Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

E-NOTíCIAS > MUNDO CÃO NO IRAQUE

Pornografia e sadismo em fotos da guerra

Por Carlos Castilho em 04/10/2005 na edição 349

As polêmicas fotografias das torturas na prisão de Abu Ghraib, no Iraque, parecem coisa de colégio de freira perto do material publicado originalmente no site NowThatsFuckedUp e que hoje circulam pela web.

As fotos mostram soldados americanos sorridentes posando ao lado de corpos queimados de iraquianos; ou closes, com requintes de sadismo, de cadáveres mutilados, num nível tão chocante que nenhum jornal ou revista ousou publicar o material.

Tão impressionantes quanto as fotos são as legendas propostas por quem capturou a cena, provavelmente soldados americanos, já que o uso de câmeras digitais e filmadoras é um equipamento quase tão comum quanto os fuzis e metralhadoras.

A foto de um cadáver queimado tem a legenda ‘Cooked Iraqi’ (iraquiano assado). Outra, onde aparece um crânio esfacelado, tem a inscrição ‘Bad day, dude’ (Dia ruim, cara). Um grupo de soldados é visto mexendo no corpo mutilado de uma mulher iraquiana morta que perdeu a perna numa explosão de mina, e embaixo da foto aparece a legenda sádica : ‘Nice puss, bad foot’ (Bela vagina, pé ruim).

‘A realidade como ela é’

O Pentágono resolveu investigar o site numa decisão idêntica à tomada em fevereiro passado, quando o mesmo NowThatsFuckedUp meteu-se numa polêmica com parentes de militares por causa da publicação fotos de mulheres-soldado nuas ou fazendo sexo com colegas em barracas militares no Iraque.

Na época houve reclamações de namorados e maridos, o que levou o comando militar a pedir a interrupção da publicação de fotos pornográficas protagonizadas por soldados no Iraque. Mas logo em seguida, o site passou a dar aos soldados acesso livre ao material de pornografia amadora em troca de fotos sobre a guerra.

A desculpa era que os soldados precisavam provar que estavam no front de guerra através de fotografias para ter o direito de não pagar para navegar pelos quase trinta fóruns com material enviado por amadores..

Mais de 200 fotos da guerra, a maioria com mortos, foram enviadas e publicadas no fórum nº 23 no NowThatsFuckedUp. O site está hospedado num servidor da Holanda. Seu dono é Chris Wilson, residente na Florida, que alega candidamente não ver problema algum na publicação das fotos de iraquianos mortos porque ‘isto faz parte da guerra’ e que ‘é um direito do público conhecer a realidade como ela é’.

Até o final de setembro, o NowThatsFuckedUp (tradução aproximada: ‘Agora que está f…’) tinha cerca de 140 mil clientes registrados – 30 mil dos quais são militares da ativa no Iraque –, meio milhão de mensagens nos seus vários fóruns e uma receita estimada em 3 mil dólares mensais pagos por assinantes.

Histeria coletiva

Na quinta-feira (29/9), o Pentágono anunciou que as investigações seriam paralisadas por falta de evidências de que as fotos tivessem sido enviadas por soldados. A alegação do comando militar americano não levou em conta o fato de um soldado de nome David Burke ter admitido a Mark Glaser, da Online Journalism Review, que mandou fotos do Iraque para o site.

Nos primeiros dias de outubro, o site estava semiparalisado e com uma nota explicando que a navegação era precária por conta da atualização de programas no servidor. Aparentemente foi um recuo estratégico de Chris Wilson depois que jornais como o The Washington Post e The New York Times deram matérias sobre o caso, baseado-se em blogs como o italiano Ohiblog e Am I Patriotic?, nos quais é possível ver parte de um fórum com opiniões pró e contra as fotos, e no jornal East Bay Express

A polêmica desatada pela participação da imprensa e dos blogs na divulgação da sórdida troca de pornografia pelos horrores da guerra levou os grupos islâmicos nos Estados Unidos a exigir inutilmente punições dos responsáveis.

O problema é que o clima de histeria coletiva impulsionado pelo governo Bush depois dos atentados de 11 de setembro de 2001 acabou criando na opinião pública americana uma espécie de imunidade contra denúncias de arbitrariedades por tropas no Iraque.

O megainvestidor George Soros chegou a afirmar, num texto publicado em maio de 2004, no auge do escândalo Abu Ghraib que os ‘americanos passaram de vítimas a promotores’ da violência política. A constatação de Soros torna-se mais perturbadora agora com a nova série de fotografias ainda mais chocantes.

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Editor do blog Código Aberto, deste OI

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