Segunda-feira, 18 de Março de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1028
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Plínio Bortolotti

26/06/2007 na edição 439

‘Muitos leitores guardam a expectativa de receber o jornal de manhã com uma boa notícia em lugar dos costumeiros escândalos, operações policiais e violência. Na terça-feira (19/6) O Povo ofereceu este lenitivo: ‘Aluna da UFC é a melhor do Brasil’, provocando a reação bem-humorada de um leitor: ‘Taí, finalmente uma boa notícia na primeira página. Aqui em casa a gente brinca, antes de ver o jornal, sobre qual será a má notícia do dia’. Informava-se que uma estudante da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará (UFC) fora a ‘única’ a ter média 90 no Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade), ‘a melhor nota no Enade em todo o país’.

No dia seguinte, recebo correspondência perguntando se ela fora a melhor entre todos os alunos dos cursos avaliados pelo Enade ou entre os estudantes de Direito, pois o leitor havia lido ‘com espanto’, uma classificação diferente em um portal de notícias. Outro foi mais assertivo em sua correspondência: ‘O jornal deveria apurar com mais critério as notícias para evitar constrangimento’, dizendo que dois estudantes de outros cursos haviam obtido média maior do que a estudante da UFC. O leitor ainda castigou: ‘O cearense precisa fugir da megalomania de achar que tudo aqui é melhor e maior’.

Consultei a editora-executiva do Núcleo de Cotidiano, Tânia Alves, que admitiu o erro, a ele induzida, segundo disse, por informações da Coordenadoria de Comunicação Social da UFC. De fato, o boletim ‘UFC Fax’ (18/6), distribuído em uma lista pela internet, inclusive à imprensa, traz a seguinte informação: ‘Melhor nota nacional é de aluna da UFC’. Falei com Ítalo Gurgel, coordenador de Comunicação Social da universidade, e ele assumiu ter divulgado a informação sem confirmá-la diretamente com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), responsável por aplicar as provas, e lamentou o ocorrido, afirmando não ter havido má-fé por parte da UFC. Ítalo disse ainda que na próxima edição do informativo será feita a correção.

Quanto ao O Povo, na edição de quinta-feira, em matéria apensa à manchete da página 21, o jornal corrigiu o erro: ‘Cearense foi maior nota só [sic] em Direito’, sem assumir a responsabilidade pelo equívoco, jogando-o nas costas da universidade: ‘O Povo publicou, na edição da última terça-feira, a partir de informações divulgadas pela Assessoria de Comunicação da UFC, que a nota da universitária seria a melhor do país’. O texto explicava ainda que, segundo informações do Ministério da Educação, não havia como estabelecer critérios para comparar a nota de estudantes de diferentes cursos. Ao ombudsman, a editora Tânia Alves disse que a informação – ‘mesmo sendo a UFC uma fonte confiável’ – não deveria ter sido publicada sem que se houvesse feito a verificação com o Inep. Reconhecimento que, a meu ver, deveria constar do texto de correção, pois, como costuma dizer a ombudsman emérita do O Povo, professora Adísia Sá: ‘Erro no jornal é erro do jornal’. Isto é, não importa quem seja a fonte ou a origem da informação, o jornal precisa fazer a sua apuração independente antes de publicá-la.

A propósito, não resta dúvida que o jornal publicou uma ótima notícia, e essas observações não diminuem em absolutamente nada o mérito da estudante da UFC Érica Siqueira Furtado, de 22 anos, a maior nota entre os estudantes de Direito do país. É um caso do qual os cearenses podem se orgulhar sem o temor de parecerem megalômanos. (O portal G1 publicou a tabela com os vinte estudantes que tiveram as melhores notas no Enade, um de cada curso avaliado).

Dos procedimentos

Recebi longa carta de Déborah Lima, presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Ceará (Sindjorce), a respeito do meu artigo de domingo passado, ‘Dos procedimentos’, no qual comentava a reação do Diário do Nordeste à minha coluna de 10/6, ‘Condutas impróprias’, criticando o jornal por publicar matéria possibilitando a identificação de uma testemunha, menor de idade, que denunciava vários crimes à polícia, assassinada dias depois. Em sua resposta, sem citar o ombudsman do O Povo, o Diário do Nordeste publicou dois depoimentos em matéria na edição de 13/6 – de Hélio Leitão (presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, seção Ceará) e de Déborah Lima –, ambos avalizando o seu procedimento no caso, com a presidente do Sindjorce declarando textualmente: ‘Se o promotor entendeu, na ocasião da publicação, que a menina estaria correndo riscos, tomasse ele alguma providência imediata. Se a Imprensa teve acesso à informação, cumpriu seu papel’.

Na carta a mim dirigida, Déborah escreve: ‘Esclarecemos que, em nenhum momento, a nossa declaração ‘avalizou’ a conduta do Diário do Nordeste, até porque consideramos que os jornalistas do DN poderiam ter sido mais cuidadosos com a publicação da entrevista de Ana Bruna [de Queiroz Braga], evitando, inclusive, o fornecimento de detalhes que levassem a identificação da garota. Esta, inclusive, também é a opinião de alguns colegas do próprio DN’. Essas palavras são contraditórias com as divulgadas pelo Diário do Nordeste, portanto, disse-lhe, em resposta, que ela recorresse ao jornal que havia publicado o seu depoimento, caso houvesse ficado incompleto, obscuro ou distorcido. A presidente do Sindjorce insistiu em ver publicado o seu esclarecimento nesta coluna. Aí está. Fiz mais: preparei um apanhado geral do caso, desde a primeira matéria do Diário do Nordeste, em 10 de abril, até a troca de correspondência que mantive com Déborah Lima. Os leitores poderão ver aqui e tirar suas próprias conclusões.’

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