Almeida em 17/06/2008 na edição 490

A mulher consumidora, a modelo e a mulher na política foram tema da mídia na semana que passou. Três imagens que ajudam a compor um painel da mulher de hoje, ou, mais especificamente, da mulher de classe média hoje.

Em todas as matérias, uma constante: o poder das mulheres. E, na atitude da imprensa, uma novidade: mulheres vistas por um ângulo que não apenas o da futilidade.

Na matéria sobre a mulher consumidora, por exemplo, as características femininas na hora da compra são mostradas com o respeito devido às consumidoras que já são o segmento mais visado pelo comércio:

‘O poder aquisitivo da mulher cresceu tremendamente nos últimos anos. Os salários médios, embora ainda menores que os dos homens, também aumentaram consideravelmente. Contribui para isso, sem dúvida, o fato de terem galgado posições de destaque em empresas. Dados recentes mostram que elas já detêm a maioria dos cartões de créditos, 51%… A mulher decide 80% de todas as compras’ (O Estado de S.Paulo, 15/6/2008).

Moda e política

Na matéria inspirada na Semana de Moda de São Paulo, nada de fofocas, detalhes sobre namoricos ou chiliques das modelos. Aqui, se trata da importância econômica das modelos: ‘As tops agregam valor ao evento’, diz Silvio Passarelli, professor de Gestão de Luxo, da FAAP, de São Paulo: ‘Como elas são grandes nomes internacionais, o grande público sabe o poder que essas mulheres têm de escolher o trabalho. O fato de elas participarem da SPFW significa que o evento é realmente bom’. Segundo o jornal, há reflexos positivos também nos negócios: ‘Estima-se que cada vez que uma empresa usa a modelo brasileira Gisele Bündchen em alguma campanha, suas ações na Bolsa têm uma valorização média de 15%’ (O Estado de S. Paulo, 15/6/2008).

A imagem final é a da mulher política, tratada com respeito (e até com tristeza) em artigo de Eliane Cantanhêde:

‘Em 2002, as pesquisas políticas indicavam que as mulheres eram consideradas mais responsáveis, confiáveis e principalmente honestas. O céu era o limite para as candidaturas femininas e veio a de Roseana Sarney, embalada por uma bonita campanha publicitária, cabelos ao vento. Mas o vôo foi meteórico, derrubado pelo mal explicado caso Lunus. Roseana (MA) foi a primeira mulher eleita (e reeleita) para um governo de Estado, assim como Maria Luiza Fontenelle, de Fortaleza, foi para uma prefeitura da capital, e Luiza Erundina, para São Paulo. Agora, as mulheres estão em todas. Rosinha Garotinho (RJ) governou um dos principais Estados, Wilma de Faria (RN) é veterana, Ana Júlia Carepa (PA) e Yeda Crusius (RS) eram promissoras. Marta Suplicy foi prefeita de São Paulo e é candidata a voltar. Há três jovens guerreiras disputando em Porto Alegre e Heloísa Helena (AL) foi candidata à Presidência. Um avanço enorme em duas décadas. E o que acontece? O filho de Wilma de Faria está preso, Rosinha é fonte de escândalos, uma fita gravada desintegra o governo de Yeda e Ana Júlia, em outra escala, vive pisando na bola. É constrangedor. Nesse ambiente, Dilma Rousseff surge como candidata de um presidente fortíssimo, alçada pela fama de competente e enérgica. Mas também capaz de conviver com dossiês contra adversários políticos, desprezar as leis para salvar empresa falida e de ter como braço-direito Erenice Guerra, a dos fins que justificam os meios. As mulheres no poder (não todas, claro) estão destroçando a percepção popular de que podem ser mais responsáveis e confiáveis. Uma pena’ (Folha de S.Paulo, 15/6/2008).

Ainda são exceção

É realmente uma pena. Mas é bom lembrar que – embora a mídia pareça dar mais destaque aos erros das mulheres do que aos dos homens na política – o fato é que acabamos aceitando que as mulheres são diferentes e por isso mais honestas, o que não é rigorosamente verdade. A verdade é que enquanto não estiverem em igualdade numérica com os homens no poder, enquanto forem exceções nos cargos de mando, as mulheres vão continuar sendo mais visadas.

A julgar pelas matérias, as mulheres já conquistaram poder – e o respeito da mídia – como consumidoras e como incentivadoras dos negócios. Quanto ao poder na política, parece que as mulheres ainda enfrentam sérios problemas. Seria o caso de ser feito um estudo que mostrasse por que os governos liderados por mulheres estão se caracterizando por erros e mais erros. Se não é preconceito da mídia – e nada levar a crer que seja só isso –, é preciso descobrir por que tantos escândalos envolvendo mulheres. Ou elas são despreparadas – o que é difícil acreditar –, ou estão se deixando manipular por seus assessores, os experimentados homens da política. Enquanto não tivermos uma resposta, a mídia vai continuar discutindo o caso dessas políticas, exceções ainda num mundo dominado por homens. E as detentoras do poder vão ter que lembrar que não basta ser honestas. É preciso parecer honestas.

Enquanto as mulheres continuarem sendo notícia pelos erros de seus governos, não se pode acusar a mídia de ênfase exagerada no noticiário. Elas ainda são exceção e, até por isso, são mais notícia. A situação só vai mudar quando houver número igual de governadores e governadoras. Tomara que homens e mulheres no poder trabalhem com tal seriedade e honestidade que a imprensa não lembre que eles existem. E que os leitores fiquem livres, finalmente, das repetitivas matérias sobre corrupção.

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Jornalista

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