Sexta-feira, 18 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1059
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Olavo de Carvalho

02/03/2004 na edição 266

‘Quando soube que George W. Bush havia decidido invadir o Iraque, perguntei a mim mesmo: Por que o Iraque? Por que não o Paquistão, que tem bomba atômica e distribui tecnologia nuclear no mercado do terrorismo internacional? Por que não o Irã? Por que não a própria Arábia Saudita, de onde jorra dinheiro para Al Qaeda, Hamas, Hezbollah e ‘tutti quanti’?

Leitores, por e-mail, cobravam-me uma ‘tomada de posição’ sobre a guerra, mas eu não tinha nenhuma. Não costumo ter opiniões sobre assuntos em que não posso interferir e, ao contrário da quase totalidade dos articulistas deste país, não escrevo como quem espera insuflar o pânico na Casa Branca, tirar o sono do papa ou elevar a pressão arterial de Vladimir Putin. Tudo o que espero é falar a alguns leitores neste canto obscuro do universo, ajudando-os, na medida dos meus recursos, a se orientar um pouco na confusão mundial.

Por isso, nada opinei sobre a guerra, mas adverti meus leitores quanto à farsa dos Freis Bettos que já acusavam o presidente americano pela morte iminente de ‘milhões de crianças iraquianas’ (sic) e denunciei a estupidez dos inumeráveis ‘especialistas’ que auguravam a destruição das tropas americanas pela todo-poderosa Guarda Republicana de Saddam Hussein.

Nos últimos dias da guerra, porém, quando se abriram os cemitérios clandestinos nas prisões iraquianas e começou a contagem dos cadáveres, não pude deixar de perceber -e escrever- que a decisão de George W. Bush tinha sido moralmente acertada e até obrigatória: qualquer país que mate 300 mil prisioneiros políticos tem de ser invadido e subjugado imediatamente, ainda que não represente perigo nenhum para as nações vizinhas ou para a suposta ‘ordem internacional’.

As soberanias nacionais devem ser respeitadas, mas não para além do ponto em que se arrogam o direito ao genocídio. Escrevi na ocasião e repito: cada protelação da ONU custou, em média, a morte de 30 iraquianos por dia, mais de 20 mil ao longo de dois anos de blá-blá-blá pacifista, isto é, só nesse período, cinco vezes mais que o total de vítimas da guerra. Por ter estancado esse fluxo de sangue inocente, com um número reduzido de baixas de ambos os lados e com a menor taxa de vítimas civis já observada em todas as guerras do século 20, o presidente norte-americano, quaisquer que tenham sido os seus erros, merece a gratidão e o respeito de toda a humanidade consciente.

A correção moral intrínseca da ação americana é tão patente e inegável que, em todas as discussões que se seguiram na mídia internacional e brasileira, esse aspecto da questão teve de ser sistematicamente escamoteado, para concentrar o foco da atenção pública no problema de saber se Saddam Hussein tinha ou não as tais armas de destruição em massa e, portanto, se ao alegar esse motivo em particular entre inumeráveis outros George W. Bush tinha acertado ou não.

Ora, um governo que mata 300 mil de seus governados não precisa ter altos meios tecnológicos de destruição em massa, porque, com meios rudimentares, já começou a destruição em massa no seu próprio território e tem de ser detido, incontinenti, por quem quer que tenha os meios de o fazer. Os EUA tinham esses meios e fizeram a coisa certa. A ONU os tinha e não fez nada. Quem, dos dois, é o criminoso?

Não é à toa que aqueles que tentaram deter a ação americana e se vingar dela depois de vitoriosa sejam aqueles mesmos ‘pacifistas’ dos anos 60, que, pressionando as tropas americanas a sair do território vietnamita, entregaram o Vietnã do Sul e o Camboja nas mãos dos comunistas, os quais aí fizeram rapidamente 3 milhões de vítimas, três vezes mais do que o total de mortos de décadas de guerra. Nenhum americano alfabetizado ignorava que o resultado da campanha antiamericana seria esse, que a paz seria mais assassina do que a guerra. Mas as Janes Fondas e os Kerrys queriam precisamente isso.

