Quarta-feira, 21 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1051
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Os equívocos do debate 

Por Alberto Dines em 07/07/2009 na edição 545

A questão do diploma está colocada de forma equivocada. Os adversários do canudo talvez até o aceitassem se, porventura, pudessem controlar a sua emissão.


O objetivo do recurso interposto pelo Sindicato das Empresas de Rádio e Televisão do Estado de São Paulo (Sertesp), apoiado pelo Ministério Público Federal e aceito com tanto agrado pelo ministro Gilmar Mendes, do STF, não era o da extinção da profissão de jornalista sob o ponto de vista trabalhista. Esta é uma batalha perdida há bastante tempo, a partir do momento em que o profissional de imprensa deixou de ser pessoa física (PF), cidadão, para se tornar pessoa jurídica (PJ) e, como tal, cerceado da sua individualidade. Hoje raros são os jornalistas contratados pela CLT. Este regime acabou há pelo menos uma década, sem que os prejudicados tenham esboçado qualquer resistência.


Também não é sério o pretexto de universalizar o acesso aos meios de comunicação social. Este acesso está mais restrito do que nunca. A homogeneização das redações brasileiras é escandalosa, a diversidade é mínima, apenas cosmética. O jornalismo brasileiro neste momento é mais monolítico, ortodoxo e conceitualmente mais trancado do que o Pravda nos tempos do stalinismo.


Na verdade, o real objetivo da ‘indústria do jornalismo’ e suas entidades corporativas era liquidar a consciência profissional. A ética e a deontologia fazem parte desta consciência, mas nela se incluem outros elementos da esfera moral.


Escolhas cruciais


Jornalismo é compromisso com o interesse público, portanto missão. Isto foi proclamado de forma inequívoca na primeira linha do primeiro texto jornalístico que circulou no Brasil a partir de junho de 1808, jamais revogado apesar do embargo imposto ao seu autor, Hipólito da Costa.


Sem consciência profissional é impossível derrubar um ícone do feudalismo como José Sarney. Sua rede de amizades e a massa de favores que distribuiu ao longo das últimas décadas em todos os poderes e em todos os níveis só poderão ser neutralizadas por jornalistas profissionalmente conscientes. Para desencavar um novo escândalo envolvendo nosso legislador-mor não bastam as técnicas investigativas. Antes e acima delas, indispensável o compromisso com a construção de uma sociedade honrada.


A consciência profissional começa a ser fomentada na sala de aula das escolas de jornalismo. Por piores que sejam, por mais despreparados que sejam os professores, por mais desqualificada que seja a maioria dos grupos econômicos que tomaram conta do ensino superior (aliás, próximos dos grupos de mídia), um sopro de decência consegue atingir o alunado.


Esta decência, dignidade ou simples brio de alguma maneira irá colar-se nas almas de alguns portadores do diploma de jornalista. Em que proporção é difícil precisar. Importa saber que estes privilegiados se encontrarão nas redações em situações-limite em que fatalmente enfrentarão escolhas cruciais e talvez forçados a experimentar o gosto agridoce da dignidade profissional.


Os ‘flanelinhas’, guardadores de automóveis, do Distrito Federal, acabam de ser agraciados com a especificidade para a sua ocupação, são profissionais (Folha, 6/7, pág. C-5). Em nome de uma falaciosa liberdade de expressão, os jornalistas podem ter fé, mas perderam a sua profissão.

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