Sábado, 19 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

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Os ursos não vivem no Brasil

Por Sergio da Motta e Albuquerque em 27/09/2011 na edição 661

Aconteceu no estado americano de Idaho, última morada do escritor Ernest Hemingway, no extremo noroeste dos Estados Unidos. E o New York Times publicou (13/9/2011):

“Barry Ramsey, dono de uma pequena manufatura entre duas montanhas do estado, lembra do dia em que a conexão caiu por muitas horas. Equipes de trabalho tiveram que usar veículos especiais para neve (snowmobiles) para descobrir o problema.”

“Eles disseram que ursos estiveram a esfregar seus corpos contra as torres”, disse o pequeno empresário… O estado tem a menor velocidade de download em banda larga nos Estados Unidos: 318 kbps (kilobits) por segundo, graças à sua geografia montanhosa. A conexão depende de linhas de contato visíveis umas às outras, através de torres colocadas nas montanhas. Sinais de satélite, graças ao relevo montanhoso, são cheios de reverberação e impressionantemente instáveis. Qualquer nevoeiro ou nevasca pode interromper o sinal. O Idaho e o Mississipi são os dois estados mais pobres dos Estados Unidos.

Mesmo assim, a velocidade das conexões banda larga lá é maior que a maior parte das brasileiras. Nossa média de velocidade de download, segundo a Speedtests, empresa que produz estatísticas mundiais de velocidade de conexão, é de 306 kbps. Estamos em 58º lugar no mundo, atrás de Omã, Colômbia, México, Bielorrússia, Macedônia, e Panamá. No nosso país, a maioria dos consumidores de internet banda larga usa entre 512 e 2 MB de velocidade de download. Exatos 48,4% segundo o Ibope/Net Ratings, publicou a Teleco, consultoria especializada em telecomunicações. Os dados são de março de 2011.

Internet cara e lenta

No Brasil não temos ursos. Não vivem no Brasil. Mas não faltam obstáculos para perturbar a conexão do internauta brasileiro. O Plano Nacional de Banda Larga poderia ser uma boa oportunidade para reverter a nossa situação. Mas o governo “delegou a execução do mesmo à iniciativa privada sem regulamentação”, apontou Marcello Miranda, coordenador do Instituto Telecom e representante da sociedade civil no Conselho Consultivo da Anatel ao Correio do Brasil (25/9/2011), e “acabou por estabelecer duas internets, a dos pobres até 1 MB, e a dos ricos, que podem pagar por mais”. Miranda foi meio exagerado em sua argumentação e apagou a classe média e as velocidades intermediárias do mapa da navegação em banda larga no Brasil. Cerca de 20% dos usuários estão na faixa dos 2 MB ou mais de velocidade. Mas ele não deixa de ter razão, a respeito de nosso Plano Nacional de Banda Larga.

O governo anulou suas vantagens, ao entregar a execução do plano às operadoras. Acabou tendo que ceder e limitar o volume de downloads a 300 MB, o que é ridículo para a internet de hoje em dia. As operadoras impuseram o limite, e o governo acabou cedendo. E ainda tentou passar uma ideia de que estava a elevar o padrão da internet no Brasil. Não é verdade. Depois que ultrapassarem esta cota de downloads, os usuários terão suas velocidades reduzidas e acabarão retornando a velocidades correspondentes à era anterior à revolução digital.

No caso da banda larga brasileira, até o momento tudo indica que governo e iniciativa privada se juntaram e o cidadão acabou com o pior dos dois mundos: internet cara e lenta e promessas irrisórias de 4 MB até 2014. Daqui até o ano da Copa do Mundo de futebol no Brasil, a velocidade média mundial nos países desenvolvidos já terá aumentado infinitamente além da previsão muito modesta do Ministério das Comunicações.

***

[Sergio da Motta e Albuquerque é mestre em Planejamento urbano, consultor e tradutor]

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