Passadas quatro décadas, só uns poucos dentre aqueles ‘amantes da paz’ tomaram consciência do crime hediondo em que se acumpliciaram na ocasião, e esses, por confessar seu pecado, são alvos de intensas campanhas de ódio e difamação. Os outros não só varreram seu velho crime para baixo do tapete da história, mas, variando levemente de pretextos, apressam-se hoje em reincidir nele com alegria feroz, fazendo de conta que 300 mil mortos não são nada, que deter à força o genocídio iraquiano foi -para falar como o ridículo e perverso José Saramago- ‘uma atrocidade’.

Que argumentos como esse só possam prevalecer por meio da total falsificação do noticiário é coisa que não espanta. Por toda parte a mídia alardeou, por exemplo, a confissão do inspetor David Kay de que não encontrara armas de destruição em massa no Iraque -porque essas palavras criavam a má impressão de que George W. Bush havia atacado um país inocente- e escondeu do público a continuação da frase: ‘Depois descobrimos que o Iraque era muito mais perigoso do que imaginávamos.’ Olavo de Carvalho, 56, jornalista e ensaísta, é autor de, entre outros livros, o ‘O Jardim das Aflições’ (É Realizações, 2001).’



O Estado de S. Paulo

‘Inglesa que vazou pedido de grampo dos EUA fica livre’, copyright O Estado de S. Paulo, 26/02/04

‘Alegando falta de provas, a procuradoria britânica retirou ontem as acusações contra uma ex-agente que admitiu ter vazado informações secretas antes da guerra contra o Iraque, o que evita um julgamento no qual poderiam ser divulgadas mais informações comprometedoras. Katharine Gun, ex-tradutora do serviço secreto acusada em novembro de violar a lei de segredos oficiais, foi deixada em liberdade.

Em março de 2003, pouco antes da guerra, Gun passou ao semanário The Observer um documento secreto no qual os EUA pediam ajuda a Londres para espionar seis membros do Conselho de Segurança, entre eles o Chile, indecisos quanto a autorizar o ataque ao Iraque. Washington queria saber a posição dos seis antes que uma resolução sobre o uso da força fosse votada e por isso, segundo The Observer, ‘grampeou’ os telefones das missões na ONU e das casas de seus representantes.

No Iraque, pistoleiros mataram ontem o chefe de polícia de Mossul, general Hikmat Mahmud Mohamad, em mais um ataque a autoridades policiais que cooperam com os EUA. Também ontem, dois militares americanos morreram na queda de seu helicóptero no Rio Eufrates. Não se sabe se o helicóptero foi abatido ou caiu por acidente. (EFE e Reuters)’



MUDANÇAS NA BBC
Fernando Duarte

‘Conservadores pedem mudança radical na BBC’, copyright O Globo, 25/02/04

‘Um estudo publicado ontem por uma comissão que ajuda na preparação da plataforma conservadora para as próximas eleições na Grã-Bretanha prevê mudanças radicais na BBC. Encabeçada por David Elstein, ex-diretor executivo do Canal 5, a comissão propõe a extinção gradual da taxa compulsória que atualmente financia o grupo estatal de mídia, bem como sua submissão ao OFCOM, órgão regulador de mídia e telecomunicações na Grã-Bretanha. A perda da principal fonte de receita seria substituída com assinaturas e mesmo anúncios, hoje proibidos pelo estatuto da BBC.

O Relatório Elstein alega que a cobrança compulsória de dinheiro do contribuinte (o montante anual equivale a quase R$ 15 bilhões) compromete a independência da BBC, além de ser injusta com o público e outras empresas. A proposta conservadora é que, a partir de 2006, a taxa anual seja reduzida de 116 libras para 100 (cerca de R$ 500) até a sua extinção, em 2010. Segundo pesquisas, entre 65% e 81% do público britânico são contrários à cobrança. No relatório, Elstein afirma que as propostas também servirão para diminuir a influência do governo sobre o grupo de mídia.

– O novo sistema vai impedir que o governo possa punir a BBC de maneira financeira quando for alvo de reportagens investigativas – diz Elstein.’

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