Quinta-feira, 21 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
Menu

E-NOTíCIAS > INCLUSÃO DIGITAL

Os laptops de Lula

Por Rafael Tristão Pepino em 04/07/2005 na edição 336

O presidente Lula ficou empolgado com laptops de 100 dólares para serem distribuídos a alunos da rede pública. ‘É um projeto revolucionário, que vem complementar toda a orientação que o senhor vem nos dando’, disse o ministro da Educação, Tarso Genro, dirigindo-se ao presidente. Qual será a tal orientação que vem sendo dada? O que ficará revolucionado após o projeto?

O projeto foi apresentado pelo diretor do Media Lab, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), Nicholas Negroponte. Professores do MIT são mercadorias de alto valor no mercado norte-americano de diplomas e títulos e no mercado de produção de conhecimento científico; suas palavras costumam ser como vozes de oráculos. Alguns jornalistas chamam tais professores ‘sumidades’. Do MIT é também Noam Chomsky, mas ele está ainda lá porque tem estabilidade. Ele não faz parte do padrão MIT; aliás, ele não faz parte da ‘America’. Noam Chomsky não existe, exceto para os que se atrevem a viajar para Porto Alegre uma vez por ano. E chegamos a Porto Alegre. Tarso Genro foi prefeito de lá e agora é o ministro prestes a aceitar um projeto revolucionário.

Nicholas Negroponte é americano, filho de gregos. Mas a tradição de Negroponte não é a de Platão ou Aristóteles, é a tradição de Bill Gates. ‘I don´t like to read. I am dyslexic and I find it hard’, ou seja, ‘Eu não gosto de ler. Eu sou disléxico e acho isso (ler) difícil’. Mesmo assim, Negroponte é professor do MIT e seu laboratório é financiado por mais de 105 empresas, incluindo as maiores corporações da ‘America’ e as grandes empresas da indústria do entretenimento. Provavelmente o irmão de Negroponte lê muito mais do que ele, já que o diretor do serviço norte-americano de inteligência não pode ter o prazer de não ler.

Nicholas quer tirar nossas crianças da ‘exclusão digital’. A tecnologia avançou muito desde o tempo em que Marcuse denunciou o pensamento unidimensional. A informação hoje flui instantaneamente e se desatualiza antes mesmo de ser conhecida. O passado deixa de existir como fumaça no ar e o futuro já é conhecido. Nicholas prevê que em breve assistiremos à fusão entre o mundo interativo, o mundo do entretenimento e o mundo da informação. Separadas do mundo tecnológico, nossas crianças não têm futuro como cidadãos produtivos: o mercado não pode mais tolerar a cisão homem-máquina. O mercado quer a fusão, o mercado deseja o homem-cibernético.

O valor da filosofia

As crianças vão poder levar os computadores para casa. O entretenimento está garantido e o acesso irrestrito ao universo de informações da internet, aberto. O pai desempregado pode descobrir a razão de seu fracasso, ao perceber sua desinformação. E sonhar com o futuro promissor de seu filho cibernético. Máquinas cibernéticas são máquinas que aprendem, que se ajustam às condições do meio. Crianças cibernéticas poderão então se ajustar ao padrão do século 21 e ficar preparadas para o mercado de trabalho cada vez mais competitivo.

O que é ‘ser digital’ para Nicholas? ‘It has to do with where you find your information and entertainment. It has to do with the computer presence in your life. Being digital is about lifestyle and attitude and usage of this computer presence moment to moment’, isto é, ‘Tem a ver com onde você acha sua informação e entretenimento. Tem a ver com a presença do computador em sua vida. Ser digital é algo relacionado a estilo de vida e atitude e uso do computador momento a momento’. O uso continuado da tecnologia, o sonho da fusão total com a máquina, este é o sonho verbalizado por Negroponte. As crianças vão levar os laptops para casa.

Algum tempo atrás comprei livros da coleção Os Pensadores por 10 reais cada. São livros com capa dura e papel de boa qualidade. Quanto custariam estes livros se não fossem vendidos com fins lucrativos e se não houvesse a necessidade de propaganda? E se a capa fosse normal e o papel, de jornal? Quem sabe 2 reais cada. Com 100 dólares faríamos uns 100 livros, o que é demais. Podemos nos limitar a alguns, quem sabe Platão, Aristóteles, Santo Agostinho, Descartes, Leibnitz, Galileu, Hegel…

Mas para que serve a filosofia hoje em dia? Segundo Adorno, o valor da filosofia está completamente ligado a sua inutilidade para o status quo. Será que alguém no PT concordaria?

******

Doutor em Ciências (Unicamp)

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem