Segunda-feira, 18 de Março de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1028
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Os blogs e a liberdade de comunicação

Por Leandro Gejfinbein e Tiago Casagrande em 10/05/2005 na edição 328

Uma das palavras menos compreendidas da internet atualmente é ‘blog’. De tudo já foi dito – de afirmar que blog é diarinho virtual a questionar se quem tem blog pode ser chamado de jornalista. Essas discussões freqüentemente são estéreis – porque a pergunta está errada. Há uma confusão entre conteúdo e suporte; o blog pertence à segunda categoria. Blog é sistema de publicação pessoal.

Ora, se é suporte, pode carregar o que lhe derem – seja o querido diário, literatura, humor, opinião. Ou notícias sobre a tsunami que atingiu a Indonésia. Ou denúncias contra o cerceamento da atividade jornalística no Nepal. Por ser uma ferramenta de baixo custo, qualquer um que tenha acesso à internet pode ter um blog – e usá-lo para informar e/ou opinar nas mais diversas áreas de interesse. Por isso, popularizou-se: estudantes de Londres usam para trabalhos escolares, colunistas políticos norte-americanos influem no panorama eleitoral, cidadãos árabes narram de seu ponto de vista as guerras e o terrorismo.

O lugar dos blogs

Essas características transformam o blog em veículo de crescente importância quando o assunto é comunicação. Ele subverte a ordem atual – é um canal direto entre o produtor e o receptor da informação, em que uma pessoa fala diretamente a outra pessoa interessada. Os blogs representam um poder que até hoje não tínhamos experimentado: permitir a qualquer indivíduo ser um agente produtor de informação e formador de opinião, sem intermediários, através de um suporte que é, em teoria, livre e democrático. E se o é, deve assim permanecer.

Ainda é cedo para afirmar com propriedade que lugar os blogs tomarão na forma como nos comunicamos, mas é de extrema importância que desde já possamos garantir que seu desenvolvimento não seja minado pela descaracterização daquele que é seu mais nobre atributo. Blogs não podem ser censurados ou cerceados – o que já está acontecendo. Isso foi o que motivou o lançamento do texto Pela Liberdade e Democratização da Comunicação. É uma manifestação pública que tem o objetivo de estimular a discussão sobre o tema; ignorá-lo significa dar chance a que se perca um canal de comunicação genuinamente livre e democrático. O texto está reproduzido a seguir.

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Pela liberdade e democratização da comunicação

Quando uma pessoa vai presa por manter um blog, isso lhe incomoda?

Não há quem não conheça a palavra ‘liberdade’. Mas, sozinha, ela quer dizer muito pouco; liberdade precisa de um objeto para o qual ser livre. Ela surge de algo que cerca, cerceia. Conquistamos nossas liberdades à medida em que conhecemos seus contrapontos; e é preciso reinventá-las todos os dias. Se cessarmos essa procura, ficamos acomodados, e assim a liberdade termina. Redescobrimos sua necessidade dia após dia – afinal, não sabemos de tudo. Se soubéssemos, talvez muita coisa fosse diferente. Saber é importante e todos deveríamos ter o direito de saber das coisas, não?

Pois temos. Isto se chama liberdade de informação – e garante que um indivíduo receba informação de outro. Isso é suficiente? Nem sempre, porque para que a informação chegue é preciso termos assegurada nossa liberdade de expressão – o direito que um indivíduo tem de manifestar-se livremente, desde que não atente à moral e integridade física de outro indivíduo. Logo, as duas andam de mãos dadas, e assoviando. Elas reafirmam que nós, pessoas ‘livres’, temos o direito de receber e de produzir informação. É o que basta? Não. Não adianta nada eu expressar minha opinião no banheiro ou numa sala vazia; da mesma maneira que é inútil ficar com o ouvido alerta na varanda de casa e a informação não chegar.

Coisas a dizer

Porque há alguma coisa aí no meio: de fato, é O MEIO. A mídia; o que está entre a informação criada e a informação recebida. Entre cada um de nós. Numa conversa pelo celular, a mídia é o aparelho de telefone. Quando assistimos ao telejornal da noite, a mídia é a TV – e, antes dela, a imprensa. Que está entre o que acontece de fato e o que é notícia. Assim, se a imprensa não fosse livre, nada adiantaria sermos livres para produzir e receber informações. Para nossa sorte, na maioria dos países conquistou-se também essa liberdade: a de imprensa.

Tendo o produtor, o meio e o receptor livres diante do fluxo da informação, então podemos conquistar a Liberdade de Comunicação.

Hoje, eu e você somos livres para informar e sermos informados, num fluxo que trafega por meios livres. Mas não vivemos num mundo livre. Liberdade por si só não é suficiente, porque ela não pressupõe naturalmente outro conceito importante: democracia. A mídia tradicional (rádios, TVs, jornais, portais web) está longe de ser proporcional à quantidade de informação produzida, tanto quanto ao número de indivíduos que as recebem. As pontas são infinitamente maiores que os meios existentes. Há um estrangulamento. E quando isso acontece, alguma coisa fica de fora do fluxo.

É isso que a mídia tradicional faz: filtrar. Selecionar informações para distribuí-las ao maior número de pessoas possível – donde o termo ‘meios de comunicação de massa’. Poucas informações produzidas são veiculadas, poucos produtores têm poder para comunicar o que querem, e poucas opções temos de receber o que de fato queremos. E se não recebemos, a informação existe? De fato, sim; na prática, não. É o sujeito que grita na sala vazia. Sujeito que talvez tenha coisas relevantes a dizer. Todos nós temos coisas a dizer, sim. Por que não teríamos?

A íntegra do manifesto está no site Verbeat

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Formado em Comunicação Social pela PUCRS, analista de negócios do mercado de internet e blogueiro; formado em Comunicação Social pela PUC-RS, diretor de arte em agência de propaganda e blogueiro

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